A partir da década de 80 tem-se notado um grande interesse sobre os impactos das mudanças técnicas e tecnológicas na economia. Seja por parte de autores de tradição econômica ortodoxa, como pelo surgimento de um número relevante de pesquisadores especializados no tema (Freeman, 1994 apud Igliori, 2001).
Muitas dessa pesquisas especializadas atuais são classificadas como integrantes da escola batizada de neo-schumpeteriana, em alusão à teoria elaborada por Schumpeter (1934), que oferece explicações para o funcionamento da economia capitalista. Na abordagem schumpeteriana, as inovações assumem um papel central para o entendimento das mudanças econômicas. Ademais, entre os pontos principais levantados pelo autor, merecem destaque o papel dos empresários, das firmas de grande porte, da estruturas de mercado oligopolizadas e dos instrumentos de crédito para o processo de inovação (Igliori, 2001, p. 56).
Para Schumpeter (1934), as inovações podem se manifestar no surgimento de novos produtos, novos processos produtivos, novas fontes de matéria-prima e novos setores de atividade. E o maior responsável pelo processo inovativo é o empresário, que atua como agente introdutor e disseminador das inovações.
No enfoque neo-schumpeteriano, existem importantes diferenças com respeito ao processo inovativo, em função de cada contexto social, econômico, político e institucional. Os principais elementos que compõe essa abordagem são destacados por Malerba (1996, p. 2 apud Santos, 2005): i) o conhecimento encontra-se na base do processo inovativo e a sua criação e difusão são a fonte básica da mudança econômica e tecnológica; ii) o aprendizado é o mecanismo chave do processo de acumulação do conhecimento e em geral ocorre na dimensão local; iii) o mecanismo de seleção reduz a variedade da economia e afeta a difusão; iv) as instituições ajudam
a moldar o processo de aprendizado, desempenhando um papel fundamental na inovação.
Para Nelson e Winter (2002 apud Matos, 2007, p. 16), a tecnologia ou técnica inovativa deve ser entendida como um conjunto de artefatos ou práticas e um corpo de conhecimento associado. Destaca-se o caráter sistêmico da inovação, no qual o conhecimento e o aprendizado interativo ganham papel de destaque, sendo elementos centrais para a competitividade de empresas, indústrias e mesmo nações8.
Conforme analisa Santos (2005, p. 36), a mudança tecnológica – resultado da inovação - na concepção dos neo-schumpeterianos é resultado dos processos de rotina, busca, seleção e aprendizagem. A ação de aprendizagem é entendida como elemento chave e permanente de reconstrução e acumulação do conhecimento, na qual ocorrem modificações constantes nas relações que se estabelecem entre os atores sociais e as organizações. Nesse sentido, as firmas têm um grande incentivo a inovarem em ambientes de interação e cooperação, através de um mecanismo de aprendizado interativo.
Cooke e Morgan (1998) argumentam que a explicação do sucesso de aglomerações regionais repousa no caráter inovativo das firmas. Para os autores, duas são as maneiras pelas quais inovações locais são as responsáveis por tal sucesso. Em primeiro lugar, sugere-se que padrões localizados de desenvolvimento – localizados a partir da interação entre firmas quando inseridas em um aglomerado produtivo - facilitam processos coletivos de aprendizado, de modo que informação e conhecimento ligeiramente se difundam no ambiente local, aumentando a capacidade criada das firmas e instituições. Em segundo lugar, um sistema produtivo localizado auxilia a reduzir os elementos de “incerteza dinâmica”, o que também facilita a inovação local, pois permite um melhor entendimento dos possíveis resultados das decisões da firma ou das firmas de forma conjunta (Cooke e Morgan, 1994, apud Cassiolato e Lastres, 1999).
Segundo Freeman (1994), pesquisador do Science and Technology Policy Research (SPRU) da Universidade de Sussex, um dos autores exponenciais da abordagem neo-schumpeteriana, os relacionamentos existentes entre as instituições de pesquisa e as firmas têm se mostrado bastante positivo com relação tanto ao fluxo de
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A seleção final das inovações por parte do mercado e/ou de instituições nos leva a interpretar, que as inovações bem sucedidas são, a princípio, as invenções que se revelarem melhor adaptadas ao ambiente, ou seja, aquelas que encontram uma efetiva demanda por parte dos consumidores, caracterizando-se assim, em efetivas inovações.
inovações incrementais, como frente aos casos de mudanças radicais. Para o autor, as estratégias corporativas e as políticas públicas têm desempenhado um papel importante no processo de inovação, principalmente no desenvolvimento de redes de relacionamento com fontes externas de informação9 (Freeman, 1994 apud Igliori, 2001, p. 59-60).
De acordo com Cassiolato e Lastres (1999), na literatura neo-schumpeteriana sobre sistemas de inovação, tem se observado uma ênfase significativa na importância do aprendizado por interação (entre produtor e usuário), com forte associação entre inovação e difusão, no que os autores chamam de caráter localizado do processo inovativo, associado a processos de aprendizado específicos e a importância do conhecimento tácito, aquele não transferível, em tal processo.
Em referência à análise neo-schumpeteriana, percebe-se que a maior parte dessa literatura seja relativa às experiências de países desenvolvidos. Mas que tem despertado o interesse de pesquisadores para as especificidades de países em desenvolvimento. Como tem praticado os autores Lastres et al. (1998); Lopez e Lugones, (1999); Cassiolato e Lastres, (1999) e Schmitz (1995). Essa linha de trabalho – de investigação do processo inovativo em países em desenvolvimento -, conforme Cassiolato e Lastres (1999), argumenta que:
a) A aglomeração de arranjos e sistemas produtivos locais é importante para os países em desenvolvimento. Elas são comuns em uma ampla gama de países e setores;
b) A aglomeração de sistemas produtivos locais tem auxiliado pequenas e médias empresas a ultrapassarem conhecidas barreiras ao crescimento das firmas, a produzirem eficientemente e a comercializarem produtos em mercados distantes.
Para Igliori (2001), a abordagem em clusters ganha relevância exatamente em sua associação com a idéia de sistemas (nacional e regional) de inovação. Pois as transferências de tecnologia entre países não ocorrem de maneira fácil, pelo contrário, as técnicas e tecnologias são bastante vinculadas a seus países de origem, já que se fundamentam em habilidade, capacidades e conhecimentos acumulados ao longo do tempo (Freeman, 1995).
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Conforme Igliori (2001, p. 59), Freeman (1994) elenca como fontes externas, em primeiro lugar, os próprios clientes, fornecedores e contratantes, que a partir das suas atividades econômicas, criam e mantêm as relações de troca de conhecimento. Entretanto, merecem igual destaque as organizações especializadas como as universidades, os laboratórios, agências do governo e os consultores. Também é mencionado o papel desempenhado pelos próprios concorrentes, seja em contatos informais, seja como fonte de material para a realização de engenharia reversa, isto é, o processo de estudar um processo produtivo a partir de seu produto final.
Freeman (1995) identifica três fatores principais para a constituição do que ele chama de “economia inovativa moderna”: o uso do conhecimento como força produtiva, a realização de pesquisa industrial sistemática e a disseminação das inovações entre firmas e indústrias (Freeman, 1995 apud Igliori, 2001, p. 67).
Com respeito aos ambientes inovadores, Maillat (1996) argumenta que as inovações podem se manifestar em condições territoriais e produtivas bastante diversas. Os ambientes podem ser especializados ou multifuncionais, industriais ou turísticos, urbanos ou rurais, de tecnologia elevada ou tradicional. Para o autor, o que parece ser fundamental é a existência de “sistemas produtivos locais”, que traduzam um conjunto de relações sociais capazes de coordenar os agentes envolvidos e potencializar os resultados de suas atividades (Mailat, 1996 apud Igliori, 2001, p. 69).
De acordo com Audretsch (1998), a proximidade local facilita o fluxo de informação e os spill-overs de conhecimento. As atividades econômicas baseadas em novo conhecimento têm grande propensão a aglomerar-se dentro de uma região geográfica, o que “tem desencadeado uma mudança fundamental na política pública voltada aos negócios, afastando de políticas que constrangem a liberdade de contratar das empresas e direcionando-se a um novo conjunto de políticas capacitantes, implementadas nos âmbitos regional e local”. (Suzigan, 2001, p. 271).
Em síntese, para os neo-schumpeterianos, a inovação consiste num fenômeno sistêmico, sendo que os processos de inovação que ocorrem no interior das empresas são geralmente gerados e sustentados por uma complexa rede de relações interinstitucionais. Adicionalmente, a inovação é uma atividade fortemente tácita, cumulativa e interativa, de modo que tais características do processo inovativo introduzem o espaço geográfico como uma dimensão importante de análise a ser considerada. Pois, de fato, a proximidade local facilita o fluxo de informação e os spillovers de conhecimento (Maskell et al., 1998; Cooke e Morgan, 1998 apud Santos, 2005, p. 37).