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No que tange esta pesquisa, há de se considerar que a educação da mulher brasileira que se pretende destacar é aquela que corresponde ao final do século XIX, época na qual Afrânio Peixoto ambientou seus quatro romances regionalistas. Ademais, pelo que foi exposto até aqui, é com essa concepção de mulher e de educação que o médico e romancista baiano futuramente publicaria o seu compêndio intitulado Eunice ou A Educação da Mulher.

No bojo deste livro de reflexões sobre o papel da mulher na história da civilização humana (que vai da Antiguidade até os anos 1930, à época de Peixoto), há um post-scriptum intitulado Mandamentos da Espôsa ou A Arte da Felicidade, cuja ideologia segue uma

tradição portuguesa que está contida em três obras: Espelho de Casados (1540), do Dr. João de Barros; Casamento Perfeito (1630), de Diogo de Paiva de Andrada; e Carta de Guia de Casados (1651), de D. Francisco Manuel de Melo.

Nos livros normativos acima mencionados, os temas principais abordados são a escolha da esposa (com seus defeitos e qualidades), o comportamento do homem para com mulher e o pecado do adultério, cujas orientações eram oriundas da tradição ascética medieval que foi normatizada no Concílio de Trento (1545-1563).

Em Espelho de Casados, o Dr. João de Barros, enfatizava a importância da união do casal para a nação: “[...] Porque o matrimônio é fundamento da geração humana, e sem ele não pode haver boa república. [...]”. Além disso, segundo ele, “Grande glória ao marido é ver sua mulher como lhe tem governada a casa [...] como lhe cria os filhos, como lhe aproveita a fazenda, como descarrega ao marido dos cuidados e os toma sobre si”. (BARROS apud ALMEIDA, 1988-1989, p. 197).

No artigo Os Manuais Portugueses de Casamento dos Séculos XVI e XVII, Ângela Mendes de Almeida argumenta que o Dr. João de Barros distinguia os papéis que eram destinados a cada um dos cônjuges para a manutenção de lar. Assim que, enquanto “Convém ao marido negociar, tratar, ganhar, defender, demandar e fazer outras coisas necessárias para manter sua casa. [...]”; restaria à mulher: “[...] guardar tudo e mandar consertar a casa, ter o comer e a mesa prestes a seu marido. [...]”. Desse modo, vê-se que: “[...] O marido há de ter jurisdição no que toca a ela porque se cada vez se encontrar um com o outro, nunca viverão em paz [...]”. (BARROS apud ALMEIDA, 1988-1989, p. 199).

Em Casamento Perfeito, Diogo de Paiva de Andrada (1944, p. 2, 203) justificava o casamento como sendo “um contrato de duas vontades ligadas com o amor que Deus lhe comunica”, que traria a geração de filhos que seriam úteis aos pais no final da vida. Ademais, rememorando a tradição grega, o autor dizia que a mulher levava a roca e o fuso, no dia do casamento, para a nova morada:

Para que lembrando-se ela do particular ofício das mulheres, entendesse que não casara para estar ociosa em delícias e passatempos, senão para estar sempre ocupada em suas teias e costuras, e no mais que pertence às mulheres honradas [...] (ANDRADA, 1944, p. 149).

Na sua Carta de Guia de Casados, D. Francisco Manuel de Melo (1983, p. 30) também sugeria que o marido moldasse o comportamento da esposa e que: “Dê-se-lhe a entender à mulher que a coisa que mais deve querer é a seu marido. Tenha o marido para si que a coisa que mais deve querer é a sua honra, e logo sua mulher [...]”.

Com efeito, o autor era imperativo em seus aconselhamentos, principalmente ao dirigir-se aos maridos e dizer que:

[...] trata de dar remédio à ociosidade [da mulher], ocupando-a no honesto trabalho do governo da casa [...] e é bom e necessário, não só para que ela viva ocupada, senão para que o marido tenha menos esse trabalho. Coisas tão miúdas não é bem que pejem o pensamento de um homem; e para os da mulher são muito convenientes. [...] Diz bem por isso o rifão: do homem a praça, da mulher a casa. (MELO, 1983, p. 57-58).

Com os exemplos desses três manuais lusitanos de aconselhamento, percebe-se a existência de um discurso moral e religioso, com vista à manutenção de uma ordem patriarcal estabelecida na qual a mulher ocupava uma posição de inferioridade diante da autoridade masculina (pai ou marido). É com esse modelo de instrução feminina que Afrânio Peixoto conceberia em pleno século XX a sua obra Eunice ou A Educação da Mulher.

4.2.1 Reflexos no século XX: Instrução feminina em “Eunice ou A Educação da Mulher” (1936), de Afrânio Peixoto.

Ainda no final dos Oitocentos, temas ligados ao matrimônio, bem como aconselhamentos para a felicidade conjugal, apareciam nos periódicos sob a forma de preceitos que relembravam os Dez Mandamentos do Antigo Testamento. Em Histórias e Conversas de Mulher, Mary del Priore diz que era possível encontrar em vários periódicos alguns exemplos desse tipo de orientação, quando aponta que:

No final do século [XIX], pequenas mudanças! Por força de práticas sociais, certa idéia de casamento que fosse além do rasteiro negócio ou da proteção começou a circular. Podemos observá-la em pequenos artigos, como o publicado no Jornal do

Comércio em 1888. O título: Os dez mandamentos da mulher – ‘1º amar o vosso marido sobre todas as coisas... 2º Não lhes jureis falso... 3º Preparai-lhe dias de festa... 4º Amai-o mais do que o vosso pai e mãe... 9º Não desejeis mais do que um próximo e que esse seja teu marido...”. (PRIORE, 2013, p. 53).

A partir da premissa jurídica da igualdade de homens e mulheres expressa pela Constituição Republicana de 1891, as mudanças sociais decorrentes do progresso e da urbanização dos grandes centros urbanos obrigou os setores do governo brasileiro a criar estratégias que pudessem conciliar interesses políticos com as novas demandas das instituições e dos cidadãos, incluindo, a partir daí, as mulheres.

Quando a participação feminina passou a ser uma constante nos ambientes públicos, discursos com dois pontos de vistas distintos se fizeram notar: de um lado, os que apoiavam as campanhas de emancipação da mulher; de outro, os que se opunham,

considerando que a introdução de novos hábitos acabaria por desestruturar a instituição familiar e corromper a ordem social.

Nesse contexto, Afrânio Peixoto foi um dos vários intelectuais envolvidos no debate acerca da questão da mulher diante do novo cenário de inclusão que se estabelecia. Como médico e educador, seu olhar cientificista vislumbrava desconstruir conceitos pré- concebidos sobre o sexo feminino e suplantá-los por novas concepções, a fim de adequar o papel da mulher ao modus operandi da sociedade brasileira que ali se construía.

No entanto, para compreender os motivos que levaram Peixoto a escrever um livro exclusivamente voltado para a educação da mulher, faz-se necessário mencionar a sua biografia, cuja carreira intelectual e profissional sempre esteve inter-relacionada a outros campos do conhecimento além do da medicina, tendo publicado livros sobre os mais diversos temas, que vão desde estudos sobre saúde e criminologia até compêndios sobre folclore, literatura e história do Brasil.

Tornando-se uma autoridade no campo da Educação, seus estudos iniciais, voltados para a saúde (eugenia, higiene, sexualidade, etc.) acabaram por se estender ao da instrução escolar, primando por temas de cunho pedagógico que pudessem promover o progresso e a ordem social no país. É com essa intenção que Afrânio Peixoto acabou dedicando uma obra voltada para a educação da mulher.

Publicado pela primeira vez em 1936, Eunice ou A Educação da Mulher tanto é uma retrospectiva histórica da educação feminina na sociedade ocidental, como é um manual de instrução e aconselhamento para mulheres casadas — o que corresponde, respectivamente, à divisão estilística da obra em duas partes: O que foi e O que deve ser (consultar ANEXO E). Em O que foi faz-se um resgate das “práticas pedagógicas” voltadas para a formação feminina ao longo dos períodos históricos: Pré-História, Antiguidade Clássica, Idade Média, Renascimento, Revolução Industrial, Iluminismo etc., incluindo um capítulo sobre a educação jesuítica no Brasil. De maneira linear, esta primeira parte do livro está distribuída em onze capítulos.

Por sua vez, em O que deve ser, o autor não se desvincula da pesquisa médica, abordando tópicos sobre sexualidade e seus efeitos na vida social da mulher: o desenvolvimento físico e psicológico, a prática da educação física, orientações para a vida conjugal e profissional etc. Este segundo momento de Eunice possui doze capítulos, além de um post-scriptum intitulado Mandamentos da Espôsa ou a Arte da Felicidade.

Além da dedicatória a Anísio Spínola Teixeira, a quem Afrânio Peixoto considerava “o maior dos educadores brasileiros”, aparece logo na sequência do título do livro

uma citação de Sócrates, extraída de um dos textos de Xenofonte que diz: “Em nada a mulher é inferior ao homem. (SÓCRATES apud XENOFONTE, Banquete, II). “Precisa apenas um pouco mais de fôrça, no corpo, e vigor, no espírito, o que lhe pode ser dado pela educação.” (PEIXOTO, 1947, v. XX, p. 3). Tal epígrafe já apresenta uma premissa do que o autor ensejava discutir em seu manual: a equiparação da mulher ao homem através da educação.

No contexto da publicação de Eunice (1936), algumas conquistas sociais, como o voto feminino23, já eram uma realidade no Brasil. Dessa forma, no prefácio do livro, o autor

menciona que sua intenção não é a de escrever um compêndio escolar, mas o de discutir uma pauta de debates sobre o papel da mulher na sociedade de sua época, quando afirma que:

Êste, não é um livro didático, sôbre a educação da mulher: é antes, sôbre o assunto, ensaio, às vezes polêmico, de propaganda e justificativa dessa educação.

Apraz-me pensar que, se não é nova a preocupação, ela não é apenas declamada por truísmos de apologia, rebatendo os a priori, do gosto, ou da fácil ironia de homens, mas procurando a documentação anatômica, fisiológica, psicológica e social, que somente devem intervir no debate.

Aliás, a vida vai fazendo isto, mau grado das resistências insensatas dos misoneístas: convém que o faça pelas razões da experiência que só elas convencem e podem apressar. (PEIXOTO, 1947, v. XX, p. 7).

Por fim, Peixoto esclarece que o nome do livro faz alusão ao significado do nome “Eunice”, ratificando que por meio da educação a mulher seria capaz de vencer os desafios próprios do sexo feminino. Assim:

[...] Para tirar o aspecto dogmático a este livro, crismo-o, agora, em definitiva edição, Eunice ou a educação da mulher. Eunice é ‘a que vence fàcilmente’, a quem a vitória não custa, pois que, para a mulher, se os dons naturais causam desejo e tormenta, êsse, da educação, lhe dará vitórias fáceis, pois aceitas pelo mundo, conquista do esfôrço, ajudando à natureza.

Portanto, agora, e por diante, Eunice ou a educação da mulher. (PEIXOTO, 1947, v. XX, p. 7-8).

Não é de se estranhar que o prefácio de Eunice seja de um tom entusiástico, dado que desde o início da República (1889) havia uma preocupação dos dirigentes em garantir a manutenção social no Brasil. As ideias positivistas de progresso que vigoravam desde o final do século XIX se coadunavam com o projeto de se disciplinar as camadas populares e estabelecer a ordem no país.

Ao dirigir-se as mulheres, o médico e educador trata do assunto como algo solene, posto que eram elas o sustentáculo da família. Não à toa, seu discurso conservador condenava o casamento com grandes distorções de idade, bem como a prostituição e o homossexualismo24, os quais, segundo ele, comprometeriam o progresso da nação brasileira.

23 O direito ao voto feminino nas eleições nacionais havia sido decretado em 1932, durante o primeiro governo

de Getúlio Vargas (1930-1945).

Entretanto, para que os leitores pudessem compreender a mensagem de Eunice ou a educação da mulher, era necessário que Afrânio Peixoto pudesse situá-los acerca de como a mulher havia sido representada socialmente ao longo dos séculos, de modo que para isso, na primeira parte do livro, intitulada O que foi, o autor destacava pontos que senão contraditórios, eram ainda essenciais para a sociedade de seu tempo, como os exemplos que se destacam a seguir.

A questão da honra ligada à virgindade feminina sempre foi supervalorizada pela sociedade ocidental. No Brasil, a tradição judaico-cristã importada pelo colonizador português se impôs de forma agressiva, de forma que a moral religiosa católica aliada aos valores capitalistas acabaram impondo à mulher um papel de submissão no contexto da sociedade patriarcal que a produziu. Na obra História da Virgindade, diz-se que ao final do século XIX “[...] a virgindade feminina é celebrada com quase tanto lirismo quanto a maternidade. [...]” (KNIBIEHLER, 2016, p. 160).

À época de Eunice, a sociedade brasileira já havia incorporado, desde os Oitocentos, uma verdadeira “cultura do hímen”. No entanto, como médico, Afrânio Peixoto já defendia um ponto de vista bastante peculiar, como afirma Elizabeth Sousa Abrantes em seu artigo A Educação da Mulher na Visão do Médico e Educador Afrânio Peixoto, ao relatar que o escritor:

[...] Posicionava-se contrário à himenolatria, com estudos que refutavam crenças científicas em voga, até mesmo estudos de cientistas europeus. Baseado em farta documentação resultante da observação de himens, num total de 2.701, comprovou que a existência do hímen complacente era mais comum do que se acreditava, o que possibilitava que essa membrana permanecesse íntegra mesmo em caso de defloramento. Por essa razão, procurava demonstrar o erro em focar a honestidade feminina exclusivamente na fisiologia, defendendo, portanto, a ‘virgindade moral’.

(ABRANTES, 2010, p. 148).

A respeito da instrução da mulher, o matrimônio e a maternidade foram duas das grandes preocupações educacionais de Afrânio Peixoto. Sua visão médica alinhada ao pensamento positivista e eugênico do período em que viveu foi marcada pela tentativa de se criar uma sociedade brasileira branca e disciplinada, na qual a mulher, como dona de casa e mãe, tinha a responsabilidade de zelar pela formação dos futuros cidadãos, isto é, a puericultura25.

Para Peixoto, a mãe educadora desempenhava um papel estratégico para o desenvolvimento da nação, quando afirma que: “[...] A educação começa no berço, se diz, à

25 Ciência que reúne todas as noções (fisiologia, higiene, sociologia) suscetíveis de favorecer o desenvolvimento

saciedade. Começa de antes. Uma mãe, não educada sexualmente, higiênicamente, porá em perigo a vida de sua criatura, senão a própria vida... [...]” (PEIXOTO, 1947, v. XX, p. 268).

Nesse contexto, sua participação em vários debates higienistas se destacava por um discurso especialmente direcionado à mulher, uma vez que a família — instituição primária da sociedade — estava nela centralizada. Em Eunice são encontradas algumas dessas exaltações ao papel doméstico da mulher, sobretudo quando o autor o dialoga com exemplos extraídos do passado, ao falar que:

[...] Daí recolheu-se a ela, a mulher, à sombra ciumenta do gineceu, preservada dos outros homens, criando os filhos, cosendo, cozinhando, dirigindo serviçais escravos... Até gregas, até romanas, até sempre, até hoje... Quando, por exceção, escapava dessa clausura material ou da clausura subjetiva, do espírito que alçava a uma ambição de dizer e pensar, ai dela! [...] (PEIXOTO, 1947, v. XX, p. 305-306).

De fato, em se considerando outros dos discursos de Afrânio Peixoto, não é de se surpreender que o texto de Eunice seja essencialmente conservador, haja vista que sua opinião representava toda uma voz da elite intelectual brasileira da primeira metade do século XX. Sobre seu posicionamento tradicional, Elizabeth Sousa Abrantes declara que:

[...] Como defensor da ideologia do branqueamento, através da imigração e da seleção sexual como meio de aperfeiçoamento da população brasileira, desenvolveu vários estudos de medicina legal que contribuíram para justificar ‘cientificamente’ o racismo. (ABRANTES, 2010, p. 147).

Em outra passagem de Eunice, Afrânio Peixoto esclarecia que o ideal de casamento era o modelo monogâmico, uma instituição cristã na qual a mulher também era vista como uma personagem submissa à vontade do marido. Com efeito, o escritor declara que:

O Cristianismo, que dignificou, pelo casamento monogâmico indissolúvel, a mulher, manteve-a recolhida, como asiáticos, greco-romanos, no lar, objeto de pecado e do temor, dos devotos e santos, sem ver que a tentação vinha desse temor, vinha da castidade e do celibato eclesiástico... (PEIXOTO, 1947, v. XX, p. 306-307).

Em algumas de suas reflexões, o autor fazia apontamentos acerca de uma distinção de papéis sociais que deveriam ser existir entre homens e mulheres, sempre com a intenção de que ambos bem pudessem servir à sociedade a qual pertenciam, sobretudo ao dizer que:

[...] A boa educação é aquela que permite a cada um, homem ou mulher, revelar as suas qualidades boas no máximo rendimento possível à vantagem da sociedade. Porque a educação é a perfeição do ser humano para a vida, vida na sociedade necessàriamente. (PEIXOTO, 1947, v. XX, p. 311-312).

“[...] Educada e educadora.” eram os predicados evocados por Afrânio Peixoto para descrever a importância do papel social da mulher através da sua instrução. Veja-se que

no bojo dessas declarações, o autor de Eunice estabelecia que somente a ela, como mãe e esposa, cumpriria trazer felicidade aos lares.

Por outro lado, para que a mulher desempenhasse o seu papel de educadora, era também necessário que ela tivesse sido anteriormente instruída para se tornar a cônjuge ideal. Para o espírito positivista daquele período, só assim a mulher seria capaz de produzir pessoas úteis. Abaixo, o escritor descrevia que:

Esse humor agradável não é saúde, apenas: é, principalmente, educação. Há quem sofra com resignação. Se não amáveis a todos, porquê só a domésticos, filhos, maridos, serão insuportáveis? Falta de auto-contrôle, ausência de educação, complexo de inferioridade...

À medida que as mulheres se educarem, ou se forem educando, irá melhorando o mundo. A felicidade comum depende da educação da mulher. Com essa educação, educará os filhos, maridos e espôsas dos outros, da geração vindoura. [...] (PEIXOTO, 1947, v. XX, p. 315-316).

Em outro trecho de Eunice, Afrânio Peixoto também mencionava o reverso da medalha, isto é, as características femininas que eram consideradas condenáveis para a manutenção do bem-estar da família. Para o autor, só a educação seria capaz de deter certas mazelas do casamento, como o consumismo desenfreado. Na sequência, declarava-se que:

Essa educação, suprimindo a maior tara atual da mulher, a mulher ‘braba’, a mulher injuriosa, eliminará duas outras taras que lhes denunciam, agora ainda inferioridade mental: comprar demais, gastando dinheiro inùtilmente e falar demais, perdendo o tempo, entontecedoramente... Falta de juízo, que desorganiza os orçamentos domésticos e falta de tento, que lhes torna odiosa a companhia. (PEIXOTO, 1947, v. XX, p. 316).

Além de reforçar um discurso conservador quanto às responsabilidades domésticas que competiam à mulher para a manutenção da família, outros tópicos de interesse se fazem presentes em Eunice, dentre as quais se destacam: a educação mista, o ensino voltado para o magistério, a educação física/intelectual e a emancipação feminina.

Sobre a coeducação ou educação mista, Afrânio Peixoto considerava que a separação entre homens e mulheres apenas contribuiria para acentuar ainda mais o desnível de educação entre os sexos. Neste quesito, o autor esclarecia que:

[...] Nos homens e mulheres co-educados a instrução é comum. Foi a separação entre, a princípio ciumenta ou asiática, dos sexos na escola, e, depois a separação medrosa ou religiosa, que fêz a disparidade de educação... Condição sine qua non da identidade educacional, da igualdade sexual de aprender, é a educação conjunta dos sexos, é a co-educação... Separem-se os sexos em escolas privativas, de cada um dêles e teremos desnivelamento e o homem imporá, à sua companheira, as diminuições de cultura, ad usum puellœ. [...] (PEIXOTO, 1947, v. XX, p. 137-138). Quanto ao ensino no magistério, Eunice destaca que o ensino primário deveria competir exclusivamente às mulheres, inclusive criticando os homens que aderiam às Escolas Normais. Sobre isto, Peixoto era bastante veemente em dizer que:

O homem professor primário é uma aberração, como o é o capão de pintos... Excetuo o caso raro de uma vocação, um PESTALLOZZI ou FROEBEL, o que é exceção, portanto anomalia. Diretor de instrução que fui, nunca considerei, sem desdém, os raros rapazes que se matriculam nas Escolas Normais: são falidos, que, antecipadamente, capitularam diante da vida, num país em que as utilidades masculinas oferecem compensações másculas. [...] (PEIXOTO, 1947, v. XX, p. 139).

Sobre a educação física voltada para a mulher, preconizava-se que tal prática entrava em oposição à cultura cristã que desprezava o cuidado com o corpo. Como médico, Afrânio Peixoto sabia que a falta de exercícios comprometeria o funcionamento do corpo, a despeito das reclamações de muitos dos pais de alunas: “[...] Quando diretor de instrução pública, recebi protestos indignados, de muitos pais, contra a modesta ginástica escolar, porque ‘não educavam as filhas para atletas’...” (PEIXOTO, 1947, v. XX, p. 249).

Igualmente interessante é notar o posicionamento de Afrânio Peixoto quanto à frequência da educação física para a promoção da saúde da mulher, não dispensado o equilíbrio sobre quando e como praticá-los. Tal argumento melhor se descreve quando o autor dizia que:

O exercício útil, se auxilia a vencer, pela medida e apropriação, os obstáculos

Benzer Belgeler