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Nos termos do “caput” do artigo 137 da Lei 6.404/76, a aprovação das seguintes matérias dá ao acionista dissidente o direito de retirar-se da companhia: a) criação de ações preferenciais ou aumento de classe de ações preferenciais existentes, sem guardar proporção com as demais classes de ações preferências

(artigo 136, inciso I da Lei 6.404/76); b) alteração nas preferências, vantagens e condições de resgate ou amortização de uma ou mais classes de ações preferenciais, ou criação de nova classe mais favorecida (artigo 136, inciso II da Lei 6.404/76); c) redução do dividendo obrigatório (artigo 136, inciso III da Lei 6.404/76); d) fusão da companhia ou sua incorporação em outra (artigo 136, inciso IV da Lei 6.404/76); e) participação em grupo de sociedades (artigo 136, inciso V da Lei 6.404/76); f) mudança do objeto da companhia (artigo 136, inciso V da Lei 6.404/76); e g) cisão da companhia (artigo 136, inciso VI da Lei 6.404/76). Apresentada sucintamente as hipóteses previstas no artigo 137 da Lei 6.404/76, cumpre-se agora analisá-las de maneira mais detalhada.

A primeira hipótese de recesso prevista no artigo 137, “caput” da Lei 6.404/76 consiste na criação de ações preferenciais ou aumento de classe de ações preferenciais existentes, sem guardar proporção com as demais classes de ações preferências, salvo se já previsto ou autorizado no estatuto (artigo 136, inciso I da Lei 6.404/76). Observa-se, entretanto, que, para o exercício do direito de recesso, é imprescindível ao acionista contrário à aprovação dessa matéria, ser titular de ações de espécie ou classe prejudicadas com tal deliberação (artigo 137, inciso I da Lei 6.404/76).

Conforme Modesto Carvalhosa (2003, v. 2, p.847), possuem o direito de recesso tanto os titulares de ações preferenciais como os titulares de ações ordinárias, desde que seu prejuízo, em virtude da deliberação, possa ser evidenciado. A propósito, prossegue o citado jurista, deve-se entender amplamente o termo “prejuízo”, ou seja, no sentido de diminuição de direitos patrimoniais que determinada espécie ou classe de ações venha a sofrer em decorrência da deliberação da assembléia geral. Assim, quando a companhia resolve emitir uma

nova espécie de ação, criando, por exemplo, ações preferenciais (artigo 136, inciso I) visando captar recursos, os acionistas titulares de ações ordinárias têm os seus interesses prejudicados, na medida em que a vantagem pecuniária a ser conferida aos titulares dessa nova espécie de ações consumirá recursos que seriam, de outro modo, destinados ao pagamento de dividendos dos titulares de ações ordinárias (COELHO, 2002, v. 2, p. 301). Nota-se, entretanto, que havendo previsão estatutária para a criação ou para aumento de classe de ações preferenciais, a lei presume que os acionistas, ao aderirem ao estatuto social, já sabiam dessa possibilidade, razão pela qual o direito de retirada não terá cabimento nessa hipótese.

A segunda hipótese de recesso prevista no citado artigo 137, consiste na alteração das preferências, vantagens e condições de resgate ou amortização de uma ou mais classes de ações preferenciais, ou criação de nova classe mais favorecida (artigo 136, inciso II da Lei 6.404/76).

O estatuto social da companhia declarará as vantagens ou preferências atribuídas às ações preferenciais, bem como poderá prever as condições de resgate ou amortização de uma ou mais classes de ações preferenciais (artigo 19 da Lei 6.404/76). Assim, sempre que, por deliberação da assembléia geral, a maioria dos acionistas aprovarem alterar esses dispositivos estatutários, poderá o acionista dissidente prejudicado com essa deliberação retirar-se da sociedade. Evidentemente que a modificação nas preferências ou vantagens, ou ainda nas condições de resgate ou amortização de uma ou mais classes dessas ações irá interferir, ou nos direitos patrimoniais dos acionistas titulares destas ações ou, então, nos interesses dos titulares de ações ordinárias (CARVALHOSA, 2003, v. 2, p. 854). No entanto, em qualquer hipótese, o acionista deve demonstrar que a deliberação da assembléia geral causou-lhe redução das perspectivas de retorno do investimento; esse efeito,

conforme Fábio Ulhoa Coelho (2002, v. 2, p. 301), é condição para o exercício do direito de retirada.

A redução do dividendo obrigatório (artigo 136, inciso III da Lei 6.404/76) é outra hipótese de recesso prevista no artigo 137, “caput” da Lei 6.404/76. É evidente que essa decisão, uma vez aprovada na assembléia geral, causará prejuízos a todos os acionistas da companhia, independentemente da espécie ou classe de ação que titularizem. Logo, uma vez contrário à aprovação dessa matéria, o acionista dissidente poderá retirar-se da companhia. Cumpre-se observar que, para o exercício do direito de recesso com fundamento na redução do dividendo obrigatório, o acionista dissidente sequer necessita demonstrar à companhia a redução das perspectivas de retorno de seus investimentos (COELHO, 2002, v. 2, p. 302).

São também hipóteses de recesso previstas no “caput” do artigo 137 da Lei 6.404/76, a fusão da companhia, a sua incorporação por outra sociedade (artigo 136, inciso IV da Lei 6.404/76), ou ainda a sua participação em grupo de sociedades29 (artigo 136, inciso V da Lei 6.404/76). Logo, sendo aprovada pela assembléia geral qualquer uma dessas matérias, o acionista dissidente terá o direito de retirar-se da sociedade, exceto se a companhia for de capital aberto e as suas ações tiverem liquidez e dispersão no mercado de capitais. A lei obsta a retirada do titular de ações que possua as seguintes características: a) liquidez, ou seja, quando a cotação da espécie ou classe de ações do acionista dissidente integre índice geral representativo de carteira de valores mobiliários admitido à negociação no mercado de valores mobiliários, no Brasil ou no exterior (artigo 137, inciso II, alínea “a” da Lei 6.404/76); e b) dispersão, isto é, quando menos da metade da espécie ou classe das

29 Grupo de sociedades constitui uma técnica de concentração empresarial mediante a qual duas ou

mais sociedades, sendo uma dominante e as demais dominadas, unem-se sob uma mesma direção para alcançar objetivos comuns (CARVALHOSA, 2003, v. 2, p. 887).

ações do acionista dissidente forem de titularidade do acionista controlador (artigo 137, inciso II, alínea “b” da Lei 6.404/76).

Neste sentido, afirma Modesto Carvalhosa (2003, v. 2, p. 879) que somente poderá ser negado o direito de recesso, ex vi do novo inciso II do artigo 137, se em determinada espécie ou classe de ação, se verificar conjuntamente a ocorrência da liquidez e dispersão. Assim, prossegue o citado jurista, determinadas ações de uma mesma companhia podem conferir o direito de recesso e outras não: por exemplo, na companhia X, se as ações preferenciais classe A apresentam dispersão e liquidez, pode a companhia legitimamente negar o direito de recesso; se as ações ordinárias e preferenciais classe B apresentam somente liquidez, mas não dispersão, os seus titulares têm o direito de recesso.

Observa-se que, sendo a companhia de capital fechado, ou mesmo de capital aberto, mas não tendo suas ações liquidez ou dispersão, o acionista dissidente terá sempre o direito de retirar-se da companhia, na hipótese de aprovação das referidas matérias constantes do artigo 136, incisos IV e V da Lei 6.404/76.

Outra hipótese de recesso prevista no “caput” do artigo 137 é a mudança do objeto da companhia (artigo 136, inciso VI da Lei 6.404/76). Conforme Modesto Carvalhosa (2003, v. 2, p. 855), o objeto social representa o limite da atividade societária, que não poderá ultrapassar os seus precisos termos. A definição precisa e completa do objeto social importa a limitação da área de discricionariedade dos administradores e acionistas controladores. Logo, conclui o citado jurista:

o objeto social define a espécie de empresa que será desenvolvida pela companhia, ou seja, a atividade econômica em razão da qual se constitui a sociedade e em torno da qual a vida societária realiza- se e se desenvolve.

A definição do objeto social é de extrema relevância para o sucesso ou fracasso de uma companhia, na medida em que é através de sua exploração que a sociedade irá buscar a sua finalidade última, qual seja, a geração de lucros e, conseqüentemente, dividendos para os seus acionistas. Por isso, a aprovação pela assembléia geral da alteração do objeto social gera ao acionista dissidente, independentemente da demonstração de prejuízo, o direito de retirar-se da companhia.

Entretanto, conforme Fábio Ulhoa Coelho (2002, v. 2, p. 302), não haverá direito de recesso na hipótese de mudanças realizadas no objeto social para a adequação da sociedade anônima às novas condições de concorrência, principalmente as relacionadas à evolução tecnológica ou hábitos de consumo, desde que não comprometam o objeto essencial previsto no estatuto.

A última hipótese de recesso prevista no artigo 137, acima mencionada, é a cisão da companhia (artigo 136, inciso IX da Lei 6.404/76). Entretanto, a cisão somente enseja o direito de recesso ao acionista da companhia cindida e dissidente da deliberação assemblear quando, da operação resultar: a) mudança do objeto social (artigo 137, inciso III, alínea “a” da Lei 6.404/76); b) redução do dividendo obrigatório (artigo 137, inciso III, alínea “b” da Lei 6.404/76); ou c) participação em grupo de sociedades (artigo 137, inciso III, alínea “c” da Lei 6.404/76)30.

Analisadas as hipóteses de recesso previstas no artigo 137 da Lei 6.404/76, cumpre-se verificar agora os outros artigos da referida lei que também prevêem ao acionista dissidente o direito de retirar-se da companhia.

30

Ressalte-se que, conforme observa Fábio Ulhoa Coelho (2002, v. 2, p. 302), deve-se considerar, a partir de interpretação sistemática e teleológica da lei, que, na cisão de que resulte a participação em grupo de sociedade não integrado pela companhia cindida, o acionista dissidente não terá direito de recesso, quando as ações que passar a titularizar forem facilmente negociáveis no mercado por apresentarem dispersão e liquidez (artigo 137, inciso II da Lei 6.404/76).

Benzer Belgeler