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Umas das características mais marcantes da comunicação científica é o lugar que ocupa o artigo publicado em periódico científico. A valorização desse item da produção será demonstrada no item a seguir.

2.2.1. O privilégio das publicações periódicas na comunicação científica

Surgidos como uma nova forma de comunicação, no século XVII, os periódicos científicos são o canal de publicação mais utilizado pela comunidade acadêmica, tanto para divulgar seus estudos quanto para fundamentar próximas investigações (Meadows, 1999; Stumpf, 1996). Apesar de também haver preferências por outros canais de disseminação do conhecimento, a depender da disciplina (Mueller, 2005), a publicação periódica em ciência é tradicionalmente respeitada devido à divulgação de descobertas recentes e ao crivo de avaliação realizada por pares (peer review) – procedimento realizado por especialista de referência no tema avalizado, que confere confiabilidade à publicação (Biojone, 2003; Freitas, 2005; Miranda & Pereira, 1996). Desse modo, junto aos livros, o periódico científico constitui o grupo “literatura branca” – documentos convencionais, que exigem apresentação formal (Loureiro, 2003; Población, Noronha, & Currás, 1995).

Inicialmente editados por sociedades científicas e literárias – assumidos por editores comerciais, pela academia e pelo Estado somente no século XX –, os periódicos caracterizam-se por ser fonte privilegiada na história da ciência, por meio da produção, disseminação e uso da informação, e por assumir funções importantes na manutenção de práticas científicas: registro do conhecimento, legitimação de disciplinas, subsídio de contato entre os membros da comunidade científica, reconhecimento de pesquisadores e divulgação de novas tendências das áreas do

conhecimento (Fonseca, 2008; Freitas, 2005; Meadows, 1999; Miranda & Pereira, 1996; Mueller, 1999).

De fato, caracteriza um periódico científico a difusão de conhecimento novo e relevante para uma área temática, de forma ágil e perene (Trzesniak, 2009). Assim, se a comunicação científica é condição para que se agregue valor ao conhecimento produzido (Meadows, 1999), o periódico científico cumpre função fundamental nesse processo. A legitimação do conhecimento ocorre a partir de seu aceite pela comunidade científica e os periódicos – junto com a inserção de disciplinas na academia e a reunião de pesquisadores em sociedades – servem à consolidação de paradigmas na ciência (Kuhn, 1962/2006).

É válido destacar que, ao assumir tais funções, os periódicos científicos tornam- se canal de comunicação de relatos de pesquisas originais. Esse caráter foi proposto no século XIX, quando o número de revistas científicas cresceu significativamente, pelo aumento da comunidade científica e do número de suas produções (Stumpf, 1996). Desse modo, consideram-se periódicos científicos aqueles que dedicam mais da metade de seu conteúdo a relatos de pesquisas científicas (Meadows, 1999; Targino, 2002), característica também das publicações na área da Psicologia no Brasil (Sampaio & Peixoto, 2000).

2.2.2. Incremento tecnológico e comunicação científica

Nos últimos anos, as características dos periódicos científicos têm mudado principalmente devido à editoração eletrônica, condicionada aos investimentos tecnológicos, e aos meios de circulação, com o advento da internet; ainda que mantida a prioridade no conteúdo inédito (Costa, 2000; Meadows, 1999). Essas condições favoreceram a ampliação no número de publicações, agilizaram o trâmite de editoração

e diminuíram os custos para produção de periódicos; o que desencadeou a necessidade de alteração no modelo de disseminação do conhecimento, com o armazenamento de informações em repositórios eletrônicos (Marchiori et al., 2006; Meadows, 1999; Stumpf, 1996; Targino, 2002).

Diante de tais mudanças, é comum o periódico assumir um formato híbrido: mantém-se impresso, mas é acrescido de versão eletrônica disponível na internet (Targino, 2002). Tal configuração tem modificado o acesso ao documento científico, pois os pesquisadores têm usado mecanismos de buscas em bases de dados eletrônicas, a fim de selecionar informação relevante para a realização de seus estudos. Assim, mecanismos eficientes de comunicação, a exemplo das publicações eletrônicas difundidas em rede, são imprescindíveis ao avanço da ciência.

A adoção da mídia eletrônica para publicação de periódicos científicos favorece o acesso livre ao conhecimento produzido. Junto ao surgimento dos periódicos eletrônicos, na década de 1990, aparecem os primeiros periódicos de acesso livre (Mueller, 2006). As declarações de Budapeste (2002), de Bethesda e de Berlim (2003) (Sampaio & Serradas, 2009) e, no Brasil, a Carta de São Paulo (Movimento Acesso Aberto Brasil, 2005), formalizaram o Movimento de Apoio ao Acesso Livre, que se baseia nas vantagens da mídia eletrônica – baixo custo, acesso facilitado por meio de bases de dados, incorporação de tecnologia à editoração – para defender a concretização do acesso aberto às publicações científicas. A área da Psicologia no Brasil manifestou apoio a esse movimento por meio da Declaração de Florianópolis (ANPEPP, 2006). Nessa configuração, independente do formato (impresso ou eletrônico), o periódico permanece valorizado como o canal mais eficiente de comunicação científica, legitimidade atribuída somente aos que seguem os padrões do modelo tradicional (Bertin, Fortaleza, & Suhet, 2007; Mueller, 2006; Pinheiro, Bräscher, & Burnier, 2005).

No Brasil, uma das primeiras iniciativas do modelo de acesso livre foi a biblioteca virtual Scientific Electronic Library Online (SciELO), lançada em 1997, que reúne em sua coleção nacional, atualmente, 237 títulos com textos completos na internet, de interesse para toda a comunidade científica, 12 deles em Psicologia. Essa biblioteca é uma parceria entre a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e BIREME, que, desde 2002, conta com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq (Marcondes & Sayão, 2002; Packer et al., 1998; Sampaio & Serradas, 2009; Targino, 2007). Além do projeto SciELO, outro portal de revistas que assume o acesso aberto é o Periódicos Eletrônicos em Psicologia (PePSIC), que comporta 82 periódicos da área produzidos em países latino-americanos. Esse portal temático foi lançado em 2005, por uma iniciativa da BVS-Psi, em parceira com a Associação Brasileira de Editores Científicos em Psicologia (ABECiP) e com a União Latino-Americana de Entidades de Psicologia (ULAPSI), e conta com apoio da BIREME (Sampaio & Sabadini, 2009b; Sampaio & Serradas, 2009).

2.2.3. O uso de bases de dados

Com o cenário digital, torna-se imensa a possibilidade de recuperação de informação na internet. Para a ciência, no entanto, destacam-se as bases de dados, que armazenam um conjunto especializado de informações, organizadas com terminologia própria e que possibilita a busca por filtros temáticos, evitando, assim, um grande número de ruídos (Ferreira, Morais, Mucheroni, & Perez, 2009; Fonseca, 2008; Targino & Garcia, 2000). As universidades têm papel fundamental em tal contexto, haja vista suas bibliotecas serem responsáveis pela organização de tais bases (Oliveira et al., 2000).

As bases de dados podem ser bibliográficas (armazenam referências bibliográficas dos documentos), de referência (listam fontes de informação), não bibliográficas (material em outros formatos), textuais (contêm o texto completo), factuais (dados estatísticos), online (de acesso eletrônico) ou de índice de citações (computam o registro de um documento referido em outro na mesma base) (Sampaio & Sabadini, 2009b; Targino & Garcia, 2000). Bases referenciais geralmente utilizadas na área da Psicologia são: PsycINFO, Medical Literature analysis and Retrieval System Online (MEDLINE), Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS), Base de Datos de la Psicología (PSICODOC) e Index Psi Periódicos; as bases de texto completo são SciELO, PePSIC e a Red de Revistas Científicas de América Latina y El Caribe, España y Portugal (Redalyc) (Sampaio & Peixoto, 2000; Sampaio & Sabadini, 2009b).

A relevância do uso de bases de dados se confirma pela imensa massa informacional presente na rede. É difícil precisar tanto se uma informação tem caráter científico, quanto o número de publicações seriadas produzidas. Ainda que um periódico possa estar indexado em mais de uma base de dados (Sampaio & Sabadini, 2009b), circunstância que infla o controle bibliográfico, essa conformação pode ser útil para o esforço de dimensionar a ciência.

Benzer Belgeler