3.2. DAEŞ ve Irak’ta Yayılışı
3.2.4. DAEŞ’in Haziran 2014’ten İtibaren Irak’ta Yayılması ve Sonuçları
Segundo Bordenave (1992), a abertura das mídias para a participação popular pode significar a potencialização de algumas das funções dos meios de comunicação, conforme apresentamos no quarto capítulo. Com a análise dos quadros do RJTV e SPTV, identificamos algumas dessas funções revitalizadas. Uma delas é a de diálogo-
povo-governo e autoconscientização comunitária. Após a “comprovação” do
problema denunciado pelo cidadão, a reportagem do RJTV ou SPTV consulta uma fonte oficial (diálogo povo-governo), seja em busca de solução para o problema ou como forma de alerta e instrução da comunidade (autoconscientização comunitária).
Um exemplo de como o telejornal atua na autoconscientização comunitária é a edição do dia 10 de junho, que veiculou as imagens gravadas por um telespectador de um balão preso à fiação elétrica. O telejornal aproveitou a pauta para informar sobre um trabalho de precaução feito pelo corpo de bombeiros.
- E olha só como sua participação é importante. Você vai ver agora uma imagem impressionante que deixa claro o grande risco que é a prática de soltar balões. É hora do Vc no RJ.
- São imagens gravadas na Zona Oeste do Rio de um balão preso à zona elétrica e soltando fogos. Veja só:
(off) O flagrante foi feito por Roberto Mota, amigo do RJ, na manhã de domingo em Vagem Grande. Assim que foi solto, o balão ficou preso aos fios da rede elétrica e não conseguiu subir. Os fogos que eram carregados
pelo balão começaram a explodir. São mais de três minutos seguidos. Em pouco tempo uma grande nuvem de fumaça encobre o balão e toma conta de todo o condomínio e os fogos continuam. Dez minutos depois o balão se solta e consegue subir.
Na sequência, a repórter realiza uma passagem mostrando o local onde tudo ocorreu:
E a equipe do RJTV está aqui no local. O balão ficou preso bem nesse fio de alta tensão que fica perto das casas neste condomínio. No chão, é possível perceber a grande quantidade de fogos que estavam presos ao balão. Os moradores aqui do condomínio ficaram assustados quando acordaram com o barulho das explosões.
Após a sonora com Roberto, quem enviou as imagens, a repórter deu informações sobre o trabalho que estava sendo realizado pelo corpo dos bombeiros alertando para os perigos de soltar balões. Uma entrevista com um major do Grupamento Florestal, do corpo de bombeiros carioca, complementou a passagem da repórter e o âncora encerrou reforçando que atitude os cidadãos devem tomar em situações como estas: “Diante de uma situação como esta a primeira medida é denunciar, informar ao corpo de bombeiros, onde o balão foi visto para evitar piores acidentes”.
Um outro caso em que a vídeo-pauta foi aproveitada para autoconscientização foi a edição do dia 24 de outubro, em que um morador registrou na vizinhança imagens de caixas d’águas abertas, potenciais focos do mosquito da dengue. A intenção foi reforçada uma vez que o cidadão que enviou as imagens havia sido vítima da doença. Na reportagem, ele mesmo aparece apresentando os sintomas e junto à repórter informa aos telespectadores os cuidados que devem ser tomados para a precaução da doença. As informações foram complementadas com dados da Secretaria Estadual de Saúde.
Quando os quadros que abrem espaço para a participação dos cidadãos também são aproveitados para reforçar o papel de fiscalizador e mediador do telejornal, encontramos a função do jornalismo de diálogo povo-governo reforçada. Conforme Traquina (2005), a atuação da imprensa como mediadora entre a sociedade e o poder público remonta ao século XIX, quando a imprensa começava a ser considerada um elo
indispensável entre a opinião pública e as instituições governantes, condição impulsionada pela teoria democrática.
Com a legitimidade da teoria democrática, os jornalistas podiam salientar o seu duplo papel: como porta-vozes da opinião pública, dando expressão às diferentes vozes no interior da sociedade que deveriam ser tidas em conta pelos governos, e como vigilantes do poder político que protege os cidadãos contra os abusos dos governantes (TRAQUINA, 2005, p. 48).
A ideia que remetia a antiga expressão “quarto poder”, de certa forma, parece retornar nos modelos apresentados nos dois telejornais analisados acima. O olhar que denuncia é o do cidadão e o telejornal assume seu papel de mediador entre o cidadão e as autoridades correspondentes. A aliança do cidadão com o telejornal faz com que seu olhar ganhe força, e suas reivindicações recebam as respostas que sozinho talvez não chegasse a alcançar, ou tardasse demais para conseguir. Conforme Becker (2005), pelo seu impacto e sua constância, o telejornalismo ocupa o espaço de instituições enfraquecidas como a justiça e a polícia. Assim, a luta por princípios democráticos desloca-se para a arena midiática e ganha reforço quando se dá num terreno audiovisual, massivo e com forte impacto na opinião pública como a televisão.
Em todas as edições em que o vídeo enviado pelo cidadão refere-se a uma denúncia referente à questões que envolvem a ação do poder público e de suas autarquias, o telejornal vai atrás dos responsáveis e busca oferecer uma resposta à audiência. No flagrante que Jackson Sala fez do desperdício de energia em Irajá, mostrando lâmpadas que ficavam acesas o dia todo, o telejornal encerrou o quadro com a solução: “a Rio Luz informou que vai levar uma equipe até Irajá, ainda hoje, para verificar o problema”.
Outro exemplo é a reclamação dos moradores do bairro Costa Barros sobre uma obra inacabada denunciada com imagens do “amigo do RJ”, o “Sr. Paulo”. Há três anos, a comunidade convivia com o vazamento de uma caixa d’água que havia se transformado em depósito de lixo. É o próprio Paulo que explica a situação para a repórter:
“Bom dia Carina, a nossa situação é essa caixa d’água, que fica vazando à noite, e já ta sem reparos há muitos anos, e trazendo um problema sério pra gente. Não tinha água, fomos obrigados a fazer essa instalação já que essa caixa era para abastecer a comunidade e a CEDAE veio e largou assim. As caixinhas foram instaladas nos nossos portões, disseram que viriam botar o hidrômetro, e até hoje não vieram”.
No texto em off, acompanhado pelas imagens do local, com o uso do verbo em primeira pessoa, o telejornal confirma sua capacidade de encurtar o caminho entre o poder público e as demandas da comunidade, e reforça a eficiência de sua atuação:
“e para piorar a situação, o terreno onde fica a caixa d’água virou um depósito de lixo. Por todos os lados, sacos plásticos, muito entulho e até móveis abandonados. Sujeira a parte, pelo menos da água limpa desperdiçada ainda tem quem tire proveito (a frase refere-se a uma pomba que se banha numa das poças causadas pelo vazamento). Só não deve ser por muito tempo. Como fizemos contato com a CEDAE, antes mesmo de terminarmos a gravação, técnicos chegaram ao local e já começaram a solucionar o problema”.
Embora não separemos esta ação de seu viés comercial, que garante o prestígio e a legitimidade do telejornal perante seus públicos, também, não se pode negar que, ao dar imagem e voz ao problema que afeta o telespectador, ele confere a ele a oportunidade de exercer seu direito enquanto cidadão. É o que mostrou o estudo realizado por Gomes (2007), cujo objeto era uma das colunas do RJTV, também voltada para a relação com a comunidade.
O papel de intervenção, cobrança e fiscalização desempenhado pelo telejornal local estudado aqui consolida uma imagem de poder perante o público, mas também concretiza ações que efetivamente melhoram a vida dos cidadãos, mesmo que sejam pontuais (GOMES, 2007, p. 102)
Eis mais um sinal de dialogismo do jornalismo visto sob o viés complexo. Dois polos, que para muitos se repelem, co-habitam num jornalismo que pode ser serviço e negócio, fonte de soluções e fonte de renda, sem ter de, necessariamente, ser uma coisa
ou outra. O dialogismo destes polos é possível quando admitimos a pluralidade de funções e contornos que cabem num olhar complexo sob o jornalismo contemporâneo.