2. ÇANKIRI’DA DUYGU GAZETESİNE GÖRE (1930-1938)
2.5. CHP İl –İlçe İdare Heyetlerinin Faaliyetleri
Optei por apresentar a Inhaúma em termos cartográficos, ao final desse trabalho. Essa opção não ocorreu para se criar expectativas, suspenses em relação às representações da seca no imaginário dos sujeitos rurais. Ao contrário, idealizei um recorte temporal. Logo, o tempo presente, curiosamente, está mais próximo do final da pesquisa.
Nessa perspectiva, torna-se interessante saber como homens e mulheres caracterizam seu espaço social, seu espaço de vida. A Inhaúma, no imaginário coletivo, é um espaço muito mais amplo do que o real - o núcleo de convívio onde se localizam a sede da associação, o campo de futebol e o bar. Nesse sentido a noção espacial da Inhaúma se assemelha à noção dos gerais, dispersos no sertão. Basta observar a fala de um depoente:
“Inhaúma é uma coisa só; é geral.” A referência espacial, segundo ele, é dada pelas
pessoas e pelo córrego. “Se não disser o nome e se é da Baixa, do Meio ou da Cabeceira, é geral.” O sentido da Inhaúma é dado pela água; a ocupação acompanhou o curso do
córrego da Inhaúma, afluente do rio Pacuí103. O córrego Inhaúma é uma marca simbólica na paisagem rural. É norteador das atividades desenvolvidas. É fonte de vida e de trabalho. É água! (FIG.7)
103 Foram identificadas com GPS as coordenadas de 45 casas de moradores da comunidade. Verificou-se que o
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A cana, o leite e a mandioca permanecem como produtos complementares à renda do agricultor. Alguns agricultores produzem a cachaça, não mais nos engenhos de madeira, mas nos engenhos de ferro, mais modernos, embora ainda de modo rudimentar. A rapadura é produzida durante o período de estiagem, mas agora em escala menor do que no passado. Ela vem sendo introduzida na merenda escolar pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). São programas especiais para compra antecipada de mini-tabletes de rapadura produzidos por pequenos agricultores. Na Cabeceira há uma família que se integrou a um programa de produção de mini-rapaduras para merenda escolar.
Hoje, a farinha é produzida particularmente em algumas glebas de agricultores, como também na tenda de farinha construída pela associação local. O queijo e o requeijão são hoje os produtos que conseguem alcançar o mercado das cidades vizinhas – São João da Lagoa, Coração de Jesus e Montes Claros - e complementam a renda dos agricultores. A produção de dois queijos por dia é de responsabilidade da mulher, cabendo ao homem comercializar o produto.
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O mel é um produto que complementa a renda do agricultor da Inhaúma durante a seca. A produção do mel de abelha das floradas de aroeira e de assa-peixe104 é a mais comum na chapada. O período de floração da aroeira se estende por vários meses acompanhando a estiagem. A aroeira produz um mel muito escuro, com sabor e aroma agradáveis. Uma mulher da comunidade comentou que esse é um mel escuro, forte, muito bom para a mulher (para quem tem algum problema ginecológico). A flor do assa-peixe, um arbusto do cerrado, é uma das preferidas pelas abelhas. Elas colhem o néctar a partir de meados do mês de julho e produzem um mel saboroso e aromático.
Durante uma conversa com um agricultor, ele comentou que produz mel no sistema de parceria com uma pessoa de Montes Claros. São quinze caixas de abelha Europa produzindo 80 quilos de mel. De acordo com o agricultor, a concorrência é grande na cidade e, por isso, prefere vender o mel a pessoas que conhecem a produção do seu mel. Ele reconhece as compensações da seca, pois “quando o ano é controladinho dá muita florage. A seca é boa pra colher mel.”
A construção do calendário sazonal representou o trabalho e a dedicação do pequeno criador de gado ao longo do ano (QUADRO 2). Os rebanhos, grosso modo, não ultrapassam 10 animais e são criados juntos. A atividade pecuária se caracteriza como de leite e corte e é realizada por meio de sistemas tradicionais, com ordenha manual, o gado criado solto no pasto e o sistema de marcação feito com ferro aquecido na brasa.
Águas Seca
dez jan Fev mar abr Mai Jun Jul Ago Set out Nov
berne mosca de chifre
raiva botulismo
vacas
paridas vacinação: aftosa pêlo arrepiado Ração vacinação:aftosa
“Melhor. Os problemas são menores.”
“O sofrimento é demais porque tem de dar de comer o gado.”
Quadro 2 - Calendário sazonal da pecuária na Inhaúma, segundo os moradores
104 Nome científico: Vernonia Polyanthes.
temperatura seca
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Os objetivos da atividade restringem-se à criação de vacas para produção de leite como alimento complementar à renda do núcleo familiar e os bezerros, por sua vez, são criados para garantir uma reserva financeira para a família.
A atividade pecuária está sujeita a adversidades uma vez que o organismo do gado está em contato com diferentes agentes que provocam doenças parasitárias, tais como o berne105 e a mosca-de-chifre106; doenças infecto-contagiosas, incluindo a raiva107 e a febre aftosa108; e outras como o botulismo109, ocorridas por intoxicação.
Ainda que o período das águas, com temperaturas mais elevadas, propicie o aparecimento de doenças nos animais, os agricultores comentaram que o período das águas é melhor do que a seca. Na opinião dessas pessoas, os animais podem ser tratados, mesmo com a perspectiva de morte. De modo contrário, durante a seca, como as temperaturas e a umidade relativa do ar a noite são mais baixas, dificultam o aparecimento de doenças no gado. Curiosamente, este é considerado o período mais trabalhoso para o pequeno produtor. As razões para isso se referem, prioritariamente, à questão alimentar. Nenhum manejo especial é realizado com as vacas110 prenhes. Contudo, quando o momento do parto se aproxima, ocorre um acompanhamento para verificar a necessidade de buscar auxílio com um vizinho, caso ocorram complicações. Entretanto, durante a seca os cuidados com as vacas paridas e os bezerros absorvem os produtores. (FIG.
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O berne é composto de larvas de moscas que se instalam no couro dos animais. As moscas abrigam-se nas chapadas, especialmente onde existe vegetação de capoeiras e arbustos fechados, onde os animais procuram descansar ou proteger-se do sol. As condições ideais para a sobrevivência das moscas são aquelas de clima quente, com temperatura e pluviosidade relativamente elevadas. Em razão disso, o gado é acometido pelo berne durante o período das águas.
106 A mosca-do-chifre é um inseto que se alimenta do sangue do gado. Ela ataca em grupos numerosos no dorso
do animal, permanecendo ali por vários dias para a postura dos ovos. Durante os meses de dezembro a março, com o aumento da temperatura e da umidade, aumenta a infestação da mosca-do-chifre nas propriedades.
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A raiva é uma doença que afeta o gado, causada por um vírus cujo principal transmissor é o morcego. A disseminação da raiva ocorre, sobretudo pelo aumento da oferta de alimento, representado pelo significativo crescimento dos rebanhos; desmatamento, pois altera o habitat dos morcegos, obrigando-os a buscar outras áreas e oferta de abrigos artificiais, tais como cisternas, casas abandonadas e fornos de carvão desativados.
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A febre Aftosa é uma doença contagiosa que ataca bovinos de casco fendido. Ela é produzida por diversos tipos de vírus transportados pelo ar, pela água e alimentos. O governo brasileiro mantém um programa de erradicação da aftosa através de vacinação periódica do gado.
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O Botolusimo é uma infecção grave, causada por uma toxina que ataca o sistema nervoso dos animais. Ele resulta do desequilíbrio alimentar, motivado pela deficiência de fósforo no organismo do gado. A incidência do botulismo aumenta no período das águas, no qual se percebe maior deficiência de fósforo nas pastagens.
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Não se percebeu entre os pequenos produtores a presença de um reprodutor. O que se sabe é que durante o cio das vacas, toma-se emprestado o reprodutor de algum morador da comunidade ou de uma propriedade vizinha para que ocorra a monta.
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Figura 8 - Esquema de cuidados do produtor com as vacas durante a seca
Esses cuidados envolvem desde a complementação do alimento para a matriz até a mamada do colostro e a cura do umbigo dos bezerros. Após o parto, o produtor aguarda a vaca recém parida fazer a limpeza da cria e o bezerro sugar o colostro. Quanto à cura do umbigo, não há preocupação em evitar contaminação, e a cura é realizada com óleo queimado. Essa relação trabalho-alimento é contraditória, pois é nesse mesmo período que o produtor enfrenta a escassez de pasto.
Os pequenos criadores utilizam estratégias de produção de alimentos para suprir as necessidades do gado durante a seca. Diariamente, eles preparam uma ração à base de cana e milho, suficientes para evitar a desnutrição. Eventualmente, quando a seca é mais intensa, os produtores recorrem ao mandacaru, fornecido ao gado após serem retirados os espinhos.
A seca transforma as áreas de pastagem. Do tom verde escuro o capim passa a ter uma cor amarelada, ressecada, empalhada. O embujero - é assim que o produtor denomina o vento frio da madrugada e o tempo nublado - arrepia o pêlo do animal. Ele não se alimenta com a mesma disposição. O animal escorre, segundo os saberes locais, ou seja, perde peso, enfraquece. As vacas leiteiras são prioridade na alimentação suplementar, pois elas ficam mais enfraquecidas. É preciso fazer a ração duas vezes ao dia para alimentar os
animais e isso demanda tempo, dedicação e força de trabalho. Ademais, o período de alimentação suplementar para o gado se estende por vários meses, agravando-se conforme a intensidade da estiagem. Quando as vacas são alimentadas com ração, há uma melhoria na produção de leite. Fabrica-se o queijo de cerca de 600 gramas, embora a demanda seja pelo queijo de 1 quilo.
O que ficou evidente durante a elaboração do calendário sazonal é que a seca é uma certeza para os inhaumenses e segundo eles, “tem que prevenir.” Isso significa cultivar
a cana e o milho, fazer a colheita e armazenar para alimentar o gado durante a seca. Eles Parto
Ração
Mamada do colostro Cura do umbigo
Seca
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reconhecem as dificuldades nesse período, pois “uma coisa ruim da seca é as conseqüência. Se a gente cria e ainda morre...” Se há certeza da seca, por que não se
preparar? Essa é a lógica do pensamento do agricultor; uma lógica de convivência com a seca e não de combate à seca.
Em condições normais, mesmo no período das águas, a segunda quinzena de janeiro é marcada por uma breve, mas intensa estiagem, que “somente Deus para ter piedade da gente”, diz um agricultor. Ou seja, a seca não atemoriza o agricultor apenas nos
meses regulares (entre abril e novembro). Essa estiagem de janeiro conhecida como veranico, amedronta muito mais o agricultor que está cultivando o feijão e o milho, do que a estiagem do meio do ano. O que se observa é que o veranico atinge os produtos agrícolas com muita intensidade, prejudicando a colheita nos meses subseqüentes. E a seca do meio do ano, por sua vez, penaliza os animais, sem pasto para se alimentar.
O calendário de atividades agrícolas (QUADRO 3) foi elaborado pelos agricultores para retratar as atividades produtivas da comunidade, identificando os produtos cultivados em um recorte temporal. O reconhecimento das atividades agrícolas desenvolvidas para cada tipo de produto e do período do ano que elas ocorrem, favorece não só o planejamento dessas atividades, como pressupõe a criação de alternativas para conviver melhor com as duas estações do ano predominantes na comunidade – a seca e as águas.
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Produto/atividade jan fev mar abr mai jun jul ago set out nov Dez
Feijão
colher xxx xx
Milho
repassar a roça xx
dobrar (ou quebrar) xxx
carrear e levar p/ paiol x Mandioca plantar xx Arroz plantar x colher x Trabalho fora “macaquear” pros outro xx xx xx xx xx xx xx Mel
tratar das abelhas x x x x
colher o mel x x x
Terra
arar xxx
plantar xxx
limpar a roça xxx Xxx
Legenda: x pouco; xx regular; xxx muito
Quadro 3 - Calendário de atividades agrícolas, segundo os moradores
A construção do calendário agrícola e de atividades reforçou a constatação do cultivo de produtos tradicionais na comunidade – arroz, feijão, milho e mandioca. Eles reconheceram que os meses mais difíceis em termos de ocupação são os de seca, em particular, para aqueles que não possuem uma pequena criação de gado. É nesse período que os agricultores buscam trabalho nas terras de fazendeiros. Em geral, o trabalho refere- se, dentre outros, a construção e reparos de cercas, a corte de cana e moeção do milho para fabrico de ração para o gado, a limpeza de pasto. Durante a construção do calendário, eles comentaram que o carvão era a base de seu trabalho durante a seca. Contudo, com a intensificação da fiscalização dos órgãos competentes e a modernização tecnológica, houve o aprimoramento do uso de ferramentas de fiscalização tais como o GPS e “hoje não tá
tendo serviço.”
O feijão é a base do alimento doméstico. As mulheres acreditam que ele é forte, sustenta o homem que trabalha na roça. Com efeito, os pequenos agricultores cultivam o feijão das águas. Aqueles que plantaram o feijão tardiamente ainda arriscam a plantar o
feijão da seca para a manutenção do produto no grupo familiar.
Do mesmo modo que o feijão é um alimento constante na mesa da família do agricultor, o milho é essencial para o alimento dos animais. Abastece as pequenas criações
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- galinhas e porcos -, bem como as vacas e o cavalo. Este último tem que ser muito bem tratado, pois é força de trabalho durante o período de preparo da terra.
O arroz é cultivado apenas por aqueles agricultores que possuem parcelas de terra na Barra da Inhaúma, já próximo à foz do córrego. Isto porque para que o arroz se desenvolva é necessário ser cultivado em áreas de solos com boa retenção de umidade.
A extração do mel de abelha ainda é uma atividade pouco explorada na Inhaúma. São poucos os agricultores que estão envolvidos com o mel embora eles afirmem que “a seca é boa pra colher o mel.” É nesse período que eles tratam das colméias e colhem o mel
produzido para ser comercializado informalmente.
O agricultor mantém uma relação profunda de respeito com a terra. Ela devolve o suor do homem, o seu trabalho na forma de alimento. A terra agradece quando é preparada, cuidada, acarinhada nos momentos determinados pelo ciclo da natureza. Essa relação direta e simbólica confere à terra valores que, ao serem internalizados, criam a perspectiva de reprodução da estrutura social. Nas palavras de um agricultor, “lembro de meu irmão limpano roça em setembro ou já tava plantano. Tem uns 30 anos. Hoje, no final de outubro a gente começa a preparar a terra. O homem mudou muito as coisa.” O depoimento
representa as alterações climáticas ocorridas ao longo dos anos, refletindo no atraso da chegada da estação chuvosa no norte de Minas.
Cabe ressaltar o vínculo estabelecido entre o agricultor e a terra, preparando-a, cultivando-a. Esse vínculo resiste nas gerações que se sucedem, pois conforme um agricultor, “fui criado plantano roça nas água pra ter fartura na seca com rapadura e farinha.”
A transmissão de saberes ocorre na prática desde a infância. Crianças se deslocam para as áreas de cultivo e colaboram no período da semeadura. A dinâmica do trabalho na terra se materializa pelo preparo, pelo plantio, pela limpeza das roças, pela colheita. Todas essas atividades se sucedem temporalmente, iniciando nas primeiras chuvas e finalizando nos meses secos e frios de maio e junho. Elas representam as estratégias de sobrevivência criadas pelo pequeno agricultor no sertão norte - mineiro.