BÖLÜM III Çin Eğitim
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Por fim, o Plano Amazônia Sustentável (Brasil, Presidência da República, 2008), que traça as diretrizes de desenvolvimento para a região Norte do país. Este plano, se comparado aos outros dois apresentados, mostra maior problematização quanto aos possíveis modos de reprodução social em contraposição às estratégias de competitividade capitalista. Todavia, apesar do esforço, em certo aspecto, de compreensão de outras dinâmicas de reprodução, o núcleo central ainda se concentra na perspectiva de inclusão da região nos circuitos globalizados da economia capitalista. De modo geral, esse plano representa o registro formal de uma série de conflitos relacionados à
produção do território amazônico. Uma tentativa de produção de “consensos”, mesmo lidando com
questões em que o acordo é bastante improvável.
De um lado: valorização da diversidade sociocultural e ambiental; ampliação da presença do Estado para estabelecimento de maior governabilidade no que diz respeito à sua ocupação e uso dos recursos naturais, às transformações socioprodutivas e garantia dos direitos das populações tradicionais; assegurar o direito de reprodução social das populações tradicionais; combate ao desmatamento; proteção da floresta e demais recursos naturais; estabelecimento de mecanismos voltados ao consumo local e regional de produtos de movimentos de economia popular e solidária. De outro lado, verifica-se o estímulo ao enquadramento competitivo dos valores da Amazônia ao circuito cosmopolita da economia, como: estímulo ao adensamento da cadeia produtiva do agronegócio, para atendimento de mercados externos; consolidação de iniciativas como a do polo industrial da zona franca de Manaus; estímulo à formação de novos polos industriais, vinculados à exploração de recursos naturais, nesse caso, os setores gás-químico, cloro-químico, mineração e de materiais de transporte fluvial.
Todas as iniciativas, em certa medida, foram direcionadas a favorecer as tradicionais frações do capital brasileiro. Por uma terceira via, observam-se as diretrizes que são a essência do esforço conciliatório, por incorporarem o discurso político-ambiental nas iniciativas de inclusão mercadológica competitiva, quais sejam: combate ao desmatamento ilegal e ao uso do solo em padrão extensivo; recuperação florestal; estímulo ao uso múltiplo da floresta, em bases sustentáveis, principalmente, com aplicação de conhecimento técnico-científico e com a promoção
135 de capacitação das populações usuárias; incentivo aos assentamentos rurais de base sustentável; revisão do marco regulatório sanitário e fiscal para as cadeias produtivas de fitoterápicos, para estímulo ao uso sustentável da biodiversidade (BRASIL. Presidência da República, 2008). Esse último conjunto de diretrizes revela um conjunto de estratégias voltadas à produção de espaços de (re)produção da vida social conectados aos mecanismos gerais de reprodução capitalista, em que o território é produzido sob as determinações/naturalização da competitividade.
A história da Amazônia nos revela a dinâmica da formação de povos que, secularmente, encontraram na floresta sua forma de sobrevivência e reprodução social. Indígenas, negros- quilombolas, caboclos, camponeses ribeirinhos e, mais recentemente, no período do governo militar, os migrantes pobres vindos de regiões como o Nordeste. Contudo, é a partir da encarnação da face política do discurso ecológico, em meados da década de 1970, que a menção constante à necessidade de fortalecimento e incentivo às práticas que estejam em equilíbrio com os biomas amazônicos e, também, com suas populações, se torna comum e extrapola, sob a forma de discurso, para além das fronteiras amazônicas. Claramente se nota a criticidade deste discurso, que se constrói como contraponto à forma com que historicamente se estabeleceram e que fortaleceram as relações de produção hegemônicas no espaço amazônico.
O artigo de Wanderley da Costa (2007) demonstra a força dos setores chamados de conservadores ou convencionais perante a economia regional amazônica. O agronegócio tradicional em bases extensivas (intensivas em terra) que, apesar das possibilidades tecnológicas disponíveis, em virtude das possibilidades/facilidades de expansão ao longo das terras amazônicas seguem em um quadro de modernização conservadora e devastadora, que marca e continua marcando o território da Amazônia (COSTA, 2007). Podem-se incluir nesse bojo os projetos do setor de mineração, já tradicionais e em constante expansão na região, assim como os grandes projetos hidroelétricos, historicamente capitaneados pelo Governo brasileiro, a exemplo do que acontece atualmente com o Projeto Belo Monte, em Altamira, no Pará. José de Souza Martins (1991) bem exemplifica o poder devastador que tais projetos exercem sobre as territorialidades dos povos da floresta:
[...] se trata de projetos de envergadura, como hidroelétricas, rodovias, planos de colonização, de grande impacto social e ambiental, mas que não tem por destinatárias as populações locais. Seu pressuposto é o da remoção dessas populações (como aconteceu com os Kreenakarore, com a abertura da rodovia Cuiabá-Santarém; ou com os Parakanã, devido à abertura da rodovia Transamazônica e à construção da Hidroelétrica de Tucuruí – apenas para citar dois caos, entre outros). Algumas vezes, o pressuposto inconfessado e inconfessável é o próprio aniquilamento das populações que possam representar algum estorvo para a implantação dos grandes projetos governamentais – seja aniquilamento pela integração e assimilação [...] ou mesmo aniquilação física, como na verdade aconteceu com os Waimiri-Atruahi (em 14 anos reduzidos a apenas 20% do que eram), com os Kreenakarore (reduzidos, também, a 20% do que eram, em menos de dois anos), apesar de
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todas as advertências, denúncias e apelos, de diferentes grupos e movimentos, por uma reorientação da política governamental. Problemas iguais ocorreram com os Suruí, de Rondônia, os Nambikuara, do Mato Grosso, e com outros grupos indígenas (MARTINS, 1991, p. 16).
Como se pode perceber, as estratégias de outrora permanecem vigentes, mesmo em debates avançados como o do PAS. É claro o tom dramático que se estabelece decorrente do antigo/atual modelo de desenvolvimento, que tem como fundamento a transformação da Amazônia em um território guiado pelos princípios do pensamento competitivo. Elas se impõem de maneira violenta sobre a vida dos povos amazônicos, conforme a crítica feita por Carlos Walter Gonçalves:
A modernização conservadora posta em prática nesses últimos trinta/quarenta anos associada à crescente consciência e a lutas por direitos, seja por meio das Ligas Camponesas, antes de 1964, e depois pelo sindicalismo rural e urbano e, hoje, por meio de diversas entidades que organizam os sem-terra, fez com que essas relações tradicionais de sujeição no campo brasileiro diminuíssem. No entanto, a saída encontrada pelas elites, por uma modernização agrícola, manteve os trabalhadores na condição de sem-direitos que, no fundo, é o que está subjacente à condição de sem-terra, de sem-teto dos sem-emprego, dos sem-escola, dos sem-saúde, dos sem-transporte, dos que moram em favelas que hoje não são exclusivas só das grandes cidades (GONÇALVES, 2001, p. 53).
Contudo, as propostas alternativas, que procuram impregnar uma visão político-ecológica nas atividades de inserção da Amazônia no circuito competitivo não rompem com a ordem de conhecimento vigente. Costa (2007), por exemplo, descreve o que chama de “outros sistemas
produtivos da economia amazônica”, que têm como premissa um modelo de desenvolvimento “alternativo” que preconiza uma
[...] desejável combinação entre proteção dos ecossistemas relevantes, o uso racional dos recursos naturais – e em particular os florestais –, a adoção de sistemas rurais de produção que não impliquem o acelerado processo atual de desmatamento e, sobretudo, a introdução ou o fortalecimento de sistemas produtivos que sejam capazes, ao mesmo tempo, de promover a elevação dos padrões de vida das suas populações (COSTA, 2007, p. 86). Projeto que teria o apoio de setores organizados da Amazônia, de setores do Governo Federal, dos movimentos ambientais e de estudiosos da região (COSTA, 2007). Destarte a plausibilidade de uma crítica mais ampla, é preciso parcimônia ao fazê-la, sem que se corra o risco de negligenciar a importância de um projeto alternativo de desenvolvimento. A crítica pretendida, deve, inclusive, ser feita sobre a pertinência dessa expressão: “projeto alternativo de desenvolvimento”. Parece mais um projeto alternativo capitalista de desenvolvimento, ainda que esteja fundamentado em práticas que não sejam necessariamente capitalistas de produção.
Costa (2007), ao discutir o que chamou de “recursos minerais não madeireiros”, apresenta as características e possibilidades dos bioprodutos. Seriam valores-de-uso formulados pelos recursos florestais em bases técnico-científicas avançadas que se transformam em mercadoria, relações batizadas de ecobusiness, que se desenvolvem em mercados como o de produtos de saúde
137 (fitoterápicos, conforme apontado pela PAS), cosméticos e, também, o agronegócio (COSTA, 2007). Ele alerta para o potencial econômico da descoberta de novos biomateriais através da pesquisa em plantas medicinais e toxinas animais, algo bastante pertinente, principalmente pela apropriação do conhecimento das populações que há séculos lidam com os recursos da floresta e que nos últimos anos têm sido refinados, do ponto de vista mercadológico, por pesquisas elaboradas em centros especializados e pesquisas biotecnológicas. Essa questão é levantada por Gonçalves (2001), ao demonstrar que os patrimônios cultural e natural da Amazônia oriundos da atuação milenar de suas populações originárias se misturam aos parâmetros modernos em um movimento de modificação e (re)invenção dos padrões de (re)produção social nas florestas. Nesse sentido,
A floresta não seria [...] algo estritamente natural, mas teria a intervenção dessas populações [principalmente indígenas] que atuam na região a milhares de anos. [...] Além disso, essas populações desenvolveram uma medicina cujo conhecimento tem servido de base para inúmeros remédios que grandes laboratórios nacionais e internacionais têm processado. E aqui se abre uma interessante questão com relação ao direito de propriedade intelectual e de patentes a que essas populações não tem tido acesso e de que esses laboratórios têm se apropriado, como se o conhecimento dessas populações não se constituísse em know-how. Ou até mesmo caberia refletir sobre o caráter de apropriação privada de conhecimentos que, sabemos, em qualquer caso, sempre está baseado em um patrimônio de conhecimentos que, necessariamente, mergulha no tecido sociocultural sendo portanto coletivo (GONÇALVES, 2001, p. 41).
Costa (2007) aponta o setor de bioprodutos como promissor de uma integração entre atividades de subsistência e atores econômicos de natureza, escalas e posições diversas. Isto representaria a integração desde as “comunidades tradicionais”, passando pelos centros de pesquisa das universidades da Amazônia, centros de incubação e empresas industriais, sejam elas, locais, nacionais ou internacionais. Essas propostas seriam incorporadas à discussão do PAS para a alavancagem desse setor de bioprodutos como condição ao estabelecimento de um ambiente institucional favorável à governabilidade, com incentivos governamentais, do ponto de vista fiscal e creditício. Contudo, apesar da ressalva (alerta do caráter crítico desse modelo alternativo frente ao modelo convencional de desenvolvimento), é preciso evidenciar o quanto dramático pode ser a opção alternativa de desenvolvimento. A história nos apresenta como as populações da Amazônia têm sido drasticamente devastadas por grandes projetos, muitos deles, com o discurso “inovador” de indução do desenvolvimento, com articulação entre tecnologia e saberes locais.
Nesse sentido, pode-se verificar, pelas estratégias apresentadas como supostamente “alternativas”, que se trata do fortalecimento de um setor econômico, sujeito às contradições do amplo circuito de reprodução capitalista. A proposta se encaminha em dois sentidos: o primeiro é o de enquadramento das atividades de povos que durante longo tempo exercem atividades extrativistas e
138 camponesas em um circuito de mercado, proporcionando que o produto do trabalho desses povos se torne mercadoria, mesmo que não seja resultado de um processo capitalista de produção; o outro sentido está relacionado a apropriação do conhecimento, totalmente incrustado nas culturas locais, conforme expõe Gonçalves (2001), em favor de inovações tecnológicas que permitam o desenvolvimento de novas mercadorias e, por consequência, de novos mercados.
Antes, é preciso lembrar que esse movimento não é novo e se faz prática recorrente na Amazônia, há bastante tampo. Cita-se, como exemplo, a apropriação do conhecimento indígena sobre as possibilidades do látex, ainda em meados do século XIX. O que se pode considerar, nesse caso, é
que existe a “produção capitalista de relações não capitalistas” (MARTINS, 1996).
O conceito de produção capitalista de relações não-capitalistas é explicitado e explicado por Martins da seguinte forma: ‘o capitalismo, na sua expansão, não só redefine antigas relações sociais, subordinando-as à reprodução do capital, mas também engendra relações não-capitalistas igual e contraditoriamente necessárias a essa reprodução’ (MARTINS, 1996, apud SOTO, 2002, p. 145).
Empresas de fármacos, por exemplo, estimulam o desenho de relações e apropriação do
conhecimento dos “povos tradicionais”, subordinando-as a relações de produção voltadas ao
mercado global. O mesmo acontece nos setores extrativistas, cujos produtos são comprados por intermediários e levados a serem processados ou comercializados fora do circuito de convivência dos extratores, que detêm o conhecimento sobre como e em que melhores condições conseguir o artigo alvo da extração.
Parece razoável crer no potencial de tais atividades em ampliar a qualidade de vida das populações que dependem da floresta para sua reprodução. Todavia, nesse âmbito, não se constroem relações isentas de críticas, como o que fica evidente em discursos que oferecem a ecologização da economia, em bases tecnológicas avançadas, como estratégia salvadora. Existem vários pontos em que se pode elaborar a crítica quanto a essas práticas, como a questão do direito ao conhecimento produzido, que atualmente, na sociedade moderna, discutimos em termos de patentes. Em uma crítica mais radical, pode-se questionar a perspectiva de ganhos sobre qualquer conhecimento, que derivados de relações sociais perante a natureza, em essência seriam coletivos. Objetivamente:
Pode-se afirmar que com as novas tecnologias de ponta em curso, particularmente com relação à biotecnologia, o saber dessas populações se revela como um dos mais importantes recursos para a Amazônia, principalmente para as populações originárias. Nesse sentido, cabe até indagar se não está na hora de revermos esses conceitos de tradicional e moderno, pois [...] o saber tradicional dessas populações se constitui num importante suporte de tecnologias de ponta, como é o caso da biotecnologia. Já sabemos das possibilidades que se abriram para a Revolução Industrial com o conhecimento indígena da borracha (GONÇALVES, 2001, p. 41).
139 Seria importante, contudo, reconhecer qual lógica está posta: aquela do desenvolvimento que é inerente à lógica da acumulação? As propostas apresentadas parecem confirmar que os espaços são produzidos mediante a lógica da acumulação que separa (aliena) a apropriação dos recursos da floresta, simbolicamente e culturalmente exercida pelos seus povos, e a dominação exercida pelos agentes do capital. Nesse sentido,
[...] sabemos, também, qual foi o lugar destinado aos índios pelo processo de acumulação de capital que o seu conhecimento sobre o mesmo látex proporcionou (GONÇALVES, 2001, p. 41-42).
A tendência decorrente do projeto “alternativo” de desenvolvimento é a prevalência de uma produção do território que está vinculado aos parâmetros da sociedade ocidental capitalista, a ideologia do desenvolvimento, portanto com todas suas contradições inerentes (FURTADO, 1978). Estamos diante de uma lógica em que tudo
[...] o que serve à produção globalizada também serve à competitividade entre as empresas: processos técnicos, informacionais e organizativos, normas e desregulações, lugares. Tudo o que contribui para construir o processo de globalização, como ele atualmente se dá, também contribui para que a relação entre as empresas – e, por extensão, os países, as sociedades, os homens – esteja fundado numa guerra sem quartel (SANTOS, 1996, p. 169).
Nesse aspecto, parece que se está diante de uma regra que coloca como premissa a competitividade. Mesmo as relações de produção consideradas “alternativas”, como o processo que envolve os bioprodutos, parecem estar se desenhando subordinadas a essa regra de produção territorial.