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As divergências existentes entre a extrema direita, integralista186 e a extrema esquerda187, comunista, sobretudo, no campo social foram intensificadas em

184BASTOS, op. cit., p. 185.

185 MARINHO, Josaphat. “A Constituição de 1934”. In As Constituições do Brasil, Instituto Tancredo Neves, p. 47 apud BASTOS, Celso Ribeiro. Curso de Direito Constitucional. São Paulo: Celso Bastos, 2002, p. 187-188, grifos meus. 186 MOURA, op. cit., volume II, p. 52, refere que “Influenciado pelo fascismo italiano, o integralismo propunha um Estado forte baseado não no voto popular, mas na representação corporativa das várias classes sociais. Conseqüentemente, defendia um governo autoritário onde só houvesse um partido e uma sociedade militarizada, em que a ordem e a disciplina seriam fundamentais. Além disso, o integralismo era nacionalista, conservador e reacionário. Como toda organização fascista, também os integralistas tinham um grande aparato externo: uniformes, desfiles, bandeiras, emblemas etc. Os membros do partido cumprimentavam-se levantando o braço direito com a mão espalma da e gritando a palavra "Anauê" (em tupi, uma saudação). (...) Participavam do movimento principalmente: intelectuais, professores, profissionais liberais, altos e médios funcionários, estudantes, militares, pequenos comerciantes etc. E até várias personalidades importantes aderiram, como membros ou simpatizantes: Miguel Reale, Antônio Toledo Piza, Gustavo Barroso, Vicente Rao, Francisco Campos, Santiago Dantas etc.”

187 MOURA, op. cit., volume II, p. 52: “No Brasil, como reação ao integralismo, foi formada em janeiro de 1935 uma ‘frente ampla’ de esquerda, a Aliança Nacional Libertadora (A.N.L.). Do novo movimento participavam comunistas, socialistas, uma facção do tenentismo, líderes trabalhistas e sindicais e muitos elementos da classe média que, embora não socialistas, eram contrários ao fascismo e consideravam-se de esquerda. O programa da A.N.L. baseava-se em cinco pontos fundamentais: 1) formação de um governo popular; 2) garantia das mais amplas liberdades; 3) proteção aos

quase todo o mundo em decorrência da ascensão de governos fascistas em vários países188. Assim, tornaram viável a implantação do Estado Novo, oriundo de um golpe militar, que marcou a curta vigência da Constituição Federal de 1934. Isto porque este Texto Constitucional, muito vulnerável à conjectura da época, ainda não havia conseguido se firmar de forma a tornar-se plenamente aplicável, visto que vários fatores políticos, econômicos e sociais, surgidos com a Revolução de 1930, estavam ainda em fase de instabilidade, levando, assim, à ruptura do precário equilíbrio político189 e da Constituição Federal, que restou nominalista em muitos de seus artigos, consoante lição deKarl Loewenstein190.

A situação de confronto estabelecida nessa época e, de certa maneira, incentivada pelo presidente Getúlio Vargas, culminou com mencionado golpe militar, em 10-11-1937. Em conseqüência, Getúlio Vargas fechou o Congresso Nacional e instaurou a ditadura, adotando a Carta de 1937, que já estava pronta e consagrava seu ideário. Pode-se dizer que este Texto Constitucional institucionalizou o regime autoritário, uma vez que não previa as vigas-mestra de um Estado de Direito, fixando o Presidente da República como “autoridade suprema do Estado”, que, por sua vez, tinha amplos poderes e muitas competências privativas191.

A Constituição de 1937 ficou conhecida como “Constituição Polaca”, dada a influência que recebera da Constituição da Polônia e caracterizou-se por

pequenos e médios proprietários; 4) nacionalização das empresas estrangeiras; 5) cancelamento unilateral da dívida externa brasileira”.

188 Tais como: Mussolini na Itália, Adolph Hitler na Alemanha, Salazar em Portugal etc.

189 MOURA, op. cit., volume II, p. 51, refere que “A situação favorecia amplamente o fortalecimento do Estado, não só porque este tinha grande liberdade de manobrar os vários setores da sociedade, mas também porque a elite era favorável a esse forfalecimento, quer por motivos econômicos (apoio ao café e à indústria), quer por razões políticas (receio da ação do operariado e da classe média). Vargas, percebendo essa situação, agiu habilmente, procurando aumentar seu poder pessoal e, portanto, o do Governo e do próprio Estado. A própria radicalização dos setores operários e da classe média (tanto os grupos direitistas como os esquerdistas), ocorrida principalmente a partir de 1934, acabou auxiliando Vargas em sua política. Portanto, fortalecido, o Presidente pôde chegar ao golpe e à ditadura”.

190 LOEWENSTEIN, op. cit., p. 218, refere que se utilizando do critério ontológico, ou seja, na concordância das normas constitucionais com a realidade do processo do poder, classifica as Constituições em: normativas, semânticas e nominalistas. Segundo o autor, “el carácter normativo de una Constitución no debe ser tomado como un hecho dado y sobreentendido, sino que cada caso deberá ser confirmado por la práctica. Una Constitución podrá ser juridicamente válida pero si la dinámica del processo político no se adapta a sus normas, la Constitución carece de realidad existencial. En este caso, cabe calificar a dicha Constitución de nominal (...)”. Já as Constituições normativas caracterizam-se pela conformação das relações políticas e dos agentes do poder às determinações do seu conteúdo e do seu controle procedimental, enquanto que as Constituições semânticas são meros instrumentos das elites políticas, sem limitação de seu conteúdo.

prever: a) a manutenção da Federação como forma de Estado, apenas nominalmente, pois todo o poder político foi transferido para o governo central, especialmente, ao Presidente da República (Federalismo nominal), cujas competências foram significativamente aumentadas; b) separação de poderes apenas formal, por que o Poder Legislativo e Poder Judiciário foram extremamente reduzidos em suas funções; c) restrição de direitos e garantias individuais, com a supressão do writ do mandado de segurança e da ação popular da Carta Constitucional e d) retrocesso no processo de controle de constitucionalidade, pois uma lei declarada inconstitucional pelo Poder Judiciário poderia ser novamente apreciada pelo Poder Legislativo a pedido do Presidente da República, caso confirmada por dois terços dos votos de cada Casa, a decisão do Supremo Tribunal Federal tornava-se sem efeito.

Neste contexto, especificamente, no que tange aos direitos fundamentais, o Texto Constitucional suprimiu os princípios da legalidade e irretroatividade; extinguiu o writ do mandado de segurança; restabeleceu a pena de morte e instituiu a censura prévia, restringindo o direito à liberdade de opinião. Dessa forma, a Carta de 1937 destruiu a essência do regime democrático de direito e instaurou, formalmente, a opressão, sob alegação do Presidente da República de proteger a paz, a ordem e a segurança pública. Por outro lado, verifica-se que a Carta outorgada de 1937, apesar de ter sido estabelecida de forma ditatorial, também deu ênfase ao aspecto humanista no que diz respeito aos direitos trabalhistas, tal como era previsto na Constituição Federal de 1934 (grifos nossos).

Atente-se, porém, que a referida Constituição nunca se tornou vigente, uma vez que continha um preceito que rezava que tal Texto Constitucional entraria em vigor em sua data e seria submetida a plebiscito nacional, o qual não se realizara. Assim sendo, pode-se afirmar que o que vigeu na época foi o chamado Estado Novo, caracterizado por decisões arbitrárias do ditador, que não eram submetidas a qualquer controle jurídico e o extenso rol de direitos individuais constitucionalmente previstos era apenas formal, não tendo efetiva aplicação prática.

Benzer Belgeler