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3.3. BULGULAR

3.3.2. DeğiĢen Toplumsal Muhalefette Vitrincilik

Apesar do Brasil ser um país em desenvolvimento, existe, especialmente nas zonas urbanas industriais, uma prosperidade material, uma grande escolha de bens de consumo e uma real disponibilidade de tempo livre.1

Devido a suas vantagens geográficas, à sua infra-estrutura e à imaginação, a cidade se tornou o centro industrial e comercial do país, e mais: seu principal foco de inovação cultural e artística.2

Políticas para o lazer

Os movimentos mundiais, as novas políticas federais e municipais começavam a modificar o clima sobre o lazer no mundo todo, trazendo mudanças nos pensamentos e, inclusive, nas ações na cidade. Falava-se de lazer nos meios de comunicação, nos encontros culturais, políticos, médicos, em projetos arquitetônicos, entidades sindicais e de assistência ao trabalhador, com preocupação em defini-lo e ampliá-lo não sendo visto apenas como diversão e evasão, mas ao mesmo tempo como cultura e educação. Ao mesmo tempo, havia um aumento da jornada de trabalho com as horas extras, ou segundo trabalho, na tentativa de aumentar a renda familiar. Técnicos e cientistas sociais, ligados ao Sesc, falavam em uma “civilização do lazer”.3

No âmbito federal, o Decreto do governo nº 67.227, de 1970, teria no item II, o seguinte compromisso, segundo Sant’Anna: o governo se comprometeria a ceder empréstimos financeiros às entidades sindicais para a construção, reforma,

ampliação ou aquisição de sedes, escolas, colônias de férias, campos de esporte, clubes recreativos (..) e incentivos á realização de atividades culturais, recreativas e cívicas.4

1 GELPI, Ettore. Lazer e educação permanente: tempos, espaços, políticas e atividades de educação permanente e do lazer. São Paulo: Sesc/SP, 1983, p. 125.

2 BOLLE, Willi. Fisiognomia da Metrópole Moderna. São Paulo: Edusp, 1994, p. 33.

3 SANT’ANNA, Denise. O Prazer Justificado: Lazer em São Paulo (1969/1979). Dissertação de

Mestrado, PUC/SP, 1988.

4

Esse decreto, de acordo com a historiadora, colocava o lazer como eixo de tensão e articulação entre sindicatos e o governo federal, ampliando o papel dos sindicatos para além de mediadores de serviços médicos e assistenciais e de distribuição de bolsas de estudos. Os sindicatos começavam a usar os cursos, conferências e atividades de entretenimento para trazer os trabalhadores à ação sindical.

Mas, o governo impôs aos sindicatos, em 1976, com o Decreto-Lei nº 6.386, que parte da receita arrecadada fosse utilizada em atividades assistencialistas vinculadas aos interesses do governo, como a ampliação ou criação de bibliotecas, congressos, conferências, colônias de férias e centros recreativos com finalidade esportiva e social; reformulando, assim, as condições e o conteúdo das atividades sindicais devido às novas exigências político- econômicas, diminuindo o caráter reivindicativo dos sindicatos e acentuando o assistencial e recreativo, ação que há trinta anos já vinha sendo desenvolvida pelo Sesc e SESI.5

São Paulo representava então a modernidade dos trópicos. No entanto, segundo Willi Bolle, nos anos 70/80, percebia-se que o processo de modernização estava inacabado e começava a mostrar as faces do “pós-modernismo”: pobreza, miséria, violência, degradação humana, ausência de esperança, ou esperança de emancipação política e social. A década de 70, do mesmo modo, foi marcada pelas instituições privadas e setores da administração paulista buscando conhecer os usos do tempo livre da população para produzir técnicas e instrumentos para administrar esses usos e, transformando o lazer em disciplina racional e científica, tornando-o politizado, além de incorporá-lo em setores sociais diferentes.6

Em 1974, ocorreu, em Curitiba, o I Seminário Nacional do Lazer e, no ano seguinte, o I Encontro Nacional do Lazer, com Joffre Dumazedier criando uma leva de seguidores7. No âmbito mundial, o lazer passava a ser considerado como um direito de todos, após o Congresso para uma Carta do Lazer, de 1976, em

5

O decreto-lei pode ser lido na íntegra no site da Previdência Social, visitado em maio de 2005: http://www81.dataprev.gov.br/sislex/paginas/42/1976/6386.htm

6 BOLLE, Willi. A metrópole, in Fisiognomia da metrópole moderna, op.cit, p. 365-400. 7

Bruxelas, do qual o Brasil também participou. Nesta carta, as atividades de lazer ficaram assim definidas no artigo 2:8

são precisamente caracterizadas pelo tempo durante a qual o homem é capaz de realizar-se, de acordo com suas aspirações pessoais e expressar suas identidades de maneira criativa

Além de que, no artigo 3, a existência do tempo livre tem o objetivo comum para qualquer padrão social

a salvaguarda e a promoção do desenvolvimento físico e mental, mantendo e estimulando o contato com a natureza e a cultura, intensificando a vida social e comunitária, encorajando o comprometimento, a participação voluntária, o espírito esportivo, a apreciação do turismo como um componente de auto-realização e a compreensão entre países

Tanta importância era dada ao lazer que se atribuía aos poderes públicos, a família, a escola, os educadores, os meios de comunicação, os grupos políticos, sociais, culturais e religiosos e, igualmente os cidadãos a responsabilidade de: iniciar a criança numa atividade lúdica e ativa de lazer; de uma democracia participativa e; evitar a exploração das atividades de lazer que conduzam a falsas necessidades e formas de recreação incompatível com a liberdade criadora e a dignidade humana.9

Indústrias culturais e equipamentos de lazer

Os dados de 1968 mostram que a cidade era equipada com pelo menos: 15 bibliotecas, 107 parques infantis, 23 unidades infanto-juvenis, 15 centros juvenis noturnos, 3,6 poltronas de cinema para cada 100 habitantes; 63% das residências possuíam televisão e 90% rádio; havia quatro teatros oficiais, um estádio municipal capaz de atender 4,6% da população, 400 clubes de futebol amador; 280 campos de futebol; 5 clubes profissionais com 300 mil associados,

8 A Carta do Lazer in Cadernos de Lazer. São Paulo: Sesc, jun/1976, nº1, p. 9-10.

9 Apesar de o dado sobre o ano do seminário ser de 1976, o Sesc possui os Anais do Seminário

3.260 espaços livres sendo 210 tratados; e a área verde somava 4,8m2/habitante.10

O período militar, de 1964 a 1984, foi o momento de consolidação das indústrias culturais: editorial, cinematográfica, fonográfica, televisiva, publicitária, radiofônica; marcando a consolidação do mercado de bens culturais e simbólicos, tendo a televisão como veículo de massa e o cinema nacional como indústria, segundo Renato Ortiz. O país começou a se modernizar também no campo da comunicação com: a EMBRATEL (e sua política modernizadora de telecomunicação), o incentivo do governo para a fabricação de papel e importação de maquinário para edição, o Ministério da Comunicação e, o sistema de microondas de rádio e TV ligando todo o território nacional. O Estado autoritário passa a atuar junto às esferas culturais, incentivando novas instituições e uma política da cultura. Surgindo no período o Conselho Federal da Cultura, Instituto Nacional do Cinema, EMBRAFILME, FUNARTE, Pró-memória.11

Com isso, de acordo com o mesmo autor, estava montado o sistema para funcionamento da indústria cultural e a transformação econômica, período conhecido por “segunda revolução industrial” no Brasil. A união do Estado com o poder empresarial da comunicação, além de promover a integração nacional, promoveu a integração política e de mercado, incrementando o consumo de massa e desenvolvimento de um mercado interno. A censura se dava quando o produto apresentado pudesse prejudicar os interesses do Estado e/ou do empresariado, era repressiva e disciplinadora por incentivar formas de expressão cultural e selecionar pensamentos e obras artística: reprimia as peças teatrais, filmes, livros, mas não ao teatro, cinema, ou indústria editorial.

Nesse período, as publicações começavam a pensar sobre a estética da sociedade de massa, a partir de traduções de Theodor Adorno e Walter Benjamin. A cultura cinematográfica atingiu seu auge, embora viesse a declinar nos anos 80 devido à competição com outros meios de comunicação como a TV a cabo, videogame, computador, internet, etc. O mercado fonográfico teve sua arrancada

10 ANAIS do Seminário sobre Lazer: perspectiva para uma cidade que trabalha. São Paulo, 27 a 30

de outubro de 1969, Sesc/SEBES.

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nos anos 70 com a facilidade de aquisição de eletrodomésticos como: toca-disco, a fita cassete, além do uso do cassete em automóveis e no lazer fora de casa, integrando-se ao hábito do consumidor, passando a ser o veículo de maior penetração social. Devido ao deslocamento da verba publicitária para a televisão, de acordo com Ortiz, as rádios especializaram-se em responder às demandas de mercados com faixas econômicas diferentes e gostos diferentes. E assim, o que melhor caracterizou a consolidação da indústria cultural no Brasil foi o desenvolvimento da televisão. Em 1969, o Estado permitiu a transmissão em rede, conseqüentemente veio a transmissão simultânea e a idéia de vender cultura brasileira, criando um mercado mais racional uma nova integração de consumidores, superando o mercado cinematográfico. A novela como nova lógica da produção empresarial acabou com os gêneros dramáticos dos anos 50.

A implantação de uma indústria cultural modifica o padrão de relacionamento com a cultura, uma vez que definitivamente ela passa a ser concebida como investimento comercial 12

Quanto ao teatro, a maioria das vezes de custo mais elevado, era perceptível a retração na sua procura. Segundo Tânia Álvares, mantendo um banco de dados dos freqüentadores de 23.586 cadastrados, em São Paulo, em 1978, 3% da população freqüentava o teatro. Desses freqüentadores, 49,2% eram profissionais liberais; 24,7% estudantes; 16,7% comerciários e industriários; 0,5% servidores públicos; 0,5% forças armadas13. O importante aqui é salientar o número de comerciários e industriários que freqüentavam o teatro, pois o Sesc e o SESI incentivavam sua clientela para tal atividade com teatros em suas dependências e distribuindo ingressos para peças nos teatros da cidade.

Em termos de espaços públicos foi um período significativo, pois contou com a recuperação do Parque Trianon, a inauguração de 14 novos parques na capital e um parque na grande São Paulo, o Cemucam (Centro Municipal de Campismo), na Granja Viana, região de Cotia, com atividades educativas. Os demais somavam espaços de área verde para a cidade e eram equipados para

12 Idem, p. 144. 13

atividades físicas, esportivas, de diversão para crianças, e de descanso14. Os parques se voltavam agora mais para as atividades físicas, esportivas e de descanso; anteriormente, como vimos, eles eram bastante utilizados para atividades musicais, artísticas, artes cênicas, e nos parques infantis, atividades educativas.

14 Parques inaugurados: Alfredo Volpi (antigo Parque Morumbi), Guarapiranga, do Carmo, do

Piqueri, Anhangüera, Vila dos Remédios, Previdência, Nabuco, São Domingos, Raposo Tavares, Lina e Paulo Raia (antigo Conceição), Rodrigo de Gásperi (antigo Parque Pirituba) e, Ecológico do Tietê. Como caminhada, bicicleta, ginásticas, quadras e campos poliesportivos, playground, a maioria deles com lagos e/ou quiosques, e alguns com churrasqueiras. SITE do Sesc São Paulo, hot site, andar e pedalar, paruqes, visitado em novembro de 2004: www.sescsp.org.br/sesc/ hotsites/andarepedalar/trilhas_roteiros_ parques.htm.