No início de nossa pesquisa, propusemo-nos analisar os textos produzidos por alunos do ensino médio no gênero crônica. Pretendíamos observar como eles estavam escrevendo, como planificavam seus textos, que características do gênero textual explorado em sala apareceriam nesses textos.
Após a análise, pudemos perceber que, em relação à planificação textual, a maioria dos textos se organiza através de um mundo discursivo do narrar, para ser mais específico, da narração. Em quase todos, esse é o tipo de discurso principal, no qual se encaixam alguns segmentos do discurso interativo e, sobretudo, do
discurso interativo relatado.
Constatamos, também, que a seqüência narrativa é predominante nos textos analisados. Outras seqüências lingüísticas se fazem notar, encaixadas na principal, como a descritiva e a dialogal. Em alguns textos, foram usadas, também,
seqüências argumentativas simples, quando o agente produtor optou pelo
comentário, pela exposição de seu ponto de vista em relação a algum problema social ou algum tema polêmico, como em “Conflitos em Natal” e “A noia da planta verde”.
No que se refere aos mecanismos de textualização, encontram-se alguns problemas de coesão textual. Além disso, muitas inadequações lingüístico-textuais foram detectadas na produção escrita dos alunos. Vale salientar que a seqüência didática posta em prática pela professora foi encerrada com a fase de produção textual em sua primeira versão. Não houve, portanto, revisão nem reescrita desses textos.
Pelo que pudemos observar, ainda, o encaminhamento de produção oferecido aos alunos exerceu forte influência na produção dos textos. O gênero textual solicitado era uma crônica narrativa. Isso justificaria a predominância desse tipo de seqüência lingüística nos textos dos alunos. Além disso, acreditamos que eles já estavam acostumados a produzir narração, um gênero escolar tradicional. Talvez por isso o tipo de discurso predominante tenha sido exatamente a narração.
É preciso ressaltar também que, embora a recomendação tenha sido para escrever uma crônica narrativa, alguns textos fugiram a esse padrão estabelecido. Pelo menos em dois deles, o que se vê é o produtor comentando um problema de
sua cidade, e expondo sua opinião sobre esse problema – uma briga entre torcidas de futebol, por exemplo, em “Conflitos em Natal”. Em “A noia da planta verde”, o produtor do texto expõe seu ponto de vista abertamente sobre o consumo da maconha.
Em relação às características do gênero em estudo, podemos verificar que algumas delas foram utilizadas com mais freqüência, como é o caso da temática do
cotidiano. As crônicas utilizadas nas aulas, pela professora, já exploravam essa
temática, o que se verificou, também, no encaminhamento de produção e, por conseguinte, nos textos dos alunos.
Outra característica do gênero encontrada na análise do corpus diz respeito à finalidade da crônica: divertir o leitor e levá-lo a refletir sobre um aspecto da vida
cotidiana e do comportamento humano. Na maioria dos textos, percebe-se que o
aluno aborda um tema cotidiano de forma bem humorada. Procura um flagrante da vida diária bem próximo dele, em muitos casos, para construir o conteúdo temático de seu texto. Para isso, ele recorre, também, ao encaminhamento de produção textual, que lhe apresenta várias sugestões e cita vários exemplos. Um dos exemplos mais aceitos, com três textos utilizando essa temática, foi : - Uma senhora, muito gorda, entra no ônibus, vai passar pela roleta e ali fica entalada (presa).
O encaminhamento de produção ainda aponta para outro objetivo da crônica, que pode ser adotado pelos alunos: sensibilizar/ emocionar o leitor, fazendo-o refletir sobre a realidade que nos cerca, sobre o mundo à nossa volta que, muitas vezes, nos passa despercebido. Nesse caso, há uma sugestão para enfatizar o aspecto lírico, contemplativo, que pode ser utilizado na crônica, porém não encontramos, em nosso corpus, ocorrência de textos produzidos nesse tom.
Alguns textos não apresentam nem um nem outro dos objetivos do gênero, apontados pelo encaminhamento de produção. Trata-se de narrativas comuns ao universo escolar, em que os produtores não conseguem atender às características do gênero explorado em sala de aula.
Além do humor, outra característica que se verificou nos textos foi a ironia, como costuma ser explorada em muitas crônicas, até porque o humor pode apoiar- se, muitas vezes, num componente irônico. Embora não tenha sido amplamente explorada nos roteiros de leitura trabalhados com os alunos, a ironia surgiu em alguns textos, provavelmente como reflexo da leitura e dos comentários de outras
crônicas lidas pelos alunos, ao longo de todo o ano letivo. Como afirmamos no primeiro capítulo deste trabalho, a professora já havia trabalhado com eles a leitura de crônicas da coleção “Para Gostar de ler”.
Apesar de o tom humorístico ser o predominante, associado aos fatos miúdos do dia-a-dia, verificamos a crítica social em uma das crônicas produzidas pelos alunos, que aborda os conflitos entre torcidas de times rivais em Natal. O autor do texto critica o comportamento dos torcedores, da polícia e se mostra indignado com a violência cometida com pessoas que nada têm a ver com esse tipo de torcida organizada.
No que se refere à linguagem que, na crônica, é marcada pelo coloquial e o literário, podemos afirmar que predomina o tom coloquial nos textos que analisamos. O encaminhamento de produção textual assim recomenda. Além disso, como os agentes produtores desses textos são alunos, ainda adolescentes, é provável que as expressões utilizadas em seus textos já façam parte de seu repertório lexical, na modalidade falada da língua.
Dos quinze textos analisados, em nosso corpus, procuramos identificar aqueles que mais se aproximaram do gênero crônica, como foi trabalhado em sala de aula e conforme nossa fundamentação teórica sobre esse gênero. Outros, porém, foram identificados apenas como narrativas escolares, visto que muito pouco se aproximam do gênero em estudo, pois não apresentaram as características principais desse gênero. Tanto estes quanto aqueles já foram listados ao final na seção anterior deste trabalho.