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Um recurso muito presente utilizado pela regente é o acompanhamento harmônico executado pelo bolsista do coral. A professora conta com o auxílio de um estagiário, aluno do curso de Licenciatura em Música da UFC, selecionado para auxiliar as atividades do coral. Esse bolsista toca violão e acompanha com instrumento harmônico o coral durante apresentações e em todos os ensaios, sendo desde o momento do aquecimento vocal o início da sua participação no ensaio. Esse bolsista também canta e exerce a função de líder do naipe15 masculino. Outra função exercida por esse aluno é a de regente assistente, assumindo o ensaio do coral no caso eventual de ausência da regente.

Segundo a regente, em suas experiências com o canto coral, essa estratégia foi adotada pela primeira, pois em trabalhos anteriores ela buscava bolsistas que trabalhassem a voz dos cantores. Em entrevista, quando perguntada sobre o porquê da presença desse bolsista, a regente deu a seguinte resposta:

Primeiro porque esses adultos que cantam no coral da ADUFC não estavam acostumados a escutar muito e a cantar junto e um instrumento acompanhante é um apoio pra eles. Segundo porque o coral é da ADUFC e a universidade tem um curso de Música. Eu gostaria de fazer mais parte do curso de música, mas como eu não faço, de vez em quando eu busco ter contato com os alunos de lá e ter um bolsista do curso é muito bom porque, como na UFC eles costumam falar muito de mim, por que eu fiz parte do projeto de criação do curso ― e quando alguém quer mexer no projeto, a primeira figura que eles lembram é de me chamar―, então eu quero ter contato com os meninos pra eles entenderem porque que eles falam tanto de mim. E também pra eles aprenderem. O bolsista, por exemplo, a diferença dele quando chegou e agora é impressionante. Ele está praticando o que ele aprendeu. Está crescendo mesmo[...] é como se o coral fosse um Projeto de Extensão do curso de Música.

Zander (2008), Mathias (1986), Shafer (2011), Moraes (1993), Godoy (2005), Figueiredo (1990) e Clemente (2014) são alguns autores que defendem a utilização de instrumentos harmônicos acompanhando a atividade coral, num sentido de auxiliar a afinação do grupo durante as apresentações e ensaios e durante o processo de aprendizado da melodia. A maioria relata o uso do teclado ou piano. Moraes (1993) relata a utilização de flauta doce como instrumento facilitador do aprendizado das melodias de cada naipe. Zander (2008) aconselha instrumentos que tenham em seu processo de produção sonora uma semelhança com o processo de produção sonora do aparelho fonador e desaconselha utilizar instrumentos de tecla, como o piano:

      

15 Conjunto de pessoas com a mesma classificação vocal. No coral tradicional, existem o naipe de sopranos, o

É melhor, caso necessite, recorrer a instrumentos cuja formação do som seja semelhante ao processo da formação da voz. Instrumentos de palheta: clarinete, oboé, órgão, ou mesmo a família das flautas, apesar de não possuírem palhetas não destoam da maneira característica de cantar. Evitem-se, na medida do possível instrumentos de teclado como o piano, ou outros do mesmo princípio mecânico que não é orgânico a emissão da voz. No subconsciente forma-se uma espécie de conflito no sentido de “som apoiado, emitido sob pressão” com som percutido que não possui apoio, conflito que deixa os cantores confusos e, em consequência, no momento em que o piano, ou similar, eixar de tocar, faltar-lhes-á segurança (ZANDER, 2008, p. 218).

No Coral da ADUFC o teclado era utilizado pela regente, mas com função de instrumento melódico apoiando o aprendizado das melodias das vozes. A professora tocava as melodias, ou alguns exercícios, mas, mesmo quando tocava uma melodia no teclado, era acompanhada harmonicamente pelo violão. De todos os autores citados anteriormente nenhum citou o uso do violão como instrumento acompanhante da atividade coral. Quando perguntada sobre o motivo da escolha desse instrumento, a regente respondeu:

Eu abri vaga para bolsista e simplesmente não apareceu nenhum tecladista. Acho que isso é um problema do curso de Música. Talvez o professor de teclado não esteja ensinando os alunos para trabalhar com coro, talvez esteja ensinando para eles serem experts, ou então eles já tem muitas bolsas e não quiseram se interessar por essa.

Observamos, diante dessa afirmação, que a regente está em consonância com os autores que se debruçam sobre o canto coral, no sentido de buscar o teclado como instrumento acompanhante, mas que a falta de tecladistas fez com que ela se adaptasse ao instrumento violão. Segundo ela, isso vem surtindo efeito na afinação do grupo. Ao ser perguntada se a presença do bolsista e do instrumento violão estava influindo positivamente na sonoridade do grupo, deu a seguinte resposta:

A gente percebe que, depois que eles aprendem a música, buscam a afinação pelo som do violão. Eles se acostumaram com isso e sustenta melhor a afinação do coral.

Percebemos uma postura formativa na atitude da regente para com o bolsista, dando a este a possibilidade de colocar em prática o que aprende no curso de música, enquanto dá a oportunidade para o bolsista aprender a trabalhar com coral.

No processo de ensino e ensaio do repertório no Coral da ADUFC, descrito no presente trabalho, percebemos que a regente e os cantores foram sempre acompanhados harmonicamente pelo violão. Percebemos a participação ativa desse instrumento dentro das atividades de aprendizado do grupo. Em alguns ensaios, presenciamos, inclusive, o

acompanhamento do violão às melodias que a professora tocava no teclado no momento do aprendizado da melodia; depois, a professora repetia, cantando aquela parte, tocando junto a melodia no teclado acompanhada pelo violão. Assim foi com todas as vozes.

Os instrumentos harmônicos tinham grande importância para o ensino das melodias e para a manutenção da afinação do coro. A regente foi perguntada em entrevista se o instrumento harmônico auxiliava o processo de assimilação da melodia por parte dos coralista e respondeu que sim.

Para o Coral da ADUFC é muito importante para a afinação do grupo. O Coral da ADUFC, quando começou... Agora eles percebem mais. É tanto que quando eles cantam desafinados é uma onda de gargalhadas, ou então eles olham um pro outro assim e “viche”, né? Mas, no começo, o coral não percebia que era desafinado; então, o violão, ele firmou mais esse momento de cantar junto, mantendo a afinação da música.

Figueiredo (2006) tem uma opinião cautelosa a respeito do instrumento harmônico dentro do grupo coral. Segundo ele, essa atitude pode ser mais prejudicial do que benéfica para o grupo.

A utilização eventual de um instrumento de teclado para dar suporte inicial numa obra com harmonias a que o grupo não está habituado, pode ser extremamente bem vinda. Mas utilizar o instrumento permanentemente como “muletas”, para que o coro não perca a afinação é totalmente danoso ao desenvolvimento dos coralistas. Jamais terão a chance de evoluir em direção a uma realização a cappella? O regente, temeroso, cria um circulo vicioso extremamente pernicioso. É preciso ter coragem para jogar as “muletas” fora. “Levanta-se e anda!” (FIGUEIREDO, 2006, p. 10-11).

Já Kerr (2006), no mesmo documento, traz um relato de uma carta escrita por ele, endereçada a uma aluna que estava montando um coral, onde ele a aconselha que procure instrumentos harmônicos e percussivos para auxiliar o grupo. Que procure tocar violão ou teclado, assim como ensinar percussão para os integrantes do grupo, para que ela possa “incentivar a improvisação de acompanhamentos rítmicos”.

Percebe-se que, para a realidade do Coral da ADUFC, o acompanhamento harmônico traz melhorias na afinação do grupo, posto que presenciamos o coral cantar sem e com o acompanhamento harmônico. Notamos claramente a influência positiva do instrumento na afinação do grupo. Esse instrumento é presente nas apresentações do grupo, sendo responsável por introduções de algumas músicas, assim como tendo o dever de trazer o ritmo e o estilo ao qual a música está inserida.

As apresentações do Coral da ADUFC trazem informações relevantes para a presente pesquisa no sentido de serem a prática do conhecimento desenvolvido nos ensaios e também como sendo um recurso utilizado pela regente para desenvolver nos cantores aspectos musicais e humanos. Veremos, a seguir, situações vividas pelo grupo em algumas apresentações e ações da regente nessas ocasiões. Percebemos, por meio da observação, um postura diferenciada, por parte da regente, buscando uma interação mais próxima com o público, procurando desfazer medos que os coralistas nutriam diante da plateia e obtendo a admiração do grupo, conquistando a atenção da plateia para a apresentação do coro.

Achamos importante esse relato como caracterização de ações pedagógicas que visam ao ensino de postura do coralista leigo frente a uma apresentação e uma atitude de integração da regente com o público, também ensinando-os a se portarem diante de um coro cantando.