Em relação às deliberações do Partido Republicano de Franca, que estão contidas nas Atas, em sua maioria serviram para referendar a vontade da Comissão Central do PRP. Dessa forma, ao referendar os anseios da Comissão Central, o partido também angariava o apoio do governo para se estabelecer como situação política no município, conquistando ao mesmo
tempo “a autonomia extralegal” que consistia em obter “carta-branca que o governo estadual outorga aos correligionários locais, em cumprimento da sua prestação no compromisso típico do coronelismo” no qual “[...] em virtude dessa carta-branca que as autoridades estaduais dão o seu concurso ou fecham os olhos à quase todos os atos do chefe local governista, inclusive a violência e outras arbitrariedades.”301
Nesse caso, o Partido Republicano de Franca em nenhum momento se contrapôs às vontades políticas manifestadas pela Comissão Central. Ao contrário, sempre concedeu o apoio irrestrito, como por exemplo, na reunião de 22/05/1895 quando o diretório republicano local sugeria os nomes “[...] dos doutores Manoel Morais Barros e João Francisco de Paula Souza para preencher as vagas na senatoria federal deixadas pelo Exm. Senhor Prudente de Moraes e Francisco de Paula Alves, para o próximo pleito eleitoral que deve ter lugar a 15 de abril próximo.”302
Na reunião do dia 10/03/1897, “[...] os membros do Diretório do Partido Republicano Federal” indicavam cinco membros para comporem a Comissão Central do Partido Republicano Federal,
[...] e resolveu-se indicar unanimemente os seguintes cidadãos para servir durante o ano corrente de mil oitocentos e noventa e sete, a saber: gen. Francisco Glicério, Dr. Júlio de Mesquita, Dr. Luiz de Pereira Piza e Almeida [...] cel. João Batista de Mello e Oliveira e cel Augusto Cézar do Nascimento, todos com sete votos e resolveu-se oficiar a comissão central no sentido exposto na ata.303
O Partido Republicano de Franca também deliberou a respeito da composição da Comissão Central do PRP, e nesse caso, o diretório local tratou de estar em “[...] conformidade com a circular da Comissão Central os membros que deverão exercer a mesma comissão para o ano próximo sendo votados os seguintes: Dr. Bernardo de Campos, Francisco de Paula Rodrigues Alves, João Alves Ribeiro Júnior, cel João Batista de Mello Oliveira e (?) de Moura.” 304
A leitura das Atas do Partido Republicano de Franca reflete uma preocupação do diretório do partido com uma importante questão que colocava em risco a autonomia política do PRP no Estado de São Paulo: a crise do café e a eminente tentativa de se formar um Partido da Lavoura.
301 LEAL, V.N. Coronelismo, enxada e voto: o município e o regime representativo no Brasil. São Paulo: Alfa-
Ômega, 1975. p. 51.
302 ATAS do Partido Republicano de Franca, 22 maio 1985, p. 2-3. 303 Ibid., p. 5.
Segundo Casalecchi, “os interesses da lavoura do café” em crise constituía o principal reduto do “contingente republicano”, na medida que ameaçava a estabilidade do PRP que tinha na lavoura “o grande contingente eleitoral do Partido”.305 Diante da desvalorização dos preços do café e da inépcia do governo em solucionar a crise “articulava-se o Partido da Lavoura nos redutos municipais, até então fortalezas inexpugnáveis do perrepismo, estimulando o descontentamento” quando muitos municípios cogitavam lançar candidatos inclinados em defender as causas da lavoura em detrimento dos interesses do governo.
Para Perissinotto, o Partido da Lavoura tinha como principal objetivo “[...] defender os interesses dos fazendeiros do interior contra aqueles que, além da própria fazenda, tinham interesses urbanos: o grande capital cafeeiro.”306 Essa oposição entre o fazendeiro propriamente dito, que buscava dar vazão aos seus reclamos por intermédio do Partido da Lavoura, e aqueles que possuíam uma diversificação nos negócios que suplantavam as porteiras das fazendas, na visão de Perissinotto, atesta “[...] uma cisão entre a lavoura, o Estado (leia-se o PRP - Partido Republicano Paulista) e os interesses urbanos do grande capital cafeeiro.”307
Em Franca, ao que parece o apoio a uma possível criação do Partido da Lavoura, foi afastado pelo diretório do Partido Republicano de Franca, preferindo seus membros emprestar seu apoio ao governo:
O presidente do diretório pediu aos membros presentes que se manifestassem sobre a atual situação política existente nesta cidade; isto é o que pensam sobre as futuras decisões, se sustentam à chapa do governo ou o partido da lavoura, a fim de que ele presidente pudesse bem representar o partido naquela conferência. Então os membros do diretório declararam-se solidários com o partido governista e que sustentariam a chapa recomendada pela Comissão Central, respondendo o seu ofício e delegando poderes ao nosso representante perante aquela comissão para satisfazer o apelo que faz.308
No entanto, torna-se necessário uma melhor avaliação dessa decisão do Partido Republicano de Franca, levando em consideração o grande número de agricultores que fizeram parte do diretório do partido. Porém, de acordo com os dados fornecidos pelo Almanaque de Franca para o ano de 1901, apenas dois indivíduos que, estando entre os maiores cafeicultores de Franca, também compunham as fileiras do diretório do partido a
305 CASALECCHI, J.E. O Partido Republicano paulista: política e poder (1889 – 1926). São Paulo:
Brasiliense, 1987. p. 88-89.
306 PERISSINOTTO, R.M. Classes dominantes e hegemonia na República Velha. Campinas, SP: Ed.
Unicamp, 1994. p. 50.
307 Ibid., p. 50.
saber: Dr. João de Faria, como sendo o “maior” cafeicultor do município de Franca com 185.000 pés de café, e Antonio Flávio Martins Ferreira com 60.000 pés de café. É importante mencionar que o Dr. João de Faria e Antonio de Flávio Martins Ferreira não faziam parte do diretório do Partido Republicano local no ano de 1899, quando da deliberação de apoiar o governo em detrimento do Partido da Lavoura.
Talvez a aparente ambigüidade envolvendo o apoio ao governo309 de um partido que possuía em suas fileiras um grande número de agricultores se encontre nas próprias características da cafeicultura do município de Franca delineadas na assertiva de Lélio Luiz de Oliveira:
Inseridos em propriedades rurais, com estruturas produtivas tradicionalmente voltadas para o abastecimento do mercado interno, o café, em Franca, passou a ser mais uma atividade dessa economia diversificada.
Assim, as fazendas e fazendeiros não se limitaram a agricultura. A nova atividade deu mais fôlego e dinamizou a produção destinada ao mercado interno local e de longa distancia. O caráter misto das fazendas foi reafirmado.
Essa característica inicial manteve-se durante todo o período da economia cafeeira, na República Velha (até pelo menos 1920). Os fazendeiros francanos preservaram o perfil tradicional das propriedades. A habitual auto-suficiência das fazendas, que trazia segurança ao proprietários foi um fator de manutenção das praticas econômicas arraigadas. Houve resistência em fazer investimentos vultuosos em uma nova lavoura, cujos resultados dependiam dos preços internacionais e das manipulações dos atacadistas. Produzir para o autoconsumo e para os mercados conhecidos era mais seguro. Mesmo os grandes proprietários não utilizaram, de imediato, todos os seus aportes na lavoura cafeeira. Aqueles que investiram sempre tiveram o café ao lado da pecuária. Foram miúdos os passos dados em direção a cafeicultura se comparado ao município vizinho de Ribeirão Preto.310
Concomitantemente, a eminência de criação do Partido da Lavoura – e em certa medida também em decorrência deste – muitos municípios levantaram bandeira em busca de uma maior autonomia. Esse “fenômeno municipalista” ecoou forte em muitas cidades do
309 Silvia Levi-Moreira em estudo sobre o Partido Republicano Dissidente de São Paulo observa que os dissidentes - por
intermédio dos jornais O Tempo e O Estado de S. Paulo e dos anais da Câmara dos Deputados de São Paulo – tenderam a defender os interesses dos “[...] pequenos lavradores, que Flávio Saes define como um conjunto de fazendeiros (principalmente de menor porte) que vivia em suas propriedades e estava a testa da produção” diante das dificuldades de crédito e de comercialização do café, se colocando de modo contrário a muitas deliberações do governo paulista. Na Câmara dos deputados referendavam a intervenção do Estado na economia, além de se concentrarem em medidas que favorecessem o comércio do café: “[...] extinção dos impostos de trânsito, redução das tarifas de frete das estradas de ferro, a redução dos impostos de entrada para o café nos paises estrangeiros” e a intensificação da propaganda da bebida no estrangeiro. LEVI-MOREIRA, S. Liberalismo e democracia na
dissidência republicana paulista: estudo sobre o Partido Republicano dissidente de São Paulo1901-1906.
1991. 196 f. Tese (Doutorado em História Social) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 1991. p. 119-144. Essas informações se tornam importantes porque em termos políticos, o apoio do Partido Republicano de Franca ao governo em relação à criação de um Partido da Lavoura pode indicar por parte dos republicanos de Franca uma “coerência” no que diz respeito à política do Estado de São Paulo.
310 OLIVEIRA, L.L. Heranças guardadas e transições ponderadas: história econômica do interior paulista –
interior. Um exemplo da busca pela autonomia municipal e os conseqüentes choques com o governo do estado ocorreu na vizinha cidade de Batatais por intermédio da atuação política do advogado e futuro presidente da República Washington Luis. A sua posição em defesa da autonomia municipal foi uma constante enquanto residiu em Batatais: “[...] os municípios devem defender por todos os meios os seus direitos, segredo e causa de seu progresso; ao contrário, devem lutar embora essa luta lhes acarrete contrariedades, incommodos.” 311
Washington Luis, além de ser convidado para elaborar o novo Código de Posturas do município, também tem uma atuação político partidária como oposicionista intensa em Batatais, ocupando o cargo de presidente da Câmara Municipal e posteriormente o de Intendente Geral, privilegiando, em quanto esteve à frente dessas funções
[...] uma proposta liberal de administração publica, seja pela proposição em torno da participação da iniciativa privada nos empreendimentos públicos, ou por um maior envolvimento do município na discussão de temas que lhe dizem respeito com a questão do orçamento, da criação de fontes de arrecadação e vários outros assuntos concernentes a esfera local indefinidos pela legislação constitucional.312
O exemplo de Batatais na busca pela autonomia municipal, faz questionar se o município de Franca também buscou arregimentar forças para empreender o fortalecimento das prerrogativas do munipalismo, visto que como foi demonstrado no capítulo II, esse foi um tema debatido e defendido nas páginas do jornal O Nono Districto. Porém, não foi possível identificar em Franca documentos que comprovem, no período republicano, campanha semelhante do que foi feito no período da propaganda envolvendo a autonomia municipal.
No entanto, apesar da não existência de uma propaganda que defendesse a autonomia do município, os jornais locais – a exemplo do jornal O Nono Districto – não deixaram de se preocupar com o progresso do município. Não eram poucos os artigos que cobravam melhorias na cadeia pública313; o aumento de policiais314; melhoramentos no matadouro315; melhoramentos no teatro Santa Clara316; preocupação com o estado da instrução pública em
311 Relatório Intendente Municipal de 1899, p. 27. apud, PEREIRA, R.M. O municipalismo de Washington Luis
em sua atuação em Batatais (1893-1900): aspectos da modernização urbana do interior paulista na
República Velha. 1988. 249 f. Dissertação (Mestrado em História) - Faculdade de História, Direito e Serviço Social, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Franca, 1988. p. 108.
312 PEREIRA, op. cit., p. 65.
313Tribuna da Franca, 22 jun. 1901, p. 1. 314Tribuna da Franca, 14 jun. 1902, p. 1.
315Tribuna da Franca, 12 jul. 1902, p. 2; O Francano, 1 mar. 1902, p. 2. 316Cidade da Franca, 5 ago. 1906, p. 1.
Franca317, ou que incentivasse a criação de uma Escola de leiteria, viticultura e vinicultura318, além da implantação de uma Industria Pastoril no município.319
Essa solidariedade do Partido Republicano de Franca em relação à Comissão Central do PRP tinha, em contrapartida, vantagens políticas, principalmente no que diz respeito à política municipal. Nesse sentido, dentro da “lógica do compromisso coronelista” o apoio ao governo significava, por sua vez, o “direito” de interferir no interior da política local como segue nesses vários exemplos contidos nas atas de reuniões do diretório do Partido Republicano de Franca: “Pelo presidente (do diretório do Partido Republicano de Franca) foi dito que para o bem da política local tornava-se necessário a demissão do Dr. Promotor Público desta comarca e a indicação de dois cidadãos para o preenchimento dos lugares de 2° e 3° suplentes de delegado de polícia desta cidade”320; “[...] foi mais oficiado a Comissão Central para que tratasse de exonerar o primeiro suplente de delegado e nomear o capitão Francisco García da Costa.”321
Em reunião do 15/01/1899, o diretório do Partido Republicano de Franca oficiava a “Comissão Central pedindo a nomeação de Francisco de Assis Pereira para professor da primeira cadeira e a exoneração de João Soares da Silva e nomeação de Francisco Garcia da Costa.”322 Porém apenas um ano depois – 02/01/1900 – o mesmo diretório local reunia-se com o fim de “[...] resolver sobre a necessidade de ser removido o professor Francisco Augusto de Assis Pereira323 pelo procedimento incomodo que teve diante do pleito eleitoral de trinta e um de dezembro do ano passado, o que ficou resolvido por maioria de votos.”324
Além disso, não eram raras as circulares do Partido Republicano local publicadas nos jornais “[...] convidando a todos os seus amigos e correligionários políticos para comparecer a eleição de dous Senadores, um federal e outro estadual, eleições essas que se realizarão nos dias 29 e 30 do corrente mêz e para as quaes deve convergir a attenção de todos os bons republicanos.”325
A Comissão Central do PRP sofria severas críticas da imprensa local devido o seu caráter autoritário, impondo aos diretórios locais suas vontades políticas, ratificando com isso a falta de soberania dos diretórios. Eram os diretórios locais aceitarem a imposição “sine qua
317Cidade da Franca, 10 mar. 1907, p. 1. 318Tribuna da Franca, 21 fev. 1901, p. 1. 319Tribuna da Franca, 7 set. 1901, p. 2.
320 ATAS do Partido Republicano de Franca, p. 1. (grifo nosso). 321 Ibid., p. 13.
322 Ibid., p. 14.
323 Francisco Augusto de Assis Pereira, provavelmente depois deste episódio, se posiciona contra o diretório do Partido
Republicano de Franca, usando das páginas do seu jornal, A Cidade da Franca para apoiar os dissidentes locais.
324 ATAS do Partido Republicano de Franca, p. 15. (grifo nosso). 325O Francano, 20 set. 1902, p. 2. (grifo nosso).
non” da Comissão Central e em troca “a Comissão Central do Partido Republicano (reconhecia) o Directorio político de tal parte constituídos pelos srs, F. F. e etc”.
Portanto, as indicações dos candidatos feitas pelos diretórios locais na maioria das vezes, não passavam de uma representação, um teatro político que servia para tentar disfarçar a verdadeira face da República: “[...] a de ser um regime que ao ser republicano era oligárquico e a de uma sociedade liberal e ao mesmo tempo discricionária.”326