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Os primeiros encontros para a formação em contexto ocorreram no mês de maio de 2012. Em cada reunião, o grupo que era formado por quatro professoras e uma coordenadora pedagógica recebia impresso um planejamento13 de aula contendo o tema, os objetivos, a metodologia utilizada e os recursos necessários para aquele dia. No primeiro encontro, que aconteceu no dia três de maio, das 17h às 21h, após o expediente da creche, discutiu-se o tema: “A Escala ITERS-REVISED: um instrumento que permite avaliar diversos aspectos do ambiente da creche”. Essa discussão foi necessária, já que esse procedimento constituiu um dos objetivos deste trabalho - avaliar o ambiente da creche por meio desta Escala e avaliar os resultados da mesma com os sujeitos da referida pesquisa.

Após uma breve explanação sobre a própria Escala, foram apresentados os resultados da aplicação da mesma no ambiente educacional do Infantil II da creche “Brincar é Viver” e também os resultados da pesquisa “Educação Infantil no Brasil: avaliação qualitativa e quantitativa”, realizada em seis capitais brasileiras. Vale ressaltar que, antes da exposição dos resultados referente à aplicação da Escala na sala do Infantil II, a professora foi consultada e autorizou que o mesmo fosse divulgado para suas companheiras de trabalho.

De um modo geral, as análises desta pesquisa indicaram que as médias das pontuações obtidas baseadas nos resultados de cada subescala da Escala ITERS-R não correspondem a níveis adequados de qualidade. Nessa ocasião, as professoras compararam os resultados obtidos em cada subescala desta pesquisa com os resultados obtidos no âmbito local, e constataram que também na creche, onde trabalham, as médias das subescalas

classificaram-se no nível inadequado de qualidade. A seguir, o grupo escolheu as dimensões da Escala que constituiriam os eixos do processo de formação em contexto.

A média geral da Escala ITERS-R aplicada na sala do Infantil II foi 2,89, pontuação esta indicativa de baixo nível de qualidade, e a média da subescala “atividades”, comparada com as demais, situou-se em um patamar mais baixo ainda: 1.8. Considerando que a escolha isolada desta subescala como foco de estudo e intervenção poderia limitar o processo de formação em contexto, a equipe decidiu pelo tema “planejamento”, argumentando que este direciona todas as atividades da creche. O planejamento, pois, foi trabalhado à luz das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil (BRASIL, 2009), enfocando, especificamente, o planejamento de experiências que tenham como objetivo garantir à criança acesso aos processos de apropriação e articulação de conhecimentos e aprendizagens.

As professoras e a coordenadora também optaram por estudar o tema “avaliação”, argumentando que lhes falta uma fundamentação teórica consistente para o desenvolvimento de um processo avaliativo que constitui efetivamente um instrumento de reflexão sobre a prática pedagógica. Embora “avaliação” não seja uma das subescalas da Escala ITERS, as professoras consideraram essencial sua inclusão como foco de estudo, pois, desde que sua finalidade é acompanhar e repensar o trabalho realizado, tem, portanto, relação com todas as outras subescalas.

Explica Hoffmann (2008) que “A avaliação é essencial à educação. Inerente e indissociável, enquanto concebida como problematização, questionamento, reflexão sobre a ação” (p. 15). Portanto, à medida que estudávamos os temas, a avaliação, embora ainda não direcionada especificamente a cada criança, fazia-se presente, pois a equipe refletia sobre como estava desenvolvendo sua prática e do que necessitava para melhorar. Esse exercício de reflexão posteriormente favoreceu a compreensão de como registrar as ações das crianças e também da professora para a elaboração de relatórios de avaliação individuais.

Com base na escolha dos temas, foi elaborado um plano de estudo fundamentado nas propostas da equipe que orientaram a seleção do suporte teórico que contribuiria para a melhoria da prática. A formação passou a ser orientada por esse plano que era flexível e proposto colaborativamente pelo grupo como já explicado no capítulo da metodologia. Para Imbernón (2009), “quando se propõe um projeto, o professorado pode escolher que teoria auxiliará a levá-lo à prática” (p. 41).

Partindo de uma perspectiva que considera a formação como momentos de reflexão sobre a prática, os encontros foram combinados com a equipe, que se disponibilizou inicialmente a participar de 40 horas aulas. Essas horas foram alocadas, na maioria das vezes,

ao final do expediente das professoras. Nesse momento, todas se organizaram para estarem juntas e compartilharem as especificidades de suas práticas, bem como suas dúvidas e questionamentos. Segundo Imbernón (2009), numa formação para professores é necessário

Criar estruturas (redes) organizativas que permitam um processo de comunicação entre os pares e intercâmbio de experiências para possibilitar a atualização em todos os campos de intervenção educativa e aumentar a comunicação entre o professorado para refletir sobre a prática educativa mediante a análise da realidade educacional, a leitura pausada, o intercâmbio de experiências, os sentimentos sobre o que acontece, a observação mútua, os relatos de vida profissional, os acertos e os erros... que possibilitem a compreensão, a interpretação e a intervenção sobre a prática (p.40 - 41).

Esses aspectos destacados pelo autor estiveram presentes em nossos encontros, uma vez que envolvemos a equipe pedagógica da creche para refletir sobre suas práticas e partilhar suas preocupações e experiências, considerando suas condições concretas de trabalho.

Ainda em relação ao tempo de duração dos encontros, este se baseou na carga horária mínima exigida pela Prefeitura de Fortaleza para uma “promoção por capacitação”. Vale ressaltar que, em 2007, a referida prefeitura instituiu a Lei nº 9249 que trata dos Planos de Cargos, Carreiras e Salários (PCCS) na qual é explicado como a promoção por capacitação ocorre. Como um fator de motivação extrínseca, informamos às professoras e à coordenadora que elas receberiam um certificado emitido pela Pró-Reitoria de Extensão da Universidade Federal do Ceará, pois a formação em contexto ora desenvolvida havia sido cadastrada como um curso de 40 horas na referida Pró-Reitoria.

Essa estratégia foi utilizada como precaução, uma vez que já eram de nosso conhecimento algumas dificuldades enfrentadas por outros pesquisadores que desenvolveram ações pedagógicas com as professoras da rede pública. Seus relatos sempre identificaram problemas semelhantes, como: a falta de tempo para a participação nas reuniões; a impossibilidade da saída da professora de sala por não haver uma pessoa para substituí-la; a falta de compromisso com a pesquisa; a falta de estímulos para participar dos grupos de estudo e até mesmo a desistência do grupo antes do trabalho ser concluído. Portanto, para incentivar que os encontros se realizassem, evitando a interrupção da pesquisa por desistência do grupo ou por qualquer outro motivo, decidimos que, ao final da formação, os certificados seriam entregues. Sabíamos que a simples emissão dos mesmos não asseguraria a permanência do grupo na pesquisa até o final, pois compreendemos que, nesse tipo de ação, outros fatores estão envolvidos, tais como o interesse próprio, o compromisso com a Educação Infantil, a disponibilidade de cada uma, bem como o apoio dado pela equipe da

direção da instituição. É importante destacar que o grupo já tinha aceitado participar da formação mesmo antes de saber dessa possibilidade de receber certificados.

Outro fator importante para que as professoras aceitassem participar desta pesquisa foi o incentivo dado pela coordenadora pedagógica. Ela apoiou deste o início a pesquisa e tentava envolver todo o grupo, mostrando a relevância da mesma para o crescimento profissional da equipe. De acordo com suas afirmações, algumas professoras poderiam oferecer resistência por causa do horário dos encontros que ocorreriam depois do expediente, mas conversando com a equipe, explicando o trabalho, dando sugestões de horários para a realização dos grupos de estudos, conduziu de forma que todas pudessem participar. Ela relatou: “acho que essa é uma oportunidade para estudar, para se atualizar, como a pesquisa de uma universidade está vindo até nós, temos mais que aproveitar”.

Dessa forma, os encontros foram agendados e, posteriormente, confirmados nos dias propostos; no entanto, nem sempre ocorreram nas datas e horas marcadas devido aos imprevistos que aconteciam durante a semana. Foi acordado primeiramente com a equipe que as 40 horas aulas seriam divididas em blocos de quatro horas com periodicidade semanal.

Efetivamente, os encontros tiveram a seguinte distribuição: em maio três vezes; em junho três vezes; em agosto uma vez e em setembro três vezes, totalizando dez encontros de quatro horas. Os dias da semana escolhidos pela equipe variavam muito, em função da possibilidade da presença de todas. Mesmo assim, para não adiarmos muito as datas previstas, reunimo-nos uma vez sem a presença da coordenadora, em uma semana, e, na outra, sem a professora do Infantil III A.

É necessário informar que, no mês de agosto, o Centro de Cidadania no qual a creche está inserida, começou a ser demolido para a construção de um CUCA14, e isso inviabilizou continuarmos com as reuniões nesse local. Fizemos, então, o sétimo encontro que incluiu as reflexões sobre a avaliação da prática pedagógica na Educação Infantil na residência de uma das professoras. Após essa reunião, percebemos que um tema muito importante para a Educação Infantil não havia sido discutido e que ainda teríamos tempo para fazê-lo: a linguagem verbal (oral e escrita). Assim sendo, visando explorar as experiências do artigo 9º das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil (BRASIL, 2009), perguntamos

14 CUCA significa Centro Urbano de Cultura, Arte, Ciência e Esporte, criado pela Prefeitura Municipal de Fortaleza, com o objetivo de proporcionar aos jovens, vivência por meio da disposição de novos espaços e alternativas de desenvolvimento sociocultural e econômico. O CUCA oferece um ambiente propício para o desenvolvimento de diversas atividades, tais como: esporte (futsal masculino e feminino, basquete masculino e feminino, futebol americano, capoeira, vôlei, capoeira), música, teatro, informática, idiomas, literatura, dança e comunicação popular (PREFEITURA MUNICIPAL DE FORTALEZA, 2013).

ao grupo se seria possível encontrarmo-nos mais uma vez para estudarmos este tema. As professoras aceitaram, mas, como na ocasião a creche não estava funcionando por causa da construção do CUCA, esse encontro só foi possível no dia doze de setembro, em casa de uma das professoras, pois não havia previsão de quando a creche voltaria a funcionar. A própria coordenadora encarregou-se de se articular com as professoras para combinar o local do encontro.

Dessa forma, encontramo-nos na casa da professora Joana e concluímos as discussões baseadas no inciso III, “Experiências que possibilitem às crianças experiências de narrativas, de apreciação e interação com a linguagem oral e escrita, e o convívio com diferentes suportes e gêneros textuais orais e escritos”, que serão posteriormente descritas neste trabalho.