Pode-se afirmar que existe uma certa confusão na definição do termo “economia
criativa”, diferente do que ocorre com o termo “indústria criativa”. A UNCTAD (2010) ressalta
que não existe uma definição exclusiva da “economia criativa”. Ela é um conceito subjetivo que tem sido moldado no decorrer dos últimos anos. Existe, contudo, uma convergência crescente de um grupo central de indústrias criativas e suas interações gerais, tanto em países individuais quanto no nível internacional (UNCTAD, 2010). Logo, a definição adotada pela UNCTAD para economia criativa descreve-a como:
[...] um conceito em evolução baseado em ativos criativos que potencialmente geram crescimento e desenvolvimento econômico. Ela pode estimular a geração de renda, a criação de empregos e a exportação de ganhos, ao mesmo tempo que promove inclusão social, diversidade cultural e desenvolvimento humano. Ela abraça aspectos econômicos, culturais e sociais que interagem com objetivos de tecnologia, propriedade intelectual e turismo. É um conjunto de atividades econômicas baseadas
em conhecimento, com uma dimensão de desenvolvimento e interligações cruzadas em macro e micro níveis para a economia em geral. É uma opção de desenvolvimento viável que demanda respostas de políticas inovadoras e multidisciplinares, além de ação interministerial. No centro da economia criativa, localizam-se as indústrias criativas (UNCTAD, 2010).
O conceito de indústria criativa permeia toda a discussão em torno da economia criativa. Talvez, por isso, seja difícil separar os dois conceitos. Do ponto de vista histórico, como já levantado, em 1997, o New Labor identificou a indústria criativa como um setor particular da economia, o que resultou na criação do Department of Culture, Media and Sports (DCMS), cujo principal objetivo é a melhoria da qualidade de vida no Reino Unido através do fomento às atividades esportivas e culturais, tendo sido um dos pioneiros na aferição de dados estatísticos referentes à economia criativa. O DCMS passa a adotar, a partir de 2005, o termo economia criativa em lugar de indústria criativa por entender que esse novo conceito é mais abrangente ao incluir um amplo leque de setores (CAIADO, 2011). Para New Bigin (2010, p.12-13), essa mudança partiu do reconhecimento de que a economia criativa é muito mais do que apenas as indústrias criativas.
Na hora de medir a extensão da economia criativa, os analistas reconheceram que enquanto é relativamente fácil identificar o tamanho e o valor de indústrias como a da moda ou publicidade, estes dados não conseguem captar o impacto dos indivíduos ou grupos que desempenham tarefas criativas em indústrias não criativas ou culturais. O relatório do Fundo Nacional para a Ciência, Tecnologia e Artes do Reino Unido (NESTA, 2008) chamado: Beyond the creative industries: Mapping the creative economy in the United Kingdom, confirmou existirem mais pessoas criativas trabalhando fora das indústrias criativas do que dentro delas,
no Reino Unido. O relatório denominou “criativos infiltrados” o grande número de pessoas que
trabalham em setores como a indústria de manufatura convencional, bens imóveis, como empreendedores, no comércio atacadista e na intermediação financeira. Ao olhar, portanto, para a força de trabalho criativa mais do que para as indústrias criativas, o relatório concluiu que
existem três grandes tipos diferentes de emprego no setor: “artistas, profissionais ou criativos
que trabalham em indústrias criativas, pessoal de apoio naquelas indústrias (gerentes, administrativos, secretárias, contadores, etc.) e os criativos embutidos em ‘outras indústrias”. O relatório destacou o fato de que além da sua definição, as indústrias criativas têm uma grande importância e concluiu que seria um erro enorme desconhecer que elas são apenas a ponta do iceberg da abrangente economia criativa (NEW BIGIN, 2010).
Hartley (2005) corrobora essa visão ao entender que a economia criativa abrange, além das indústrias criativas, o impacto de seus bens e serviços em outros setores e processos da economia e as conexões que se estabelecem entre eles.
O DCMS (2014), geralmente, utiliza dois aportes teóricos para diferenciar a economia criativa da indústria criativa, em seus relatórios, incluindo no grupo da economia criativa, a contribuição de todos aqueles que estão em ocupações criativas fora das indústrias criativas, bem como todos aqueles empregados nas indústrias criativas. O DCMS concebe a ideia de indústria criativa como um subconjunto da economia criativa. A figura 1 ilustra essa diferenciação.
Figura 1 – Diferenciação entre economia criativa e indústria criativa para o DCMS
Fonte: DCMS (2014)
Apesar do DCMS ter passado a utilizar a nomenclatura “economia criativa” a partir
de 2005, Howkins (2013) já havia dado sua contribuição sobre o uso do termo. Para o autor, a criatividade está associada à capacidade de gerar algo novo, enquanto a economia é convencionalmente definida como um sistema para produção, troca e consumo de bens e serviços. Para o autor, a economia criativa está associada à criação de produtos criativos com valor econômico. “A criatividade não é necessariamente uma atividade econômica, mas poderia se tornar caso produza uma ideia com implicações econômicas ou um produto comerciável”. O resultado seria, então, um produto criativo, definido por Howkins (2013) como um bem ou serviço econômico resultante da criatividade e que tem um valor econômico.
Reis (2011) elencou quatro traços característicos da economia criativa. O quadro 1 apresenta e descreve esses traços.
Quadro 1 – Sistematização dos traços característicos da economia criativa TRAÇO
CARACTERÍSTICO DESCRIÇÃO
1. Reconhecimento do valor agregado dos ativos intangíveis
Seja pela ótica tecnológica ou cultural, o intangível criativo passa a ser validado como conteúdo das indústrias criativas, bem como por adicionar valor a cadeias econômicas tradicionais (moda e têxtil, arquitetura e construção civil, design e mobiliário).
2. Complementaridade das políticas cultural, tecnológica e econômica e das ações com ou sem apelo comercial
Ao reconhecer que a criatividade é a seiva vital da economia, o investimento em educação, capacitação, acesso e circulação de informação e nas demais condições que formam um ambiente favorável à criatividade passam a nortear a política econômica, independentemente de a criatividade vir a se consubstanciar em programas com apelo comercial mais explícito ou de ciência pura/cultura experimental.
3. Expansão do conceito de cadeia setorial para o de rede de valor integradas
Se as cadeias setoriais lineares caracterizaram a economia industrial, a economia criativa tende a contemplar as urdiduras que tecidas entre as cadeias e as novas relações que estabelecem com o próprio mercado. Assim, a produção e o consumo, impulsionados pelas novas tecnologias, ao invés de seguirem o modelo tradicional de um para muitos, desdobram-se em uma gama de possibilidades de muitos produtores para muitos consumidores.
4. Inserção das tecnologias digitais como espinha dorsal para da produção, criação, circulação e/ou consumo criativo
As novas tecnologias participam da economia criativa tanto por serem indústria criativas em si, como ao oferecerem canais alternativos de acesso a informação, produção, distribuição e demanda por bens e serviços criativos. Ademais, a ruptura que as tecnologias digitais proporcionam às formas de produção, distribuição e consumos de conteúdo criativo requer mudanças de modelos de negócios e formas de trabalhar, incluindo novas habilidades e infraestrutura. Fonte: Reis (2011)
Trazendo o debate para o cenário brasileiro, a SEC indica que economia criativa parte das dinâmicas culturais, sociais e econômicas construídas a partir do ciclo de criação, produção, distribuição/circulação/difusão e consumo/fruição de bens e serviços oriundos dos setores criativos, caracterizados pela prevalência de sua dimensão simbólica (BRASIL, 2012). A figura 2 ilustra a definição da economia criativa brasileira.
Figura 2 – Definição da economia criativa brasileira (fluxos)
Fonte: BRASIL (2012)
A partir da definição da Economia criativa, pela SEC, e pela observação da figura 2, pode-se denotar que a definição valoriza a economia do intangível, do simbólico, constituindo-se como um ciclo que se alimenta dos talentos criativos, os quais se organizam para a produção de bens e serviços criativos. Ademais, a economia criativa brasileira, segundo o MinC (BRASIL, 2012a), apoia-se em quatro princípios norteadores e balizadores das políticas públicas: diversidade cultural, sustentabilidade, inclusão social e inovação.