2.3. YARDIMCILAR VE FİİLİ TAŞIYICILAR
3.1.2. Davanın Tarafları
A imobilidade da ESF frente às várias formas de violência, dentre elas os casos de violência sexual, pode ser observada pelo baixo número de casos atendidos e de omissões. Como vimos os profissionais, de forma geral, das equipes entrevistadas tinham mais de um ano de experiência de trabalho no ESF, com exceção de um médico. Além disso, segundo a coordenadora da Secretaria Municipal e Saúde do ESF, a ESF foi implantada em 1998, aproximadamente 14 anos de atuação na região. Entretanto quando foi pedido aos profissionais que relatassem casos atendidos de violência sexual contra crianças e adolescentes, um dos profissionais se recordou de 03 casos, sendo
que um ocorreu há uns dez anos, e o outro recentemente. Outros 04 profissionais citaram ao todo 03 casos, sendo 02 deles acontecidos há uns 5 e 7 anos atrás, 01 recentemente, exemplificadas nas falas abaixo:
P- por último queria te perguntar se você poderia me contar, já que você tem tantos anos na ESF, um ou dois casos que você tenha atendido de violência sexual?
M1- Eu me lembro de três casos, um eu atendi semana passada de uma criança de dois anos que foi molestada [...] Outro caso, que foi logo no início de tudo (há dez anos) uma adolescente, tava na nossa área, foi violentada pelo cunhado [...].
M2- Recente eu não tenho [casos atendido de violência sexual].Tem muito tempo....ó, deve ter o que, uns 6 a 7 anos , Foi lá embaixo, essa criança e a avó achava que o padrasto abusava da criança (falou muito baixinho).
P- nesses casos de adolescentes, você chegou a acompanhar, vocês percebem esses casos de violência, de abuso?
E1- É... esse caso... essa adolescente já tava assim problemática, porque ela tinha se desligado da família.
E2- Mas tem pouco tempo que conseguimos identificar, e zona rural é mais difícil ainda porque é uma casa aqui e outra a 300m então até que você descobre o que está acontecendo mesmo...
E3- Que a gente saiba, uma coisa assim certa, a gente já teve um trabalho com uma família, que a gente teve notícias por terceiros, de que um adolescente na época, a três anos atrás, ela devia ter o que, uns doze anos, ela tava saindo com homens mais velhos, só que assim era terceiros, a gente nunca conseguiu comprovar.
Observamos a existência de um número pequeno de casos relatados em um tempo relativamente grande (dez a quatorze anos) e pelo número de famílias adscritas (aproximadamente 1.500) para as 03 equipes entrevistadas, tendo como referência o “Relatório de atividades relativas à atuação de um dos Conselhos Tutelares da cidade de Montes Claros” (CT, 2010). Esse relatório compreendeu o período de 15 meses relativos aos anos de 2008 a 2010, no qual constava o registro de 12 denúncias de abuso sexual contra crianças e adolescentes, oriundas exclusivamente dos bairros onde foi realizada a presente pesquisa, razão pela qual se deu a escolha do local. Se tivessem sido os profissionais das equipes desses bairros que acionaram o Conselho, teríamos no mínimo a lembrança de aproximadamente 12 casos nos últimos anos, fato que não aconteceu. Então possivelmente foram os moradores ou profissionais de outras instituições que fizeram as denúncias. Outro dado que nos dá uma ideia de casos atendidos refere-se a uma pesquisa realizada em 2007 em um centro de referência para mulheres vítimas de violência sexual, no período de 1986 a 2006. Em 1999 eram atendidas em média 11 mulheres por mês, resultando em 130 casos novos por ano, passando a estabilizar os atendimentos na média de 13 casos por mês, ou 150 por ano até 2006 (BEDONE; FAÚNDES, 2007).
Podemos então pensar que há uma subnotificação de casos de violência sexual praticada contra crianças e adolescentes pelos profissionais das equipes pesquisadas. O evento da subnotificação é apontado no Relatório Mundial da Saúde, publicado pela Organização Mundial da Saúde e outros estudos brasileiros (KRUG et al., 2001; FALEIROS, 2000). Uma estimativa da dimensão do problema em nível nacional pode ser pelos dados do programa Disque Denúncia Nacional (Disque 100), mantido pela Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República. Por esse programa temos o número de denúncias feitas pela população de forma anônima, mas não o índice de confirmação dessas, que se daria através do cruzamento com dados de outras instâncias (Conselhos Tutelares, Polícia, Jurídico, Medicina Legal, entre elas) responsáveis pela apuração dos casos. Dados do Disque 100, referentes ao ano de 2006, indicam que de maio de 2003 até maio de 2006, tivemos no Brasil mais de 17.000 denúncias. Dessas, aproximadamente 5.000 eram de abuso sexual e 4.000 de exploração sexual comercial. O Relatório Mundial da Saúde (KRUG et al., 2001, p. 62-63) aponta uma média de “prevalência da vida toda para vitimização sexual na infância de 20% entre as mulheres e 5 a 10% entre os homens”, estimada por estudos internacionais realizados desde 1980. Ou seja, há uma incidência muito maior de crianças e adolescentes vítimas de violência sexual em relação aos casos suspeitos ou confirmados através da notificação compulsória.
Constatamos que a suspeita de casos de violência sexual no território da ESF se deve às informações que os agentes comunitários de saúde (ACS) levam à suas equipes da ESF, mais especificamente aos profissionais médicos e enfermeiros delas. Verificamos também que a confirmação da violência, ou a comunicação do ocorrido, é feita geralmente por um responsável pela criança/adolescente, ou ainda pelo próprio adolescente aos profissionais da ESF, ao procurarem espontaneamente a unidade de atendimento da equipe da ESF, conforme as falas abaixo:
E4- [...] agentes meus que estão .... por que eles presenciam a violência, atualmente, eles estão lá todo dia na casa do paciente, entendeu. Eu faço uma visita ou outra [...].
M1- Aqui a gente só faz a suspeita, não faz a confirmação[...] que seria suspeito?..chega pra gente uma fala do agente comunitário de saúde , ou de um pai, de um cuidador, de que aquela criança foi molestada sexualmente [...].
A2- Nesse caso seria , por exemplo, que eu tenho na área uma criança de dois anos, segundo relato da avó foi abuso sexual mesmo, chegou a ser internada [...]. E3- igual tô te falando, não é uma área que... não chega tantos casos pra gente estudar, por exemplo, violência contra mulher, quem nem chega uma mulher e dizer fui violentada, aqui dentro nunca chegou.
Apesar de ser uma atribuição mais específica do ACS, a realização de visitas domiciliares, a realização de busca ativa e notificação de doenças e agravos de notificação compulsória e de outros agravos é atribuição de todos os profissionais que compõe a equipe da ESF,
conforme a portaria 648/2006 do Ministério da Saúde, que dispõe sobre as atribuições dos profissionais das equipes de saúde da família, de saúde bucal e de Agentes Comunitários de Saúde (BRASIL, 2006, grifos nossos). Por busca ativa entende-se, no sentido estrito do termo, “a identificação precoce de casos suspeitos e uma rápida confirmação para orientar adequadamente a aplicação de medidas de controle” (LEMKE; NEVES DA SILVA, 2010, p. 285) e, como verificamos, raramente acontece uma identificação “precoce” pela equipe do ESF dos casos de violência, e quando acontece a identificação, como indica a fala de E1, não são tomadas medidas cabíveis, fato que entendemos por imobilidade dos profissionais da ESF diante da violência.
Minayo (2005, p. 19) destaca que na conceituação de violência26 empregada tanto pela Organização Mundial de Saúde (KRUG, 2002), como pelo documento da “Política Nacional de Redução da Morbimortalidade por Acidentes e Violências” (BRASIL, 2001), faltou mencionar em ambos os documentos, explicitamente, que constituem formas de violência “a negação e a omissão de cuidados, de socorro e de solidariedade”. A autora entende que a violência, seja ao nível subjetivo, micro ou macro das relações humanas, é dotada de intencionalidade, portanto é um fenômeno que pode ser reconhecido, analisado e superado.
Mencionar negligência e omissão explicitamente como formas de violência é um passo fundamental para se desnaturalizar processos estruturais e atitudes de poder que se expressam em ausência de proteção e cuidados, dentre outras situações, responsáveis pela perenidade de hábitos econômicos, políticos, culturais e crueldades que aniquilam os outros ou diminuem suas possibilidades de crescer e se desenvolver (MINAYO, 2005, p. 19, grifos nossos).
Percebemos que existe sim dificuldade por parte dos profissionais da ESF para acolher a violência sexual praticada contra crianças e adolescentes, que se expressa ao deixá-la em segundo plano ou mesmo negando-a se não houver evidências, como vimos. Mas, entendemos que por ser uma questão muito complexa não podemos reduzir a uma simples omissão dos profissionais. Os profissionais sabem sobre o dever de fazer algo, como diz E1:
E1- [...] Então eu penso que essa sensibilização tem que ser da equipe toda pra entender a importância de não ficar calado, porque a vontade que eles têm maior assim é de ficar... porque vai ser ruim pra eles, em todo caso é ruim.[...] e a gente sabe que tem que denunciar porque ficar calado, negligenciar, você vai ver a criança exposta e ai.. você vai ficar só assistindo né, e é errado né...
Ampliando a questão, omissão e negligência acontecem com os profissionais, em primeiro lugar, por parte das Políticas Públicas quando não lhes dão suporte adequado para o
26 “Consideram-se como violências, ações realizadas por indivíduos, grupos, classes, nações que ocasionam danos físicos, emocionais e espirituais a si próprios e aos outros” (BRASIL, 2001, p. 7).
enfrentamento de tais situações. Por isso, acreditamos haver várias razões que concorrem para essa “negação” da violência pelos profissionais. Dentro de uma visão foucaultiana de poder, podemos pensar numa forma de resistência às políticas do Estado que impõe aos profissionais da base programas, sem que eles participem do processo, como nos aponta Passos:
o caminho para se combater a violência não pode vir de uma política imposta de cima para baixo, o que parece contrassenso. Importa encontrar estratégias que ajudem a construir um sistema de autoridade compartilhado que ao menos minimize a violência. (PASSOS, 2010, p. 240).