BÖLÜM III Çin Eğitim
BULGULAR VE YORUM
Um aspecto que certamente pode ser extraído da leitura desse processo de “desenvolvimento”
brasileiro é que os mecanismos de poder das chamadas “elites regionais” nunca chegaram a ser quebrados. Na verdade, houve a incorporação de princípios racionais da reprodução capitalista sem que se desmontassem os instrumentos de poder de escala local, presentes nos primeiros passos da formação territorial brasileira. Mandonismo e acumulação baseada na propriedade da terra foram características que garantiram a hegemonia das classes oligarcas mercantis sobre a proteção do aparelho de Estado, em suas diversas escalas. Características que se reproduziram em movimentos circulares e cumulativos, para utilizar a abordagem de Myrdal (1968). Com certeza, houve
movimentos de resistência que mostravam o potencial de um “outro” padrão de sociabilidade,
portanto, outro padrão de produção territorial. Haja vista as experiências políticas dos movimentos camponeses entre a década de 1950 e início da década de 1960, baseados em outra forma de educação (FREIRE, 1969), do Movimento dos trabalhadores Sem Terra (MST), das resistências indígenas na Amazônia (MARTINS, 1991), entre outras. Porém, todas drasticamente solapadas pela violência do processo relacionado à acumulação ampla de capital, ou sutilmente minadas pela construção de um pensamento exclusivista, isto é, a racionalidade do modo desenvolvimentista de se pensar.
120 De modo geral, consolida-se a formação do território nacional sob a égide da racionalidade capitalista. Podem-se discutir as impossibilidades da construção de um Brasil enquanto território de ponta, no que diz respeito aos processos de acumulação mundial, dada a influência das elites
oligárquicas e arcaicas, que seriam a expressão das “forças do atraso”, como o faz Furtado (1992),
Maria da Conceição Tavares (1999) e Wilson Cano (2007), ainda que cada autor carregue sua especificidade analítica. Por outro lado, o que se observa, como bem apontado pelos mesmos autores, foi que as elites nacionais também se modernizaram em seu discurso e prática, sempre se relacionando nas entrelinhas das oportunidades de acumulação que as fases estruturais do capitalismo lhes ofereceram, inclusive, nos mais drásticos momentos de reestruturação produtiva. O pequeno grupo, chamado de elite oligárquica, ou mercantil, do urbano ao rural brasileiro, se consolidou como classe operadora dos mecanismos de poder vigentes, sempre em sintonia com o
de mais “avançado” existente no capitalismo. De fato, por intermédio do Estado, foram os
responsáveis pela dinâmica de operação do capital financeiro na produção do capital produtivo brasileiro. E o fez nas diversas escalas, mas, principalmente, na escala da vida cotidiana, através da violência aberta sobre as outras formas de sociabilidade e através da promoção da racionalidade mercantil nas relações locais. A ação dessas elites na construção da sociedade brasileira, nas suas diferentes escalas, fora, de fato, territorialista, pois serviram de impeditivo para a reprodução de outras territorialidades. As escalas do desenvolvimento nacional e regional, do desenvolvimento urbano, pensadas e praticadas, tornam transparentes, ou imperceptíveis, outras territorialidades presentes e às pressionam, no sentido de desqualifica-las frente às estratégias de desenvolvimento.
De fato, o que se viu foi a incorporação da racionalidade capitalista, em seus diversos momentos e formas, na produção do território brasileiro, por meio de um constante movimento de cooptação das lógicas de reprodução social independentes pelas regras de reprodução mercadológica, inclusive, legitimando as exclusões sociais, que são distorções desse sistema social. Como contraponto a essas distorções, educou-se a população de frente a uma perspectiva de mobilidade social. Mobilidade que, se observada dentro dos parâmetros da racionalidade capitalista, de fato ocorreu. Até a década de 1980, o que ocorreu foi um intenso movimento de mobilidade social, representado pelos deslocamentos espaciais entre campo e cidade e, também, pelas mobilidades intergeracionais de incorporação formal aos mercados de trabalho (BRANDÃO, 2007). O processo de penetração do modo social capitalista no Brasil, sempre alicerçado na ideia de desenvolvimento, ofereceu a perspectiva de mudança às pessoas, frente à realidade opressiva (para grande parte da população) das práticas de poder até então vigentes nos rincões do campo brasileiro. Mesmo que,
121 em muitas vezes, as pessoas sequer se livraram dessa realidade, passou a existir a perspectiva da mudança.
Todavia, a criação de um horizonte potencial – o da mobilidade social – não atua apenas no esvaziamento (potencial) das práticas opressivas que se pôde observar na história territorial brasileira. Existiram diversas formas de territorialidade que foram desterritorializadas com o decorrer da penetração das relações capitalistas. Algumas de forma abrupta e violenta, muitas vezes relacionadas ao uso da terra pelo movimento de expansão das fronteiras da agroindústria. Outras, de modo mais sutil, simplesmente pela difusão de uma educação que conduz as pessoas à procura
do “sucesso” capitalista. Nesses casos, os movimentos migratórios para as cidades brasileiras
refletem bem a impregnação da noção de desenvolvimento na racionalidade pessoal e em suas perspectivas de reprodução. Modos sociais inteiros foram desterritorializados por uma ideia: o desenvolvimento. Ideia que muitas vezes foi sinônimo de progresso social, crescimento pessoal,
modernização, capacidade de consumo, etc. O capitalismo precisa produzir “mentes sonhadoras”
para garantir a sua reprodução. E o que chamamos de elites, nada mais são do que pessoas que encontraram, nas possibilidades ofertadas pelo capitalismo, um modo de garantir que a reprodução de sua posição de poder seja relativamente confortável, através do controle das práticas das outras pessoas. O processo histórico brasileiro nos mostra que as elites já estabelecidas se modelaram perante as práticas capitalistas para continuar a reproduzir sua condição de elite. Algumas formas de elite emergiram. Outras sucumbiram. Porém, importa que, neste movimento, é forjada uma forma de racionalidade, que se sobrepõe às demais. E, ao fazê-lo, sucumbi, também, o direito a outra sociabilidade, a outra territorialidade.
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