3. BÖLÜM: PERESTÛ VALİDE SULTAN VAKFI
3.4. PERESTÛ VALİDE SULTAN VAKFI’NIN HAYIR MÜESSESELERİ VE
3.4.2.1. Cami İmamı ve Müezzinine Meşrut İki Menzil
Uma vez que o sujeito bakhtiniano se expressa por meio de enunciados reais e concretos, precisamos situar teoricamente o que entendemos por enunciado. Para esta pesquisa, pois, as cartas que compõem o corpus desta dissertação serão compreendidas como enunciados na perspectiva aqui assumida.
Sendo assim, acreditamos que:
Todo enunciado é um elo na cadeia da comunicação discursiva. É a posição ativa do falante nesse ou naquele campo do objeto e do sentido. Por isso cada enunciado se caracteriza, antes de tudo, por um determinado conteúdo semântico-objetal. A escolha dos meios linguísticos e dos gêneros de discurso é determinada, antes de tudo, pelas tarefas (pela ideia) do sujeito do discurso (ou autor) centrados no objeto e no sentido. É o primeiro momento do enunciado que determina as suas peculiaridades estilístico-composicionais (BAKHTIN, 2003, p. 289).
Essa natureza dialógica de todo enunciado, o qual se configura pelas escolhas do sujeito produtor com as quais visa atender ao seu projeto de dizer, leva-nos a olhar para as cartas de Frida buscando, nesses elos da cadeia dialógica de comunicação, as pistas de estilo que atravessam os conteúdos semântico-objetais.
Seguindo nossa linha de pensamento, podemos observar que, para a teoria bakhtiniana, no todo do enunciado existem alguns planos discursivos a serem observados. De acordo com o que Bakhtin afirma, é imprescindível que estejamos atentos às escolhas do sujeito. A esse respeito, ele complementa:
Quando escolhemos as palavras no processo de construção de um enunciado, nem de longe as tomamos sempre do sistema da língua em sua forma neutra, lexicográfica. Costumamos tirá-las de outros enunciados e antes de tudo de enunciados congêneres com o nosso, isto é, pelo tema, pela composição, pelo estilo; consequentemente,
selecionamos as palavras segundo a sua especificação de gênero. O gênero do discurso não é uma forma da língua mas uma forma típica do enunciado; como tal forma, o gênero inclui certa expressão típica. (BAKHTIN, 2003, p. 293).
Assim, pensando nas interrelações entre as escolhas fridianas e as imagens valoradas que buscarmos perscrutar, optamos pelas cartas, pois conseguimos enxergar a construção de alguns elos discursivos que serão propiciados pelo gênero. Por isso se fazia necessária uma explanação sobre esse construto teórico, tendo em vista que ele será fundamental para o alcance de nossos objetivos.
Seguindo com a discussão, em “Marxismo e filosofia da linguagem”, a palavra enunciação é utilizada muitas vezes como ato de fala. A enunciação concreta é a realização exterior da atividade mental guiada por uma orientação social mais ampla, uma mais imediata e, também, a interação com interlocutores concretos. Vejamos o que afirma Bakhtin/Volochínov:
[...] os problemas de sintaxe são da maior importância para a compreensão da língua e de sua evolução, considerando-se que de todas as formas da língua, as formas sintáticas são as que mais se aproximam das formas concretas da enunciação, dos atos de fala. Todas as análises sintáticas do discurso constituem análises do corpo vivo da enunciação; portanto, é ainda mais difícil trazê-las a um sistema abstrato da língua. As formas sintáticas são mais concretas que as formas morfológicas ou fonéticas e são mais estreitamente ligadas às condições reais de fala. É por isso que, na nossa reflexão sobre os fatos vivos da língua, demos justamente prioridade às formas sintáticas sobre as formas morfológicas ou fonéticas. Mas, como também já deixamos claro, um estudo fecundo das formas sintáticas só é possível no quadro da elaboração de uma teoria da enunciação. Enquanto a enunciação como um todo permanecer terra incógnita para o linguista, está fora de questão falar de uma compreensão real, concreta, não escolástica das formas sintáticas. (BAKHTIN/ VOLOCHÍNOV, 2009, p. 146).
Assim, apoiamo-nos nas palavras de Bakhtin/Volochínov para reiterar que nosso olhar se debruçará sobre as naturezas sintática e semântica do escopo de nosso objeto de estudo. Compreendemos, portanto, a necessidade de também refletir diante dos “fatos vivos da língua” – nesse caso, língua espanhola – que cercavam as enunciações fridianas.
De tal modo, justificando o tratamento que daremos às cartas enquanto enunciados concretos e para deixar mais claro o nosso entendimento, concordamos que:
Esses enunciados refletem as condições específicas e as finalidades de cada referido campo não só por seu conteúdo (temático) e pelo seu
estilo de linguagem, ou seja, seja pela seleção dos recursos lexicais, fraseológicos e gramaticais da língua mas, acima de tudo, por sua construção composicional. Todos esses três elementos – o conteúdo temático, o estilo, a construção composicional – estão indissoluvelmente ligados no todo do enunciado e são igualmente determinados pela especificidade de um determinado campo da comunicação. Evidentemente, cada enunciado particular é individual, mas cada campo de utilização da língua elabora seus tipos relativamente estáveis de enunciados, os quais denominamos gêneros do discurso (BAKHTIN, 2003, p. 261-262).
A partir do excerto acima, assim como de todo o capítulo – Os gêneros do discurso –, podemos concluir que Bakhtin define o enunciado como a unidade real da comunicação discursiva, diferenciando essa unidade (real) das unidades da língua, como palavras e orações. Nesse texto, Bakhtin (2003) discute as três principais peculiaridades do enunciado: alternância dos sujeitos falantes; conclusibilidade; escolha de um gênero discursivo.
Desta feita, buscamos considerar essas peculiaridades ao estruturar nossa análise das cartas pessoais de Frida Kahlo como enunciados. Essa perspectiva nos permite dar acabamento, através de nosso olhar exotópico, às imagens que a autora vai construindo dentro do texto verbal. Posto isso,
Estamos convencidos do fato de que a linguagem humana é um fenômeno de duas faces: cada enunciação pressupõe, para realizar-se, a existência não só de um falante, mas também de um ouvinte. Cada expressão linguística das impressões do mundo externo, quer sejam imediatas quer sejam aquelas que se vão formando nas entranhas de nossa consciência e receberam conotações ideológicas mais fixas e estáveis, é sempre orientada para o outro, até um ouvinte, inclusive quando este não existe como pessoa real (VOLOCHÍNOV, 2013, p. 157).
Tudo isso nos possibilitou pensar a linguagem inerente ao ser humano assim como os enunciados “relativamente estáveis” como ponte comunicativa entre os sujeitos sociais.
Tendo em vista que “a língua não é algo imóvel, dada de uma vez para sempre e rigidamente fixada em ‘regras’ e ‘exceções’ gramaticais, [...] não é de modo algum um produto morto, petrificado, da vida social [...]” (VOLOCHÍNOV, 2013, p.155), e observando o seu movimento progressista dentro das relações verbais, dos intercâmbios comunicativos, é que chegamos à conclusão de considerar a enunciação fridiana, nas cartas pessoais, objeto de estudo e análise.
Cabe ainda colocar que não nos interessa pensar as formas ligadas aos estudos que classificam a artista como surrealista ou, até mesmo, que se restringem a formas ou tipos de vida econômicos que cercavam seus quadros e sua biografia. Nesta dissertação, dedicamos atenção particular, precisamente, às imagens axiológicas que a autora pinta de si mesma em suas cartas pessoais. Para isso, foi preciso ler o gênero dentro de uma cena comunicativa e de um determinado intercâmbio comunicativo artístico.
É necessário, neste ponto, lembrar que a concepção de enunciado, como uma característica própria da ADD, não se encontra aqui “acabada”. Consequentemente, não pretendemos dar a última palavra sobre essa concepção teórica ou até mesmo sobre as cartas de Frida. No entanto, os sentidos e as particularidades, inatas à nossa subjetividade, vão sendo construídos a partir do momento em que colocamos nossa voz em constante diálogo com as vozes dos autores trazidos para esta arena.
Tomando de empréstimo as palavras de Brait (2010, p. 67), na perspectiva bakhtiniana,
o enunciado e as particularidades de enunciação configuram, necessariamente, o processo interativo, ou seja, o verbal e o não verbal que integram a situação e, ao mesmo tempo, fazem parte de um contexto maior histórico, tanto no que diz respeito a aspectos (enunciados, discurso, sujeitos etc.) que antecedem esse enunciado específico quanto ao que ele projeta adiante [...].
Ou seja, o enunciado nasce, vive e morre no processo de interação social, nas cenas comunicativas, entre os participantes da enunciação. Não por acaso, o enunciado é marcado pela presença de sujeito e de história na vida de “enunciado concreto” (BAKHTIN, 2003), indicando que este é constitutivamente social, histórico e cultural. Liga-se a enunciados anteriores e gera enunciados posteriores, sendo elos na cadeia discursiva.
Em consonância com isso, Brait (2010, p. 71) afirma: “o enunciado deve ser enfrentado na sua historicidade, na sua concretude, para deixar ver mais do que a dimensão exclusivamente linguística e/ou sua fragmentação.” Assim sendo, pretendemos, aliados às práticas sociais, culturais e afetivas de Frida, encarar essas cartas como enunciados concretos, voltados para coenunciadores pré-estabelecidos, dando vazão à construção de possíveis imagens que pretendemos perseguir.