Alguns elementos podem ter contribuído para manter o fluxo turístico internacional em uma condição insignificante no país, entre os destaques, estão o custo do produto turístico brasileiro, a segurança pública nos centros urbanos e os serviços precários oferecidos aos turistas. Este assunto foi abordado na reportagem de VEJA103, cuja matéria mencionou que o turismo no Brasil era caro ao destacar que em abril de 1990 os brasileiros passaram o feriado da páscoa no exterior, porque era mais barato viajar para o Caribe do que praticar o turismo doméstico. A
revista alertava também, para o fato de que a inflação promoveu uma cultura em defesa dos interesses econômicos ao longo dos anos, em que os preços se mantiveram altos, apesar do arrefecimento dos índices inflacionários. Em outra reportagem em julho do mesmo ano, a revista104 aborda a questão envolvendo a
violência no Rio de Janeiro, principal cartão postal do turismo brasileiro, mencionando que a cidade enfrentava uma crise sem precedentes em termos de segurança pública, afetando sobremaneira o turismo internacional no país. E em junho de 1993, a publicação105 criticou os péssimos serviços da hotelaria nacional, principalmente dos hotéis de categoria cinco estrelas, assinalando que alguns estabelecimentos eram considerados “arapucas caríssimas”, paradoxo envolvendo as condições de hospedagem com os preços aviltantes das diárias.
Estes indicadores são referendados em vários momentos do estudo, associados com outros tópicos considerados responsáveis também, pelo baixo desempenho crônico do Brasil no turismo receptivo. Lima Neto (2002) destaca a posição dos operadores internacionais que relacionam o elevado custo do transporte aéreo nacional e internacional, os limites da infra-estrutura (aeroportos, estradas, hotéis, restaurantes, entre outros), a inadequação dos serviços das agências e operadores de turismo e a escassez de material informativo sobre o país. Ao que o autor comenta que os gastos do país com divulgação estão na faixa de 0,8% do total das receitas turísticas, o que está muito aquém do recomendado pela Organização Mundial do Turismo, que aconselha gastar ao menos 2% da receita em publicidade.
A despeito da verba irrisória para a promoção do país, a Embratur lançou várias campanhas de marketing do produto turístico brasileiro no exterior, é o que menciona a reportagem do Jornal Zero Hora106 anunciando que a empresa, com o
apoio da embaixada brasileira em Londres, inaugurou o comitê “Fly to Brazil”, com o firme propósito de aumentar a presença do turista inglês no país. A iniciativa se estenderia para outros países da Europa, Estados Unidos e Japão. O próprio Caio Luiz de Carvalho, à frente da empresa nesta gestão, disse na ocasião que o índice de estrangeiros no Brasil era muito baixo.
104 VEJA. O pesadelo de uma bela cidade. São Paulo, n. 28, 18 jul. 1990. 105 Idem. Estrelas pálidas. São Paulo, n. 23, 09 jun. 1993.
Em outra matéria publicada por Zero Hora107 foi referida a verba disponível da
Embratur para investir na imagem do país no exterior, um valor aproximado de U$ 6 milhões de dólares pelos últimos três anos. O jornal fez um comparativo entre países como Jamaica com U$ 25 milhões ao ano e a França com U$ 75 milhões ao ano. O valor que coube à empresa foi insignificante, em relação às verbas que os países citados destinaram para a promoção e marketing no exterior.
Um comentário de Schluter sobre o carnaval do Rio de Janeiro (2005, p. 236) é provocador, pois, a pesquisadora considera esta manifestação “como o único produto sociocultural extremamente competitivo no mercado internacional” na América Latina. Esta afirmação polêmica afeta a região como um todo e ao mesmo tempo pode revelar a formatação inadequada do produto turístico nacional ou um amadorismo na divulgação e promoção do país.
Como é possível um território como o Brasil, que possui uma riqueza étnica e cultural, uma imensa biodiversidade em fauna e flora, sem contar os oito mil quilômetros de litoral e os acidentes geográficos deslumbrantes, ser destacado com apenas um produto com qualificação internacional para competir no mercado externo? Afinal o que o Brasil pode realmente oferecer ao visitante? O país parece não ter encontrado ainda, o rumo correto do mercado internacional e está esbarrando em ações equivocadas e mal planejadas no que se refere à formatação e campanhas de promoção e marketing do produto turístico brasileiro.
O interesse da mídia e dos pesquisadores sobre a posição brasileira no turismo internacional foi despertado, ao que parece, a partir da metade da década de 1990108 em virtude da estabilidade econômica. O plano real mostrou que era
possível competir com o mercado internacional e as cobranças se intensificaram, diante da oferta turística que o país pode oferecer. A reportagem da Revista Veja109
alerta para o “Recorde Pífio” do turismo receptivo, informando que pela primeira vez em 1995 o país praticamente atingiu a fronteira de dois milhões de turistas estrangeiros, mas foi insuficiente se comparado a outros países. A matéria faz uma rápida análise dos pontos negativos que são um entrave ao turismo internacional,
107 ZERO HORA. Brasil segue atraindo visitantes: violência no Rio assusta, mas o Nordeste e as praias catarinenses garantem o fluxo. Porto Alegre, 13 set. 1994.
108 Este tema não foi citado em jornais e revistas indicados nesta pesquisa até 1994, assim como os
referenciais teóricos pesquisados.
109 VEJA. Recorde pífio: O Brasil recebe 2 milhões de turistas, mas ainda é pouco em comparação com outros países. São Paulo, n. 42, 16 out. 1996.
indicando que não basta ter belezas naturais, culturais e históricas, é preciso investir em infra-estrutura e propaganda:
• Os preços são absurdamente altos;
• Viajar de avião em território brasileiro custa até 40% mais caro que nos Estados Unidos;
• O mesmo acontece com a locação de automóveis; • Os hotéis são caros e o atendimento é ruim;
• Faltam rodovias, aeroportos, hospitais, restaurantes.
Na visão de Saab (1999, p. 291) existem questões pontuais para o baixo crescimento do país no turismo receptivo: “diversos fatores podem ser apontados como óbices ao crescimento do turismo internacional no Brasil, como por exemplo, conforme seu grau de influência, e sem a pretensão de esgotar o assunto, os seguintes”:
• Carência de infra-estrutura completa de serviços turísticos (ausência de uma ampla e adequada infra-estrutura hoteleira, inadequação dos serviços prestados por agências de viagens e operadoras de turismo e pouca oferta de serviços complementares aos de hospedagem, principalmente no tocante a entretenimento e lazer);
• Nível de segurança aos turistas ainda insatisfatório (intensificação da criminalidade nos grandes centros urbanos, principalmente, e de forma ostensiva, no Rio de Janeiro e em São Paulo);
• Carência de uma adequada infra-estrutura de transporte aos turistas (preços ainda elevados das passagens aéreas domésticas), restringindo a flexibilidade de circulação do turista em mais de uma região do país, aproveitamento insignificante dos transportes ferroviário, marítimo e fluvial e necessidade de ampliação, reforma e modernização dos aeroportos nacionais;
• Carência de investimentos na divulgação do país no exterior e internamente, cujo montante se deu em níveis inferiores ao mínimo recomendado pela OMT, isto é, pelo menos 2% das receitas turísticas;
Em entrevista a Revista Isto É110, o então presidente da Embratur Caio Luiz de Carvalho, falou sobre a nova ordem do turismo mundial que é um “turista cada vez mais exigente”, obrigando os países a incrementarem a qualidade dos serviços,
aplicarem preços competitivos aliados a produtos turísticos criativos. Estas são consideradas questões obrigatórias para quem quer disputar o mercado internacional. Afirmou que o Brasil “é bonito por natureza”, mas, isto não basta para o estrangeiro visitar o país. É preciso muito mais, começando por melhorar a qualidade de serviços, apresentando cidades mais limpas e trabalhar em conjunto com o governo, não esperando ações paternalistas. Concordou que o custo Brasil inúmeras vezes inviabiliza um empreendimento no país, encarecendo o produto turístico, mas alerta para o fato de que muitos empresários abusam das altas temporadas, extorquindo o turista internacional cobrando preços aviltantes pelos serviços turísticos, ocasionando o afastamento estrangeiro do país.
O desafio do turismo brasileiro é se posicionar corretamente diante de um mercado em constante mutação. Conhecer seu púbico alvo, oferecendo um produto turístico adequado à demanda, tarefa possível com o trabalho conjunto entre o Estado e a sociedade. Segundo Beni (2003, p. 96) “as políticas públicas de turismo neste país precisam ser repensadas em função da própria dinâmica da atividade e reformulação das estratégias de desenvolvimento sustentável”, mas, certamente com ações de co-responsabilidade entre os setores envolvidos.
A ausência de conscientização sobre a importância do turismo para a sociedade por parte do Estado, a desunião da classe empresarial do setor e a dicotomia entre mercado de trabalho e Academia, são fatores que desagregam a atividade turística no país. É necessária, talvez, uma mudança de atitude, uma postura pró-ativa para enfrentar e cobrar por transformações significativas em prol do turismo receptivo no Brasil. A causa, portanto, é de todos.
4 O ESTADO E O TURISMO
O papel do Estado e a conjuntura do turismo brasileiro será o fio condutor desta pesquisa, que busca compreender a posição do governo federal em relação ao turismo internacional brasileiro, relacionando as principais ações do poder público e os resultados efetivos.
Os atos da esfera estatal estão vinculados às políticas públicas implementadas pelo governo, em resposta a uma demanda de mercado. O turismo como um segmento complexo e multifacetado carece da atenção do Estado para alcançar um desenvolvimento satisfatório. A ideologia do fenômeno turístico como esteio para a geração de empregos e (re)distribuição de renda, erradicação da pobreza, promovendo a paz através das trocas socioculturais, é propalado com freqüência pelos governantes e organizações internacionais. Contudo, não existe uma certeza absoluta do quanto este paradigma do turismo sustentável pode contribuir para as mazelas do mundo.
Para uma cognição acerca da participação do Estado pelo viés da práxis política, é necessária uma breve introdução sobre o tema políticas públicas, as correlações existentes entre setor público e privado e a correta adequação frente às necessidades do mercado.