BÖLÜM I: RUSYA’NIN BALKAN TAHAYYÜLÜ & BULGARLARIN
1.4. Bulgaristan’da Türk ve Müslüman Azınlık Kavramı
160 A questão ambiental é parte integrante da agenda soft133 que durante grande parte da
história das relações internacionais não esteve no centro das preocupações dos Estados, cujos esforços direcionavam-se, sobretudo, para temas envolvendo a segurança nacional (agenda
hard). Foi a partir das décadas de 1960 e 1970 que temáticas como o meio ambiente
adquiriram relevância na agenda internacional, sendo esse movimento engendrado por comunidades epistêmicas, Organizações Não-Governamentais e opinião pública que, a partir de estudos técnicos e influenciados por catástrofes naturais decorrentes do período, direcionaram as preocupações públicas para o problema da degradação ambiental e os efeitos deste para vida humana.
Os movimentos ambientalistas também ganharam maior dimensão por estarem em grande medida associados aos movimentos políticos de contestação que circulavam por todo o mundo em 1968. O Clube de Roma divulgou nesse período dois estudos que expressavam resultados catastróficos para a humanidade “The Club of Rome Project on the Predicament of Mankind” (1971) e “The Limits to Growth” (1972), cujos documentos atribuíam a
necessidade de colocar barreiras para o crescimento da humanidade, especialmente controlando a natalidade em países em desenvolvimento, indicados como principais responsáveis na geração dos problemas mundiais envolvendo a questão ambiental (Lago, 2007).
As percepções negativas crescentes em relação aos efeitos da degradação ambiental motivaram os países a convocarem, mediante a resolução 2398 da XXIII Assembléia Geral da ONU134, uma Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente Humano, colocando pela primeira vez a temática ambiental para ser debatida e concebida multilateralmente, inserindo- se como tema de preocupação coletiva na agenda internacional. A Conferência foi realizada em Estocolmo em 1972, mas antes do encontro ocorrer foram realizadas reuniões preparatórias envolvendo 27 países, que formaram o grupo ad hoc para organização e preparação do evento, sendo eles: Argentina, Brasil, Canadá, Chipre, Cingapura, Costa Rica, EUA, França, Gana, Guiné, Índia, Irã, Itália, Iugoslávia, Jamaica, Japão, Ilhas Maurício,
133 Entende-se por agenda soft os temas relativos ás temáticas de cunho social, econômico, cultural e ambiental
em contraposição aos temas de segurança que compõem a agenda hard .
134 Para acessar o conteúdo da resolução verificar em
México, Nigéria, Países Baixos, Reino Unido, República Árabe Unida, Suécia, Tchecoslováquia, Togo, União Soviética e Zâmbia135.
As preocupações dos países do terceiro mundo direcionaram-se, sobretudo, a forma como seria conduzido o debate mundial sobre o assunto, tendo em vista que a proposta dos países desenvolvidos atrelava degradação ambiental aos países pobres, responsabilizando-os principalmente pelo mau uso dos recursos naturais. No entanto, esse receio envolvendo os países subdesenvolvidos foi amenizado mediante a resolução 2657 da XXV Assembléia Geral da ONU, momento em que ficou estabelecido que a Conferência daria especial atenção as preocupações dos países de terceiro mundo. A convocação de um Grupo de Peritos sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, que teria como responsabilidade desenvolver um documento técnico envolvendo a problemática ambiental e a questão do desenvolvimento, além das convocações de Comitês Regionais das Nações Unidas para o debate, motivaram os países do terceiro mundo a buscarem um espaço dentro desse diálogo mundial que envolvesse proteção ambiental com incentivo dos Estados ricos na promoção do desenvolvimento nessas regiões (Lago, 2007).
O Grupo de Peritos gerou um relatório conhecido como Founex ―Report on
Development and Environment‖136, cujo conteúdo trabalhou a correlação entre a temática
ambiental e desenvolvimento. O estudo concluiu que a degradação ambiental tinha características bastante diferenciadas quando comparado países desenvolvimento com subdesenvolvidos, sendo que os primeiros tinham como problemas os próprios derivativos dos modelos de desenvolvimento adotado, enquanto nos países pobres as problemáticas ambientais eram decorrentes, sobretudo, da situação de pobreza e da falta de recursos básicos. (idem) Esse estudo foi fundamental para dar a ênfase que seria atribuída durante as reuniões da Conferência, e mais do que isso, a forma como a questão passaria a partir daí a ser adotada pelos Estados em suas agendas diplomáticas. Foi nesse momento, portanto, que se iniciou um processo de construção do que mais tarde veio a ser conhecido como ―desenvolvimento sustentável‖, conceito esse que teve suas raízes plantadas já no decorrer da primeira Conferência Mundial sobre o tema.
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Informações contidas na Ata de Convocação de Estocolmo - 2398 (XXIII). Problems of the Human
Environment, disponíveis para acesso em
http://www.ana.gov.br/AcoesAdministrativas/RelatorioGestao/Rio10/riomaisdez/index.php.9.html
162 Os resultados angariados pela Conferência foram concretizados na Declaração da
Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente Humano137 com 26 princípios
estabelecidos e um Plano de Ações com 109 recomendações. Além disso, foi também nesse processo que se criou um programa vinculado as Nações Unidas para o tratamento da temática, sendo nomeado como Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente – PNUMA. Assim também estimulou-se a constituição, no âmbito doméstico dos Estados, de órgãos responsáveis por gerenciar e desenvolver ações contra a degradação ambiental, bem como influenciou o surgimento e/ou o fortalecimento de organizações não-governamentais com características nacionais ou transnacionais responsáveis pelo tratamento societal da temática.
Durante o processo de consolidação do incipiente movimento mundial em torno da problemática ambiental, o Brasil teve um papel atuante na arena internacional, participando ativamente durante o processo de preparação da Conferência e sendo um ator de expressão na formação final dos documentos gerados no encontro. Neste contexto, quem teve papel de destaque foi o diplomata Miguel Osório de Almeida138, responsável por desenvolver o posicionamento brasileiro. Em sua tese ele incorporava a correlação entre meio ambiente e desenvolvimento ao mesmo tempo em que rechaçava os estudos advindos dos países ricos e do próprio Clube de Roma, que responsabilizava os países subdesenvolvidos pelos principais elementos da degradação ambiental. (Lago, 2007) Essas formulações tiveram repercussão, sendo grande parte incluída no documento final da Conferência, trazendo, com isso, senão ganhos substantivos para o Brasil, o não avanço do debate no sentido do congelamento do desenvolvimento econômico mundial implícito nas propostas dos países desenvolvidos.
No entanto, paradoxalmente em âmbito interno, o Brasil estimulava ações empresariais de arrendamento de reservas naturais tornando-as áreas produtivas, com vistas a angariar o que mais tarde foi conhecido como ―milagre econômico‖. Desse modo, com o objetivo de estimular o desenvolvimento econômico do país, a preservação dos recursos naturais passou a ficar no segundo plano do governo, que se utilizou do tradicional modelo econômico nada sustentável. Assim, associado aos altos índices de degradação ambiental do
137 Para acessa a íntegra do documento
www.mudancasclimaticas.andi.org.br/download.php?path=1gqilxr7vo6uqtyaq4lq.pdf -
138
Verificar maiores informações em OZÓRIO, Miguel. Discurso na II Comissão. XXVI Assembléia Geral, 29 de novembro de 1971, Ministério das Relações Exteriores, Conferência das Nações Unidas Sobre o Meio Ambiente: o Brasil e a preparação da Conferência de Estocolmo.
país, o governo militar e ditatorial brasileiro nesse período também sofria pressões internacionais em relação ao tratamento da problemática dos direitos humanos, ao mesmo tempo em que se tornara um país suspeito frente ao sistema internacional por pretender obter tecnologia nuclear para fins bélicos, uma vez que o país recusava a comprometer-se com o Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP). Em outras palavras, nesse primeiro momento em que a problemática ambiental tornou-se uma preocupação multilateral, o Brasil possuía uma imagem negativa no sistema internacional, pois, dentre outros problemas, era visto como um grande causador de danos ao meio ambiente, o que se potencializava quando associado à idéia de ser também um país possuidor das maiores reservas naturais do mundo (Viola, 1987).
Com isso, o papel do Ministério das Relações Exteriores nesse momento foi primeiramente de descolar suas ações e defesas internacionais das próprias preocupações domésticas, adotando uma postura por vezes dissonante em relação à própria realidade nacional. O objetivo da Chancelaria nesse primeiro grande encontro de países para o tratamento da temática foi primeiramente o de fortalecer a correlação entre meio ambiente e desenvolvimento, buscando defender que os grandes responsáveis pelas péssimas condições ambientais do mundo eram os países desenvolvidos e não o contrário, sendo este decorrente do desenvolvimento irresponsável das grandes potências; por isso, não poderiam nem responsabilizar os países pobres pelos problemas ambientais, tampouco impedir o desenvolvimento dos mesmos nesse momento colocando barreiras ambientais para o alcance desse processo (Lago,2007). Assim, além de não colocar uma nova barreira para o desenvolvimento desses países, o Brasil também lutou no decorrer do processo para retirar da pauta de negociações uma das questões defendidas pelas grandes potências que tratava sobre o processo de internacionalização das reservas naturais (transformando-as em patrimônios da humanidade), uma vez que, de acordo com os discursos das grandes potências, os países subdesenvolvidos não obtinham recursos para preservação e exploração da biodiversidade biológica altamente presentes em seus territórios. (como no caso brasileiro)
A formação da posição brasileira para as negociações em Estocolmo estiveram concentradas no Ministério das Relações Exteriores, isto porque naquele momento, assim como ressaltado anteriormente, o país vivia sob um regime militar totalitário o que significa que nem a opinião pública, nem os movimentos sociais tampouco o próprio Poder Legislativo tinham efetivamente como manifestar suas preferências em relação ao tema. Além disso, como havia um grande descompasso entre as ambições domésticas, direcionadas para o
164 desenvolvimento econômico do país, e a postura externa, que visava amenizar a imagem negativa construída sobre o Brasil pela opinião pública mundial, a temática assumia nesse primeiro momento para o país uma característica apenas retórica, ou seja, desprovida de caráter técnico. Em outras palavras, isso significa que não haveria a necessidade do envolvimento de outras repartições governamentais, uma vez que a discussão temática apenas retórica mobilizava poucos atores, sendo que os debates ocorriam apenas em foros internacionais. Assim como ressalta Lago (2007), o Ministério das Relações Exteriores, em exposição de motivos ao Presidente da República em 22/12/1971, propõe linhas de ações a serem adotadas pelo Brasil, dentro os quais destacam: ―1) evitar iniciativas isoladas e fracionárias por parte de órgãos da administração pública do país, que possam prejudicar a política estabelecida e 2) desenvolver ação junto à opinião pública para esclarecer as implicações e repercussões de cada iniciativa proposta, neutralizando possíveis pressões consideradas prejudiciais aos nossos interesses‖ (Lago, 2007).
Com isso, a internalização do tema por meio de medidas regulamentares ou mesmo em formato de programas não ocorre nesse primeiro momento, sendo poucas as iniciativas que merecem destaque como a criação da Secretaria Especial de Meio Ambiente (SEMA), vinculada ao Ministério do Interior. A centralização decisória no que se refere à temática manteve-se nas ―mãos‖ do Itamaraty, que permaneceu com uma postura assertiva em âmbito internacional mesmo em dissonância com as preferências domésticas que não apontavam para a mesma direção.
Esse quadro foi alterado significativamente com o fim do regime militar e a redemocratização brasileira; a busca pela restauração da imagem internacional do Brasil em âmbito internacional tornou-se primordial já no governo de Sarney, na transição para democracia, adquirindo maior destaque no governo Collor que expressou essa vontade em grande parte dos seus discursos139. Essa restauração de imagem incluía dentre outros temas como a defesa dos direitos humanos, o desarmamento e a consolidação da democracia, a questão ambiental e a sua defesa, que também passou a fazer parte das preocupações domésticas do país (Hirst & Pinheiro, 1995). A democracia também favoreceu a emergência de grupos ambientalistas e movimentos sociais antes adormecidos pela repressão do regime militar, favorecendo consequentemente a incipiente mobilização social em torno da temática. Essa mobilização política e social foi potencializada já no governo Sarney, quando o Brasil se
139 Em anexo é possível verificar todos os discursos realizados pelo governo Collor no decorrer do seu mandato,
oferece para sediar a II Conferência Ambiental; a conquista dessa possibilidade fez com que o tema emergisse com força no cenário doméstico (Viola, 1999).
Neste sentido, pode-se dizer que esse momento, início da década de 1990, foi um ponto de inflexão na formação do posicionamento do país frente à temática ambiental, pois o processo passou a exigir a participação de outros atores, principalmente governamentais, ou seja, de outras pastas ministeriais que tivessem responsabilidades regimentais articuladas ao assunto em questão. Esse movimento de descentralização foi incentivado pelas medidas adotadas pelo governo, pois passou do ambiente da retórica política- que marcou o período anterior (regime militar) - para prática de desenvolvimento e implementações de projetos e programas visando a proteção ambiental.
É a partir deste cenário em transformação tanto no ambiente doméstico como na arena internacional que o próximo tópico desse capítulo será desenvolvido, atribuindo destaque especial ao processo de descentralização decisória, retirando a autonomia e a margem de manobra do Ministério das Relações Exteriores na condução do debate. Nesse ensejo, verificar-se-á a constituição de Comissões Interministeriais para o tratamento das temáticas ambientais e os debates evoluindo para uma abordagem mais técnica.