A análise da aproximação do coletivo Mídia Negra com outros coletivos autônomos que também usam as redes digitais evidencia a tentativa de construir uma rede de comunicação contra-hegemônica. A participação do Mídia Negra em transmissões da Rádio Cordel Libertário, sediada em Salvador, é uma das maneiras de fortalecer a produção de informação autônoma. Em seu blog, que disponibiliza o áudio dos programas em tempo real, e redes sociais, a rádio se define como um meio de comunicação libertário, anarquista e autogestionário. Através de sua página no Facebook, convidou ativistas de todo o Brasil a atuar como correspondentes da rádio na cobertura das manifestações e atividades de cunho anarquista em 2014. “Não fiquemos reféns dos meios de comunicação burgueses e nem da esquerda autoritária”, diz o texto da publicação. Com um celular conectado ao computador, a rádio consegue transmitir através do seu blog áudios de ativistas diretamente das ruas.
Em abril deste ano, foi divulgada uma edição do podcast – arquivo de áudio digital – “Frequência Damata”, do coletivo Desobediência Sonora, na qual Vinícius foi entrevistado para falar sobre o Mídia Negra. Segundo Fernando64, que no podcast entrevista ativistas de movimentos sociais e músicos de bandas independentes, o Desobediência Sonora é formado por cinco integrantes e propõe uma atuação “autogestionada e horizontal com uma visão de esquerda”. Ele contou que sua
64 Fernando e Murai concederam entrevista para esta pesquisa em janeiro de 2014, na Casa Mafalda, em São Paulo.
102 experiência política se deu no meio anarcopunk, enquanto que Murai considera-se motivado pela cultura do “faça você mesmo”. Murai é publicitário e entrou no Frequência Damata em agosto de 2013, seis anos depois da primeira edição do podcast. Foi ele quem ofereceu o aparato técnico para a reestruturação do programa, que havia sido interrompido por conta de uma ruptura com o dono do estúdio onde era gravado. O podcast, com duração de 45 minutos, é realizado hoje na Casa Mafalda e sua nova fase inspirou a formação do Desobediência Sonora. No espaço autônomo, o coletivo também promove festivais mensais com a participação de movimentos sociais e bandas e uma discussão política sem rigor acadêmico.
Os arquivos de áudio do Frequência Damata são publicados no site, inaugurado em janeiro de 2014, e nas redes sociais do coletivo, assim como textos sobre ações políticas, resenhas musicais e agenda de shows da cena underground. Fernando, formado em História e atuante em projetos sociais com jovens da periferia, afirma que o coletivo levanta a bandeira da mídia alternativa, pois divulga aquilo que a grande mídia omite. Murai observa que esse projeto não existiria sem a Internet, e Fernando ressalta a dificuldade de se implantar uma emissora de rádio no Brasil. As ferramentas digitais são usadas tanto para divulgar as atividades do coletivo de várias formas quanto para facilitar a comunicação entre seus membros. Murai acrescenta que a internet permite o armazenamento de informações e a construção de um repertório de entrevistas.
A possibilidade de compartilhamento que as redes trazem proporciona a disseminação de conteúdos que contribuem para o debate sobre a conjuntura das movimentações sociais, interligando arte e política. De acordo com Murai, a capacidade de dar voz a pessoas que foram caladas pelos veículos de comunicação tradicionais incide no desenvolvimento de uma narrativa histórica dos coletivos e bandas independentes em São Paulo. Esse trabalho de contar a trajetória dos artistas e ativistas do cenário autônomo, segundo ele, tem sido feito por poucas pessoas e de uma forma frágil nas últimas duas décadas. “Acredito que a gente vem preencher essa lacuna no sentido de que os próprios agentes contem a sua história, servindo como documento que pode ser utilizado como fonte”, assinala.
As ferramentas de comunicação digital também possibilitaram a capacidade de autonoticiamento da Favela do Moinho. O movimento Moinho Vivo criado na favela
103 não luta apenas pelo direito à moradia, mas por outra lógica social. Flávia65, artista plástica que milita no movimento, ressalta o projeto de especulação imobiliária que encarece o metro quadrado da região central da cidade e intensifica a disputa pelo terreno onde residem os moradores. Ao longo do processo judicial que envolve a prefeitura e uma empresa privada, a favela já sofreu incêndios considerados suspeitos pelos moradores e enfrenta problemas como a falta de saneamento básico. O sentimento de abandono alimenta o caráter autônomo do movimento, que se expressa na forma de comunicação. Caio, que participou do Ocupa Sampa e mora na favela desde novembro de 2013, conta que o registro de tudo o que acontece na favela é uma “arma de contra- informação tanto pra dentro quanto pra fora”. Ações da favela, visitas policiais e reuniões com a prefeitura são registradas por texto e/ou vídeo e divulgadas pelo Facebook. Um dos objetivos dessa estratégia comunicativa, explica Flávia, é o enfraquecimento das “relações de poder que a prefeitura estabelece ao tentar fazer negociações com poucos moradores a portas fechadas”.
A identificação da noção de autonomia comunicativa no fazer dos coletivos remete a um artigo compartilhado pela página do Mídia Negra no Facebook originalmente publicado no Protopia Wiki, um site internacional de compilação de referências libertárias. O artigo intitulado “Mídia Independente” é introduzido com a afirmação de que a capacidade de fazer a própria mídia não depende de universidades e escolas de especialização caras. Os jornalistas anticorporativos devem incentivar que outras pessoas também tenham independência midiática. Ao tomar o IndyMedia como referência, o texto defende o uso da publicação aberta e o trabalho de mídia em rede internacional.
O texto também dá instruções de como usar ferramentas de comunicação e sustenta a publicação de notícias que mostrem “em que lado da barricada se está” - parafraseando o militante do Mídia Negra em entrevista a esta pesquisa. O artigo ainda valoriza a cobertura de ações diretas e se posiciona em uma guerra de informação. Aos interessados em construir uma mídia independente é sugerida a busca pela produção de um material com perspectiva revolucionária e por conexões com outros coletivos. O alerta do risco de cooptação por interesses liberais e hierarquias internas é seguido do
65 Flávio e Caio, ativistas do movimento Moinho Vivo, concederam entrevista em dezembro de 2013, na Casa Pública, espaço de reunião construído na favela, no centro de São Paulo, pelos próprios moradores.
104 apelo ao consenso e à democracia direta. Assim, a independência da mídia corporativa se efetivaria.