Considerando a possibilidade de 50% de chance de transmissão da NF1 a opção por ter ou não filhos mostrou-se um tópico especial atenção. Apesar de não ter sido evocado espontaneamente, em 7 das 29 entrevistas em profundidade o tema foi discutido. Em uma das entrevistas, a paciente demonstra a assimilação da informação médica e sua apropriação dentro de referenciais provenientes do saber popular relacionados às concepções de sangue forte ou sangue fraco:
"Eu sei que se eu casar, o meu filho poderia vir a ter, ou não poderia ter. Dependendo do homem que eu casasse com ele. Ele poderia puxar o meu marido, como a minha mãe. O meu pai casou com a minha mãe, uns tem outros não tem. Então devido ao sangue, o mais forte, né." (Nádia)
A preocupação com a possibilidade de se ter um filho com NF1 foi descrita tanto por homens, como por mulheres. Para aqueles que fi0eram esse questionamento, essa preocupação ocorreu mais com relação aos possíveis efeitos da NF1 para um filho afetado, do que com relação à opção de ter ou não filho. Nesse sentido, a maior parte contempla a maternidade ou a paternidade como um plano futuro.
“Eu penso, mas de certa forma eu tenho medo. Porque, pela possibilidade de eles também ter sérios problemas de neurofibromatose. (...) Olha, eu acredito muito em Deus. E penso que se algum dia tiver que ter, eu acredito que Deus, que não vai ter nada com ele.” (Odete)
Uma avaliação entre as mulheres que já são mães e que não receberam informações prévias às gestações, na maior parte dos casos, elas consideram que teriam ficado em dúvida quanto à opção de ter filhos. Algumas mencionam que teriam tido menor número de filhos, mas em geral, avaliaram que teriam sido mães ainda que soubessem dos riscos.
Homens e mulheres descreveram pensamentos sobre outras formas de solução ou compensação para o caso do nascimento de um filho com a doença. Como o caso deste rapa0, que em alguns momentos da entrevista retoma a importância dele próprio se informar sobre a NF1, considerando que isso facilitaria a explicação para filhos que venham a nascer com NF1.
“Pensar também que, igual eu, sonho em ter filhos, que meus filhos vão ter grandes chances de ter, 50% de chances de ter, para eu poder ajudá-los também. (...) De começo, quando eu descobri, que o médico me falou, eu tive medo de ter filhos, mas aí a minha noiva, ela tá me ajudando muito. Ela conversou muito isso comigo 'como a sua mãe teve, e você tem, você tem que procurar ajudar, conversar com eles sobre isso.” (Lucas)
A consideração sobre a reprodução, em um dos relatos, também demonstrou a incorporação da informação sobre a imprevisibilidade no grau da gravidade dos sintomas e complicações que a doença poderia ter em um filho que viesse a nascer com NF1.
"O meu medo dos meus filhos é que eles tenham também a neurofibromatose. De não ser um caso tão brando quanto o meu. Mas que eles possam ter uma neurofibromatose mais grave, mas eu penso em ter filho, sim." (Vagner)
Já outros entrevistados do sexo masculino e outras do sexo feminino, contam sobre a opção por não ter filhos. Em alguns casos, foram também os participantes mais jovens, o que pode revelar uma etapa da vida em que o desejo por ter filhos ainda não é algo relevante ou refletir um pensamento dessa geração, demostrando uma maior flexibilidade e liberdade para a escolha por não ter filhos de forma não conflituosa.
"Sim porque os que eu conheço estão fa0endo assim, como chama a operação para não ter filhos? [Vasectomia] isso. Meu irmão vai até fa0er, o .... que ele também é portador. Ele leva a vida normal. Só não pode ter filhos. Igual eu, eu não posso ter filhos também porque eu já tirei o útero e o útero meu teve, foi a neurofibromatose que deu muito grande, então tirei o útero e o colo do útero." (Marta)
"Eu não quero passar para os meus filhos. Porque a dificuldade que eu tive na infância, eu não quero que eles tenham." (Paula)
Sobre o conflito entre a vontade de ter filhos e a preocupação com ter um filho com NF1, uma das entrevistadas do sexo feminino e um do sexo masculino comentam sobre os avanços genéticos para facilitar esse processo reprodutivo, seja pela escolha de um embrião sem NF1, seja para a detecção precoce de um feto com NF1 e avaliação da possibilidade de interrupção de uma gravide0. Esses dois participantes são os entrevistados de maior escolaridade (pós-graduação e mestrado, respectivamente).
"Mas o fato é, dele nascer com problemas neurológicos, o problema que eu preocupo mais é isso. Mas como tem estudos e a gente sabe que tem formas que a gente pode também precaver (...) Exames, isso, acompanhamento, que detecte má-formação, então com a tecnologia de hoje é mais um controle pra como vai nascer. Ainda mais em locais que tem clínicas com estudos mais aprofundados. (...) Até de interromper, dependendo do caso, se for melhor pra mim, vai ser melhor pra ele. Não vou querer por filho no mundo pra sofrer e eu sofrer junto. (...) A vontade de ter filhos é maior. Só no caso de acontecer algum imprevisto, alguma coisa que possa vir a prejudicar o meu filho no aspecto de má-formação 'se você engravidar e pode acontecer isso'." (Tânia)
“Eu, a questão de ter filhos, eu já estou começando a me informar, estou conversando com a minha futura mulher, de buscar inseminação
artificial, pra não, porque eu não queria arriscar passar isso, acho completamente inviável arriscar é ter uma criança, mesmo nesse estágio que eu tenho, ela começando, acho que seria bem mais difícil para uma criança, e depois um adolescente, mesmo nesse estágio bem leve que eu acho que o meu é bem leve, pelo que eu tenho visto, enfrentar isso aí. E quanto mais possibilidade de ter algo mais sério. (...) Ela até achou bom, a questão de ter filhos, ela até brincou, é bom que a gente tem logo dois de uma ve0. Já que vai fa0er a inseminação, fa0 dois logo de uma ve0, tem trabalho dobrado, mas tem a parte de já ter dois de uma ve0. É uma coisa que acha até melhor. (...) Pra não querer passar, já que a medicina resolve os problemas da seleção eu não vou querer passar, mesmo nessa minha situação, nem que não venha algo mais grave, acho que seria muito difícil para uma criança e depois para um adolescente, principalmente que é a época que anda muito sem roupa.” (Mateus)
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