A configuração urbana das cidades brasileiras, em especial nas grandes, é marcada pelos diferentes e contrastantes padrões habitacionais relacionados às classes sociais. Esse quadro se agudizou com a globalização - também denominada internacionalização da economia - que afeta, com maior profundidade, as cidades dos países periféricos ou semi-periféricos. O processo de urbanização se acelera sem que direitos elementares de habitação, infra-estrutura básica e serviços sociais sejam assegurados. Pelo contrário, ficam cada vez inacessíveis em decorrência do processo de privatização imposto pelo modelo neoliberal.
No que diz respeito especificamente à questão da moradia, a atuação do Estado brasileiro, após a extinção do BNH e com mais ênfase na última década, longe de atenuar os problemas nesse setor, acentuou as contradições tendo em vista o encarecimento da mercadoria habitação e o empobrecimento da população. Este quadro aliado à falta de incentivo econômico agudiza o problema habitacional, submetendo parcela considerável da população à exclusão do espaço urbano, ao mesmo tempo que a pressiona a "resolver" por conta própria a carência de moradia, sem que tenha alternativas viáveis. Aliás isto é um fato histórico.
Gordilho-Souza (2000, p. 37), ao abordar o problema habitacional no Brasil, coloca que resguardando-se as características próprias e especificidades, "[...] no Brasil, as raízes da 'questão habitacional' encontram-se, também, em sua essência estrutural, relacionadas à urbanização intensiva e ao desenvolvimento industrial que fazem emergir processos similares àqueles ocorridos nos países centrais". Portanto, antes de abordar especificamente a questão da moradia no Brasil, importante se faz resgatar a origem desse processo excludente nos marcos da gênese do capitalismo industrial.
Assim, Engels ao analisar o processo social de constituição da problemática habitacional, coloca esta como sendo produzida pela própria lógica de funcionamento da sociedade capitalista. Portanto, "[...] uma sociedade não pode existir sem crise de moradia, quando a grande massa dos trabalhadores só dispõe exclusivamente de seu salário, quer dizer,
da soma dos meios indispensáveis à sua subsistência e à sua reprodução" (ENGELS, 195713 apud CASTELLS, 2000, p. 221).
Ao não ser um acaso e sim uma instituição necessária, a crise da moradia "[...] não pode ser eliminada, bem como suas repercussões sobre a saúde, etc., a não ser que a ordem social por inteiro, de onde ela decorre, transforme-se completamente" (ENGELS, 195714 apud CASTELLS, 2000, p. 222).
Então, que cidade era aquela, expressão de um momento de grandes transformações na estrutura social e nas relações de produção e de um processo de exclusão? "A cidade era sem dúvida o mais impressionante símbolo exterior do mundo industrial, exceção feita à estrada de ferro" (HOBSBAWM, 1982, p. 222)15.
Cidade, cuja urbanização passou a crescer rapidamente a partir da intensificação do processo de industrialização e que, ainda segundo Hobsbawm (1977), entre 1815 e 1848, era inegável a situação assustadora dos trabalhadores. As condições gerais dos pobres nos centros urbanos se deteriorava e os serviços sociais não conseguiam acompanhar o ritmo da impetuosa e inesperada expansão da emergente cidade industrial, provocando alterações na configuração do espaço habitacional. Nos meados do século XIX, era superpovoada, com bairros pobres cheios de cortiços e problemas sanitários eram separados dos bairros da classe média, expressando a segregação espacial da pobreza.
Ao se reportar à produção de Engels sobre a configuração do espaço habitacional que então se estruturara sob a lógica emergente da grande indústria, Gordilho-Souza (2000, p. 26) coloca:
Essa situação deriva-se, basicamente, do intenso crescimento populacional provocado pela chegada de grandes levas de trabalhadores dispensados do campo; da insuficiência de empregos, de renda e de abrigos; da densificação de ocupação em áreas localizadas nas proximidades centrais e industriais; da segmentação e especulação na produção imobiliária de base rentista; da diferenciação de usos e funcionalidade do espaço; da ampliação de ocupação para periferia; enfim, constitui, segundo esse enfoque, uma situação intrínseca às novas relações de produção e às desigualdades sociais.
No Brasil, a crise habitacional manifesta-se no último quartel do século XIX, estando vinculada basicamente ao surto manufatureiro-industrial, no mesmo período, com mais vigor
13 ENGELS, F. A questão da moradia. Paris: Sociales, 1957, p. 49. 14 Ibid.
15 A produção científica sobre a realidade econômica e social da emergente cidade capitalista industrial do final
do século XVIII e século XIX é bastante elucidativa. Entre os principais autores, destaque-se: Friendrich Engels, Karl Marx e Eric J. Hobsbawm.
na Região Sudeste. A demanda por habitação é decorrente da expansão da cidade, da abolição da escravatura e de fluxos migratórios de trabalhadores expulsos do campo. Essa expansão urbana provoca o aumento dos problemas de saúde pública.
Na cidade de São Paulo, à época, o contexto econômico foi marcado pelo dinamismo das atividades urbanas associadas ao complexo cafeeiro, expresso entre outros na: implantação de um comércio diversificado de produtos importados; consolidação do sistema bancário; intensificação da construção de residências de fazendeiros na cidade; primeiro surto, mesmo que tímido, de crescimento da indústria; e aumento do mercado de consumo decorrente da difusão das relações de produção capitalista.
Nos últimos 15 anos do século XIX, com a aglomeração de trabalhadores mal alojados, piora as condições urbanas em São Paulo com grave ameaça à saúde pública, face ao aumento da taxa de ocupação de moradia. Faltava habitação de aluguel baixo para atender a demanda da concentração de trabalhadores pobres.
Em São Paulo, entre 1886 e 1890, explode e desencadeia a primeira crise habitacional, pondo em risco o crescimento da cidade, coincidindo ao mesmo tempo com os primeiros indícios de segregação espacial no final do século XIX (BONDUKI, 1998). O autor acrescenta, ainda, que esta segregação social do espaço
[...] impedia que os diferentes estratos sociais sofressem da mesma maneira os efeitos da crise urbana, garantindo à elite áreas de uso exclusivo, livres da deterioração, além de uma apropriação diferenciada dos instrumentos públicos ((BONDUKI, 1998, p. 20).
O crescimento da cidade com a produção capitalista de edifícios, os loteamentos indiscriminados, a proliferação de cortiços e a precariedade dos serviços de água e esgoto - a cargo de empresas privadas - entre outros, passou a constituir séria ameaça à saúde pública.
No Rio de Janeiro com o crescimento populacional, as habitações coletivas populares começam a proliferar na segunda metade do século XIX bem como os riscos à saúde pública. O problema é análogo ao da cidade de São Paulo, no entanto, com sua especificidades. Gordilho-Sousa (2000) coloca que intensificam-se os cortiços, as casas de cômodos e as estalagens localizados nas áreas centrais da cidade. Esse "[...] confinamento da moradia na área central propicia o alastramento das epidemias, que logo deixam de estar circunscritas às áreas pobres, assolando toda a cidade" (GORDILHO-SOUSA, 2000, p. 38). Acrescenta que a conseqüência é o combate, pelo poder público, aos cortiços objetivando sua eliminação com a expulsão dos moradores que "[...] diante da estreita capacidade de renda, passam a buscar,
como alternativa habitacional, a favelização dos morros do centro da cidade [...]" do Rio de Janeiro (GORDILHO-SOUSA, 2000, p. 38). É nessa época, também, que começa o processo de suburbanização através da implantação dos loteamentos populares em áreas mais distantes do centro da cidade.
O problema habitacional e os novos e diversos padrões de habitação no contexto do processo de industrialização brasileira irão se manifestar em outras cidades do país, em períodos diferenciados e com características próprias. No entanto, com um elemento em comum: a casa própria.
A casa própria tem grande importância na sociedade capitalista. Harvey (1982) coloca que para a classe detentora do capital é preciso que se mantenha como "sacrossanto" o princípio da propriedade privada e, um dos mecanismos para que isto ocorra é o trabalhador ter acesso à casa própria16. Assim,
[...] a vulgarização da casa própria, individualizada, é vista como vantajosa para a classe capitalista porque ela estimula a fidelidade de pelo menos uma parte da classe operária ao princípio da propriedade privada, além de promover a ética de um 'individualismo possessivo' bem como a fragmentação dessa classe em 'classes de habitação' constituídas de inquilinos e proprietários (HARVEY, 1982, p. 13).
No entanto, o "deixar-permitir" que detentores da força de trabalho - o trabalhador - tenham acesso à casa própria, não é em função apenas da motivação ideológica de ser um dos mecanismos para garantir a preservação do sistema. Outra dimensão da questão é a econômica. A habitação também é instrumento de reprodução e ampliação de acumulação capitalista através, entre outros: da construção civil; do desenvolvimento da indústria de material de construção; da apropriação da valorização do solo urbano; da criação das condições de trabalho necessárias à reprodução.
Harvey (1982) trabalha, ainda, o fato de que a maioria dos moradores de casa própria não ser totalmente proprietária de suas casas, pois contrai empréstimos com base em hipoteca, o que garante a hegemonia do capital financeiro no mercado imobiliário de habitações. Aliás, essa condição econômica do trabalhador favorece o controle ideológico.
Um trabalhador hipotecado até o pescoço é, na maioria dos casos, um bastião da estabilidade social e os esquemas para promover a casa própria para a classe trabalhadora há muito tempo que reconheceram este fato básico (HARVEY, 1982, p. 13).
16 Em 1850, no Brasil, o acesso à propriedade do solo urbano no Brasil em 1850 com a Lei de Terras. Por esta
lei, o acesso à propriedade do solo da cidade foi restrito àqueles que o pudessem adquirir mediante pagamento, excluindo rodos que não dispõem de recursos.
E para o trabalhador como se insere a questão da casa própria? Ela desempenha um forte atrativo diante das dificuldades financeiras, insegurança ou falta de emprego, bem como por demonstrar ascensão social. A casa própria além de livrar o trabalhador do aluguel mensal e com isto aumentar a renda familiar, possibilita a condição de poder dispor de um patrimônio. No caso brasileiro, a principal aspiração individual é a casa própria. Sobre este fato, Bolaffi (1977, p. 21) coloca:
A aspiração à casa própria entre as camadas populares urbanas do Brasil, além das implicações objetivas que possui [...] parece constituir o principal padrão de comportamento econômico, reconhecido pelas famílias de faixas médias e baixa renda como indicador de ascensão social.
A supremacia da aspiração à casa própria - tanto nas classes médias como nas camadas mais populares da população urbana - foi demonstrada em pesquisa realizada no Brasil, em 1960, por Loyd A. Free17. Blay (1978, p. 81) diz acreditar que é na década de 1950
[...] que se inicia com clareza a grande inversão que marca até hoje a mentalidade do trabalhador urbano brasileiro: o importante é ter uma casa própria, ela garante a fixação na cidade. Conseguir um emprego é difícil, instável, precário. A casa, porém, é a proteção para os momentos de desemprego, é a certeza de ter um teto enquanto se busca um novo trabalho.
Mesmo que a década de 1950 seja a referência quanto à mentalidade do trabalhador em relação à casa própria, é certo que a questão, enquanto debate e primeiras iniciativas para se contrapor à falta de moradia popular surge no Estado Novo (década de 1930). Momento em que o problema habitacional é assumido pelo governo Vargas como uma questão social.
A preferência pela casa própria manifesta-se na maioria dos discursos sobre a demanda por habitação popular, bem como a tornar acessível para os trabalhadores. A casa própria assume importância na ideologia dominante do novo Estado.
Além de criar a ilusão do progresso econômico, contribuindo para a estabilidade da ordem macropolítica, a habitação passou a ser considerada fundamento da constituição moral da sociedade e do bom trabalhador, avesso a desejos e práticas desviantes (BONDUKI, 1998, p. 84).
A concepção da casa própria, enquanto um dos instrumentos de manutenção da ordem social vigente, vem a partir de então permeando as ações governamentais na promoção de habitação, mesmo que na prática os resultados deixem muito a desejar.
17 Gabiel Bolaffi em seu trabalho "A casa das ilusões perdidas: aspectos sócio-econônicos do Plano Nacional de
Habitação", além de explorar mais os resultados da pesquisa, acrescenta que o fato vem sendo confirmado por vários meios de sondagem de opinião: acadêmicos; jornalísticos e pesquisas de mercado.
Um outro momento marcante, foi o do Regime Militar, a partir de 1964, que se apropria do discurso da casa própria com mo tivações análogas às utilizada pelos governos que precederam a ditadura militar.
O Plano Nacional de Habitação - e com este o BNH - surge, assim, num momento em que é crucial para o novo regime dar provas de que é capaz de atacar problemas sociais. A percepção é que há 'uma vacância de lideranças', que 'as massas estão órfãos' e 'socialmente ressentidas', e que é preciso mostrar que o novo governo é receptivo a suas necessidades: que pode, sem a demagogia da esquerda, agir pronta e seguramente em benefício delas (AZEVEDO; ANDRADE, 1982, p. 58).
Assim, também para o Regime Militar interessava e era necessário demonstrar sensibilidade para as demandas sociais, garantir a ordem social vigente e conseguir legitimidade junto aos setores populares. Nada mais útil e oportuno para isto, do que a adoção de uma política habitacional que promovesse a construção e aquisição da casa própria, dirigida, em especial, para a população de menor renda.
A promoção da casa própria não interessava apenas ao governo e ao trabalhador, mas também ao capital. Incrementar a produção de habitação promoveria a indústria da construção civil, aumentaria a oferta de emprego, criando as condições de acumulação de capital.
Dado o apresentado, compreender a questão habitacional brasileira passa, necessariamente, por entender que a inserção do Brasil no modo de produção capitalista, caracteriza-se pela distância e contradições, cada vez maiores, entre os pouquíssimos donos dos meios de produção e a grande maioria da população que detém apenas a sua força de trabalho.
O grande fluxo migratório do campo para os centros urbanos gerou a expansão destes sem a necessária contrapartida de serviços urbanos, de habitação e de postos de trabalho. Proliferam as favelas, os cortiços, os loteamentos clandestinos, como alternativas de moradia frente à impossibilidade, vivenciada pela grande maioria da população, de comprar ou pagar aluguel de um imóvel. A crise habitacional, não é, senão, uma das consequências da contradição entre capital-trabalho, resultante das desigualdades impostas pela ordem capitalista.
Essas contradições se exacerbam, principalmente, no mundo globalizado a partir de meados dos anos 80. A inserção do Brasil no mundo globalizado, no início dos anos 90, ocorre de forma subordinada e submissa com impacto nos centros urbanos, uma vez que o Estado se desobriga, cada vez mais, do provimento de serviços públicos essenciais. Os reflexos desse processo despontam desnudando os abismos impostos pela livre escolha de mercado, preconizando a total liberdade de seleção e exclusão de regiões, países,
cidades, a fim de viabilizar as novas formas de acumulação de capital. A busca desenfreada da lucratividade e da maior rentabilidade do capital pioram as condições sócio-econômicas com reflexos no cotidiano dos segmentos menos favorecidos da população (FERREIRA, MORAIS, 2003, p. 2 ).18
2.2 O ESTADO BRASILEIRO E SUA ATUAÇÃO NA QUESTÃO DA MORADIA: