BÖLÜM III GENEL BİLGİLER GENEL BİLGİLER
BULGULAR VE TARTIŞMA
Ao pensar na questão linguística em São Gabriel da Cachoeira/AM, e em especial na Língua Espanhola, as palavras de um indígena da etnia Tariana me vêm à memória, quando se referiu a essa língua neolatina como o idioma dos blancos paisanos, fazendo alusão aos hispânicos, vizinhos colombianos e venezuelanos, residentes na região de fronteira.
Antes de prosseguir, a título de esclarecimento, creio ser importante deter-me sobre algumas das acepções ao termo paisano. Segundo o Diccionario de la Lengua Española (REAL ACADEMIA ESPAÑOLA, 2001), o termo paisano pode se referir a: a) tudo o que é do campo, camponês, ou b) o que se refere a uma pessoa do mesmo país, província ou lugar que a outra. Conforme o Diccionario de hispaniamericanismos no recogidos por la Rea l Academia (RICHARD et alii, 2006), o termo paisa tem duas acepções: a) pode se referir a estrangeiros, ou b) pode se referir ao que é relativo ao departamento colombiano de Antioquia. Neste trabalho, propomos a junção de duas acepções anteriores. Dessa forma, o blanco paisano é estrangeiro e ao mesmo tempo membro da macro-comunidade de fronteira, na região do Alto Rio Negro. É estrangeiro por dois motivos: a) é hispânico, venezuelano ou colombiano, estrangeiro oriundo do outro lado da fronteira, o não brasileiro, e b) não é indígena, é blanco, e por isso também considerado estrangeiro. No entanto, compartilha de aspectos sociais, econômicos e, principalmente geográficos, pois também reside na região de fronteira, o que o torna membro da macro-comunidade, e sua língua materna é o Espanhol, língua de blanco paisano nas palavras do indígena Tariano.
Cabe aqui mencionar novamente a segunda pergunta proposta no início deste trabalho: como os habitantes indígenas da região, em sua maioria membros de culturas de tradição oralizada, consideram o espanhol, língua de tradição escrita? De acordo com a segunda hipótese levantada, a língua espanhola seria considerada como língua de ‘branco’. Ao analisar as palavras do indígena Tariano, pode-se vislumbrar uma resposta afirmativa para a pergunta em voga. No entanto, essa questão será analisada mais adiante.
Retornando o foco para o indígena, percebi se tratar de um poliglota, que domina sua língua materna, o tariano, e fala outras quatro línguas de etnias da região, e ainda se aventura
nas duas línguas de ‘branco’ mais presentes na localidade, o português, língua oficial do
De acordo com a Constituição Federal Brasileira em vigor (BRASIL, 1988), a situação do indígena seria uma exceção para os padrões nacionais. Para a carta magna nacional, o país possui apenas um idioma oficial. No entanto, na região do Alto Rio Negro, a exceção se torna regra, dado que o mosaico pluriétnico e plurilinguístico é a verdadeira realidade observada. Essa realidade é tão marcante e significativa na região que, com relação à temática de políticas linguísticas, o município de São Gabriel da Cachoeira/AM inovou, sendo o primeiro no Brasil a ‘remar contra a corrente’ predominante na nação, tornado cooficiais três línguas indígenas juntamente com a ‘língua nacional’, originalmente do ‘branco colonizador’. De acordo com a Lei 145/2002 (SÃO GABRIEL DA CACHOEIRA, 2002), os quatro idiomas cooficiais devem balizar toda e qualquer atividade oficial no município, seja em repartições, no atendimento ao público, na publicação de documentos e campanhas, e no ensino formal. Retomando as considerações de Calvet (op. Cit.), a política linguística em São Gabriel da Cachoeira não só se preocupa com a forma das línguas, mas com seu uso e, principalmente, com a defesa e manutenção dos idiomas de ‘índio’, em sua maioria de tradição oral, por essa e outras características, historicamente ameaçados pelo contato com as línguas ‘de branco’, de tradição escrita.
Já são mais de dez anos desde a promulgação da lei de cooficialização linguística no município.
No entanto, um cidadão brasileiro de qualquer parte do país ou mesmo um estrangeiro que entenda o português e que deseje se aventurar pelas águas negras da região do Alto Rio Negro, passando pela sede do município, ao necessitar de qualquer serviço público oficial, não vai encontrar dificuldades para entender os documentos oficiais ou para receber informação, posto que sempre haverá falantes da língua nacional ‘de branco’, o português, sendo os registros oficiais feitos nesse mesmo idioma.
Contudo, indo de encontro à legislação municipal vigente no tocante às políticas linguísticas, não será fácil encontrar documentos registrados nas outras línguas cooficiais, as
de ‘índio’, fato que confirma que, apesar de existirem políticas linguísticas, falta o
planejamento adequado para colocá-las em prática.
De acordo com @ informante “I”, representante do poder público município de São Gabriel da Cachoeira, @ qual participou e acompanhou o processo de cooficialização de línguas étnicas ño município, a nova lei foi uma conquista de entidades e organizações indígenas da região que, por muitos anos, lutaram para que suas línguas fossem reconhecidas oficialmente pelo poder público.
No entanto, apesar de existirem mais de 20 línguas indígenas em uso na região (ISA/FOIRN, 2006), somente três delas foram escolhidas para se tornarem cooficiais, por serem as mais faladas, representando as etnias de maior prestígio social e poder político. Esse fato exemplifica a relação desigual de poder entre as línguas e as culturas na região do Alto Rio Negro.
Outra informação interessante fornecida pel@ informante em tela é a de que, para a implantação da lei de cooficialização de línguas indígenas em São Gabriel da Cachoeira, entre outras ações, seriam ministradas aulas em português e nas línguas indígenas cooficiais, como benefício às comunidades falantes de cada uma dessas três línguas autóctones.
Ressalto a importância dada à língua oficial ‘de branco’, a ser ensinada em todas as escolas e comunidades, juntamente com apenas uma das línguas indígenas cooficiais. É mais uma mostra da relação de poder existente entre as línguas e culturas presentes na região.
A despeito da questão voltada às línguas de ‘índio’, predominantes na região, lanço o foco
para a segunda língua de ‘branco’ mais presente na região, objeto deste trabalho, o espanhol.
Em investigações recentes em acervos de pesquisadores locais, de investigadores e historiadores que se debruçam sobre a região, e em acervos de bibliotecas locais, não encontrei documento que versasse sobre a questão de línguas estrangeiras.
Percebi, então, que, em São Gabriel da Cachoeira, oficialmente, não há políticas linguísticas ou educacionais locais específicas para as línguas estrangeiras, as quais para os
cidadãos do município, em sua maioria indígenas, são as línguas de ‘branco’.
O que ocorre é uma inversão, pois as línguas indígenas, autóctones, consideradas pela maioria da nação brasileira como línguas estrangeiras, no Alto Rio Negro, e, em especial em São Gabriel da Cachoeira, são as línguas maternas, as línguas ‘nacionais’ locais, e o português, idioma de ‘branco’, por ser oficial, sua segunda língua.
O que percebi, em entrevista com representantes do poder público municipal, foi a existência de um esboço de planejamento político concernente à questão do ensino da Língua Espanhola; outra inversão, haja vista que as políticas supostamente deveriam existir a priori para então ser realizado planejamento, a fim de que fossem colocadas em prática (CALVET, 2007).
Sobre essa questão, o que posso afirmar é que o poder público tenta cumprir o que a legislação maior, em níveis estadual e federal, define e determina. Dessa forma, a Língua Espanhola em São Gabriel da Cachoeira nas escolas de Ensino Médio tem oferta obrigatória, e também na maioria das escolas de Ensino Fundamental, como opção das comunidades e do poder público.
As justificativas que me foram dadas são a presença significativa desse idioma na região, falado por imigrantes colombianos e venezuelanos residentes no município de São Gabriel da Cachoeira, os laços com os vizinhos hispânicos, que muitas vezes são mais profundos e vão além das fronteiras nacionais, as fronteiras de ‘branco’, e a abertura de novos horizontes e possibilidades pelo contato com diferentes culturas a partir do conhecimento desse idioma.
Pelo que se vê, apesar de ainda não existir legislação municipal específica, medidas do governo local vêm reforçando esse posicionamento com relação ao Espanhol. Existe, dessa forma, planejamento político para colocar em prática o ensino do Espanhol.
Com vistas a dar mais exemplos, destaco duas outras ações.
A primeira delas, de iniciativa de um órgão do estado do Amazonas, o Departamento de Políticas e Programas Educativos da Gerência de Ensino Médio da Secretaria Estadual de Educação do Estado do Amazonas, propôs-se a levar formação básica de Espanhol a vários municípios do Amazonas, incluindo o Alto Rio Negro, foco de minhas investigações, por meio do Curso de Pedagogia de Língua Espanhola para professores de Língua Espanhola do Ensino Médio.
Esse curso, realizado em 2007, com carga horária de 200 horas, foi oferecido apenas aos professores responsáveis pelas aulas de Língua Espanhola. Em São Gabriel da Cachoeira, cerca de 30 docentes foram contemplados. No entanto, em conversa com alguns professores que participaram do referido curso, houve relatos de insatisfação, pela carga horária, pelo tempo e pelo material didático utilizado, considerados insuficientes para uma formação adequada.
A segunda ação que merece destaque se efetivou a partir da solicitação do Governo Municipal de São Gabriel da Cachoeira, junto aos Governos Estadual e Federal, da oferta de formação Superior em Letras – Língua Espanhola a professores da região.
Assim, desde 2010, em atenção a essa solicitação, a Universidade Federal do Amazonas - UFAM, por meio de seu Departamento de Línguas e Literaturas Estrangeiras e seus docentes, oferece o Curso de Letras – Língua Espanhola no âmbito do Programa Nacional de Formação de P rofessores da Educação Básica – PARFOR para mais de cento e vinte professores indígenas dos municípios de São Gabriel da Cachoeira, Santa Izablel do Rio Negro e Barcelos.
A despeito da questão da eficácia das ações em foco, em se tratando de políticas educacionais, tais medidas vão ao encontro do posicionamento político adotado pelo Brasil a partir da criação do MERCOSUL e, principalmente, após a promulgação da Lei 11.161/2005 (BRASIL, op. Cit.); no entanto, são contrárias ao posicionamento das Secretarias de Educação de outros municípios no Amazonas e da própria Secretaria Estadual de Educação, que surpreendentemente insistem em desprestigiar a Língua Espanhola.
Considerando os dias atuais, São Gabriel da Cachoeira foi, por seguidos anos, o único município do Amazonas que solicitou turmas para a formação Superior de docentes em Língua Espanhola no âmbito do PARFOR. Somente a partir de 2012 outros municípios amazonenses, em especial os que fazem fronteira com países hispânicos, como os da região do Alto Solimões, fronteira com o Peru e a Colômbia, e outros do Médio Rio Negro, solicitaram o Curso de Letras – Língua Espanhola, no âmbito do Parfor.
No entanto, as solicitações não foram atendidas, o que nos leva a propor alguns questionamentos: será que os demais municípios amazonenses já possuem professores de Espanhol em número suficiente para dar conta de sua demanda? A Secretaria Estadual de Educação do Amazonas, como primeira responsável pelo Ensino Médio no estado e como responsável presidente pelo Fórum Estadual de Educação, instância onde são analisadas, discutidas e deliberadas questões concernentes à educação em nível estadual, incluindo as solicitações para Cursos de Licenciatura no âmbito do Parfor, possui professores de Língua Espanhola em quantidade suficiente para atenderem a(s) demanda(s)? Ou simplesmente faltam vontade e planejamento políticos para que seja cumprida a legislação oficial em vigor, configurando-se uma política de desvalorização da Língua Espanhola no Amazonas? São questões que dificilmente serão respondidas a contento, haja vista a dificuldade de acesso aos gestores estaduais da Secretaria Estadual de Educação do Amazonas, conforme mencionado em documentos fornecidos pela APE-AM.
Desde que iniciei minhas investigações de doutoramento, no ano de 2011, venho tentando respectivas audiências e contatos com a gestão da SEDUC-AM, para tratar de questões envolvendo o ensino da Língua Espanhola no Amazonas. No entanto, apesar de já terem se passado mais de três anos, ainda aguardo ser recebido, o que reforça os questionamentos levantados.
Na sequência, retomo as considerações em torno da segunda hipótese levantada, e, a seguir, traço um panorama histórico sobre a presença do ‘branco’ e, consequentemente, de sua(s) língua(s) na região do Alto Rio Negro, buscando argumentos que forneçam embasamento para a discussão em torno das demais hipóteses propostas.
1.1.6 Oralidade e escrita no Alto Rio Negro
Of the some 3000 languages spoken that exist today only some 78 have a literature [...]. There is as yet no way to calculate how many languages have disappeared or been transmuted into other languages before writing came along. Even now hundreds of languages in active use are never written at all: no one has worked out an effective way to write them. The basic orality of language is permanent (ONG, 1986, p. 07).
Com base na assertiva de Ong (op. Cit.), percebe-se que a essência linguística, a oralidade, permanece como característica básica de toda língua naturalmente em uso. Além disso, fica evidente ainda a existência de uma relação nem sempre isomórfica entre a oralidade e a escrita, sendo a primeira prerrogativa para a existência da segunda, e, esta, uma forma tradicionalmente consagrada de perpetuação linguística daquela.
Essa relação de dependência entre oralidade e escrita é destacada por Biber (1998, p. 08) no fragmento a seguir:
[...] em termos de desenvolvimento humano, a fala é o status primário. Culturalmente, os homens aprendem a falar antes de escrever e, individualmente, as crianças aprendem a falar antes de ler e escrever. Todas as crianças aprendem a falar (excluindo-se as patologias); muitas crianças não aprendem a ler e a escrever. Todas as culturas fazem uso da comunicação oral; muitas línguas são ágrafas. De uma perspectiva histórica e da teoria do desenvolvimento, a fala é claramente primária.
No entanto, a relação entre oralidade e escrita não é tão simples assim e não se resume a apenas esse aspecto.
Se utilizarmos uma metáfora, comparando essa relação a um grande rio, como o Amazonas, poderíamos dizer que há muitos afluentes que correm paralelos ou que cruzam esse grande rio no decorrer de seu curso.
Nesta seção, navego nesse grande rio, percorrendo também as águas de alguns de seus afluentes. Meu principal objetivo é abordar pressupostos fundamentais para analisar a relação entre oralidade e escrita em comunidades indígenas do Alto Rio Negro, com vistas a dar fundamento para a argumentação em torno da segunda hipótese proposta de que os habitantes da região, em sua maioria indígenas, pertencentes a culturas de tradição oral, consideram o
espanhol uma língua de ‘branco’, caracterizada por estruturas típicas de línguas de tradição
letrada.
Para alcançar esse objetivo, percorro as águas da história, da tradição e da geografia territorial dessas comunidades, e, então, enveredo-me pelas correntes de culturas letradas e de outras não letradas26 com vistas a abordar a relação entre a oralidade e a escrita, para, então, finalmente, passear rapidamente pelas águas desafiadoras da relação entre a tradição oral e a letrada.
De acordo com Ong (1986, p. 06), “Language is an oral phenomenon.” Cardona (1991, p.
128) afirma que, “En la cultura oral todo está en la memoria y no se puede decir que uno sabe algo si efectivamente no lo recuerda [...]. En la cultura escrita, en cambio, la memoria
pierde casi todo su valor, cada conocimiento […] se pasa a algún documento.”
Sendo a língua um fenômeno humano essencialmente oral, a memória é um dos recursos mais importantes para sua perpetuação e, ainda, um dos componentes mais vigorosos da relação das torrentes entre a tradição oral e a tradição letrada.
26
Entendemos os termos culturas letradas ou não letradas de acordo com a perspectiva de Goody (1988), ou seja, no tocante à presença ou ausência de uma tradição escrita.
Cardona (op. Cit.) ilustra bem essa questão ao elucidar uma passagem da obra platônica em que o deus egípcio Theuth tenta convencer ao rei de Tebas sobre as vantagens de se dominar a escrita para o povo egípcio.
Segundo a entidade mitológica, o domínio da escrita tornaria os egípcios mais sábios, potencializando sua memória. Ele oferece ao rei “[...] el fármaco de la memoria y de la sabiduría [...] (Ibidem, p. 127)”, a escrita. No entanto, para o soberano egípcio, essa invenção, ao contrário, tornaria os egípcios preguiçosos, dependentes e iludidos. Para o monarca, a sabedoria se encontra justamente na capacidade de ensinar e aprender por meio das lembranças naturais, do exercício da memória, e a nova invenção, a escrita, por sua vez, esvaziaria a memória, transferindo as lembranças para uma nova forma de armazenagem, artificialmente construída, o texto escrito, registrado em um documento – uma mera ilusão. Essa passagem representa a defesa de posições opostas, mantidas por culturas de tradições diferentes, ilustrando a turbulência da/na relação entre a oralidade e a escrita, muitas vezes
desigual, já que “Though words are grounded in oral speech, writing tyrannically locks them into a visual field forever (ONG, op. Cit.).”
As investigações iniciais sobre essa relação aconteceram não por meio de estudos linguísticos, descritivos ou culturais, mas literários, com o trabalho de investigadores que se debruçaram sobre a tradição oral grega, a partir dos textos da Ilíada e da Odisséia.
Entre outros elementos investigados, destaca-se o contraste entre as formas de pensamento e expressão tradicionalmente orais e aquelas tradicionalmente letrados. Para Milman Parry (1928)27 a poesia homérica está marcada por métodos orais de composição. Outros estudiosos28 chegaram a afirmar que Homero e seus contemporâneos gregos não dominavam a escrita e que foi o poder da memória, do ethos popular, que permitiu sua poesia.
27
Edição Inglesa: PARRY, M. The Making of Homeric verse. Oxford: Clarendon Press, 1971. 28
Robert Wood, diplomata e arqueólogo inglês; Jean-Jacques Rousseau, em Oeuvres de J. J. Rousseau (1920- 1923).
No avanço dos estudos, outras áreas do conhecimento passaram a se interessar pela questão. Assim, a partir das ciências sociais, outras culturas foram pesquisadas, principalmente aquelas em que a tradição oral permaneceu inalterada pela ausência do contato com a escrita durante um longo período.
Dentre esses estudos, destaco as investigações antropológicas e sociais de Ong (op. Cit.) voltadas para civilizações africanas de culturas de tradição oral, que só foram influenciadas por culturas de tradição escrita a partir do processo de sua conquista (e letramento). Entre outras questões, o pesquisador investigou a relação entre a tradição oral e a letrada a partir do contato religioso com o Islã e, mais tarde, com o ensinamento escolar europeu.
É interessante destacar que o contato de civilizações não letradas com a escrita transformou significativamente a realidade de seus componentes nos âmbitos individual e coletivo.
Entre as transformações, percebemos que, inicialmente, nas tribos e civilizações africanas que mantiveram contato com os mouros, a escrita, por ser uma nova forma para se perpetuar o conhecimento ancestral do povo, foi mistificada, recebendo caráter mágico, assumindo
papel semelhante ao que tinham os mais idosos, os ‘irmãos mais velhos’ das tribos, os
responsáveis pela manutenção dos feitos de seus ancestrais, pela herança histórica de seu povo. Antes do contato com a escrita, somente esses líderes espirituais eram legitimados a se comunicarem com os antepassados, com os deuses, com o mundo espiritual.
A partir do contato com a escrita, principalmente por meio de livros sagrados, como o Al Corão no caso do Islã, houve uma mudança no cerne religioso e na distribuição do poder dentro das civilizações em tela, pois qualquer um que ‘aprendesse o livro’ (acepção outorgada a quem sabia ler e escrever) poderia ter acesso aos deuses, ganhando status de poder e respeito.
“It was the magical-religious aspect which most impressed the majority of the population. They were concerned with writing a s a means of communicating with God and other supernatural agencies […] (ONG, op. Cit., p. 139).”
Outra transformação verificada pelo antropólogo tange a questão da adequação econômica, política e social aos padrões internacionais, já que as novas atividades comerciais e políticas de massa estão intimamente ligadas e dependentes da escrita.
Dessa forma, fez-se necessária a criação de escolas e a ampliação da rede de ensino de tradição escrita para a sua massificação. Isso se deu a partir do contato com os europeus, o que gerou uma transformação profunda a nível social nessas civilizações de tradição oral. A mobilidade social, que antes praticamente não ocorria, uma vez que a perpetuação do