Resultante das aproximações dos estudos da obra de Gramsci, sem desprezar as contribuições dos seus intérpretes em compreender as diversas categorias por ele desenvolvidas, mormente Coutinho (1999) e Semeraro (2006), na tentativa de desvelar a chave da compreensão do seu legado, visando articulá-las na leitura da realidade do nosso objeto de estudo e assim como o autor sardo, avançar na compreensão das contribuições de nossos precursores. Dessa forma, para fundamentar nossos esforços rumo à compreensão do seu legado, durante a feitura do nosso projeto de dissertação, lançamos mão da edição do Caderno 12, Os Intelectuais e a organização da cultura, disponível na Biblioteca da Universidade, edição esta de 1988, da Civilização Brasileira, com tradução de Carlos Nelson Coutinho, na qual os Cadernos foram organizados separadamente. Contudo, tendo em vista a forma agrupada em que se apresenta a última edição da Civilização Brasileira, também traduzida por Carlos Nelson Coutinho, que traz uma linguagem revista e atualizada tanto dos Cadernos do Cárcere, os quais são organizados em seis volumes, e das Carta s do Cárcere e os Escritos Políticos em dois volumes cada um, resolvemos elegê-los para nos apoiar em nossos estudos, por se tratar da edição brasileira mais completa e acessível da obra gramsciana.
Essa escolha se deve ao fato de crermos que, para nos aproximarmos da categoria que nos orientamos a estudar, seria necessário, dentro dos limites de tempo histórico para a feitura desta dissertação, determo-nos, sobretudo, numa apropriação pretensiosamente panorâmica de seu pensamento político-filosófico. Cremos que, em princípio, para compreendermos a dimensão do arcabouço teórico gramsciano, é necessário conhecermos a dimensão praxista de sua história de vida. Além disso, é necessário considerarmos: sua originalidade na apreensão do método dialético de análise das relações sociais; a posição histórica absolutamente revolucionária orientada para a organização da classe trabalhadora; sua formação para serem dirigentes ou dirigidos; a estreita articulação entre a elaboração dos conceitos e das categorias com a realidade, com a organização partidária
revolucionária de sua época, analisadas partindo do imediato e tomando proporções universais.
Dessas considerações, basta apenas uma palavra-chave para resumirmos e olharmos para as formulações gramscianas com as lentes da compreensão, a saber, a organicidade, visto que Gramsci considera o real como um movimento redondo, mas não fechado, e, por isso, vivo, contraditório, em um revezamento de forças que se conservam e se superam pela atividade humana. Tal movimento encontra-se presente em toda a sua literatura num processo de continuidade e descontinuidade.
Certas disso, é necessário destacarmos a atuação política de Gramsci, na qual buscava elevar o conhecimento da classe subalterna numa perspectiva revolucionária, para que estes tivessem a oportunidade de desenvolver as condições necessárias ao comando da vida coletiva, desenvolvendo a capacidade de construir a sociedade regulada. Nesse processo, o intelectual orgânico tem um papel preponderante, pois, para Gramsci, o compromisso do intelectual deveria ser com a necessidade filosófica e política de pensar e fazer a realidade, de modo a transformá-la, na qual o intelectual, mesmo não sendo oriundo da classe trabalhadora, ao se identificar organicamente com esta, deveria direcioná-la para a elevação do seu conhecimento sobre a realidade a fim de transformá-la.
A práxis, nesse sentido, se dá pela análise da realidade, num movimento de apreensão, teorização e retorno para a realidade, pela capacidade de refletir sobre as ações e poder intervir. Desta feita, podemos verificar que o caráter revolucionário e transformador de Gramsci se origina em sua vida militante e no seu envolvimento nas lutas e tensões, pois, como ele próprio afirma (2011a, p. 414), não existe sujeito revolucionário se não estiver envolvido com a luta revolucionária, pois a capacidade revolucionária não é do sujeito individual, mas a associação com outros que queiram. Por isso, é necessário considerar a organicidade do pensamento de Gramsci, pois leva em conta o movimento dialético da realidade histórica, das relações sociais, sem desconsiderar simultaneamente a estabilidade de alguns elementos, pois enxergava a importância de saber “distinguir os movimentos orgânicos (permanentes) dos assim chamados de conjuntura (ocasionais, fenomênicos)” (GRAMSCI, 2011b, p. 36) para o desenvolvimento de princípios metodológicos de amplo alcance.
Sendo assim, Gramsci não limita sua preocupação com a formação humana a uma educação meramente no âmbito escolar, mas em todos os espaços da vida social. Podemos 57
verificar isso em todas as propostas formativas que fez durante sua vida, além de suas considerações sobre a educação de seus familiares nas cartas que escreveu no cárcere.
Nesse sentido, para compreendermos melhor a proposição de formação no arcabouço teórico gramsciano, seria necessário termos uma visão mais completa de sua obra e compreendermos, ainda que minimamente, as categorias por ele formuladas. Pudemos elencar algumas categorias que consideramos de fundamental importância no bojo de seu pensamento e que servem de base para todas as outras elaborações, se vistas estando atentos à relação dialético-orgânica entre estas e os temas e conceitos por ele elaborados, já que a engendrada organicidade de seu pensamento torna difícil tratar uma categoria desvencilhada das outras. Dentre essas categorias, daremos especial destaque à Hegemonia e à Filosofia da Práxis, que cremos que nos darão os subsídios necessários para nos aprofundarmos na categoria Formação Omnilateral em sua proposição da Escola Unitária, objeto deste estudo. Passaremos, ainda que de forma breve, ao estudo das categorias Vontade Coletiva, Intelectual Orgânico, Partido, Estado, Bloco Histórico, Guerra de Movimento e Guerra de Posição.
Para compreendermos tais categorias, é preciso considerar que a organização do trabalho está diretamente vinculada ao modo de vida social, a qual passa por um processo de adaptação psicofísica, pois o modo de vida social se adequa psicológica e fisicamente à forma de trabalho que se estabelece e, para isso, é necessário que esta combinação torne-se hegemônica. Nesse sentido, Gramsci afirma que “a hegemonia nasce da fábrica” (2007, p. 247) e, para o estabelecimento dessa hegemonia, a classe dirigente faz uso da força coerciva repressiva ou ideológica, pois, para exercer a hegemonia, “necessita apenas de uma quantidade mínima de intermediários profissionais da política e da ideologia” (GRAMSCI, 2007, p. 248). Tal força, repressiva ou ideológica, será determinada pelo modo como a sociedade se organiza.
Dessa forma, para compreendermos a categoria Hegemonia, é preciso fazer um repasso do momento determinante e das características das sociedades para a emersão desta. Gramsci, ao fazer a leitura da sociedade italiana e russa de seu tempo, consegue, em sua experiência teórico-prática, aferir a diferença estrutural entre a realidade das sociedades e dos estados do Ocidente e do Oriente, figuradas pela Itália e pela Rússia. Para Gramsci, essa diferença não estava apenas na área geográfica que essas sociedades 58
ocupavam no mundo, mas no nível de organização e de interação entre a Sociedade Política e a Sociedade Civil destas.
Ademais, pouco antes de ir para a prisão, Gramsci se defrontou com duas questões que cremos que o motivaram a buscar compreender o teor das relações entre Estado e Sociedade que dificultavam a possibilidade revolucionária, quais sejam, a tese da Frente Única amplamente rechaçada pelo PC Russo44 e Italiano, nas figuras de Stalin e Togliatti, respectivamente, e a Questão Meridional, um estudo que parte das divergências entre norte e sul italiano, isto é, camponeses e operários, ambas confluem no tocante à unidade da classe subalterna para o combate revolucionário. Por isso, Gramsci, ao se debruçar sobre tais questões, encontra diversos elementos que no processo de desvelamento conectam-se com a realidade e o conduzem a um tratamento mais apurado de cada categoria, ampliando a riqueza do seu arcabouço teórico, sem perder de vista a unidade orgânica que buscava atingir no campo teórico e prático revolucionário.
Nesse sentido, no cárcere, Gramsci, guiado pelo materialismo histórico-dialético, buscava desvelar as relações de força que circundam o aparelho estatal, fundamentando-se, sobretudo, em um autor que, além de tentar retratar sua época, trouxe à tona diversos elementos de compreensão da estrutura social e do processo de fundação, expansão e extinção do Estado ou dos Estados na tela do Renascimento. Trata-se de Maquiavel que, como diplomata florentino, teve a possibilidade de viver e assistir a uma sucessão de eventos, conquistas e derrotas dos estados da península italiana, a qual, desde a dissolução do Império Romano, tornou-se palco de disputas e de batalhas internas.
Gramsci organiza suas aferições sobre o Estado e a Política no Caderno 1345, no qual explicita o que consegue identificar nas obras de Maquiavel46, mormente O Príncipe, algumas categorias que, contrastadas com a sua realidade, vão levar a uma nova leitura da estrutura social e do Estado, além do desenvolvimento de diversas categorias que levarão a uma nova perspectiva revolucionária. Na esteira do renascentista florentino, Gramsci desenvolve o Caderno, utilizando-se da mesma estratégia: expõe suas contribuições a partir da análise de eventos históricos, cujas lições foram expostas dentro de uma escrita dialética que, devido à censura do cárcere, parecem controversas, mas que têm como objetivo servir de guia para a classe revolucionária.
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Quando Stalin ascende ao poder, após a morte de Lenin.
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Este Caderno encontra-se no Volume 3 dos Cadernos do Cárcere da edição da Civilização Brasileira.
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Gramsci cita neste Caderno três obras de Maquiavel: Discorsi, O Príncipe e A Arte da Guerra.
O Príncipe, escrito em 1513, quando a Itália se encontrava num cenário de constantes conflitos internos, no qual Maquiavel, ao expor como se conquista e se perde um principado, faz recomendações para que o condottiero47ideal, que representa a vontade coletiva, personifique-se historicamente e, como afirma Gramsci (2011b, p. 14), conduza
“um povo à fundação de um novo Estado”48
. Tais recomendações caracterizam a obra do autor florentino como o fundamento da ciência política e do Estado moderno.
Com esta obra, Maquiavel foi bastante criticado pelo teor de suas afirmações, mormente sobre a capacidade de adaptar-se e saber tirar proveito das situações, ainda que adversas, para atingir um objetivo, cabendo diversas interpretações sobre as reais intenções de seus escritos, o que lhe valeu inclusive o título pejorativo de maquiavélico para referir- se a uma postura dissimulada e sem escrúpulos. Contudo, Gramsci (2011b) compartilha da ideia de que este florentino escrevera para o povo e não para os governantes, pois estes últimos já dispunham de seus conselhos, por isso adverte que
Maquiavel tenha em vista “quem não sabe”, que ele pretenda promover a educação política de “quem não sabe” [...] de quem deve reconhecer como necessários determinados meios, ainda que próprios dos tiranos, porque deseja determinados fins. […] quem é que “não sabe”? A classe revolucionária da época, o povo e a nação italiana […]. Pode-se supor que Maquiavel pretenda convencer estas forças da necessidade de ter um líder que saiba o que quer e como obter o que quer (GRAMSCI, 2011b, p. 58).
Ademais, Maquiavel termina seu opúsculo com uma exortação para que o príncipe
novo unificasse a Itália não somente geográfica, mas, sobretudo, politicamente, isto é, pela unificação da confiança e de uma vontade coletiva e, assim, libertasse-a das invasões estrangeiras e estabelecesse a paz interna entre os estados, colocando-se, assim, na posição de povo que também sofria com as constantes oscilações de poder e de instabilidade social49. O autor florentino, na verdade, buscou socializar o que sabia, pois, de acordo com Gramsci (Ibidem, p. 57), “a doutrina de Maquiavel não era [...] puramente livresca [...], o seu estilo [...] é estilo de homem de ação, de quem quer induzir à ação; é estilo de
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Líder.
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No caso de Maquiavel, pela recordação do passado da Roma Antiga, o novo Estado tratava-se da unificação do Estado italiano, o que significava o fim dos conflitos internos e das invasões estrangeiras.
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Em um desses capítulos, Maquiavel foi acusado de conspiração e, por isso, preso e torturado. E quando anistiado, recolheu-se à inatividade. Foi quando escreveu diversas obras, das quais se destacam O Príncipe, Os discursos da primeira década de Tito Lívio, na qual faz uma comparação de Florença com a Roma antiga, e A Arte da Guerra, na qual trata de estratégias militares para a guerra.
‘manifesto’ de partido [,visto que as] normas de Maquiavel para a atividade política
aplicam-se, mas não se declaram”.
Gramsci reconhece as limitações de Maquiavel devido ao momento histórico em que viveu. Porém, consegue reconhecer em sua obra alguns elementos que desenvolve à sua maneira ao contrapor ao seu contexto real, pois, tal como Maquiavel, o objetivo do nosso filósofo sardo era a conquista e a criação de um novo Estado, um Estado do “povo”, pois, segundo Gramsci (Ibidem, p. 75), naquela época, a monarquia absoluta era “uma forma de regime popular que se apoiava nos burgueses contra os nobres e também contra o clero”, ou seja, tinha em seu interior uma relação com as massas. Buscando também trilhar o caminho para um Estado popular, que, por sua vez, tratava-se da sociedade regulada50, Gramsci (Ibidem, p. 58) afirma que “Esta posição da política de Maquiavel repete-se para a filosofia da práxis [...] desenvolvendo uma teoria e uma técnica da política que possam servir às duas partes em luta, embora se creia que elas terminarão por servir, sobretudo, à parte que ‘não sabia’”, ou seja, a massa, que tem como resultado imediato “romper a unidade baseada na ideologia tradicional [...], sem a qual a força não poderia adquirir consciência de sua própria personalidade”.
Desta feita, Gramsci busca compreender as diversas relações de força que circundam o Estado moderno, com o intuito de também fornecer o conhecimento necessário “àqueles que não sabem”, a classe revolucionária, pois, “enquanto existir[,] o Estado-classe não pode existir a sociedade regulada, a não ser por metáfora” (Ibidem, p. 223). Estas relações que ocorrem entre a estrutura e a superestrutura determinam o tipo de Estado que Gramsci classifica em dois, o Estado do Oriente e do Ocidente que são assim denominados pela relação de preponderância entre o Domínio e a Direção.
Ainda que nas sociedades pré-capitalistas as ditaduras feudais necessitassem de algum consenso para legitimar-se. Este consenso era imposto pelo Estado que era Clerical, ou seja, representado ou fundido com a Igreja que, neste dado momento histórico, tinha a função de Aparelho Ideológico do Estado, como afirma Althusser51, ou seja, reproduzir a
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Devido à censura carcerária, Gramsci, por diversas vezes, defende a criação de um novo tipo de sociabilidade humana. Utilizando a palavra “Estado”, referia-se a um novo tipo de organização social e de governo, o qual deve ser dirigido pelos grupos sociais através dos conselhos, isto é, o estabelecimento do autogoverno. Deste modo, cada vez que nos referirmos a um novo tipo de Estado em Gramsci estaremos nos referindo ao Estado que o filósofo sardo denomina de “sociedade regulada”.
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Ver a obra Aparelhos Ideológicos do Estado, de Louis Althusser, na qual o autor nega a possibilidade de obtenção do consenso hegemônico ou inversão da ideologia dominante pela ideologia subalterna, pelo fato de as 61
ideologia dominante, mas tinha sua ideologia assegurada preponderantemente pela coerção. Porém, na medida em que o capitalismo se desenvolveu nos países mais industrializados e ocorria a laicização do Estado com o movimento iluminista e a Revolução Francesa, “a fórmula pela qual ‘a religião é uma questão privada’ radicou-se como forma popular do conceito de separação entre Igreja e Estado” (Ibidem, p. 103). Dessa forma, a função hegemônica passa da condição de imposição pública para adesão privada voluntária. Desta feita, na medida em que ocorreu o desmembramento da Igreja e de outras instituições e a laicização do Estado, que era absolutista, houve uma socialização política que se manifestou com a formação de sujeitos de massa, como a criação de partidos, sindicatos, além do sufrágio universal.
A técnica política moderna mudou completamente após 1848, após a expansão do parlamentarismo, do regime associativo sindical e partidário, da formação de vastas burocracias estatais e ‘privadas’ (político-privadas, partidárias e sindicais), bem como das transformações que se verificaram na organização da polícia em sentido amplo, isto é, não só do serviço estatal destinado à repressão da criminalidade, mas também do conjunto das forças organizadas pelo Estado e pelos particulares para defender o domínio político e econômico das classes dirigentes. Neste sentido, inteiros partidos ‘políticos’ e outras organizações econômicas ou de outro gênero devem ser considerados organismos de polícia política, de caráter investigativo e preventivo (GRAMSCI, 2011b, p. 79).
Nessa trilha, a Sociedade civil emergiu e se estabeleceu, transformando os aparelhos ideológicos do Estado em aparelhos privados de hegemonia, impondo a agudização da luta pela hegemonia. Nessa tela, Gramsci supera a visão de Maquiavel que, por viver no momento em que os Estados prósperos eram os absolutistas, aguardava a personificação histórica do tão esperado Príncipe, do “hipotético homem providencial” (Ibidem, p. 75) em um sujeito, um indivíduo que unificaria a Itália em um Estado soberano e absoluto, “um condottiero, que representa a vontade coletiva que é formada para um determinado fim político” (Ibidem, p.13). Gramsci, que vive num momento em que a sociedade civil se organiza, com sua visão coletiva de formação não somente da vontade coletiva, mas sobretudo, do sujeito coletivo, afirma que
instituições sociais assegurarem, juntamente ao Estado, a ideologia dominante e que, deturpadamente, essa visão é atribuída a Gramsci.
O moderno príncipe, o mito-príncipe não pode ser uma pessoa real, um indivíduo concreto, só pode ser um organismo; um elemento complexo de sociedade no qual já tenha tido início a concretização de uma vontade coletiva reconhecida e afirmada parcialmente na ação. Este organismo já está dado pelo desenvolvimento histórico e é o partido político, a primeira célula na qual se sintetizam germes de vontade coletiva, que tendem a se tornar universais e totais (GRAMSCI, 2011b, p. 16).
Desta feita, embora estas organizações não façam parte diretamente da sociedade política, ou Estado, no sentido estrito, este estabelece com as primeiras uma relação de poder por, nesse momento de estabelecimento de “ideais liberais” e de “direitos e liberdades democráticas”, exigir que o Estado busque o consenso dos governados e estabeleça um novo tipo de governo, buscando obter dos organismos sociais o consenso para a manutenção do status quo. Porém, de um “consenso organizado”, que o “Estado tem, pede e educa o consenso através das associações políticas e sindicais” (Ibidem, p. 119).
Nesse sentido, a ideologia tem um papel determinante, e Gramsci denomina a Sociedade Civil como espaço dos aparelhos privados de hegemonia, ou seja, o espaço no qual a ideologia se consolida, como mediadora entre a estrutura, ou seja, o modo de produção e a superestrutura, o Estado. Contudo, para Gramsci, Sociedade Civil não se trata diretamente de um sinônimo de sociedade burguesa, por isso, detém uma visão dialética da ideologia. Desta feita, não exatamente a ideologia preponderante é ou deve ser a ideologia burguesa, vislumbrando, assim, a possibilidade de sobreposição da ideologia proletária nesse âmbito que poderá refletir diretamente na Sociedade Política, já que a conquista hegemônica deve ocorrer no interior do Estado, ou seja, através da Sociedade Civil e suas instituições onde se formam os sujeitos e os intelectuais que colaboram nas atividades da superestrutura política. Desse modo, para Gramsci, a transição se estabelece como processo revolucionário marcado pela eliminação progressiva dos instrumentos de coerção, por uma longa marcha destas instituições da Sociedade Civil e não somente pelo embate frontal defendido pelos maximalistas52, no intuito de que a Sociedade Política seja assimilada pela Sociedade Civil. Por isso, defende a subsunção da Sociedade Política, pois
“a racionalidade historicista do consenso numérico (dos votos no regime parlamentarista) é
sistematicamente falsificada pela influência da riqueza” (Ibidem, p. 83) – e noutros
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Aqueles que defendiam a tese de que haveria o Grande Dia da Revolução, o iminente colapso do capitalismo, a derrubada do poder e o estabelecimento do Estado proletário numa visão mecânica e fatalista.
regimes não formados segundo os padrões da democracia formal, orientada para uma sociedade genuinamente igualitária tal como os soviets. Segundo Gramsci,
[...] o consenso não tem no momento do voto uma fase final, muito ao contrário. Supõe-se o consenso permanentemente ativo, a ponto de que aqueles que consentem poderiam ser considerados como “funcionários” do