Considerando os alunos como sujeitos participativos do processo em desenvolvimento na própria organização e construção da aula, conseguimos transcender a participação do fazer/refletir para o construir/vivenciar/refletir, os alunos passaram, assim, de coadjuvante de um saber-refletir à protagonista de seu próprio fazer. Se o objetivo era promover a participação das equipes retomando os alunos enquanto sujeitos ativos no processo ensino-aprendizagem, focalizando, principalmente, seu desenvolvimento tanto no campo individual como coletivo, nada melhor do que procurar envolvê-los em todos os acontecimentos do ensino.
Trata-se de interações que contribuem para o desenvolvimento da competência social do aluno, competência necessária não apenas para o sentido da cooperação e participação ativa e crítica no mundo, mas, também, nas relações imediatas entre professor e alunos. Não apenas o conteúdo deve ser discutido, mas o processo de ensino como um todo deverá passar pelo ‘plano de entendimento’ entre professores e alunos (KUNZ, 1998, p. 27).
O envolvimento do aluno na atividade proposta e sua avaliação positiva, já que vários alunos destacaram que gostaram muito da aula, oferecia-nos pistas dos caminhos a serem trilhados para a reestruturação das aulas livres. Nesse momento, percebíamos que nossa hipótese de que o ato de implicar-se (BARBIER, 2002) no processo ensino-aprendizagem enquanto elemento nodal para qualquer proposta de ensino, levantado no capítulo anterior, fortalecia-se.
Na verdade, com o processo de resignificação da prática pedagógica, a professora de Educação Física foi percebendo/vendo que a aula livre dificultava o andamento do trabalho, como ela mesma mencionou
É pouco dar uma aula só por semana na quadra, com a reestruturação das aulas práticas vejo que não dará tempo de trabalhar com tudo que foi planejado, temos que acabar com isso aqui na escola. O problema é que os alunos estão habituados a essa aula, outro dia falei com a 5ª série que não
seria aula livre eles cruzaram os braços e falaram que não iriam fazer nada! Isso foi com a 5ª, imagine com as outras turmas, o problema que será!
Contudo, na tentativa de modificar o conceito de aula livre, esbarrávamos não só na resistência dos alunos em estar ressignificando com essa prática na escola, como também na resistência da própria professora em estar perdendo esse poderoso mecanismo de controle. Ao conversarmos sobre o assunto, a professora estabeleceu uma analogia com avaliação, reconhecendo que o uso que estava fazendo da aula livre é o mesmo que muitos professores fazem da avaliação
Você bem que falou quando ameacei tirar a aula livre dos alunos que eu estava utilizando isso como meio de coibir o comportamento deles e fazendo o uso que os professores geralmente fazem da avaliação, porém agora estou vendo que é preciso mudar essa aula.
Foi possível perceber, no momento da intervenção, o uso da aula livre como instrumento de controle, objetivando promover a participação e o envolvimento dos alunos nas aulas práticas, como, por exemplo, na aula sobre a corrida de revezamento
Como alguns alunos estavam conversando e atrapalhando a aula, a professora ressaltou: ‘na próxima aula livre vamos ficar na sala pensando na falta de cooperação aqui comigo e para com os colegas de vocês que estão querendo fazer aula. A aula livre foi cedida justamente para se ter uma maior participação, envolvimento e rendimento nas outras duas aulas, porém isso não está acontecendo. Na próxima aula livre, vamos refletir sobre o que aconteceu, como também, terminar a aula de hoje’.
A professora aqui não só retomou a relação contratual estabelecida com os alunos para a realização da aula livre como destacou a necessidade da cooperação, da participação e do envolvimento nas aulas práticas de Educação Física, elementos considerados centrais para a avaliação das equipes.
Diante do exposto e da vontade manifesta pela professora em estar modificando o uso da aula livre na Educação Física, estabelecemos, inicialmente, duas possíveis linhas de ações. A primeira era buscar astuciosamente retirar as aulas livres, aproveitando os momentos e as ocasiões deixadas pelos alunos, o que ocorreu na aula de corrida de revezamento. Porém, os indícios evidenciados pelos alunos na aula de corrida de obstáculo conduziram à reflexão da segunda linha de ação. Nessa direção, as alterações realizadas nas aulas livres deveriam manter a sua concepção central e, a partir dela, promover as alterações desejadas, concepção esta que, como afirma o aluno, era “Fazer aula livre é fazer cada um do seu jeito, fazendo o que nós gostamos e não o que a professora manda”.
Como sabíamos, pelas experiências vivenciadas nas aulas, que a primeira linha de ação geraria uma resistência muito grande por parte dos alunos, resolvemos tomar como estratégia a segunda proposta. Se, de fato, nas aulas livres, os alunos faziam as atividades, organizavam-se e cooperavam entre si, por que não aproveitarmos esse momento ao invés de retirá-lo?
Apresentamos, então, como proposta metodológica de trabalho, a transformação da aula livre em um dia de vivências corporais; porém, como o objetivo da aula era fazer o que os alunos gostavam, resolvemos selecionar, juntamente com eles, os conteúdos que gostariam de vivenciar. A partir dessa seleção, foi possível organizar os conteúdos em três blocos denominados: esportes coletivos (futebol, voleibol, handebol, capoeira, frescobol, peteca), jogos e brincadeiras (queimada, piques diversos, bandeirinha); brinquedos e brincadeiras (dama, xadrez, dominó, baralho, quebra-cabeça). Dessa maneira, assumimos o compromisso de estar possibilitando as vivências corporais selecionadas pelos alunos e, em contrapartida, todos os alunos deveriam fazer as atividades, independente do conteúdo. Buscávamos, por meio dessa iniciativa, romper com a idéia de futebol para os meninos e voleibol para as meninas. Todavia, é importante ressaltar que, como estávamos no final do trabalho de campo, só foi possível acompanhar o desenvolvimento da aula de futebol e capoeira, como podemos ver nas fotos a seguir.