2. KAVRAMSAL ÇERÇEVE
3.1. Araştırmanın modeli
A imprensa era um dos meios mais eficazes para a disseminação de valores patriarcais. A educação das “boas moças” tinha a finalidade exclusiva de prepará-las para o casamento. Tal descrição é feita por Mary del Priore, ao escrever que:
Não faltavam conselhos na imprensa. O mais repetido? A mulher devia ser uma boa dona de casa. Devia aplicar esforços no bom comando de escravos e empregados, e na excelente educação dos filhos, além de conhecer e praticar todos os pontos de bordado. Entre as elites, também cantar e tocar piano. Ela devia ser reservada no comportamento, evitando tanto o riso demasiado quanto os bocejos de tédio. Devia- se, ainda, evitar a entrada de qualquer homem dentro de um quarto de mulher, com exceção de padres e médicos, que não eram considerados homens. Sendo o casamento indissolúvel, devia-se evitar contato com divorciadas e separadas, consideradas maus exemplos. Reforçava-se o medo das ‘perdidas’: Há coisas que,
uma vez perdidas, nunca mais se recuperam: na mulher, a inocência, e, no homem, a confiança nela, martelavam ditados. (PRIORE, 2013, p. 53-54).
Além dos periódicos, várias eram as manifestações literárias dedicadas à instrução feminina: pequenos manuais elaborados por quem tinha mais experiência e queria auxiliar mães e professores a guiar as moças ao caminho da virtude e do altar. Eis um exemplo do que se podia encontrar nas livrarias em meados da década de 1880 — conselhos voltados paraa felicidade das futuras esposas, a exemplo do ditado que dizia:
Mas era de pequenino que se torcia o pepino, bem dizia, em 1885, dona Ana Ribeiro de Góis Bettencourt, colaboradora do Almanaque de lembranças luso-brasileiro, alarmada com as tendências românticas das novas gerações — principalmente quanto ao fato de meninas fugirem de casa com os namorados —, esclarecendo que convinha aos pais evitar as más influências: o mau teatro; os maus romances; as más leituras — sobretudo os com ‘certas cenas um pouco desnudadas’ e ‘certos perfis de mulheres altivas e caprichosas [...] que podem seduzir a uma jovem inexperiente, levando-a a querer imitar esses tipos inconvenientes na vida real’. (PRIORE, 2013, p. 54-55).
Em fins daquele mesmo decênio, mesmo com poucos avanços, a imprensa manteve a tradição de conceder espaço a tais aconselhamentos, visando sempre “a preservação da moral e dos bons costumes”, valorizando, sobretudo, o matrimônio e a família como as mais importantes instituições sociais.
Como se percebe a partir do trecho acima, além da educação formal recebida pelas filhas da elite, havia o discurso jornalístico que reforçava o papel de submissão da mulher através de vários aconselhamentos, isto é, uma instrução pensada para a manutenção de valores patriarcais que durante séculos se perpetuavam no país.
Em Histórias da Gente Brasileira, Mary del Priore documenta uma citação do periódico paulista A Família (1888), voltado para a educação feminina. Nela, a fundadora Josephina Álvarez de Azevedo faz uma curiosa crítica acerca do tipo de ensino que era dedicado às mulheres, conclamando que:
Tenhamos este princípio por base, que só ele é verdadeiro. Entre nós fala-se muito da educação da mulher, mas tudo sem discernimento. Referem-se a uma espécie de polimento de espada que não se destina a ferir, senão a brilhar ingloriosamente. E em que consiste essa tão decantada educação? No seguinte: saber mal o português, a aritmética, o francês, o canto e o desenho, e muito mal arrumar a casa. [...] O caso é que tal decantada educação não nos adianta se nós não tivermos um ideal mais nobre! Aquela que consegue romper este acanhado círculo de ferro em que agimos, e pelo estudo e sabedoria chega ao conhecimento das coisas, essa só consegue uma coisa: envolver-se em uma atmosfera de descrença e de tédio, em um meio em que a sua individualidade, que ela mal começa a discernir, não tem objetivo digno de si. (AZEVEDO apud PRIORE, 2016, p. 297).
A mudança de regime político não havia mudado a concepção de que “lugar de mulher é em casa”, a qual permanecia amparada pela impressa e pela literatura voltada para a instrução feminina. Paralela à promulgação do novo Código Civil, os periódicos também se incumbiam de reforçar essa mesma ideologia, como afirma Mary del Priore em História do Amor no Brasil, ao registrar que:
No mesmo ano em que foi aprovado o Código Civil da República [1890], publicou- se um manual de economia doméstica com o sugestivo título de O lar feliz. E tome conselhos atribuindo a homens e mulheres papéis que a encíclica Rerum Novarum enfatizava em 1891: lugar de mulher era em casa, pois só aí ela salvaguardava sua honestidade sexual; só aí ela garantia a prosperidade da família, só aí atendia à sua natureza. [...] (PRIORE, 2012, p. 248).
O autor anônimo de O Lar Feliz, que é citado por Priore, ressalta com que tamanho orgulho a mulher deveria encarar a sua função social doméstica, exaltando suas habilidades no zelo da casa e no cuidado dispensado ao seu cônjuge. Como se argumenta adiante, tal manual dizia que:
[...] à mulher incumbe sempre fazer do lar — modestíssimo que seja ele — um templo em que se cultue a Felicidade, à mulher compete encaminhar para casa o raio de luz que dissipa o tédio, assim como os raios de sol dão cabo aos maus micróbios [...]. Quando há o que prenda a atenção em casa, ninguém vai procurar fora divertimentos dispendiosos ou prejudiciais; o pai, ao deixar o trabalho de cada dia, só tem uma ideia: voltar para casa, a fim de introduzir ali algum melhoramento ou de cultivar o jardim. Mas se o lar tem por administrador uma mulher, mulher dedicada e com amor à ordem, isto então é saúde para todos, é a união dos corações, a Felicidade perfeita no pequeno Estado, cujo ministro da Fazenda é o pai, cabendo à companheira de sua vida a pasta política, os negócios do Interior. (O LAR... apud PRIORE, 2012, p. 248-249).
Todavia, não foi à toa que mulher havia sido eleita como figura responsável pela manutenção do lar. No grandioso projeto positivista de se modernizar o país, ela não estava excluída de colaborar com a nação cuidando de sua prole, os futuros cidadãos brasileiros. É o que declara Mary del Priore em Histórias e Conversas de Mulher, quando informa que:
A preocupação do Estado e da medicina com a constituição de famílias levou-os a se preocupar também com a presença da mãe em casa. Trabalho? Não! Quem cuidaria dos filhos, esses futuros cidadãos que dependiam dela? Estudos como o de João Passos, em 1913, Da escravidão da mulher pelo industrialismo e do consequente
malefício para a espécie, provavam que só havia malefícios em afastar a mulher da família. As razões: o período menstrual, a gestação e a lactação exigiam ‘máxima atividade fisiológica’, e sobrecarregar o físico com esforços obrigatórios era ‘positivamente um crime’, cravava o doutor. Afinal, elas eram tão fracas... E para concluir: ‘não precisamos sair do simples domínio biológico para verificarmos o quanto é monstruosa a moderna organização social, em que a Mulher vai sendo cada vez mais sacrificada à criminosa cobiça do regime industrialista’. (PRIORE, 2013, p. 63).
Aos olhos do governo republicano, a aspiração por uma vida profissional feminina, longe do lar, malograria o intento de civilizar o país; lembrando que até aí, da pouca instrução formal que as mulheres recebiam, a maioria delas não eram sequer alfabetizadas, reservando-se tão somente em adquirir conhecimento de prendas domésticas que as possibilitassem administrar a casa. Desse modo, percebe-se que a educação feminina pouco se preocupava em conscientizar as mulheres, senão o de prepará-las para o casamento e para a criação dos filhos em nome da nação brasileira. No trecho abaixo, demonstra-se que:
Sem estudo, a maior parte das jovens investia nas ‘prendas domésticas’. A ‘moça de família’ manteve-se como modelo e seus limites eram bem conhecidos, embora atitudes condenáveis variassem desde cidades grandes até pequenas, em diferentes grupos e camadas sociais. O bem-estar do marido era a medida da felicidade conjugal, e esta adviria em consequência de um marido satisfeito. E, para tal bem- estar, qual era a fórmula? A mulher conquistava pelo coração e prendia pelo estômago. (PRIORE, 2013, p. 69).
Já na década de 1910, surge um novo Código Civil ainda em anuência ao discurso da Igreja, mantendo em seus artigos, parágrafos e alíneas os mesmos valores patriarcais de antes, e ratificando que o lugar da mulher era no ambiente doméstico, cuidando do marido e dos filhos. Em História do Amor no Brasil, Mary del Priore declara que:
De fato, apesar das transformações que chegavam, o Código Civil de 1916 mantinha o compromisso com o Direito Canônico e com a indissolubilidade do vínculo matrimonial. Nele, a mulher era considerada altamente incapaz para exercer certos atos e se mantinha em posição de dependência e inferioridade perante o marido. Complementaridade de tarefas, sim. Igualdade entre homens e mulheres, nunca. Ao marido, cabia representar a família, administrar os bens comuns e aqueles trazidos pela esposa e fixar o domicílio do casal. Quanto à esposa, bem... essa ficara ao nível dos menores de idade ou dos índios. Comparado à legislação anterior, de 1890, o Código traz mesmo uma artimanha. Ao estender aos ‘cônjuges’ a responsabilidade da família, nem trabalhar a mulher podia sem permissão do marido. Autorizava-se
mesmo o uso da legítima violência masculina contra excessos femininos. A ela cabia a identidade doméstica; a ele, a pública. [...] (PRIORE, 2012, p. 246).
Como das outras vezes, em apoio a essa nova jurisdição, a impressa e a literatura daquele mesmo decênio reforçavam que o papel social da mulher ainda estava vinculado ao zelo do lar e à guarda dos filhos. Tal discurso de instrução feminina era uma constante em periódicos e revistas do período, como Mary del Priore afirma em Histórias e Conversas de Mulher, assinalando que:
O papel social preponderante da mulher era ser mãe: ‘A maternidade, o cuidado e os carinhos com sua prole são os primeiros deveres da mulher’, admoestava a o número de junho de 1916 de Vida Doméstica. E prevenia: ‘A mulher que não for boa mãe, deixa por isso mesmo de ser mulher’. Atributos normalmente associados à feminilidade reforçavam o caráter ‘natural’ da maternidade. ‘Com o nascimento dos filhos, o papel da mulher já nobilitado pelo amor, aumenta bruscamente’, informava a Revista Feminina de maio de 1923. ‘Que virtude brilhante manifestava a mulher como mãe’, martelava a Vida Doméstica. (PRIORE, 2013, p. 133).
Esposa e mãe. Eis o discurso que vigorava no Brasil republicano em que Peixoto viveu e desempenhou sua carreira de educador, cuja aspiração feminina deveria seguir à risca a declaração de que: “A esposa era a responsável pela felicidade dos cônjuges. E felicidade despida de sensações consideradas desonrosas e inexplicáveis! Afinal, a esposa era um anjo!” (PRIORE, 2013, p. 55).
Com efeito, considerando os eventos até aqui elencados, percebe-se que durante quase quinhentos anos a educação feminina serviu como um aparelho ideológico voltado para a manutenção de um sistema patriarcalista, cujo objetivo maior sempre esteve a mercê dos dirigentes do país. Sobre avanços mais significativos em se valorizar a mulher brasileira na sociedade, tais efeitos só serão sentidos a partir dos anos 1930.
4.2 A tradição das obras de edificação e doutrina moral (séculos XVI ao XVIII): regras