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Assim como a doutrina Puritana reserva o ato sexual para o casamento, abençoando-o e vendo-o não somente para procriação, mas também como fonte de prazer, Kemp considera o ato sexual um privilégio somente para os casados, ao mesmo tempo em que constata o alarmante (sic) resultado de uma pesquisa recente (em 1992) com jovens de 16 a 22 anos quando os dados revelaram que 91% dos homens e 35% das mulheres não protestantes já haviam tido relações sexuais antes do casamento. Segundo ele, o diabo haveria saturado as mentes dos jovens, e estes já influenciavam grande parte dos jovens evangélicos.

Uma outra pergunta foi a seguinte: "Para você sexo é uma coisa natural que pode acontecer entre duas pessoas a qualquer momento?". A esta pergunta, 53% dos homens e 35% das mulheres responderam sim. Mas a pergunta mais assustadora da pesquisa foi a de n.° 15: "Você é a favor do amor livre?". 80% dos homens e 71% das mulheres responderam sim (KEMP, 2001, p.82).

Se o sexo for praticado antes do casamento poderá atrair consequências desastrosas tais como: “encrencas, desconfianças, frustrações e infidelidade no casamento” (p.83).

O filósofo Louis Althusser (2001), que versava sobre aparelhos ideológicos de Estado, afirmou que no período medieval a Igreja constituía o aparelho ideológico dominante. Para ele, os aparelhos ideológicos do estado objetivavam manter e gerar a reprodução social, porém com as ideias da classe dominante do poder. O indivíduo sujeitado a essas ideologias não percebe o que ocorre porque os valores que lhes passam vêm mascarados com a crença de que as estruturas sociais existentes são boas, necessárias e desejáveis e toda ideologia vem empoderada com a ideia de trazer o bem para quem a abraça (ALTHUSSER, 2001 apud FRANCO; SILVA, 2006). Assim, as proibições do ato sexual antes do casamento vêm veladas sob o pretexto de que trazem o bem-estar individual e social se acatadas.

Sob esse mesmo tema, o Pr. Paulo César e sua esposa Pra. Claudete Brito também concordam que o sexo não é pecado, desde que “praticado dentro do casamento” (1996, p. 17).

Para Kemp, o sexo deve ser praticado para prazer, mas o ato sexual prioritariamente deve ser para procriação de filhos. Para ele, o sexo também se constitui um ato de comunicação entre marido e mulher e de cuidado.

Kemp estabelece regras para a não realização do ato sexual:

1) O período um pouco antes e depois do nascimento de um filho; 2) O período menstrual da esposa;

3) No caso de algum problema fisiológico da esposa, que então, deve ser tratado e resolvido por um médico de confiança (p.89).

Assim como os Puritanos, Kemp também interpreta a Bíblia literalmente, ele se baseia no versículo do Antigo Testamento que, segundo as leis judaicas considera a mulher impura durante seu período menstrual, proibindo o marido de se aproximar dela. No livro “Eu Amo Você” (2005) em sua 19ª edição, Kemp aborda o assunto namoro e casamento, desta vez acalmando o coração do jovem quanto à mulher ou o rapaz com quem vai se casar, aconselhando o (a) a deixar nas mãos de Deus. Extraindo este conceito de sua experiência pessoal ao acabar um namoro com uma jovem que muito amava, e mais tarde conhecendo uma jovem que seria o ideal para acompanhá-lo em seu chamado missionário.

Jovem, você está dormindo na vontade de Deus? Na hora "H" você duvida da promessa de Deus? Deus sabe o que é melhor para você. Ele o criou, e o salvou e sabe quais são todos os seus desejos mais íntimos. Por que, então, você não descansa num Deus de tão profundo conhecimento? (KEMP, 2005, p.12).

Novamente, Kemp instrui o jovem a se manter abstinente até o matrimônio, sob o perigo de desenvolver culpa, causar brigas e problemas durante o casamento. Ele compara o ato sexual pré-conjugal com prostituição. Citando I Tessalonicenses 4:1-8 ele explana:

Quando nós pensamos em prostituição, geralmente pensamos naquela mulher da rua, vendendo o corpo para que um homem possa ter alguns momentos de prazer. Mas Paulo não está falando especificamente da comercialização do sexo. A palavra usada aqui significa "imoralidade sexual", seja esta em pensamento, palavra ou ação. Conforme pesquisa realizada entre a mocidade evangélica do Brasil, descobri que uma grande porcentagem dos jovens crentes até 21 anos de idade tiveram relação sexual com suas namoradas. [...] Quando o homem vem para o leito matrimonial, ele deve poder dizer para sua esposa, assim como a esposa para o marido: "Querido (a), tenho esperado por você e dou todo meu amor exclusivamente para você!". Muitos jovens não podem fazer isso. Quando há intimidade sexual no período de namoro e noivado, a culpa por causa disso pode ter efeitos negativos no casamento e ser fonte de muita irritação e brigas (p.32).

Kemp sabe que seu discurso sobre sexualidade é antagônico ao praticado fora da igreja protestante, mas confere autoridade ao seu discurso ao invocar Deus e seus “elevados” padrões e expectativas sobre a vida de um fiel.

Kemp (2005) afirma que “O mundo, a sociedade, acha que os crentes são muito quadrados. Mas o que o descrente acha que não é tão importante em relação àquilo que Deus pensa, e Ele nos deu o Seu padrão” (p. 35).

Kemp recorre ao argumento da desobediência a Deus do primeiro homem e a primeira mulher. No jardim do Éden que tornou o ato sexual pecaminoso. A malícia entrou no ser humano fazendo-o deturpar a beleza do sexo. Crer na queda do ser humano conduz todo o fio do pensamento de Kemp sobre a sexualidade, como também dos puritanos.

Desde aquele dia o sexo tem sido deturpado pela pecaminosidade do homem. Deus criou o sexo puro, uma expressão linda do relacionamento conjugal. Mas o homem — pecador e corrupto — arrastou uma coisa linda que Deus criou para a lama dos seus próprios pensamentos e prazeres. Somente quando estudamos a Bíblia é que podemos ter um ponto de vista divino e voltar a desfrutar desta parte da criação de Deus (p. 49).

Apesar de Kemp afirmar que o ato sexual deve ser somente após o casamento, de instalar na mente do jovem o cuidado para não despertar impulsos sexuais ou excitação no seu parceiro ou parceira durante o namoro, ele corrobora

com o pensamento dominante do Puritanismo que o ato sexual dentro do pacto conjugal não se destina somente a procriar, mas também para ser desfrutado prazerosamente pelo casal. Com isso, ele rompe com o pensamento da igreja Católica Romana que considera como único objetivo do ato sexual a procriação e preservação da espécie.

Embora conservando a tradição religiosa histórica de que o sexo pode ser pecaminoso se não se enquadrar nas regras cristãs do limite do matrimônio, Kemp abre para um diálogo maior sobre sexualidade nas diversas denominações evangélicas, falando sobre um assunto considerado tabu.

A nossa sexualidade não visa somente gerar filhos e providenciar um meio de comunicação, mas também proporcionar prazer conjugal. [...] Existe a possibilidade dentro do plano de Deus de desfrutar do sexo sem o intuito de procriação?"Eu falei: "Sim, a Bíblia é abundantemente clara ao dizer que Deus designou o sexo para ser também um meio de prazer". Os escritores da Bíblia, às vezes usando uma linguagem poética, descrevem os órgãos genitais, os impulsos, energias e desejos sexuais. Uma ilustração deste fato encontramos em Provérbios 5, onde o grande sábio Salomão exorta seu filho sobre os perigos da mulher adúltera e exalta as delícias da expressão sexual com a esposa. [...] No versículo 15, Salomão usa as expressões "cisterna" e "poço. [...] Salomão exorta o seu filho a beber da sua própria cisterna e das correntes do seu poço, ou seja, satisfazer-se com a sua esposa. Deus está dizendo que o prazer sexual se encontra na própria casa, com seu próprio marido e esposa. As forças sexuais não podem ser espalhadas desordenadamente pelas ruas e praças da cidade (p. 61).