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Podem-se dividir os termos que mais recorrem na peça em seis campos semânticos: 1) nascimento, origem social e caráter, 2) coros e poesia, 3) sabedoria e habilidade 4) navios e frota, 5) terra e 6) testes69.

A raiz mais repetida ao longo d'As Rãs é gen(n)-/gon- (que está relacionada às ideias de origem e nascimento70). Essa comédia apresenta a raiz 29 vezes, seguida por As Aves, em que

encontramos 25 ocorrências; nas outras peças, há de três a nove aparições. Dos termos com essa raiz, há dois cujo uso é especialmente frequente: gennádas e gennaîos, que significam “nobre”, moral ou socialmente. O primeiro ocorre cinco vezes n'As Rãs, enquanto há apenas outras três ocorrências em todas as outras peças; já o segundo aparece 10 vezes, quase a mesma frequência que se encontra em todas as outras comédias somadas (13 vezes). Outras expressões frequentes na peça que indicam nobreza moral e social, mas derivam de outras raízes são kalós kagathós e khrestós. A primeira expressão, rara no corpus aristofânico como um todo, aparece três vezes n'As Rãs, deixando a peça atrás somente d'Os Cavaleiros, em que o uso se justifica pela presença do coro de jovens aristocratas (quatro vezes). Entre as peças supérstites, As Rãs também mostram a segunda maior frequência do termo khrestós (12), sendo superadas apenas pelo posterior Pluto, que apresenta a palavra 18 vezes.

Os termos que denotam vileza moral e baixa extração social (agoraîos, kóbalos, mokhterós, panoûrgos, ponerós), apesar de não ser tão frequentes quanto as expressões positivas, têm presença bastante marcada. Se somarmos todos, As Rãs ficam em terceiro lugar, com 22 ocorrências, perdendo para Os Cavaleiros (40 ocorrências – que podemos creditar à disputa de vileza entre o escravo Paflagão e o Salsicheiro, que toma o centro da obra) e Pluto (24 aparições – o que pode estar ligado à relação entre vício e riqueza que se encontra na peça). Quanto às palavras tomadas individualmente, pánourgos (“malandro”) está particularmente presente (sete repetições), sendo que nisso a peça fica depois d'Os Cavaleiros (em que o termo aparece 15 vezes) e d'As Tesmoforiantes (11 vezes – a maior parte devida aos insultos dirigidos a Mnesíloco, que é descoberto ao invadir as Tesmofórias, ritual por lei exclusivo às mulheres, para evitar um plano que lá é armado contra seu parente, Eurípides). A comédia também apresenta as segundas maiores ocorrências de kóbalos

69 Realizei o levantamento utilizando o programa Diógenes para pesquisar o Thesaurus Linguae Graecae. Pode-se consultá-lo no Apêndice I.

(“charlatão”, duas vezes; trata-se de termo raro, que é mais frequente n'Os Cavaleiros – cinco vezes) e de mokhterós (“canalha”, três ocorrências; nisso é levemente superada por Pluto, que apresenta a palavra quatro vezes).

Também é notória a reiteração de termos relacionados à poesia. De longe esta é a peça em que os termos derivados de khorós (“coro”) mais aparecem (29 ocorrências)71. Os termos derivados de poietés também recorrem muito mais do que em todas as outras peças (14 vezes), bem como os derivados de Moûsa (14 vezes, no que As Rãs são seguidas de perto apenas por As Aves), dentre os quais mousiké (o composto de música e poesia) e seus derivados são especialmente presentes (quatro ocorrências, superando as outras peças), juntamente com o próprio nome das deusas (oito ocorrências, no que é curiosamente derrotada por As Aves, onde se diz o nome 10 vezes). Em parte relacionada à poesia, em parte ao poder criador expresso na raiz gen-/gon-, é a reiteração de compostos terminados em -poiós e -poieîn (“fazedor”, "fazer"), que, com sete aparições, supera a presença do sufixo em qualquer outra comédia.

Além disso, As Rãs são a segunda peça onde mais aparecem termos derivados de sophós (“sábio”, “engenhoso”), com 20 reiterações, no que é superada, por motivos óbvios, por As Nuvens (em que os termos aparecem 32 vezes). Outros termos do mesmo campo semântico bastante presente são os derivados de dexiós (“hábil” – aparecem sete vezes72), embora nisso a peça seja

superada por As Vespas, Os Cavaleiros (com oito e nove ocorrências respectivamente) e sobretudo As Nuvens (em que os termos aparecem 12 vezes).

Em quarto lugar, destacam-se os termos derivados de naûs (“navio”). Com 16 ocorrências dessas palavras, a peça supera de longe todas as outras comédias, sendo seguida mais de perto apenas por Os Cavaleiros (com 12 aparições). Como já comentado, dentre eles se sobrassaem os termos relacionados a naumakhía (“combate naval”), que comparecem oito vezes, em comparação às outras três em todas as outras comédias. Também é muito presente o nome de Poseidon (seis recorrências), e nisso a peça fica atrás apenas d'Os Cavaleiros (em que o deus é importante por ser protetor tanto dos navios como dos cavalos – seu nome aparece 10 vezes) e d'As Aves (em que o nome aparece muito porque o deus é personagem – oito vezes).

Em quinto, são particularmente frequentes as palavras derivadas de gaîa (“terra” – 14 vezes), que só aparecem mais n'As Aves, por causa da teogonia paródica que há naquela peça, e n'A Paz pelas frequentes menções à agricultura. As Rãs também é a comédia onde mais se repete o nome de Deméter (sete vezes, empatada com Os Cavaleiros). Poder-se-ia atribuir isso ao fato de o coro da peça ser formado por iniciados nos Mistérios Eleusinos, que celebravam a deusa e sua filha,

71 A insistência nas palavras derivadas de khoroí é brevemente comentada por Segal (1961:224). 72 Excluindo-se os três usos de dexiá (“mão direita”).

Perséfone; no entanto, embora o mesmo pretexto pudesse ser aplicado a As Tesmoforiantes, lá a deusa é nomeada apenas duas vezes.

Por fim, são numerosos os termos derivados de básanos (“teste de genuinidade”, “interrogatório por tortura”). Eles são raros em toda a produção de Aristófanes, e, de suas 14 aparições, 10 estão n'As Rãs. Além disso, os derivados de kodonízo, verbo que significar “testar” (principalmente aplicado a moedas), raros na obra de Aristófanes, aparecem duas vezes n'As Rãs (a única outra aparição está em Lisístrata).

Na reiteração desses termos, veem-se sublinhadas as temáticas que se identificaram no estudo da parábase: a relação do bom nascimento e do verdadeiro pertencimento à terra com a moral, a importância dos coros e de seus poetas, bem como da sabedoria e da inteligência, o papel da frota ateniense na proteção de Atenas e a necessidade de testar e conhecer os bons cidadãos. Desse modo, pode-se julgar que são esses os temas em torno dos quais se estrutura a ação da comédia.

Benzer Belgeler