3. BÖLÜM
4.2. Metot
Afirma-se que a “pessoa física” do empregado é uma Pessoa Humana e, consequentemente, que todas as relações que estabelece com outras pessoas, sejam de que natureza forem, familiares, políticas, econômicas etc. só podem ser lógica e verdadeiramente caracterizadas como relações interpessoais e, jamais, relação entre coisas ou relações entre pessoas e coisas.460
Assim também as relações jurídicas, ao menos induvidosamente no campo das obrigações, configuram plenamente o conceito do direito como uma proporção de homem para homem (proportio hominis ad hominem).
Com efeito, o direito é uma ordem social e não uma ordem natural.
As normas de que se compõe não se dirigem à regulação dos fatos da natureza, mas sim à regulação das relações sociais ou relações entre seres pessoais, únicos seres capazes de conduta, a qual constitui justamente o objeto dessas normas.461
Mais precisamente ainda, na medida em que a ordem jurídica é uma ordem social,
“ela somente regula, de uma maneira positiva, a conduta de um indivíduo enquanto
esta se refere – imediata e mediatamente – a um outro indivíduo. É a conduta de um indivíduo em face de um, vários ou todos os outros indivíduos, a conduta recíproca
dos indivíduos, que constitui o objeto desta regulamentação.”462
A relação de emprego, enquanto relação jurídica ou relação da ordem social regulada por normas jurídicas, só pode ser, portanto, relação entre pessoas; não relação entre
459 A partir desse ponto, as pessoas em direito não serão designadas de “pessoa física”, no caso do ser humano, nem de “pessoa jurídica”, no caso de outro ser que não o humano. Em vez de “pessoa física”, Pessoa Humana e, em vez de “pessoa jurídica”, Pessoa Coletiva. Alerta-se, por essa substituição, para o conceito jurídico de Pessoa
como conceito que não exclui a realidade ontológica dos seres aos quais o Direito confere personalidade.
460 Como diz PONTES DE MIRANDA, diversamente das relações físicas, químicas, biológicas, sociológicas, matemáticas, a “relação jurídica é entre pessoas, isto é, entre entidades capazes de ter direitos, deveres,
pretensões, obrigações, ações e exceções... é relação inter-humana, a que a regra jurídica, incidindo sobre os
fatos, torna jurídica.” MIRANDA, Pontes de. Tratado de Direito Privado; parte geral, p. 117.
461 Como diz KELSEN, o direito, sendo uma “ordem normativa da conduta humana, ou seja, um sistema de normas que regulam o comportamento humano”, é uma ordem social, pois ordem “que regula a conduta humana na medida em que ela está em relação com outras pessoas.” KELSEN, Hans. Teoria Pura do Direito, p. 21 e 48,
respectivamente.
coisas, que estas não têm capacidade de conduta, ou entre pessoas e coisas.463 Certo, pois, que a relação de emprego é relação entre a pessoa do empregado e a pessoa da empresa.
No entanto, ao menos no campo do Direito do Trabalho, o óbvio da relação de emprego interpessoal não passa de uma aparência ou de uma formalidade.
É que, embora a Dogmática Jurídica, apoiada em claríssimo texto legal – art. 3º da Consolidação das Leis do Trabalho -, afirme e exija a condição pessoal do empregado na relação de emprego, abstrai dessa condição o atributo essencial da igualdade e liberdade
negociais pelo qual se poderia afirmar que a “pessoa física” do empregado, na relação com a
empresa, é uma verdadeira pessoa.
É incontroverso que o empregado, segundo o direito vigente, não pode ser senão uma "pessoa física", chegando a ser até do comando literal da legislação consolidada: "Art. 3º
- Considera-se empregado toda pessoa física que prestar serviços de natureza não eventual a empregador, sob a dependência deste e mediante salário."
A inquietação a propósito dessa definição legal inicia-se com a indagação sobre o conceito de "pessoa física".
Empregado é, em direito, "pessoa física", mas, em direito, o que vem a ser precisamente "pessoa física"? Uma Pessoa Humana, real, concreta, ou um símile abstrato de Pessoa Humana, algo desencarnado ou desespiritualizado, assim diverso da Pessoa Humana?
Resolve-se a inquietação, sem maiores desdobramentos ou resistência, se se adota um conceito de pessoa em direito e, consequentemente, de “pessoa física", descomprometido com o conceito de pessoa que, de fato, é o conceito geralmente adotado na literatura jurídica, segundo exposto crítico de BARBOSA.464
Ou seja: o empregado, em direito, é "pessoa física", realidade técnico-jurídica diversa e separada da realidade humana.
Assim sendo, perfeitamente compreensível e aceitável que, em direito, seja tratado como coisa ou algo parecido, a que não cabe reivindicar a dignidade devida a todos os seres humanos. Nenhum problema, pois, nessa linha de idéias, que seja submetido a uma relação de
463 Encarecendo a definição da relação jurídica como relação inter-humana que, a cada momento, o jurista tem de invocar como “peça indispensável em toda a sistemática”, diz PONTES DE MIRANDA que seria falsear se se afirmasse que “a relação jurídica possa ser entre pessoa e coisa”. MIRANDA, Pontes de. Tratado de Direito
Privado; parte geral, p. 119. Mais à frente, insiste: “Todas as teorias que admitem relação da pessoa com a coisa cometem o erro de negar a natureza social das relações jurídicas: relações com coisas não seriam sociais. Por outro lado, fazem tábua rasa do que se sabe sobre a origem do direito, como processo de coexistência dos
homens.” MIRANDA, Pontes de. Tratado de Direito Privado; parte geral, p. 128.
464 BARBOSA, Arnaldo Afonso. A Pessoa em Direito: uma abordagem crítico-construtiva referenciada no
subordinação ou dependência originada de um suposto contrato, cuja celebração não contou com o empenho de qualquer igualdade e liberdade negociais.
Entretanto, surge o impasse se se adota um conceito de "pessoa física" comprometido com o conceito de pessoa e de Pessoa Humana, ser igualmente consciente e livre a todos os da sua espécie, que não pode ser submetido simples e amplamente à consciência e vontade de seus iguais, do empregador, pois, sob pena de ferimento injurídico de sua dignidade.
Adota-se aqui esta última concepção: o empregado é uma Pessoa Humana inteira, sem qualquer acréscimo ou exclusão, a que o ordenamento jurídico atribui a personalidade jurídica, sendo que, ao atribuí-la, não suprime a sua natureza pessoal. Em outros termos, a personalidade jurídica é um plus que garante e acresce, engrandecendo a personalidade; não um minus que lhe reduz ou empobrece a personalidade.
Insta, pois, perquirir o conceito de Pessoa Humana, focando aqueles atributos que lhe compõem a estrutura e que dizem respeito mais diretamente ao problema em questão, para verificar até que ponto tais atributos compatibilizam-se com o tratamento subordinativo que lhe reserva o ordenamento jurídico na relação com a empresa.
A indagação é idêntica a que fez MATA-MACHADO com o propósito de justificar racionalmente a tese da redutibilidade dos direitos individuais e sociais como Direitos do Homem. Mas...
“que Homem, perguntar-se-á: o indivíduo da concepção liberal-racionalista que
inspirou as construções jurídicas de quase todas as modernas democracias ocidentais... o homem socializado da concepção estatal-marxista, caminho para o homem livre e consciente da era que se suceda às desalineações, as quais, todavia, tanto vêm tardando? Ou a pessoa humana racional, livre, e aberta para o contacto com o Absoluto, fora do espaço e além do tempo, acima, pois, da sociedade e desembaraçada dos liames que a vinculariam à História, concepção que, radicada na milenar sabedoria dos povos, recebeu do Cristianismo uma elucidação e um impulso
que longe ainda se acham de haver produzido todos os seus efeitos?”465
MATA-MACHADO apela, então, para obter a mais exata conceituação da natureza do ser humano, de sua situação na sociedade e de sua qualidade de sujeito do direito, à doutrina baseada na já antiga e mesmo clássica distinção entre indivíduo e pessoa que
“pertence ao patrimônio intelectual da humanidade”.466
465 MATA-MACHADO, Edgar de Godoi da. Contribuição ao personalismo jurídico, p. 134-135.
466 MATA-MACHADO, Edgar de Godoi da. Contribuição ao personalismo jurídico, p. 136. A doutrina de
MATA-MACHADO, segundo o próprio autor, se sustenta na forma da concepção do personalismo tomista, por sua vez exposto por MARITAIN. ” MATA-MACHADO, Edgar de Godoi da. Contribuição ao Personalismo Jurídico, p. 136.
Essa doutrina, tal como assimilada e expandida juridicamente por MATA- MACHADO, servirá também aqui de modelo para a melhor compreensão do empregado como homem e, enquanto tal, pessoa em direito e sujeito da relação de emprego.
A individualidade e a personalidade são dois aspectos metafísicos ou pólos entre os quais atua o homem; o primeiro, concernente à matéria e, o segundo, ao espírito. Não há algo separado da individualidade que se chama personalidade e vice-versa; o homem é “o mesmo ser todo inteiro que, num sentido, é indivíduo e, em sentido diverso, é pessoa”, ou
seja, constitui uma substância única, “a um tempo carnal e espiritual”.467
Assim esclarece MATA-MACHADO, inspirado no hilomorfismo aristotélico, esses dois princípios consubstanciais do homem:
“a forma ou alma do homem é aquilo que faz com que ele seja homem e não outra
coisa, mas estando ela unida substancialmente à matéria com a qual se torna uma só e única realidade.”468
Pelo co-princípio substancial da matéria, o homem se apresenta no plano da existência como um ser indiviso (in-divíduo), distinto de tudo o que existe, mas, enquanto espírito, é universal. Com efeito, no plano da existência, “fora do nosso espírito só existem
realidades individuais”, enquanto que “nós só pensamos sob a forma universal. O homem é
um universal no espírito”.469 Segundo MARITAIN,
“enquanto indivíduo, cada um de nós é fragmento de uma espécie, é parte do
universo, ponto singular do imenso tecido de forças e de influências cósmicas,
étnicas, históricas, a cujas leis se submete...”, mas “cada um de nós é também uma
pessoa e enquanto pessoa não está sujeito à influência dos astros, subsiste, por força da própria subsistência da alma espiritual, e está é, em cada um de nós, princípio de unidade criadora, de independência e de liberdade.”470
Como entra o homem, um todo individual e um todo pessoal, na sociedade que é, também, um todo composto de todos? Esse é o ponto essencial:
“se a Pessoa, por si mesma, aspira a fazer parte da sociedade, ou a ser membro da
sociedade, isso não quer dizer que aspire a ser, na sociedade, como uma parte e a ser
467 MATA-MACHADO, Edgar de Godoi da. Contribuição ao personalismo jurídico, p. 149 e 150. 468
MATA-MACHADO, Edgar de Godoi da. Contribuição ao personalismo jurídico, p. 150.
469 MATA-MACHADO, Edgar de Godoi da. Contribuição ao personalismo jurídico, p. 150. 470 Apud MATA-MACHADO, Edgar de Godoi da. Contribuição ao personalismo jurídico, p. 151.
tratada, aí, como parte; quer, ao contrário – é o desejo da pessoa, enquanto mesmo que pessoa – ser tratada, na sociedade como um todo”.471
Ou seja, “é a pessoa humana que entra em sociedade: enquanto indivíduo, nela
entra como parte; enquanto pessoa, exige que a sociedade se ponha a seu serviço, para que,
mediante ela, se lhe assegure a dignidade de todo independente”. Em outras palavras, o
homem, um todo, é parte da sociedade apenas segundo certas coisas que lhe são próprias e
não segundo “tudo o que nele há... segundo tudo o que lhe é próprio... segundo todas as
funções e todas as finalidades do seu ser.”472 Concluindo, diz MATA-MACHADO:
“O Direito terá, assim, como motivo determinante, assegurar, numa sociedade de
todos, o respeito a essa totalidade, e o seu fim há-de ser o de criar as condições dentro das quais a pessoa se possa afirmar como um todo e possa realizar suas
aspirações de todo independente e livre.”473
A afirmação da igualdade e da liberdade e da igualdade dos homens, enquanto cada um é considerado como um todo, como características fundamentais e próprias de suas consubstanciais individualidade e personalidade, é proposição que carece de ser comprovada ou demonstrada.
Com efeito, a História é farta em manifestações reiteradas da convicção desses atributos, dentre os quais se destacam as diversas declarações de direitos que, com o advento do processo constitucionalista, acabaram sendo incorporados no rol dos direitos fundamentais ou dos direitos públicos subjetivos.
Exemplo disso é a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão firmada pela Assembléia Nacional Constituinte da França, em agosto de 1789, inspirada mais proximamente nas idéias filosóficas do movimento iluminista: abre-se com o seu art. 1º
dizendo que “os homens nascem e são livres e iguais em direitos”. Alguns poucos anos antes, a cláusula primeira da Declaração de Virgínia, de junho de 1776, proclamava que “todos os
homens são por natureza igualmente livres e independentes...”
471 MATA-MACHADO, Edgar de Godoi da. Contribuição ao personalismo jurídico, p. 157. 472
MATA-MACHADO, Edgar de Godoi da. Contribuição ao personalismo jurídico, p. 157 e 158, respectivamente.
473 MATA-MACHADO, Edgar de Godoi da. Contribuição ao personalismo jurídico, p. 160. Transcrevendo
MARITAIN, afirma então que a justiça e o direito referem-se “à personalidade, e transformam em uma relação entre dois todos – o todo da pessoa individual e o todo social – o que de outra forma não seria mais do que pura subordinação da parte ao todo.” MATA-MACHADO, Edgar de Godoi da. Contribuição ao personalismo jurídico, p. 161.
Por sua vez, considerando que “o reconhecimento da dignidade inerente a todos
os membros da família humana e de seus direitos iguais e inalienáveis é o fundamento da liberdade, da justiça e da paz no mundo”, o art. I da Declaração Universal dos Direito do
Homem, de dezembro de 1948, anuncia solenemente que “todas as pessoas nascem livres e
iguais em dignidade e direitos.”
Veja-se agora o reconhecimento da condição de igualdade e liberdade das Pessoas Humanas inserido expressamente, para não aludir senão ao direito interno, na série das Constituições brasileiras.
A Carta Imperial, de 1824, rezava que “todas as pessoas nascem livres e iguais
em dignidade e direitos" (art. 179).
A primeira Constituição republicana, de 1891, pelo seu art. 72, assegurava “a
brasileiros e a estrangeiros residentes no País, a inviolabilidade dos direitos concernentes à liberdade, segurança individual e a propriedade”, dispondo o § 2º desse mesmo artigo, que
“todos são iguais perante a lei”.
A Constituição de 1934, pelo seu art.113, assegurava “a brasileiros e a
estrangeiros residentes no País a inviolabilidade dos direitos concernentes à liberdade, à subsistência, à segurança individual e à propriedade”, repetindo a de 1934, ao proclamar que
“todos são iguais perante a lei”.
Também a de 1946: “art. 141 - A Constituição assegura aos brasileiros e aos
estrangeiros residentes no País a inviolabilidade dos direitos concernentes à vida, à liberdade, a segurança individual e à propriedade, nos termos seguintes: § 1º Todos são iguais perante a lei”, texto retomado pela Constituição de 1967: “Art. 150 - A Constituição assegura aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade dos direitos concernentes à vida, à liberdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: § 1º - Todos são iguais perante a lei, sem distinção, de sexo, raça, trabalho, credo religioso e convicções políticas.”
Finalmente, diz o art. 5º e seu inciso I da Constituição em vigor, de 05 de outubro
de 1988: “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se
aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: I - homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações, nos termos desta Constituição.”
A concepção das Pessoas Humanas, consideradas todas e cada uma delas como um todo, tanto sob o aspecto de sua individualidade quanto sob o aspecto de sua personalidade, não permitem uma relação, como é a relação de emprego, em que ambas ou
uma delas – in casu, a pessoa do empregado –, sejam tratadas como parte e não como um todo.
Enfim, em que seja determinante e acima de tudo relevante, da relação, apenas certas qualidades físicas – próprias da individualidade –, como a força, a destreza, a rapidez, a aparência etc., ou apenas certas qualidades espirituais – próprias da personalidade –, como a informação, o conhecimento científico ou tecnológico, as habilidades sociais, a liderança, o status etc. Em que seja determinante e acima de tudo relevante, uma ou algumas condutas ou qualidades do empregado e não a própria pessoa do empregado.
Repulsa maior causaria a abstração, tanto no enlaçamento quanto no desenvolvimento da relação de emprego, dos atributos essenciais da igualdade e da liberdade das pessoas dos empregados como um todo, que os reduziria, na verdade, a quase nada.
Nos planos político e jurídico positivo, perfeitamente compatíveis com a exposta metafísica da pessoa, infere-se a mesma repulsa.
A igualdade e a liberdade, reconhecidas tanto no âmbito do direito interno quanto no externo a todas as pessoas, sem distinção, só podem significar, no plano dos negócios jurídicos contratuais, igualdade e liberdade não só no processo da negociação da autorregulamentação de seus mútuos interesses, mas também no processo do exercício dos direitos e na execução dos deveres de ambos os pólos da relação jurídica de emprego. Igualdade e liberdade negociais de ambas as partes contratantes do início ao fim da relação, sem discriminação, sob pena da degradação da dignidade dessas pessoas.
Assim, colocada a relação de emprego no plano da metafísica da pessoa e do direito interno e externo, e no plano da validade e da eficácia dos negócios jurídicos contratuais, o empregado, enquanto pessoa e pessoa em direito, não poderia ser inferiorizado, nem desigual nem menos livre do que a empresa, pois sofreria um déficit de dignidade incompatível com a sua natureza pessoal e com as normas de Direito Internacional e Interno, de nível constitucional mesmo, que o garantem como ser pessoal, tão livre e tão igual quanto a qualquer pessoa, inclusive a pessoa da empresa.