Religiosa
A Revista de Cultura Religiosa aparece em 1921 e nesse sentido antecipa-se até à primeira revista modernista publicada no Brasil – Klaxon – que saiu em 1922. A RCR durou seis anos – de 1921 a 1926 – lutando com enormes dificuldades, particularmente financeiras A RCR pautou-se na mais moderna revista teológica francesa, La Revue du Christianisme Social. O objetivo de Rizzo e Amaral para com a RCR, qual seja, o de tornar seu conteúdo profundamente inserido nas discussões gerais da cultura, partira do modelo da famosa revista francesa. Portanto, esta foi sua matriz, reverentemente citada em suas páginas: “A Revue du Christianisme Social... diversas vezes tem sido nomeada em nossas paginas, e merece, por varios motivos, o conhecimento directo de nossos leitores...” (AMARAL; MOTTA, 1925, p.147).
La Revue du Christianisme Social, lançada na França em 1887 pelo pastor Gédéon Chastand, da Igreja Reformada, consagrou o chamado “movimento do cristianismo social”, que buscava dar uma alternativa evangélica ao individualismo liberal e ao pensamento de esquerda. Na verdade, o “cristianismo social” pregava o engajamento e a participação ativa das igrejas protestantes no ambiente social, político e econômico do fim do século XIX, baseado nos ideais cristãos de solidariedade e cooperação.
Os criadores da Revista de Cultura Religiosa estavam acostumados a ler a teologia européia protestante, particularmente a francesa. A simpatia e a admiração que a França desfrutava entre a intelectualidade brasileira desse período – início dos anos 20 – podia ser fortemente vislumbrada também entre os intelectuais protestantes. LRCS (sigla da revista francesa) trazia em suas páginas a principal proposta teológica em voga na França: comprometimento com a teologia crítica e com a responsabilidade social da igreja.
À época do surgimento da Revista de Cultura Religiosa no Brasil, LRCS apresentava um quadro de dirigentes de grande reputação entre os protestantes europeus. Seu diretor executivo era o pastor reformado Elie Gounelle, sendo Wilfred Monod, também pastor da Igreja Reformada, o presidente da sociedade mantenedora. Os dois pastores, os maiores representantes do liberalismo teológico na França. Dentre seus colaboradores mais freqüentes naqueles anos estavam o próprio Monod, Suzanne de Dietrich (líder ecumênica e teóloga, uma das idealizadoras do Conselho Mundial das Igrejas, em 1948), Walter Rauschenbusch (teólogo e líder do “movimento do evangelho social” nos Estados Unidos), Henri Strohl (professor de História do Cristianismo em Estrasburgo) e Marc Boegner (pastor reformado, teólogo e líder ecumênico). O jovem Roger Bastide, com apenas 23 anos, teve seu primeiro artigo publicado exatamente em
LRCS de maio-junho de 1921 – “Christianisme social et Patronat protestant” (cf. Claude Ravelet,
Bio-Bibliographie de R. Bastide).
LRCS tinha uma proposta clara: ser uma “revista mensal de pensamento, de ação e de oração” (frase que era uma espécie de subtítulo, colocada invariavelmente logo abaixo do nome da revista, em sua primeira capa e também em sua primeira página interna). Abaixo do subtítulo, na capa, duas frases: a da esquerda, de Jesus: “Venha o teu reino!”; a da direita, de Alexandre Vinet (1797-1847), pastor suíço, considerado o principal teólogo protestante de língua francesa no século XIX: “A Reforma está por ser feita”. Então, o sumário de cada número, para fechar a capa com uma frase de Kant: “Dormi, e sonhei que a vida era Beleza. Acordei, e vi que era Dever”. Eis aí os três pilares de LRCS: a fé cristã (sua base e inspiração), o ideário da Reforma do século XIX (expressão do ethos protestante comprometido com o lema histórico, ecclesia quia
reformata semper reformanda) e o compromisso com a obra social (tipificado na frase de Kant).
O conteúdo de LRCS no pós-guerra refletia a grande desilusão do protestantismo europeu com o individualismo liberal. A teologia protestante européia da segunda metade do século XIX, vitimada pelo cientificismo que tomara conta da sociedade de então, rendera-se a ele, o que quase lhe custara a perda de sua base de fé – a Bíblia. Pouca coisa confiável restou, para a teologia liberal, do livro que sustentara a devoção de milhões de pessoas desde o século XVI. Na Alemanha hegeliana, a teologia protestante adotara uma postura crítica a respeito da cristologia tradicionalmente aceita, achado-a demasiadamente mística e pueril, ante a racionalidade do
mundo moderno. No geral, uma expectativa pós-milenarista envolvia a teologia protestante européia e norte-americana, fiada na proximidade de uma era de paz universal e grande progresso material. A 1ª Guerra Mundial quebrou o encanto da teologia liberal e prostrou a igreja que nela se escorara.
O que se vê nas páginas de LRCS é uma resposta a essa desilusão protestante. Ao mesmo tempo em que critica o individualismo liberal, LRCS se reposiciona decididamente frente às novas realidades políticas e sociais – inclusive o socialismo – pretendendo ser:
(...) uma Revista de Cristianismo Social com a ambição de abordar de frente todos os inflamados problemas da escola leiga, do ensino religioso, da arte cristã, do serviço social, do dever profissional, da educação econômica e cooperativa do proletariado, da burguesia, de consumidores e produtores, da Paz em busca do direito e do desenvolvimento da amizade entre os povos, etc. (LRCS, 1921, p. 93).
Ou seja: a revista procurava ficar a meio caminho das tensões ideológicas das turbulentas décadas de 10 e 20, tentando responder às expectativas do proletariado e da burguesia através dos ideais do cooperativismo. Tal doutrina social e econômica, surgida na Inglaterra na primeira metade do século XIX, espraiara-se para países como a Suíça, França e Alemanha. Afirmando serem as raízes do cooperativismo de inspiração cristã e protestante (tendo como precursor um
quaker de nome John Bellers, na Inglaterra de finais do século XVII), muitos teólogos e líderes do protestantismo europeu colocaram-se entusiasmadamente ao lado do cooperativismo, sobretudo após o a 1ª Grande Guerra. Era o caso dos líderes de LRCS.
O desejo de participar no resgate de uma sociedade marcada pelo sofrimento, pelo ódio e pela violência manifestava-se claramente nos editoriais de LRCS. Em sua análise, os líderes da revista enxergavam a igreja com parcela de responsabilidade na débâcle européia e mundial. Era preciso apontar saídas para a recuperação dessa mesma sociedade em bases genuinamente cristãs, que apagassem as marcas da subserviência com que o protestantismo se houvera, nas décadas anteriores, ante o individualismo liberal e o cientificismo positivista.
Os editores de LRCS lutavam com problemas de ordem financeira decorrentes da crise econômica européia gerada pela 1ª Guerra. O comitê diretor de LRCS apelava para seus assinantes e amigos, no primeiro número de 1921 (janeiro), no sentido de solicitar doações para que a revista não parasse de ser publicada (LRCS, 1921, p. 91-94). Em face dos altos custos (a revista tinha por volta de 3.000 assinantes em 1921), era preciso contar com a ajuda dos simpatizantes. Daí, a irregularidade da publicação. No ano de 1921, por exemplo, LRCS sai mensal nos meses de janeiro, abril, julho e dezembro, e bimestral em fevereiro-março, maio- junho, agosto-setembro e outubro-novembro. O número diminuto de assinantes revela, porém, que mesmo na França tal literatura era dirigida para um grupo seleto de leitores que compunha a liderança protestante no país. Não se tratava de um texto popular, mas de uma revista especializada para um clero e um laicato letrados. Já era bem conhecido das igrejas protestantes francesas o fenômeno de deserção de seguidores ou mesmo da freqüência esporádica aos cultos, com um número bastante expressivo de crentes nominais, em ambiente já tão secularizado como o europeu (GAY, 2002, p. 178-179).
A revista não se obrigava a enfeixar os artigos em seções temáticas a cada número, e nem mesmo a limitar tais seções a alguns temas pré-definidos. Um editorial nem sempre aparecia. Porém, algumas seções eram mais freqüentes, como “Tribuna Social” (voltada para a análise e a crítica dos problemas contemporâneos), “Para ler a Bíblia dia-a-dia” (comentários bíblicos devocionais), “Revista das Revistas” (resenhas de textos publicados em outras revistas), “Bibliografia” (resenhas e indicação de livros, tanto do meio editorial francês quanto do internacional), “Documentário” (recortes de jornais e revistas), “Comunicações” (informes gerais de programas e cursos mantidos por instituições e igrejas protestantes), “Nossos Amigos” (sessão de cartas recebidas). Outras seções, de aparecimento esporádico nas páginas de LRCS: “Direitos da mulher”, “Atualidades do pós-guerra”, “Reflexões sobre arte religiosa”, “Teologia Prática”. Citando ainda os números de LRCS publicadas em 1921, observa-se que o número de fevereiro- março é dedicado à juventude francesa e seus problemas, o de agosto-setembro focaliza o pós- guerra, o de outubro-novembro enfoca as missões protestantes e a necessidade de sua atualização cultural, e o de dezembro trata da necessidade de renovação do próprio protestantismo.
A Revista de Cultura Religiosa teve a quem puxar. Similaridades de forma e conteúdo. Há também semelhanças entre os que dirigem, apesar das peculiaridades dos respectivos contextos sócio-históricos. São, de fato, protestantes de mundos muito diferentes, que procuram levar aos seus leitores, da França e do Brasil, valores e idéias tidos como redentores da igreja e da sociedade onde elas se inserem. As semelhanças das gerações intelectuais e de seus respectivos meios de sociabilidade mostram-se como resultantes do mundo moderno, no qual se tornara possível o intercâmbio mais rápido e freqüente de informações através dos meios de comunicação da época, que aproximavam intelectuais de diferentes partes do planeta. Por outro lado, as diferenças entre essas mesmas gerações e suas respectivas revistas apontam para os descompassos de uma sociedade mundial construída no liberalismo político-filosófico e no capitalismo. Estes últimos, os produtores das diferenças de classe e dos problemas sociais que afligiam e desafiavam intelectuais protestantes de dois continentes.