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Esta dissertação propôs analisar a apropriação dos meios de comunicação digitais por coletivos autônomos atuantes em São Paulo a partir da identificação das potencialidades e limitações em torno do uso das novas mídias. As mutações sofridas pela esfera pública segundo Bucci (2009) e Marcondes Filho (2008) foram relacionadas com as asserções de Lévy (1999; 2010) sobre a construção da ciberdemocracia. A internet possibilitou a diversificação de fontes de informação e acelerou o compartilhamento colaborativo de memórias, além de eliminar a distinção entre emissores e receptores. O paradigma da comunicação foi redefinido para abarcar a complexidade dos fluxos comunicacionais, que convivem e interagem com os modelos de comunicação massivos.

As lutas simbólicas intensificadas com a popularização dos ambientes digitais atestam as contradições inerentes à estrutura capitalista, determinadas historicamente por condições econômicas, sociais e políticas. A integração da Internet à ordem capitalista foi inicialmente comentada por Rüdiger (2011), que analisou as mídias digitais por meio da crítica à economia da comunicação. Após considerar a Internet situada em um processo histórico marcado por uma lógica econômica e social, o autor observou a formação de um novo campo de ação histórica que reproduz os antagonismos sociais. O entendimento da Internet como uma extensão da Indústria Cultural também foi considerado nesta pesquisa. O advento das novas tecnologias de comunicação e informação combinou-se com a consolidação do capitalismo monopolista, caracterizado pela formação de blocos concentrados de capital, reforçando o duplo papel da informação: a acumulação do capital e a reprodução ideológica do sistema (BOLAÑO, 2000). A abordagem da assimilação das tecnologias digitais pela ordem hegemônica teve a contribuição do conceito de príncipe eletrônico formulado por Ianni (2000). A hegemonia globalizada amparada no conhecimento tecnocientífico sustenta a reprodução do capitalismo na base e na superestrutura. Procurou-se deixar claro que a estrutura de poder dominante é constantemente desafiada por diversas formas de resistência.

O trabalho expôs diferentes interpretações sobre o ativismo articulado em redes digitais. A ação direta, sem mediações, que define a mídia tática foi apresentada como um aspecto marcante do uso da comunicação para fins de militância política. A suspeita de que a ação coletiva via web mantém vínculos fracos foi contraposta à constatação do

107 entrecruzamento de novos e velhos movimentos sociais interagindo em espaços físicos e virtuais que diversificam as reivindicações e confirmam a perda da exclusividade da pauta classista. Detectou-se a emergência do ciberativismo, um novo protagonismo que emerge da descentralização das redes (DI FELICE, 2008). A negação da hipótese de que a arquitetura informativa molda as mobilizações fez-se necessária para que o ciberativismo não fosse neutralizado junto com a técnica. O resgate das bases teóricas da mídia radical, levantadas por Downing (2004), cumpriu a função de estabelecer o potencial contra-hegemônico do uso das mídias. A forma horizontal de oposição, baseada na política pré-figurativa da autogestão, recebeu destaque, assim como a noção de audiência ativa, resultado da apropriação crítica da cultura de massas. A ênfase nas múltiplas realidades de opressão e a reconstrução da história e da memória coletivas são papéis desempenhados pela mídia radical.

A leitura da tese de Negri e das críticas a ela endereçadas chegou à conclusão de que a crescente apropriação do trabalho imaterial pelo capitalismo não significa efetivamente um quadro pré-revolucionário. Bernardo notou a participação de trabalhadores imateriais na classe dos gestores, que joga ao lado da burguesia. A informatização caminha ao lado da precarização do que Antunes (1999) chamou de classe que vive do trabalho, que abarca trabalhadores industriais, de serviços e informais, todos interligados na dinâmica de valorização do capital. Porém, percebe-se que novas formas de dominação geram novas formas de resistência, portanto as lutas sociais que surgem no mundo contemporâneo carregam os elementos do atual fase do capitalismo e apresentam características peculiares. O material empírico colhido nas entrevistas evidencia alguns militantes como trabalhadores precarizados. Futuros estudos deverão dar conta de uma análise mais densa do ativismo dentro das relações de trabalho.

Depois de compreender as mudanças estruturais do capitalismo, foi possível traçar uma narrativa de experiências autônomas que têm surgido desde a virada para este século com particular enfoque no uso de meios de comunicação digitais. Situadas no contexto global do neoliberalismo, a trajetória do zapatismo, da Ação Global dos Povos (AGP) e das ocupações em 2011 mostrou que a construção da horizontalidade e da autonomia e a valorização de ações diretas nortearam o emprego das ferramentas midiáticas, tecendo redes de comunicação antissistêmica.

108 Nesses termos, o Centro de Mídia Independente (CMI) foi a herança mais expressiva dessas mobilizações. O site de publicação aberta com software livre criado em 1999 para dar cobertura às ações relacionadas ao movimento antiglobalização despertaram o interesse de ativistas por todo o mundo e, embora tenha recuado nos últimos anos, ainda serve de referência e presta solidariedade a coletivos anticapitalistas. Um traço sobressalente da atuação política autônoma consolidada pelo CMI foi a maneira comprometida e parcial do registro dos fatos. A participação em outros movimentos além do CMI indica a postura do produtor de informação enquanto sujeito da ação preocupado em dar visibilidade à reivindicação com a qual compartilha. O coletivo esteve à frente da criação de dispositivos colaborativos, mas com o passar do tempo foi ultrapassado por outros grupos técnicos e enfraquecido pelas dificuldades financeiras e pela vigilância constante.

A autonomia comunicativa desses movimentos foi reencontrada durante os protestos de junho de 2013, em São Paulo. Acompanhou-se o percurso feito pelo Movimento Passe Livre (MPL) a partir de suas publicações no Facebook. O coletivo autônomo que denuncia a exclusão urbana e reivindica o transporte gratuito mostrou ter domínio de seus meios de comunicação para tornar pública sua campanha pela revogação do aumento da passagem. Os ativistas utilizaram a página do movimento na rede social com o objetivo de mostrar a articulação com escolas públicas, periferias e espaços autônomos. O diálogo com o poder público foi estabelecido com a publicação de notas nas quais o MPL ratificava suas demandas. A interação com os veículos de mídia tradicionais e independentes constituiu uma retroalimentação ora harmoniosa ora conturbada, fazendo transparecer a disputa simbólica que movia os debates. A grande mídia – especialmente os jornais Folha e Estadão e a TV Globo – aproveitou a expansão dos protestos e a dispersão da pauta para abandonar o discurso contrário às manifestações e abraçá-las como um “basta” para a corrupção da política brasileira. As entrevistas com militantes e o acompanhamento de publicações em páginas de coletivos no Facebook embasaram a descrição da forma de atuação política e de apropriação dos meios de comunicação digitais. A criação da Mídia Negra concretizou a ideia de articular as lutas anticapitalistas a fim de fortalecer a rede horizontal. Observou- se a aproximação de movimentos por moradia como a Favela do Moinho e a Ocupação Esperança e de coletivos independentes como o Desobediência Sonora, o Baderna Midiática, a Rádio Cordel Libertário e a Casa Mafalda. A maturidade organizacional

109 varia de acordo com o coletivo, mas uma dificuldade comum é a falta de recursos financeiros para desenvolver as atividades sem perder a autonomia. A integridade do anticapitalismo é muito cultuada por esses militantes, pois é uma maneira de defesa contra a assimilação capitalista.

Juntos, esses grupos compartilham informações e alimentam correntes temáticas contra o status quo. Os protestos contra a Copa do Mundo têm sido bastante difundidos pelos ativistas, muitos deles apoiando o Comitê Popular da Copa que organizou um protesto contra os impactos do megaevento no dia 15 de maio e tem programado atividades para reunir movimentos em debates e atos. Recentemente, um ativista do comitê que também é da Casa Mafalda deu entrevista para um programa jornalístico do canal Globo News. O objetivo do comitê não só reivindica os direitos daqueles que foram afetados negativamente pela construção das obras da Copa como denuncia a perseguição que os militantes têm sofrido da polícia. O discurso contra a forma como o torneio foi planejado e executado enfrenta o discurso oficial da mídia empresarial e do poder público que celebra o acontecimento patrocinado por multinacionais e organizado pela Fifa. As divergências ideológicas entre a rede Globo e o governo federal parecem desaparecer diante da acumulação de capital prometida.

O emaranhamento dos coletivos autônomos nesse processo de resistência move o projeto da rede “Protesta”, que ainda não se efetivou, mas pretende ser uma identidade virtual dos coletivos autônomos em torno de pautas como o acesso à cidade, a desmilitarização e a democratização da comunicação. Ao mesmo tempo, é dado apoio físico e virtual às manifestações do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) e à greve dos metroviários liderada pelo sindicato em São Paulo. Esse estreitamento de vínculos com organizações tradicionais pode ser um indício de uma tentativa de integração com setores hierarquizados da esquerda, deixando de lado o sectarismo. A adoção de medidas de segurança digital como a criptografia, o software livre e servidores autônomos vem crescendo, o que demonstra uma tendência ao manuseio crítico das ferramentas. Porém, a disseminação de conteúdo para um público maior ainda depende de sites privados como o Facebook e o Twitter.

A reestruturação do modo de produção capitalista apoiada no conhecimento tecnocientífico e na diversificação das formas de exploração acirra a disputa pelo controle dos meios de informação. Tal disputa evidencia antagonismos que têm provado

110 sua visibilidade no plano simbólico e material. Longe das vias institucionais, mas não alheio a elas, trabalhadores e estudantes aliam-se para reivindicar direitos concretos – como moradia e transporte - e outra lógica social. Formas de organização coletivas e ativas têm construído relações sociais autônomas e anticapitalistas no espaço urbano, um campo cada vez mais legítimo de lutas contra distintas realidades de opressão que possuem uma única raiz. No entanto, a subsunção da mídia, inclusive e principalmente a digital, à ordem hegemônica põe-se como um problema real para os ativistas.

A leitura da ação dos movimentos autônomos identifica fragilidades presentes em diferentes graus nos coletivos. Quando levada ao extremo, a autonomia afasta os ativistas das instâncias decisórias institucionalizadas. A rejeição a qualquer tipo de mediação resulta na ineficiência das ações concretas. A exclusão de militantes ligados a partidos, como fez o Ocupa Sampa, é uma faca de dois gumes. Se, por um lado, ratifica a autonomia do movimento, por outro, corre o risco de reproduzir o autoritarismo tão combatido. A experiência do MPL mostrou que é possível dialogar com governo e organizações hierarquizadas, em busca de mudanças concretas, e mídia corporativa sem abrir mão de seus princípios. A dimensão discursiva dos protestos andou ao lado da dimensão material, o que permitiu a redução da tarifa. Entretanto, outros movimentos carecem dessa visão estratégica e não enxergam além dos limites da ação tática.

O número reduzido de ativistas e o engajamento em diferentes níveis também prejudicam a eficácia da mídia radical e contribuem para a baixa visibilidade. Assim, a construção de uma esfera pública radical perde força. A falta de articulação com movimentos de esquerda verticalizados é um dos fatores do isolamento. Isso diminui o papel dos movimentos autônomos na disputa simbólica com a mídia empresarial. Porém, a assimetria desse embate também se deve à colonização dos meios de comunicação pelas empresas. A privatização dos espaços virtuais põe em xeque a existência de brechas que potencializem os sujeitos políticos. Por isso, a apropriação subversiva dos meios é uma necessidade que pode ser suprida com o desenvolvimento do conhecimento técnico-científico. O coletivo Saravá indica que o diálogo dos ativistas com o meio acadêmico é um caminho para a construção de tecnologias autônomas.

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