Os comentários ao livro do Gênesis feitos por Agostinho costumam ser analisados a partir das polêmicas travadas pelo mesmo com os maniqueus, seita a qual Agostinho teria se convertido e permanecido durante nove anos.13 De fato, as obras em que o autor comenta os versículos iniciais do livro do Gênesis devem ser elencados entre aqueles que o mesmo usou no combate a referida seita.14 No entanto, é preciso estabelecer de forma mais nítida o período de composição destes textos, para que seja possível compreender as motivações existenciais que norteiam os escritos hermenêuticos agostinianos.
O primeiro texto a ser analisado neste trabalho data de 389 E.C.15 e intitula-se De Genesi contra Manichaeos (Sobre o Gênesis, contra os maniqueus). Escrito três anos após a conversão de Agostinho ao cristianismo (386), o mesmo deve ser lido à luz deste evento crucial na vida do autor, bem como de seu encontro com a filosofia neoplatônica. Não é possível levar para um segundo plano o cristianismo de infância de Agostinho, cristianismo este que provoca no autor uma tensão somente resolvida com a sua conversão (ou retorno) ao cristianismo oficial na data acima citada. Mesmo durante o período em que Agostinho entrava em contato com a sabedoria dita pagã, na figura de Cícero e de sua obra Hortênsio, um saber puramente pagão era algo completamente estranho ao espírito de um jovem educado no tradicionalismo cristão. A própria visão popular de Cristo difundido no século IV evocava muito mais a imagem de um mestre do que o de um messias sofredor.16 O próprio movimento patrístico havia difundido a ideia do cristianismo como a sabedoria por excelência, capaz de suplantar todos os sistemas filosóficos erguidos pelos gregos e que estavam marcados pelas contradições entre eles acerca da verdade, conforme atesta Justino de Roma.
13 Du a teàesteàpe odoàdeà o eàa os,àdesdeàosàdeze o eàat àaosà i teàeàoito,à e adoàdeà uitasàpai es,àe aà
seduzidoàeàseduzia,àe aàe ga adoàeàe ga a a (SANTO AGOSTINHO, 1987, p. 55). Agostinho descreve o tempo deàju e tudeà ueàpassouà o oà ou i te à oà o i e toà a i ue sta.
14Além dos comentários feitos ao livro de Gênesis é possível também citar outras obras escritas no combate
antimaniqueu, tais como Sobre os Costumes da Igreja Católica e os Costumes dos Maniqueus (388), Sobre as Duas Almas Contra os Maniqueus (391/392), Contra Fortunato Maniqueu (392), Contra Admanto, Discípulo do Maniqueu (393-396), Contra as Epístolas que os Maniqueus Chamam de Fundamento (396/397), Contra Fausto Maniqueu (400), Atas com o Maniqueu Felix (404), Sobre a Natureza do Bem (405) e Contra Secundino Maniqueu (405/406). Foram adotadas as datas e as relações utilizadas por Costa (1999, p. 176-177).
15 Usa-se aqui a datação estabelecida por Peter Brown em Augustine of Hippo: A Biography (2000, p. 64), em
virtude da tabela cronológica estabelecida pelo autor permitir a comparação entre a datação da obra e eventos históricos significativos para a compreensão da jornada filosófica agostiniana, ao contrário de Costa (1999) que prefere estabelecer a datação das obras agostinianas a partir de temas abordados.
Portanto, a nossa religião mostra-se mais sublime do que todo o ensinamento humano, pela simples razão de que possuímos o Verbo inteiro, que é Cristo, manifestado por nós, tornando-se corpo, razão e alma. Com efeito, tudo o que os filósofos e legisladores disseram e encontraram de bom, foi elaborado por eles pela investigação e intuição, conforme a parte do Verbo que lhes coube. Todavia, como eles não conheceram o Verbo inteiro, que é Cristo, eles frequentemente se contradisseram uns aos outros [...] Confesso que todas as minhas orações e esforços tem por finalidade mostrar-me cristão, não porque as doutrinas de Platão sejam alheias a Cristo, mas porque não são totalmente semelhantes, como também as dos outros filósofos, os estoicos, por exemplo, poetas e historiadores. De fato, cada um falou bem, vendo o que tinha afinidade com ele, pela parte que lhe coube do Verbo seminal divino. Todavia, é evidente que aqueles que em pontos muito fundamentais se contradisseram uns aos outros, não alcançaram uma ciência infalível, nem um conhecimento irrefutável. Portanto tudo o que de bom foi dito por eles, pertence a nós, cristãos, porque nós adoramos e amamos, depois de Deus, o Verbo, que procede do mesmo Deus ingênito e inefável. (JUSTINO DE ROMA, 1995, p. 100-101,104)
Conforme a descrição feita por Justino, o cristianismo é, na verdade, a filosofia por excelência. Recusando-se a negar a validade da filosofia grega anterior a Cristo, Justino apela para a possibilidade de o cristianismo suplantar todas as correntes filosóficas, em virtude do mesmo ser capaz de unificar todos os saberes fragmentados e frequentemente contraditórios do pensamento antigo entre si. O cristianismo afigura-se assim, para um autor do segundo século, como A Sabedoria e não apenas uma sabedoria entre outras.
A Bíblia torna-se para Agostinho a fonte desta sabedoria. Educado na certeza de que bons livros são livros bem escritos, ele volta-se para as Escrituras Sagradas com o intuito de descobrir em suas páginas, ditos de forma clara, a sabedoria por ele almejada. Porém, o linguajar bíblico o deceὂciὁnaμ “τ que senti, quandὁ tὁmei nas mãὁs aquele livrὁ, nãὁ fὁi ὁ que acabo de dizer, senão que me pareceu indigno compará-lo à elegância ciceroniana. A sua simplicidade repugnava ao meu orgulho e a luz da minha inteligência não lhe penetrava no íntimὁ” (SχσTτ χύτSTIσώτ, 1λκι, ὂέ 44-45). O estilo do texto bíblico não era aquilo que Agostinho esperava de uma obra, que segundo afirmavam, era a expressão da sabedoria divina. Este fato é de crucial importância para a tese aqui desenvolvida. O texto bíblico, especialmente o Antigo Testamento, era desprovido totalmente de elegância retórica. A forma antropomórfica em que a divindade era descrita em muitas ocasiões do texto favorecia em muito uma leitura depreciativa do mesmo. Se este escrito devesse ser levado a sério por um retórico como Agostinho, deveria ser necessário existir outra maneira de lê-lo, pois a leitura
literal, desejável, e a obra não permitia possibilidade de acesso distinta, deveria ser substituída por outra, capaz de revelar a beleza espiritual escondida na mesma. Os maniqueus leram o Gênesis de forma literal, e esta é a essência das críticas feitas por Agostinho aos mesmos. A leitura literal era, como já foi apontado alhures, a leitura dos intérpretes judeus e, de certa forma, a única possível, ou no mínimo, desejável. Seria preciso suplantar esta única, ou forçosa, possibilidade de leitura. Ao aderir ao maniqueísmo e a sua interpretação dos textos bíblicos, que negava o Antigo Testamento e que colocava Cristo no papel de Sabedoria divina, cria Agostinho poder reconciliar a tensão existente entre um cristianismo de infância e uma exigência ὂessὁal de raciὁnalidadeν “χugustine was cὁnfident, that as a εanichee, he cὁuld uὂhὁld the fundamental tenet ὁf his religiὁn by reasὁn alὁne” (BROWN, 2000, p. 37). O Maniqueísmo seria o movimento racional, e ao mesmo tempo religioso, que permitiria uma leitura seletiva das Escrituras Sagradas tornando possível a eliminação de passagens cujo teor repugnava a mente inquieta do jovem retórico.17
A desilusão de Agostinho com o Maniqueísmo causada pelo contato com os céticos (SANTO AGOSTINHO, 1987, p. 86),18 a inconsistência das teses maniqueístas (p. 74-79, 83- 84) e a descoberta da filosofia neoplatônica capaz de resolver o problema acerca do significado do mal que tanto atormentava Agostinho e que foi uma das razões que o impulsionaram a seguir a senda maniqueia (p.115-125), abriram a possibilidade da reconciliação com a fé que lhe foi doutrinada desde a infância, bem como o surgimento de alternativas exegéticas para o texto bíblico.
O encontro em Milão, em 385, com o bispo Ambrósio foi também decisivo para Agostinho. Embora ainda ligado aos maniqueístas na busca por uma vaga para ensinar retórica em Milão,19 Agostinho há muito havia abandonado a crença nas teses maniqueias. No jogo político existente em Milão, Agostinho havia sido o escolhido, como retórico, para ser o adversário de Ambrósio. Como alguém que deseja conhecer o oponente antes da batalha, Agostinho escuta os sermões do mesmo, e neste processo, de adversário torna-se catecúmeno do catolicismo. Mais importante ainda: neste processo de conversão, encontra o discurso ideal para reconciliar a leitura do texto do Antigo Testamento com as exigências racionais retóricas e filosóficas pertinentes a alguém mediamente educado nos clássicos latinos.
17 A conversão de Agostinho ao Maniqueísmo pode ser lido nas Confissões (SANTO AGOSTINHO, 1987, p.45-48). 18Estesà ti osàs oà ha adosàpo àágosti hoàdeà a ad i os ,àdesig a doàassi àaàpe spe ti aà ti aàassu idaà
pela Academia Platônica devido à influência recebida do ceticismo em fins do século IV. A.C.
19 [...]àeuàp p ioàsoli iteiàesseàe p egoàpo ài te dioàdestesà es osàa igos,àe iagadosàpelasà aidadesà
A descrição do encontro com o bispo de Milão é elucidativa. Agostinho é levado a examinar as qualidades de Ambrósio como orador. No entanto, ele é surpreendido pela forma como o mesmo realiza a exegese do Antigo Testamento, exegese esta que torna o texto bíblico defensável diante das críticas dos maniqueus.20 Qual a alternativa proposta por Ambrósio? A negação da leitura literal e sua substituição pela leitura alegórica, comum na escola patrística de Alexandria, porém incomum entre os latinos.
É por intermédio do neoplatonismo latino e pelo uso da alegoria como método exegético utilizado por Ambrósio (que também utilizava elementos neoplatônicos em suas leituras alegóricas), que Agostinho, além de descobrir a noção de substância espiritual atribuído a Deus, redescobre o valor da Bíblia, tanto como literatura por excelência desprovida de erros grosseiros, como fundamento ontológico da verdade.
Alegrava-me também de ver que já me não propunham a leitura antiga da Lei e dos Profetas, com a mesma panorâmica em que, tempos antes, me pareciam absurdas tais doutrinas, quando arguia os vossos santos, na suposição de que os interpretavam como eu julgava, quando na verdade não os interpretavam assim. Cheio de gozo, ouvia muitas vezes a Ambrósio dizer nos sermões ao povo, como que a recomendar, diligentemente, esta verdade: “a letra mata e ὁ esὂíritὁ vivifica”έ Remὁvidὁ assim ὁ místicὁ véu, desvendou-me espiritualmente passagens que, à letra, pareciam ensinar o erro [...] A veracidade bíblica parecia-me tanto mais venerável e digna de fé sacrossanta quanto era claro que, possuindo a Escritura a qualidade de ser facilmente lida por todos os homens, reservava a dignidade dos seus mistérios para uma percepção mais profunda. (SANTO AGOSTINHO, 1987, p. 92, 94)
20
Chegando a Milão, fui visitar o Bispo Ambrósio [...] Este homem de Deus recebeu-me paternalmente e apreciou a minha vida bastante episcopalmente [...] Ardorosamente o ouvia quando pregava ao povo, não com o espírito que convinha, mas como que a sondar a sua eloquência, para ver se correspondia à fama, ou se realmente se exagerava ou diminuía a sua reputação oratória [...] Não me esforçava por aprender o que o bispo dizia, mas só reparava no modo como ele falava [...] Contudo, junto com as palavras que me deleitavam, iam-se também infiltrando no meu espirito os ensinamentos que desprezava. Já não os podia discernir uns dos outros. Enquanto abria o coração para receber as palavras eloquentes, entravam também de mistura, pouco a pouco, as verdades que ele pregava. Logo comecei a notar que estas se podiam defender. Já não julgava temerárias as afirmações da fé católica, que eu supunha nada poder retorquir contra os ataques dos maniqueus. Isto consegui-o eu por ouvir muitíssimas vezes a interpretação de textos enigmáticos do Velho Testamento, que, tomados no sentido literal, me davam a morte. Expostos assim, segundo o sentido alegórico, muitíssimos dos textos daqueles livros, já repreendia meu desespero, que me levava a crer na impossibilidade de resistir àqueles que aborreciam e troçavam da lei e dos profetas (SANTO AGOSTINHO, 1987, p. 85).
Está dada, desta forma, a alternativa para a leitura bíblica. A alegoria seria a leitura pelo espírito, em que as verdades místicas das Escrituras seriam plenamente entendidas pelo fiel, sem o risco da leitura literal, da letra que “mata” ὁ crente que se aὂrὁxima da mesmaέ χ leitura literal utilizada pelos maniqueus era uma clara indução ao erro. As verdades limpas e belas das Escrituras estavam vedadas a este olhar. O mistério é revelado na alegoria. O texto bíblico, outrora visto como grosseiro, torna-se agora venerável. Este é o enfoque a ser dado doravante na interpretação do texto sagrado.
Em 389, Agostinho escreve seu primeiro tratado hermenêutico. É o texto Sobre o Gênesis, Contra os Maniqueus. A motivação bem como a data de tal empreendimento é dada pelo próprio autor nas suas Retratações.
Une fois établi en χfrique, j’ai écrit deux livres Sur la Genèse contre les
Manichéens. Déjà, dans les livres précédents, toutes mes discussions pour
montrer que Dieu, souverainement bon et immutable, est le créateur de tὁutes les natures changeantes et qu’aucune nature ὁu substance qui sὁit le mal, en tant qu’elle est nature ὁu substance, avaient été, dans mὁn intentiὁn, dirigées contre les manichéens. Pourtant, ces deux livres-ici ont été très exὂlicitement ὂubliés cὁntre eux afin de défendre l’ancienne lὁi qu’ils attaquent avec une véhémence passionnée dans leur folle erreur. (SAINT AUGUSTIN, 1950, p. 327)
O local da redação dos dois livros que compõem esta obra foi à África, o que aponta para o ano de 388 ou 389 (esta último o mais aceito pelos especialistas). A motivação principal foi defender a lei antiga, leia-se o Antigo Testamento, dos ataques ferrenhos dirigidos pelos maniqueus ao texto bíblico. Neste momento Agostinho silencia sobre o estilo exegético tanto dele como de seus adversários.21 O texto já não pertence ao período de retiro filosófico de Cassicíaco,22 mas de sua volta à África, para Cartago e Tagaste, e é anterior a sua ordenação ao sacerdócio. Nota-se, porém, o tom apologético cristão no mesmo, embora marcado pela
21
Futuramente Agostinho mudará radicalmente de postura, passando de uma linguagem alegórica para uma linguagem literal. Isto será facilmente perceptível no comentário feito por Agostinho denominado Comentário Literal ao Gênesis (414).
22 O período de recolhimento de Agostinho e um grupo de amigos em Cassicíaco, a partir de 386, constitui-se a
fase em que foram redigidos os primeiros textos de Agostinho como filósofo cristão. Contra os Academicos, De Beata Vita, De Ordine e Soliloquia são exemplos de obras deste período. Embora de teor mais filosófico do que teológico, já se percebe a visão cristã de mundo como o paradigma filosófico de Agostinho. O ócio filosófico deste retiro espiritual era o Christianae Vitae Otium, o ócio da vida cristã. Não tardará para que Agostinho direcione sua verve filosófica contra os adversários da igreja católica, como será feito com as obras De moribus ecclesiae catholicae et de moribus Manichaeorum (fins de 386 e início de 387) e De Genesi contra Manichaeos.
filosofia neoplatônica. Agostinho não é mais um intelectual errante, que vaga entre maniqueístas e neoplatônicos e que flerta com os céticos; agora ele é um homem que encontra o seu caminho junto à igreja de sua infância, igreja esta cuja verdade é preciso defender. Esta defesa começa com uma leitura alegórica do texto bíblico, de forma mais específica, com o livro de Gênesis.
χ ἐíblia era cὁnsiderada a “Palavra de Deus” não apenas para Agostinho, mas para o mundo cristão como um todo. A leitura alegórica do texto subentende que o processo de comunicação entre Deus e a humanidade não era dada direta, mas de uma maneira velada, escondida, revelada por trás da letra do texto. É possível dizer que a “Palavra de Deus” assume a forma de um complexo emaranhado de sinais que lidos de forma literal mostravam uma realidade tosca e incompreensível, mas que apreendidos de forma correta, isto é, alegoricamente, apontavam para realidades mais profundas desveladas no Novo Testamento. Dito de outra forma, o aspecto bizarro e irracional em muitas passagens do Antigo Testamento apontava para verdades no Novo Testamento, mas este apontar só seria possível mediante a leitura alegórica ou espiritual destas passagens.
Os que leem a Escritura inconsideradamente enganam-se com as múltiplas obscuridades e ambiguidades tomando um sentido por outro. Nem chegam a encontrar, em algumas passagens, alguma interpretação. E assim, projetam sobre os textos obscuros as mais diversas trevas. Não duvido de que a obscuridade dos Livros Santos seja por disposição particular da Providência Divina, para vencer o orgulho do homem pelo esforço e para premunir seu espírito do fastio, que não poucas vezes sobrevém aos que trabalham com demasiada facilidade. (SANTO AGOSTINHO, 1991, p. 97)
O exegeta era levado, de forma trabalhosa, a perceber a vontade divina escondida no texto e deste modo a Providência Divina venceria o orgulho do exegeta, que ao contrário tenderia a querer interpretar a vontade divina contida no texto sem nenhum esforço, interpretando-a de forma literal e, portanto, pobre, não percebendo as riquezas que estão sendo reveladas e ao mesmo tempo escondidas por trás do aspecto literal do texto.
As críticas feitas pelos maniqueus podem ser perfeitamente reproduzidas a partir do próprio texto agostiniano. O autor faz questão de repeti-lasμ “Defesa cὁntra ὁs ὁὂὁsitὁres que ὂerguntamμ ‘ ὁ que fazia Deus antes da criaçãὁ dὁ mundὁ, e ὂὁr que de reὂente lhe aὂrὁuve
criar ὁ mundὁς’ Costumam os maniqueus criticar desta maneira o primeiro livro do Antigo Testamentὁ [έέέ]” (SANTO AGOSTINHO, 2005a, p. 503). A ideia é demonstrar a fragilidade da pergunta maniqueísta que só produz resultados quando direcionado a fiéis sem o devido preparo exegéticὁ, ὁu seja, é uma crítica textual que tem cὁmὁ intençãὁ “zὁmbar de nὁssὁs irmãos débeis e infantis e enganá-lὁs, nãὁ encὁntrandὁ estes cὁmὁ lhes resὂὁnder [έέέ]”έ (SANTO AGOSTINHO, 2005a, p. 501). A pergunta é direcionada a um entendimento literal do texto, e é a este tipo de postura que Agostinho é obrigado a responder.
A estratégia hermenêutica agostiniana para rebater as insinuações maniqueístas ao texto do Antigo Testamento na obra Sobre o Gênesis, contra os maniqueus é simples. Ela é executada a partir de dois movimentos que podem ser identificados como o processo de desqualificação das proposições dos adversários e o estabelecimento das suas próprias teses. De certa forma, neste primeiro texto hermenêutico sobre o Gênesis, nota-se uma abordagem que oscila entre a crítica retórica na análise da descrição cosmológica (Gênesis, 1:1-2:3) e uma reflexão mais alegórica, ao abordar a questão antropológica que se encontra em torno do relato da criação do homem e sua queda (Gênesis, 2:4-3:24). Em virtude da especificidade deste trabalho, serão analisados apenas alguns trechos relacionados com a interpretação cosmológica e antropológica dos primeiros capítulos do livro do Gênesis; tais trechos serão utilizados como exemplos do uso hermenêutico agostiniano, mesmo implicando deixar de fora parte considerável das análises de Agostinho contidas nestas passagens hermenêuticas.
A pergunta maniqueísta acerca da afirmação de que em qual princípio Deus havia criado o céu e a terra (Gênesis, 1:1) e qual teria sido o elemento, se o houve, que motivou a Deidade a sair de um estado de inércia absoluta para criar algo, torna-se o primeiro elemento a ser desqualificado por Agostinho. O princípio de que fala o texto de Gênesis não pode ser visto como o princípio do tempo, mas em Cristo, o logos divino.
Respondemos-lhes que Deus fez o céu e a terra no princípio, não no princípio do tempo, mas em Cristo, visto que era Verbo junto ao Pai, pelo qual e no qual tudo foi feito [...] Ainda que acreditemos que Deus fez o céu e a terra no princípio do tempo, devemos, por outro lado, entender que antes do princípio do tempo não havia tempo. Por isso não podemos dizer que havia algum tempo, quando Deus nada ainda havia feito. (SANTO AGOSTINHO, 2005a, p. 503)
É preciso harmonizar o Novo Testamento com o Antigo Testamento. Agostinho desloca o significadὁ dὁ ὂrólὁgὁ jὁaninὁ (“σὁ ὂrincíὂiὁ era ὁ Verbὁ, e ὁ Verbὁ estava cὁm Deus, e ὁ Verbὁ era Deus”, Jὁãὁ 1μ1) ὂara ὁ Gênesis, 1μ1 (“σὁ ὂrincíὂiὁ criὁu Deus ὁs céus e a terra”), harmonizando textos que a rigor, ainda que se refiram aos mesmos eventos, possuem significações distintas. O sentido judaico da criação ex nihilo é agora substituído por um sentido de criação mediatizada, onde Deus cria o universo mediante o seu Verbo, o Cristo. A influência neoplatônica está presente. O tempo, associado ao mundo criado é deixado em suspenso, visto que a relação de Deus com o seu Verbo é dissociado de qualquer relação temporal, tornando então nítido a associação do tempo com o mundo criado, e negando qualquer possibilidade de falar-se em um “antes” da criaçãὁέ όalar de um temὂὁ anteriὁr aὁ universo criado soa então como ambiguidade da linguagem, nascida da ignorância maniqueia: não existe um tempo anterior ao mundo criado. E neste sentido é absurda a pergunta acerca do que fazia Deus “antes” de criar ὁ mundὁέ