2.2. Hibrit Cam İyonomer Simanlar
2.2.5. Cam Karbomerler
A exposição Estranha Presença, é composta por mobílias pertencentes ao nosso cotidiano, as quais, uma vez transplantadas e obliteradas, apresentam- nos, ao mesmo tempo que parecem tentar velar, certa realidade que nos é familiar, mas que, aqui, reflete um mundo outro, isto é, aquele subjetivo, particular, obscuro e ambíguo que cada artista tenta, à sua maneira e através de sua obra, trazer à superfície visual da exposição. Esses trabalhos revelam, a princípio, certa familiaridade devido ao reconhecimento das mobílias pelo espectador, o qual, à medida que vai percorrendo a exposição, pode reconhecer também que, ali, aflora certo deslocamento de objetos de uso do cotidiano, ora pela aparência, pelo formato e tamanho das mobílias, ora pelo uso de materiais incomuns associados às mesmas. As mobílias/obras, à primeira vista, causam certo estranhamento e parecem pertencer a outro mundo no qual elas seriam assim, da maneira exata como estão sendo apresentadas ali, ou seja, uns moldes perdidos de si próprias, estranhas presenças, as quais ora se apresentam tortuosas e viscerais, em sua aparência vulnerável e desconcertante, ora retilíneas e constritas, em sua aparente solidez e definição formais. Ao entrarmos em contato com essas mobílias/obras, o que ali nos parecia, a princípio, constituir parte do nosso cotidiano banal torna- se, aos poucos, um estranhamento do que nos é tão familiar. As mobílias/obras, ali presentes, já não nos permitem mais estabelecer quaisquer significados fixos que em vão tentássemos oferecer a elas, uma vez que as mesmas se encontram
em estado de permanente suspensão suscitado pela ambiguidade que carregam. Desse modo, as obras parecem nos conduzir a um abismo infinito de constantes (re)significações, no qual aquilo que seria o esperado (delas e nelas), isto é, certo acolhimento e conforto para o corpo – como mobílias que ainda são –, e certo apaziguamento e contemplação para o olhar – como obras que ali são e estão –, é incessantemente substituído por novas associações visuais e conceituais, o que cria, na exposição, uma grande circularidade de relações e noções advindas das obras. A exposição se configura, portanto, como uma tentativa de criar um percurso pelo qual estranheza e familiaridade estão amalgamadas, bem como perceber as inúmeras camadas de significados e interpretações trazidos e oferecidos pelas próprias obras. De maneira similar ao que ocorreria num espelhamento mútuo de imagens com seus rebatimentos, poderíamos pensar que as relações que se dão entre as obras ocorreriam através das suas polissemias e polivisualidades, as quais parecem se instituir em vários níveis, sejam estes de cunho conceitual ou mesmo formal.
Stéphane Huchet anuncia a polissemia e a polivisualidade como características impressas pela arte contemporânea que “não remete mais à prática da semelhança figurativa tradicional, mas à produção de uma semelhança simbólica paradoxal”, o que, segundo ele, “leva todo artista a não ter outra justificativa para sua obra senão o investimento numa categoria que lembra a da semelhança-
dessemelhança, ou seja: o conceito da dessemelhança, “apresentado por Pseudo-
Dionísio Aeropagita, retomado por João Damasceno e toda uma tradição até Santo Agostinho, e popularizado hoje pelos textos de Didi-Hubermann”42. Ainda,
segundo Huchet, o que encontramos, por exemplo, nas instalações contemporâneas refrata ou simboliza uma nova figuração politécnica do mundo:
Assim, hoje, através de sua polissemia e de sua polivisualidade, a arte contemporânea representa uma forma de expressão singular, própria a cada artista, da pulsão que o leva a tornar sua ‘figuração’ do mundo um
aspecto de suas múltiplas realidades. A capacidade politécnica que leva o
artista contemporâneo a mimetizar os aspectos do mundo, a deslocar ao redor dele o espelho de sua intuição e de sua faculdade perceptiva para capturar e refletir o real, leva-o a exercitar uma forma de empatia, a se identificar com os fenômenos mais imponderáveis e a exprimi-los num misto de repetição traumática e de complacência fingida.43
42 DUBOIS, 2012, p.107. 43 HUCHET, 2012, p.252.
Reconhecendo, portanto, a polissemia das obras da exposição Estranha
Presença e atribuindo a elas uma leitura que se apoia e aponta para a ambiguidade
(nelas e delas), o recorte curatorial optou por estabelecer a ambiguidade e a polissemia como o eixo central e norteador da exposição.
Sob essa perspectiva, poderíamos considerar que as presenças físicas das peças no espaço expositivo da Casa Oblíqua tanto afirmam quanto questionam a presença do sujeito que as observa e interage com as mobílias/obras, bem como a presença da própria presença ambígua das mesmas no espaço expositivo. Assim sendo, as possíveis relações que se estabelecem entre sujeito e objeto, bem como destes com o espaço, dar-se-iam como num (re)encontro de (re)apresentações mútuas, ocorridas agora no campo da arte e não somente no espaço doméstico. Dessa maneira sujeito e objeto problematizariam o espaço expositivo no qual se inserem e com o qual interagem, como se fossem, e na verdade o são, o testemunho de existência um do outro. A então semelhante dessemelhança apresentada pelos artistas através das obras da exposição, os quais “deslocaram o espelho de sua intuição para capturar o real” criando, portanto, a “semelhança simbólica paradoxal” sobre a qual nos elucidou Huchet, isto é, dessa (re)apresentação da mobília no espaço expositivo da arte, faria surgir questões que problematizariam não só ela - uma mobília/mobília e uma mobília/obra -, como também o sujeito que as observa e o espaço que as abriga. As três instâncias instauradas, ou seja, obra, sujeito e espaço, bem como as transformações e os diálogos ocorridos a partir desta instauração acarretariam transformações mútuas, isto é, a presença de uma mobília deslocada - não mais e somente ela própria e, sim, outra -, a do sujeito e sua relação com tal mobília/obra; e de ambos com o referido espaço. É justamente sobre os fluxos de comunicação e subjetividade que se instaurariam a partir dessa exposição tripla na qual sujeito, obra e espaço se inserem, se entrelaçam e interagem mutuamente, o que nos esclarece Sônia Salcedo del Castillo:
assim, inscrevendo-se na esfera da arquitetura, o entendimento das exposições implica relações espaço-temporais, surgindo, pois, não apenas da experimentação perspectiva e intelectual do sujeito fruidor diante da obra, mas de uma totalidade advinda do entrelaçamento dessa experimentação com o espaço por ambos habitado [...] Mas, de que constitui esse entrelaçamento de sujeito, obra e espaço, senão de uma experiência estética em que fluxos de atração e repulsão, resultantes da fruição artística, estabelecem um processo subjetivo e espiritual capaz de dar concretude à materialidade e à temporalidade tanto do objeto artístico quanto do espaço arquitetônico que ele ocupa?44
Do mesmo modo como essa fruição artística entre sujeito, obra e espaço estabelece uma relação de reciprocidade e abriga o entrelaçamento de um processo “subjetivo e espiritual”, poderíamos pensar tal fruição de maneira análoga aos estudos críticos de Arthur Danto concatenados ao exposto por Castillo, ou seja, segundo Danto, a obra de arte traria noções de significados corporificados:
as obras de arte presentificam seus significados, enquanto o significado de uma descrição é exterior a esses significados. [...] A obra é o objeto
mais o significado, e a interpretação explica como o objeto traz em si o significado que o observador – no caso das artes visuais – percebe e ao qual reage de acordo com o modo como o objeto o apresenta.45
Dessa maneira, as referidas proposições marcariam o primeiro tornar-se
outro da mobília inserida no contexto da arte, justamente pelo fato de a mesma
estar inserida no espaço expositivo como um objeto (in)utilitário que, uma vez reconfigurado, unido ou não a outra mobília ou a outra coisa, é exposto como objeto de arte. As mobílias, como objetos utilitários que são, pressupõem uma relação íntima e intrínseca com o corpo e parecem permanecer numa espécie de estado de espera por uma presença deste corpo que as ocupe e utilize. A transição das mobílias do espaço doméstico para o espaço da arte, que, aqui, no Instituto da Mobília na Arte, compreende também os jardins e a praia, instaura um deslocamento no tempo e espaço, bem como uma ambiguidade, uma existência dúbia para as mobílias/obras.
Tudo isso faz senão anunciar a mobília/obra com seus significados
corporificados inserida permanentemente no campo da indeterminação e da
dúvida - a qual, assim como uma efígie que nos olha e nos pergunta, “quem” e “o que” ela é -, a mobília/obra também nos perguntaria “quem” e “o que” ela é, bem como “no que” se transformou. As respostas a essas perguntas retornariam, portanto, para as próprias questões suscitadas por elas, pois, assim como a efígie, a mobília/obra as devolve para nós, desestabilizando não somente a própria condição de objeto de uso, de utensílio, como também a do próprio sujeito com o qual se relaciona, bem como o espaço ora ocupado por ambos.
Os três elementos relacionados – sujeito, obra e espaço – tornar-se-iam, portanto, sensibilizados e transpassados uns pelos outros de modos distintos por suas presenças e subjetividades. Dessa maneira, as transformações que ocorreram na própria mobília pelo fato terem se tornado obra, no sujeito por observá-la e
interagir com ela numa perspectiva diferente, bem como pela interação de ambos
com e no espaço que os abriga fariam - assim como ocorreu nas mostras citadas
anteriormente, quanto à mobília hospitalar e à participação do espectador - com que o referido espaço, numa operação recíproca, também se transformasse devido à sua potência e à própria “espacialidade” inerente a ele. O que nos levaria a pensar, sobre o que destaca Sônia Salcedo em relação às materialidades e às temporalidades tanto do objeto artístico quanto do espaço arquitetônico que ele ocupa.
Ao mencionarmos o sujeito como interlocutor da obra no espaço e vice-versa, poderíamos pensar também na espacialidade da exposição Estranha
Presença justamente pelo seu anverso, ou seja, pela noção de ausência-presença
que as mobílias de um modo geral denunciam e suscitam. O corpo, mesmo fantasmagórico, se faz presente no espaço da mostra, seja pelas próprias mobílias/ obras que o evocam, seja pela ausência real do corpo como parte integrante da exposição.
A partir das relações subjetivas apresentadas entre espaço, obra e sujeito, a exposição Estranha Presença pretende proporcionar um entrelaçamento das três referidas instâncias – assim como um tecido que vai se formando a partir de suas tramas – estabelecendo, desta maneira, relações intercambiantes que se darão ao longo do percurso da mostra através dos espaços interno e externo da Casa Oblíqua.