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No caso de Vila Velha em Itamaracá58, os objetivos do projeto de revitalização compreendem a regulamentação da ocupação do solo com aprimoramento das condições ambientais e urbanísticas do sítio histórico, além de um formato para a gestão compartilhada do equipamento (SETUR-PE, s.d.). A área do sítio histórico, a ser requalificada, compreende a região tombada pelo processo estadual nº 1230 de 1989,

que fica entre as matas dos Engenhos São João e Nossa Senhora do Amparo, a Penitenciária Agrícola de Itamaracá, o Canal de Santa Cruz, o rio Paripe, a Mata de Cajueiros do Sítio Chacon e o Forte Orange. A intervenção prevê a revitalização da antiga Casa-Grande do sítio Chacon, das ruínas da ponte do rio Paripe, da Igreja Nossa Senhora da Conceição, da Casa de Câmara e Cadeia, da Igreja da Nossa Senhora dos Pretos, dentre outros monumentos, e a construção de equipamentos turísticos, como praças, mirantes, museus, anfiteatro, boxes de comercialização de artesanato, estacionamento e terminal de ônibus (GRAU, 2010).

58 O início da história de Vila Velha data de 1953, havendo destaque em sua narrativa devido à invasão dos holandeses em 1631 (SETUR-PE, 2008).

Ilustração 7: Imagens de Vila Velha – Itamaracá, PE

Imagem: Vista aérea (Google Earth, 2012)

Imagem: Mapa de Zoneamento (GRAU, 2010)

Imagens: Igreja Nossa Senhora da Conceição, casas do vilarejo e a ponte de travessia de Vila Velha para o Forte Orange - Christopher Sellars (Google Earth/Panoramio, 2009; 2010; Facebook, 2008)

O plano de preservação e gestão desse sítio histórico foi orçado em pouco mais de R$ 355 mil no edital para concorrência pública (SETUR-PE, 2008). O valor estipulado para o plano é um elemento importante para que cidadãos, empresários e grupos organizados possam acompanhar as operações do PRODETUR e saber os gastos (que advém de recursos públicos, seja pela contrapartida, seja pelo pagamento posterior do empréstimo). Os documentos oficiais, no entanto, dificultam este monitoramento, uma vez que apresentam números diferentes e não há um arquivo ou informe que possa explicar a flutuação (que pode ocorrer pelo intercâmbio com o dólar, por mudanças na ideia original do projeto, pelo fato de que outra ação seja prioritária, etc.). Acompanhe a tabela Tabela 11: Valores estipulados para o plano e para a revitalização de Vila Velha em Itamaracá – PE nos documentos oficiais nos anexos.

Até o momento, o planejamento para a intervenção no patrimônio histórico de Vila Velha está em processo de realização e, portanto, as ações de revitalização não começaram, conforme informou um gestor público municipal. O relatório sobre o planejamento das intervenções do “Plano de Preservação, de Ocupação Urbana, Paisagística e Exploração Turística do Sitio Histórico de Vila Velha – Itamaracá/PE” foi apresentado em encontro do dia 15/12/2010 para a comunidade de Vila Velha, na capela do vilarejo (CULTURA EM FOCO, 2010). Concomitantemente, as obras do PRODETUR NE II estão em fase de finalização59 e o BNB começou a desenhar o processo de avaliação. Mas, na tabela supracitada, indico o custo planejado para as ações de revitalização do espaço urbano de Vila Velha, que excede a elaboração do plano de recuperação e não foi aplicado.

A informação sobre as decisões referente às operações do PRODETUR parece ser escassa não somente para a população, mas também para a administração de Itamaracá, de modo que o gestor público municipal expressou sua descrença nos projetos oriundos do estado: “Agora, o problema é que as pessoas são muito presas ao papel, porque, desde anos, [...] que vem projeto pra isso, projeto pra aquilo e nunca sai”. Na entrevista, o gestor revelou insegurança em afirmar quais projetos seriam efetivamente do PRODETUR Nordeste, e incluiu equivocadamente na listagem o Projeto Orla (Projeto de Gestão Integrada da Orla Marítima), iniciativa do Ministério do

Meio Ambiente e do Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão para ordenar o território no litoral pertencente à União (MMA, 2012)60. A partir desta experiência, e de outras entrevistas cujos trechos serão exibidos no transcorrer da dissertação, considerei que o PRODETUR era percebido simplesmente como uma fonte de recurso, dentre outras, para os municípios, em vez de um programa com projetos claramente identificáveis com objetivos específicos de desenvolvimento socioeconômico e melhoria da qualidade de vida da população por meio do turismo.

Por outro lado, o plano de preservação de Vila Velha, este sim financiado pelo PRODETUR, deveria apresentar como produtos para a liberação dos recursos destinados à elaboração do planejamento: i) a aprovação do plano de trabalho e o relatório da oficina de sensibilização da comunidade; ii) o diagnóstico urbano e paisagístico; iii) o plano de intervenções; iv) o plano de gestão; v) a aprovação do relatório final (SETUR-PE, 2008). Após ganhar a licitação e ser contratada, a empresa apresentaria os resultados dos estudos, diagnósticos e planejamento do plano de revitalização de Vila Velha em fevereiro de 2010 (DOE-PE, 2009b). No momento de escrita da dissertação, o planejamento estava na etapa iii, do plano de intervenções, finalizada em dezembro de 2010 (GRAU, 2010).

De acordo com o edital de licitação para contratação de empresa para realizar o plano de revitalização de Vila Velha (SETUR-PE, 2008), no local existem 150 imóveis, sendo 33 de uso ocasional e 19 vagos. Dessa maneira, o plano deveria realizar um levantamento cadastral da ocupação dentro da área de tombamento, considerando um inventário dos imóveis (com classificação e identificação dos que estão em situação de risco) e a situação fundiária no local.

O plano de intervenções propõe uma revisão do tombamento de Vila Velha para abranger, para além do núcleo urbano, também áreas de preservação do Sítio Salinas. O relatório menciona a criação de uma unidade de conservação que funcionaria como um parque temático cuja atração seria “o ambiente natural, o meio social e os artefatos históricos” (GRAU, 2010: 24), permitindo a introdução de novas atividades econômicas, como a agro-silvicultura e o ecoturismo. O planejamento (GRAU, 2010),

60 Fiz um esforço para apurar a informação sobre o Projeto Orla e um gestor público de outro município confirmou que o referido projeto não integrava o PRODETUR e explicou que as cidades estavam sendo estimuladas a participar da iniciativa sob condição de poderem entrar em outros projetos, recebendo

divide a proposta de polígono de tombamento em quatro zonas que contam com medidas diferenciadas de proteção. A Zona de Conservação Ambiental, compreende a proposta acima de preservação natural e estímulo ao turismo sustentável. Nesta região, estão os sítios Salinas e Chacon e o Forte Orange.

Por outro lado, a Zona de Consolidação e Requalificação Urbana, que corresponde ao núcleo urbano do vilarejo, deverá passar por um processo de reordenamento espacial, de modo a garantir a diminuição da densidade de ocupação territorial. Para tanto, lotes serão divididos com área mínima possível de 200 m² e 50% da área reservada para o imóvel (e 40% da área ocupada por solo natural). A exceção são as casas realocadas, que terão 40 m² construídos em um lote61 de 100 m². No caso de lotes com mais de 200 m², o solo natural deve ocupar 60% da área. Além disso, o plano prevê a normatização para a altura dos imóveis, cercas e material de acabamento das casas; bem como o provimento de sistema de saneamento e serviços (como luz, telefonia e pavimentação).

Sob uma perspectiva que valoriza um modelo de desenvolvimento tradicional e o formato de ocupação territorial de cidades, a Zona de Expansão Urbana, que atualmente é uma região rural, deverá ser loteada e urbanizada. A regulamentação define que 60% da área seja pública, com lotes urbanos com o mínimo de 200 m² e 40% de solo natural; e lotes rurais com o mínimo de 1.000 m² e 60% de solo natural.

A Zona de Estabilização e Reabilitação da Encosta prevê a realocação de alguns imóveis, uma vez que o relatório considera a área com alta densidade de casas pequenas e pouco afastadas umas das outras. Esta é uma região de encosta, cuja retirada da vegetação indica a incidência de erosão. O plano prevê a demolição e realocação de mais de 20 imóveis (de famílias e comércio) em áreas de risco (ou que estejam causando danos ambientais e culturais) para locais próximos (para preservar laços familiares e comunitários).

Verifiquei que o número dos imóveis não é exato no relatório, pois, na página 104, é mencionado o reassentamento de 22 imóveis, enquanto na página 116, o número aumenta para 25 (entre edificações de moradia e comércio) e, na página 127, o documento se refere à construção do conjunto residencial para 25 famílias, além de

61 A moradia destinada aos cidadãos realocados não respeita o mínimo de 200 m² de lote da normatização do projeto de revitalização. Porém, o regulamento operacional do PRODETUR NE II (BID; BNB, s.d.) estipula a promoção de benefícios econômicos e oportunidade de desenvolvimento para os reassentados.

instalação de boxes para os comerciantes realocados (GRAU, 2010). Há também uma indefinição quanto ao número de pessoas afetadas pelo reassentamento (considerando que mais de uma pessoa pode habitar em uma casa); e quanto à proporção de imóveis realocados que servem para moradia e para comércio. Acredito que esta seja uma estratégia discursiva para diminuir o impacto ou a importância do reassentamento.

Para além da inexatidão dos números de pessoas a serem realocadas, lembro que a proposta de empréstimo do PRODETUR NE II (BID, 2004) estipula que, quando necessário, devem ser elaborados planos de reassentamento involuntário conforme a política OP710 do Banco. O Regulamento Operacional do programa coloca a elaboração de um plano de reassentamento como critério para elegibilidade de projetos quando há “qualquer deslocamento involuntário de pessoas” (BID; BNB, s.d: 19).

Segundo a política OP710 do BID (1998) sobre reassentamento involuntário, quando o número das pessoas a serem realocadas é muito pequeno (o grupo afetado não é vulnerável e tem o título de posse do imóvel), o impasse pode ser resolvido por contratos acordados mutuamente. Mas, a determinação se a quantidade de pessoas a serem realocadas é pequena ou não depende da referência de comparação e o nível da ruptura gerada na comunidade. Em Vila Velha, esses imóveis correspondem a quase um quarto das edificações, cuja situação fundiária não está legalmente regulamentada e sua população se ocupa em sua maioria da pesca, atividade econômica tradicional.

Outras orientações definidas pelo Regulamento Operacional do PRODETUR NE II (BID; BNB, s.d.) se referem à necessidade de organizar cadastros físicos das propriedades afetadas e socioeconômicos dos moradores; garantir a participação da população impactada; e a instalação de mecanismos independentes de mediação. O relatório de intervenções não apresenta diretrizes detalhadas das condições estabelecidas nos documentos do PRODETUR e na política do BID. Após o plano de intervenções (terceira etapa do planejamento da requalificação de Vila Velha), deverá ser elaborado o plano de gestão e, depois, a aprovação do relatório final. Como são as intervenções que devem gerar o reassentamento involuntário, acredito que esta fase seria a mais adequada para a apresentação do plano para realocação dos mais de 20 imóveis.

Considerando as alterações geradas pela normatização das moradias e também o número significativo (proporcionalmente à totalidade dos imóveis) de famílias realocadas, houve resistências da população na fase dos estudos para o planejamento e

no momento da audiência pública com a comunidade para comunicar sobre o plano de revitalização, como explica o gestor público municipal entrevistado:

“O de Vila Velha é o Plano de […] Requalificação para o Turismo. É basicamente [...] a requalificação para o turismo [...]. Foi aberta uma licitação pelo governo do estado para uma empresa de arquitetura e urbanismo, ganhou pra fazer um estudo: 'o que tem que ser feito em Vila Velha, pra melhorar, recepcionar melhor, o turismo?', 'que tipo de infraestrutura tem de ser feita?' [...]. Então, foi também criado um comitê, junto à comunidade, foi feita uma […] audiência pública com a comunidade, com prefeito, promotoria, com tudo, para expor esse projeto. Então eles chegaram: 'Vila Velha está assim, assim, assim... Então, devido ao estudo que foi feito, Vila Velha tem que ser melhorada isso, isso e isso'. […] [Não teve o início de construção] de nada. […] Tudo são projetos. Assim, vou levantar os problemas. Levantados os problemas, mostrar as soluções. […] [Geralmente, as perguntas nas audiências eram:] 'Ah, vai tirar a minha casa do lugar, é?', então, as pessoas estavam preocupadas com isso, porque Vila Velha tem algumas casas que são feitas em área de encosta. Nessa encosta, o ideal seria tirar. [...] Tirando essas casas e botando para outro local mais seguro [...]. Mas, ‘Se eu moro aqui há 30 anos, ele quer tirar minha casa daqui? Ah, não quero, não’. [E como foi ultrapassado esse impasse?] Dizendo que ele ia receber uma estrutura melhor... tentava mostrar os benefícios que ele ia ter. Porque, se Vila Velha tiver uma boa estrutura pra receber o turismo, lógico que vai aumentar o número de turistas que vem para a comunidade.” (Gestor público municipal)

O trecho de depoimento acima, revela a descrição de um espaço de consulta popular a partir da perspectiva do gestor público municipal. Nesta descrição, os benefícios dos projetos de desenvolvimento são enfatizados, bem como o diálogo com a população afetada. Também há o entendimento de que as operações enfrentam resistências, inicialmente, quando a moradia dos habitantes é impactada diretamente. Porém, segundo o gestor, o conflito gerado por essas demandas, aparentemente individuais, é resolvido ao se expor os benefícios para o setor do turismo.

Porém, com o intuito de compreender o processo de mobilização da comunidade de Vila Velha e também o espaço para o conflito e o diálogo dentro dos projetos do PRODETUR, marquei entrevista com uma moradora durante o trabalho de campo na única data possível em sua agenda antes da minha partida para o Ceará: 16/09/2011, uma sexta-feira de noite. Contudo, após dois ônibus, cheguei ao caminho da entrada de Vila Velha, cujo acesso é difícil e parecia pouco seguro pelas circunstâncias, mas não foi possível falar com a entrevistada novamente por telefone,

inviabilizando o encontro. Desse modo, não foi possível realizar gravações sobre a reivindicação e as demandas dos moradores de Vila Velha. No entanto, em pesquisa na internet, coletei críticas de um morador de Vila Velha em um fórum do site de relacionamentos Orkut:

“O nefasto plano contempla a demolição de mais de 25% das 107 casas de família existentes com o inevitável resultado da destruição e desarticulação da comunidade junto com as suas tradições, folclore e jeito de vida. A Vila Velha está rodeada de Mata Atlântica e manguezais, e a fauna local, saguis, tamanduás, preguiças etc. […] A implementação do plano, seria uma tragédia nacional irreversível. Recém os moradores estamos organizando-nos para por freio ao plano, mas, somos poucos, e pequenos comparados com os interesses alheios poderosos.” (Morador de Vila Velha)

A partir do comentário acima, obtive o e-mail do morador e ele respondeu algumas perguntas por escrito sobre os processos de consulta pública para o plano de revitalização de Vila Velha, e também sobre as críticas e demandas da comunidade. As respostas do morador aparecem ao longo da dissertação para tratar de temas das dinâmicas do PRODETUR e dos procedimentos específicos de Vila Velha, Itamaracá.

Em Itamaracá, então, foi possível coletar novos documentos e entrevistar um morador de Vila Velha após o trabalho de campo de modo a complementar as lacunas sobre as intervenções locais. Por outro lado, enfrentei dificuldades de obter contatos de envolvidos em outros projetos específicos do PRODETUR e limitações de tempo (devido à agenda de entrevista em diferentes municípios). Essa situação corroborou para a escassez de informação sobre intervenções particulares em Cabo de Santo Agostinho, Paulista e Recife. Em Cabo de Santo Agostinho, foi possível obter informações gerais sobre a mobilização e crítica ao PRODETUR pela sociedade civil, principalmente no eixo Pernambuco-Ceará.

Em Paulista, visitei a Secretaria de Turismo, Cultura, Desporto e Juventude e também a Secretaria de Planejamento e Meio Ambiente. Na primeira, entrevistei um gestor público municipal que me descreveu a participação de Paulista no Conselho Costa dos Arrecifes, o processo de aprovação do PDITS, e os fluxos de informação entre o governo do estado e o município. Contudo, não revelou muito sobre as obras para a duplicação da PE-01 (cuja atribuição é da Secretaria de Planejamento e Meio Ambiente) e tampouco demonstrou o conhecimento de resistência significativa da

população de Paulista em face ao PRODETUR. Na Secretaria de Planejamento e Meio Ambiente, levantei documentos, mas não houve a possibilidade de entrevista.

Por fim, em Recife, o gestor público municipal e principal responsável pelo PRODETUR no município estava aposentado e inacessível. O seu substituto esteve afastado da prefeitura por 3 anos, mas acompanhou o PRODETUR a partir do governo do estado. Porém, em nossa reunião, não permitiu gravar entrevista e tampouco houve abertura para relatar os processos da operação. Observei que o gestor parecia receoso em se comprometer de alguma forma ao fornecer informações sobre o programa, ainda que aparentemente ele tivesse opiniões formadas sobre o PRODETUR62.

Dessa maneira, alguns dados produzidos e entrevistas realizadas, principalmente nos municípios de Cabo de Santo Agostinho, Paulista e Recife, são utilizados para analisar questões e temas mais gerais do programa em detrimento dos projetos específicos dessas localidades. As referidas entrevistas servem para a reflexão mais geral sobre as críticas da sociedade civil ao PRODETUR e seu modelo de desenvolvimento, o funcionamento do Conselho Polo Costa dos Arrecifes e das audiências públicas, dentre outras. Por sua vez, no contexto de Pernambuco, projetos específicos servem de substrato para esta pesquisa, como os casos de Tamandaré (que, apesar de não ter sido um dos destinos visitados durante a pesquisa, foi amplamente citado nas outras entrevistas e em documentos) e Olinda.

Benzer Belgeler