2.2. Hizmet Baskın Mantığın Temel BileĢenleri
2.2.4. Değer
TENDO SUSCITADO GRANDE entusiasmo no momento da adopção, a resolução 1514 (XV) rapidamente ganharia um estatuto e uma autoridade difíceis de ignorar, tornando-se na linguagem que passaria a ser utilizada para desafiar as relações de soberania subjacentes à dominação colonial portuguesa510. Os responsáveis portugueses, receosos da vulnerabilidade do país, anteciparam, com a XV AG ainda em preparação, que poderiam a qualquer momento se encontrar numa situação susceptível de servir para a convocação de uma sessão do CS511. Distúrbios graves nas colónias, mesmo que provocados do exterior, poderiam, como pensavam, justificar a apresentação de uma queixa com o argumento de que estariam em causa a paz, a segurança internacional e o respeito pelos direitos humanos512. Estando relacionadas, directa ou indirectamente, com a questão colonial portuguesa, uma sucessão de acontecimentos, a começar pela campanha presidencial de 1958, produziria em 1961 a fragilização da posição internacional do Estado Novo513. A candidatura de Humberto Delegado a Presidente da República chamaria a atenção dos meios de comunicação internacionais para as actividades da oposição, contribuindo para a degradação da imagem do regime. Com o assalto por Henrique Galvão (a 22 de Janeiro de 1961) do paquete Santa Maria, entendido como uma operação política, ficaria demonstrada a inexistência de um apoio internacional activo a Portugal514.
Como Galvão tinha a intenção de desembarcar no Norte de Angola, onde pretenderia instalar um governo provisório, jornalistas estrangeiros, que aguardavam a sua chegada, transmitiriam os acontecimentos de 4 de Fevereiro em Luanda, considerados como o início oficial da guerra colonial. Pretendendo, tanto quanto se
510 Cf. LUARD, Evan – Ob. Cit. Vol. II. p. 196
511 Cf. AHD, Fundo POI, Mç. 148, Proc. XH-1, Ano de 1960-1961, Assembleia-Geral, Vol. XIII,
Telegrama da Missão de Portugal na ONU para o MNE, datado de 28 de Julho de 1960, p. 1-3
512 Cf. Ibidem
513 Cf. OLIVEIRA, Pedro Aires – Os Despojos da Aliança…p. 219 514 Cf. Idem. p. 223-224
120
sabe, a libertação de presos políticos, os assaltantes à Casa de Reclusão, ao quartel da Polícia de Segurança Pública, às Cadeias Civis e à Emissora Nacional teriam o propósito deliberado de atrair a publicidade internacional515. Semanas antes (em Janeiro), trabalhadores envolvidos na produção de algodão na Baixa do Cassange, província de Malanje, tinham-se revoltado, sem que tivesse havido uma grande difusão do acontecimento a nível internacional516. Com as perseguições e as matanças, que serviriam de represália contra os assaltos, os desenvolvimentos em Luanda atrairiam, por algum tempo, a atenção internacional para a questão colonial portuguesa517. Apresentando semelhanças com as fases iniciais das insurreições nacionalistas em Madagáscar, Quénia ou no Congo (Leopoldville), a guerra em Angola seria entendida como um exemplo evidente do “vento de mudança” que estaria a fazer-se sentir no continente africano518. Dificuldades em estabelecer a coesão entre o conjunto diverso de activistas determinariam porém que, em consequência de disputas ideológicas, raciais, étnicas e de personalidade, as operações de guerrilha nos primeiros anos se circunscrevessem praticamente ao Noroeste do território519.
Evocando os direitos humanos, que como referido tinham sido irremediavelmente associados à ideia de autodeterminação, a Libéria (numa carta de 20 de Fevereiro) entenderia fazer a solicitação de uma reunião de emergência do CS, onde as discussões assumem maior projecção internacional, para examinar a crise em Angola520. Sem atender ao conselho da França, que com a experiência adquirida nos debates sobre a guerra na Argélia entenderia que não se deveria contrariar a inscrição da questão na agenda, o governo português (a 7 de Março) apresentaria um protesto contra o pedido por permitir a internacionalização de um problema que considerava como exclusivamente da sua competência521. Com a ajuda do Brasil, Espanha e França, o governo português tentaria assegurar que a proposta fosse submetida a votação, esperando reunir os votos necessários para impedir que a situação em Angola fosse
515 Cf. PÉLISSIER, René; WHEELER, Douglas - História de Angola. Lisboa: Tinta da China, 2009.
p. 253
516 Sobre a revolta da Baixa do Cassange vide Idem. p. 250 517 Cf. OLIVEIRA, Pedro Aires – Os Despojos da Aliança…p. 226
518 Cf. WEIGERT, Stephen L. - Angola: A Modern Military History, 1961-2002. Londres:
Palgrave, 2011. p. 1
519 Cf. Idem. p. 21
520 Cf. Nations Unies – A/4867. Supplement nº 2. Rapport du Conseil de Securite a l’Assemblee
Generale. 16 juillet 1960 - 15 juillet 1961. Nova Iorque: s.n., 1961. p. 74
521 Cf. United Nations – Security Council Official Records. Sixteenth Year. Supplement for January,
121
debatida522. Por ter sido decidido, seguindo a posição norte-americana, continuar a prática de não impedir a inscrição de questões na agenda, a decisão final determinaria, sem objecções, a discussão dos acontecimentos523. Com uma agenda determinada por uma avaliação empírica das vantagens que podem resultar da análise de um determinado problema, a decisão do Conselho resultaria na internacionalização definitiva da questão colonial portuguesa, que passaria a ser discutida sistematicamente pelas NU524. Os debates sobre as colónias portuguesas, desde a inscrição da situação de Angola na ordem do dia, tornar-se-iam em eventos anuais, resultando numa campanha internacional continuada contra o colonialismo português.
Num momento marcado pela crise do Congo, no debate no CS (realizado entre 10-15 de Março) prevaleceriam os aspectos jurídicos e político-sociais, com o tom dos intervenientes a ser de apelo, mais do que de confrontação525. A pretexto de que os relatos indicavam o agravamento da situação, 39 países (em carta de 20 de Março) entenderiam convocar a AG, que tinha suspendido a primeira parte da XV sessão, para debater a sublevação em Angola526. Tendo o poder de discussão da Assembleia, que era virtualmente ilimitado, se transformado num instrumento para o estudo de temas com importância política para os afro-asiáticos, a questão seria adiada, por a crise resultante da tentativa norte-americana de invasão de Cuba ter relegado a situação em Angola para o final da sessão527. A discussão decorreria sem chamar muita atenção, num auditório onde metade das delegações não estariam representadas e com o público praticamente ausente528. Nas três reuniões plenárias (realizadas a 20 de Abril), o ambiente revelar-se- ia porém francamente mais hostil e desfavorável a Portugal, com o tom a ser sobretudo
522 As questões eram por hábito inscritas na agenda sem votação prévia, mas como esse procedimento não
convinha a Portugal tentar-se-ia forçar o voto. Cf. AHD, Fundo POI, Mç. 163, Proc. XM-1, Ano de 1961, Política das NU em Relação a África, Questão de Angola, Vol. I, Telegrama do MNE para a Embaixada de Portugal em Londres, datado de 20 de Fevereiro de 1961, p. 1
523 Portugal atribuiu a aceitação da proposta à China e ao Equador, que cedendo a pressões e a hesitações,
não se manifestaram contra a pretensão da Libéria. Cf. AHD, Fundo POI, Mç. 163, Proc. XM-1, Ano de 1961, Política das NU em Relação a África, Questão de Angola, Vol. I, Telegrama do MNE para a embaixada de Portugal em Washington, datado de 13 de Março de 1961, p. 1-2
524 Para mais informações sobre a agenda do CS vide BOSCO, David L. – Ob. Cit. p. 103
525 Cf. AHD, Fundo POI, Mç. 163, Proc. XM-1, Ano de 1961, Política das NU em Relação a África,
Questão de Angola, Vol. II, Telegrama da Missão de Portugal na ONU para o MNE, datado de 21 de Abril de 1961, p. 1
526 Cf. Nations Unies – A/4800. Supplement nº 1. Rapport Annuel du Secretaire General sur l’Activite de
l’Organisation. 16 juin 1960-15 juin 1961. Nova Iorque: s.n., 1961. p. 87
527 Cf. ZAUM, Dominik – Ob. Cit.p. 155
528 Cf. AHD, Fundo POI, Mç. 163, Proc. XM-1, Ano de 1961, Política das NU em Relação a África,
Questão de Angola, Vol. II, Telegrama da Missão de Portugal na ONU para o MNE, datado de 21 de Abril de 1961, p. 1
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de ameaça e exigência. Por se entender que os massacres continuavam e que estaria em curso “…The Most Ruthless Suppression of Human Rights”, representantes afro- asiáticos, em conjunto com a Jugoslávia, pediriam (a 26 de Maio) que o CS se reunisse novamente para examinar a situação em Angola enquanto questão urgente529. De resultados imprevisíveis, a sessão do Conselho (realizada entre 6-9 de Junho) faria a demonstração de que os argumentos anticolonialistas tinham perdido toda a moderação. Com posições e motivações específicas, as intervenções dos estados membros sobre Angola teriam um carácter persuasivo, destinado a justificar a posição de cada país perante o público nacional e internacional e a convencer os outros a seguirem a mesma orientação530. Grupos distintos, que tendiam a utilizar argumentos similares, a basearem as suas afirmações em apelos idênticos e a se apoiarem mutuamente, resultariam da identificação dos padrões da retórica que modelaram os discursos531. A análise de conteúdo dos debates demonstra a existência de uma maioria anticolonialista significativa, em que, apesar das divergências e da existência de subgrupos, os países afro-asiáticos, socialistas e latino-americanos fariam causa comum contra Portugal532. Com frequência, os socialistas, em particular a União Soviética, demonstrariam, como na primeira reunião do CS, ser os defensores de um maior radicalismo. Tendo nas preocupações com os problemas da descolonização um factor de unidade, o grupo afro- asiático acabaria no entanto por rapidamente determinar a orientação dos debates sobre Angola. Demonstrando a vontade em fazer aplicar o novo instrumento legal da descolonização, os afro-asiáticos passariam, desde o primeiro momento, a se referir não ao “direito à autodeterminação” mas ao “direito à autodeterminação e à independência”. Com a referência à autodeterminação acompanhada da independência, parecem ter querido significar, o que de certa forma contrariava a resolução 1541 (XV), que o exercício da autodeterminação para Angola não poderia em absoluto excluir a independência533.
Com os debates sobre a situação em Angola, os países afro-asiáticos tentariam maximizar a questão, inserindo-a num âmbito mais alargado, como uma possível
529 Cf. Nations Unies – A/4867. Supplement nº 2. Rapport du Conseil de Securite a l’Assemblee
Generale...p. 83
530 Cf. PATIL, Vrushali – Ob. Cit. p. 35 531 Cf. Idem. p. 36-37
532 Cf. BELLER, Denis Charles – Ob. Cit. p. XII
533 Cf. AHD, Fundo POI, Mç. 699, Proc. Poi 4, Ano de 1974, Colonialismo, Generalidades, Estudo sobre
“As Resoluções dos Órgãos da ONU e o Problema dos Territórios Ultramarinos Portugueses: Uma Tentativa de Interpretação”, elaborado por José Maria Aleixo e datado de Junho de 1974, p. 20
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ameaça à paz e à segurança internacionais (o que a ser aceite poderia ter implicações com maiores consequências como a adopção de sanções)534. Estando alguns dos seus membros envolvidos no apoio material a movimentos nacionalistas das colónias portuguesas, os afro-asiáticos, em demonstração das razões que justificariam os debates, tentariam estabelecer uma relação entre os distúrbios em Angola e a recusa portuguesa em implementar a autodeterminação. Entendendo-se a situação angolana como significando um desrespeito pela Carta e uma clara violação dos direitos humanos, seriam utilizadas, para descrever os acontecimentos, expressões como “genocídio”, “carnificina”, “matanças”, “repressão sistemática” ou “regime de terror”535. Os argumentos portugueses seriam contestados com grande detalhe, ficando demonstrado que geograficamente, historicamente, racialmente e em qualquer outro sentido Angola representaria um exemplo clássico de colonialismo536. Por terem sido referidas com grande insistência, a falta de liberdades e direitos, as desigualdades e injustiças e a prática do trabalho forçado seriam apresentadas como evidências do paradoxo que constituiria o sistema colonial português537. Para servir de enquadramento, algumas delegações entenderiam chamar a atenção para as restantes colónias portuguesas, considerando que a situação seria sensivelmente a mesma em todos os territórios. Uma atenção particular seria atribuída à Guiné e a Goa (por iniciativa da União Indiana), apresentadas como exemplos ilustrativos da natureza da dominação colonial portuguesa, da intransigência e da brutalidade da repressão dos sentimentos nacionalistas538.
A URSS seguindo a prática (também empregue pelos EUA) de utilizar as NU como fórum de propaganda contra os opositores, fazendo o historial dos acontecimentos e insistindo na aplicação da Declaração, introduziria, como de resto alguns afro- asiáticos o fizeram, elementos da Guerra Fria nos debates sobre Angola, considerando os membros da NATO como os principais responsáveis pelo conflito e pela exploração
534 Cf. Nations Unies – A/4867. Supplement nº 2. Rapport du Conseil de Securite a l’Assemblee
Generale...p. 76
535 Na AG foram lidas mensagens da Aliança dos Emigrantes do Zombo (ALIAZO), do Movimento para
a Libertação do Enclave de Cabinda (MLEC) e da UPA, que denunciaram a natureza sangrenta dos acontecimentos em Angola, a existência de mortos e feridos, a fuga das populações e a prática de
massacres em Cabinda. Cf. Nations Unies – A/PV.990. Assemblée Générale. Quinzième Session, 990e Séance Pléniére. Jeudi 20 Avril 1961, à 10h30. Nova Iorque: s.n., 1961. p. 364-367, 370-371
536 Cf. BELLER, Denis Charles – Ob. Cit. p. 94-95
537 Cf. Nations Unies – A/PV.992. Assemblée Générale. Quinzième Session, 992e Séance Pléniére. Jeudi
20 Avril 1961, à 20h30. Nova Iorque: s.n., 1961. p. 395
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económica do território539. Tendo considerado de início a descolonização como periférica na rivalidade bipolar, as superpotências estavam envolvidas numa política mais activista de intervenção no Sul global, num período em que a Guerra Fria desempenharia um papel crescente na independência dos povos colonizados540. Na espectativa de que os seus modelos económicos servissem de orientação para os descolonizados, a URSS e os EUA aumentariam a assistência económica e militar aos países do Sul global, num esforço para influenciar as crenças e a forma de pensar dos novos estados. A Guerra Fria, entendida como um confronto ideológico que estabelecia uma determinada interpretação do mundo, acabaria por tornar os conflitos em locais como o Congo ou o Vietname no centro da competição entre as superpotências541. Cada um dos adversários abordaria o fenómeno da descolonização segundo modelos hegemónicos e universalistas de mudança social, pretendendo nos inícios da década de 1960, com algum optimismo, que seria uma oportunidade para transformar o futuro dos descolonizados542. Entendendo a URSS que a descolonização poderia criar um momento de transição para o socialismo, os EUA demonstrariam temer que os soviéticos aproveitassem o colapso dos impérios europeus para, explorando as condições de pobreza e instabilidade, subverter os novos estados543.
Muito em virtude do contexto da Guerra Fria e da crescente influência soviética em África, os EUA – que, mesmo favorecendo o anti-colonialismo, tinham uma concepção racializada dos povos coloniais, considerando-os atrasados - adoptariam, com John Kennedy, a autodeterminação como fundamento da política externa norte- americana544. Numa das raras ocasiões em que estariam de acordo com a URSS nas NU, os EUA, ainda que com diferenças assinaláveis quanto à intensidade com que condenariam o comportamento português, concordariam no essencial com a maioria, reconhecendo a necessidade de aceleração da evolução de Angola para a autodeterminação. Tendo notificado o governo português de que a continuação da política que vinha seguindo, impedindo a emancipação das colónias, levaria à retirada
539 Cf. Nations Unies – A/PV.991. Assemblée Générale. Quinzième Session, 991e Séance Pléniére. Jeudi
20 Avril 1961, à 15 heures. Nova Iorque: s.n., 1961. p. 386
540 Cf. BRADLEY, Mark Philip – Ob. Cit. p. 477
541 Cf. LATHAM, Michael E. – «The Cold War in the Third World, 1963-1975» In The Cambridge
History of the Cold War. Crises and Détente. LEFFLER, Melvyn P.; WESTAD, Odd Arne (Ed.). Vol. II. Reino Unido: Cambridge University Press, 2010. p. 259
542 Cf. Ibidem 543 Cf. Ibidem.
125
do apoio norte-americano na ONU, aconselhariam Portugal a cooperar com a Organização, lançando um apelo às partes para que renunciassem à violência545. Sentindo que estava em curso um enfraquecimento da legitimação da dominação colonial portuguesa, com recurso a démarches bilaterais, tentariam convencer Portugal a alterar a posição sobre as colónias546. Talvez por não ter obtido a colaboração da Grã- Bretanha e da França para as suas iniciativas, os EUA acabariam por revelar não ter uma orientação clara, existindo divergentes na administração Kennedy entre tendências europeístas e africanistas quanto à política a seguir em relação a Portugal nas NU547. Envolvendo-se no apoio financeiro à UPA e suspendendo nos meses seguintes a venda de armamento a Portugal, para impedir que fosse usado em Angola, os norte-americanos demonstrariam no entanto na reunião do CS em Junho, sem deixar de criticar a política portuguesa, uma maior cautela nas suas afirmações548.
Considerando que as pressões não conduziriam a mais do que sucessivos abandonos de princípios, sem resultados práticos, Portugal entenderia, com o início da guerra de Angola, tornar a manutenção dos territórios coloniais no elemento principal da sua política externa. A acção dos anticolonialistas seria interpretada, conforme uma visão que considerava o Ocidente como superior ao resto do mundo, como resultante de concepções erradas, de expressões de sentimentos anti-ocidentais ou da decadência das NU549. Por o conflito ter suscitado dúvidas em alguns sectores do governo português, o que estaria na origem de uma tentativa de golpe de Estado, uma remodelação governamental conduziria à nomeação, para o MNE e o Ministério do Ultramar, de Franco Nogueira e de Adriano Moreira, que tinham alguma experiência sobre as NU550.
545 Cf. Nations Unies – A/4867. Supplement nº 2. Rapport du Conseil de Securite a l’Assemblee
Generale...p. 78
546 A propósito da reunião da AG, o embaixador dos EUA em Portugal, Charles Elbrick, tentou, a 24 de
Março, por instruções de Washington, persuadir o governo português a declarar a disponibilidade em cooperar com a ONU, através do envio de informações sobre as colónias. Cf. RODRIGUES, Luís Nuno – «Os Estados Unidos e a Questão Colonial Portuguesa na ONU (1961-1963)»…p. 70
547 Cf. SCHNEIDMAN, Witney W. – Ob. Cit. p. 54-58; Cf. RODRIGUES, Luís Nuno – Salazar e
Kennedy: A Crise de uma Aliança. p.76-77
548 Os EUA encontraram indícios positivos na declaração de António Salazar de 31 de Março, que
anunciava a intenção de introduzir reformas políticas, económicas e sociais nas colónias portuguesas. Ao pedirem que fosse dado a Portugal algum tempo para implementar as medidas anunciadas, os norte- americanos indicaram que o CS poderia desempenhar um papel útil, criando as condições para que o programa de reformas fosse adoptado com a máxima eficácia. Cf. Nations Unies – A/4867. Supplement nº 2. Rapport du Conseil de Securite a l’Assemblee Generale...p. 88
549 Cf. REIS, Bruno Cardoso – Ob. Cit. p. 275
550 Com a nomeação de Franco Nogueira para o MNE foi adoptada uma nova estratégia, que consistiu na
escolha de alguns africanos, que, fazendo-se acompanhar de informações sobre a situação em Angola, seriam enviados a Nova Iorque para ajudar na preparação da defesa portuguesa. Cf. AHD, Fundo POI,
126
Estando os dois países ibéricos a seguir caminhos diferentes quanto às questões coloniais, a posição portuguesa ficaria mais comprometida por a Espanha ter-se tornado membro do Comité de Informações sobre os Territórios Não Autónomos551. Sem reconhecer explicitamente que administrava territórios não autónomos, a Espanha conseguiria com a sua atitude ganhar alguma vantagem política nas NU, que acabaria por ser utilizada para ajudar Portugal, embora houvessem divergências no governo espanhol quanto a esse apoio552. Portugal estaria representado somente nas reuniões no CS, recusando-se - à semelhança da estratégia adoptada pela França na questão da Argélia e pela África do Sul quanto ao Apartheid - a participar na discussão na AG553. O governo português não se mostraria disponível para fornecer muitos detalhes sobre a situação angolana, encontrando no aspecto jurídico os argumentos para considerar os debates ilegais554. Por se entender que não estava em causa um diferendo com um outro Estado, mas uma situação de manutenção da ordem pública, se invocaria o Art.º 2, § 7º, da Carta, que proibia a intervenção em questões que relevassem da jurisdição interna dos membros555.
Os distúrbios em Angola seriam qualificados como obra de alguns “vadios” e de “homens de mão”, sem origem angolana, que não representando a população tinham
Mç. 163, Proc. XM-1, Ano de 1961, Política das NU em Relação a África, Questão de Angola, Vol. I, Carta do Director-Geral do MNE, Franco Nogueira, ao Director do Gabinete dos Negócios Políticos do Ministério do Ultramar, p. 2; Cf. AHD, Fundo POI, Mç. 164, Proc. XM-1, Ano de 1961, Política das NU em Relação a África, Questão de Angola, Vol. III, Telegrama do MNE para a Missão de Portugal na ONU, datado de 31 de Maio de 1961, p. 2
551 Cf. TÍSCAR SANTIAGO, María José – Ob. Cit. p. 85 552 Cf. Idem. p. 81-82
553 Portugal esteve presente na sessão antes de ter sido abordada a inscrição da questão de Angola na
ordem do dia da AG. Fazendo uma declaração em que protestou que a questão tinha sido debatida no CS, o representante português retirou-se de seguida da sala das sessões, recusando-se a participar no debate. Cf. Nations Unies – A/PV.966. Assemblée Générale. Quinzième Session, 966e Séance Pléniére. Jeudi
23 Mars 1961, à 15 heures. Nova Iorque: s.n., 1961. p. 43. Segundo um apontamento de Franco Nogueira, o abandono da sala das sessões por Portugal poderia ter um efeito psicológico favorável em