Mário de Carvalho dedica o seu romance O livro grande de Tebas à famosa cidade antiga grega de sete portas. A Antigüidade também relatou eventos dessa cidade. Duas tragédias gregas, Sete contra Tebas278 (467 a.C) de Ésquilo e Fenícias279 (411 a.C.) de
Eurípides, desenvolvem o motivo da ocupação e pilhagem de Tebas. Embora estabeleçam uma relação intertextual com a Ilíada,280 as peças demonstram grande liberdade de criação por parte dos tragediógrafos, que, ao colocar em cena o ataque argivo contra Tebas, determinam um tratamento diverso para o tema da guerra: se em Ésquilo a comoção dos personagens tebanos é agudizada sobretudo por “estímulos auditivos”,281 em Eurípides há um
retorno à preferência da épica pelos “motivos visuais e pictóricos”.282 É preciso, no entanto,
sublinhar que a natureza distinta dos dois gêneros literários, épica e teatro, impõe diferentes tratamentos. Sobre a narrativa épica, a tragédia imprime a necessidade de „mostrar‟. E mesmo se os fatos narrados ocorrem à distância, a sua influência tem de ter, em cena, uma repercussão visível.
A assembléia dos homens para decidir assuntos referentes ao ataque contra o inimigo é um elemento épico não retomado por nenhum dos dois tragediógrafos: em ambas as tragédias, o rei é quem toma as decisões que colocarão os exércitos frente a frente, dispensando o
278 Usamos as traduções de MAZON, P. Eschyle. Tome I. Paris: Les Belles Lettres, 1949; e CLOTA, J. A. Esquilo. Tragedias completas. Madrid: Ed. Catedra/ Letras Universales, 1996.
279 Tradução de ALVES, M. S. Eurípides. As Fenícias. Coimbra: Instituto de Alta Cultura, 1975.
280 Cf. a questão da influência da tragédia sobre os espectadores em Ar. Ra.1021 passim. Nessa comédia, Ésquilo, em uma discussão crítica com Eurípides sobre a literatura e o valor de suas obras, afirma ter servido a pátria ao provocar o entusiasmo pela luta e o desejo de sobrepujar os adversários em Sete contra Tebas. Para o personagem de Aristófanes, Homero conheceu a glória por ter ensinado coisas úteis como armas dos guerreiros, honra militar e linhas de combates.
281 SOUSA E SILVA, 2005, p. 290-291. 282 SOUSA E SILVA, 2005, p. 286.
expediente da consulta aos pares. Assim, o processo bélico aprofunda o sentido de responsabilidade individual que o conflito trágico muito prezou. Em contrapartida, a vontade divina continua, da distância insondável do Olimpo, a interferir no curso dos acontecimentos, com uma influência dosada em graus diferentes nos dois autores.
Em Sete contra Tebas, o rei Etéocles, um dos filhos de Édipo, na ágora de Tebas,283 é quem convoca os guerreiros e organiza a defesa dos muros da cidade (01-35), perante a iminência do ataque argivo. No cumprimento de ordens régias, um mensageiro, de regresso do campo inimigo, entra em cena para informar o soberano que sete chefes se postaram frente às portas de Tebas. O rei, tal como um “bom piloto da nave”, 284 tem de definir rapidamente
uma estratégia de defesa (40-62).285
A primeira imagem do exército argivo é formada na mente das personagens através dos sons que chegam à cidade sitiada, porque “no autor de Septem a captação, exclusivamente auditiva, do avanço inimigo, é responsável por um crescendo de pânico dentro das muralhas de Tebas”.286 É o coro formado por mulheres tebanas quem constrói essa imagem através dos
ruídos que ecoam pela cidadela: primeiro, a intenção de um ataque iminente se evidencia pelo “rugido” da hoste (63), que inquieta para atacar a terra de Cadmo não contém o rumor frenético de impaciência. Depois, a terrível gritaria denuncia que as forças se dirigiam para a cidade (79); mesmo não sendo vistas pelo coro, seu fragor indicava que não se tratava do som de lança solitária, e sim de uma hoste numerosa (104). Igualmente relevantes para a composição dessa imagem de avanço bélico são os sons dos carros (151) e o relincho de corcéis (244), que compõem, juntamente com os homens, a falange inimiga. Desta forma, o avanço maciço de um exército hostil vai-se concretizando, ao mesmo tempo em que o terror toma os cidadãos; afirma o coro: “Filho de Édipo, me horrorizo ao escutar os sonoros carros” (203-204).
Em Fenícias, é Jocasta, mãe dos jovens que disputam o trono tebano, quem recorda os antecedentes da ação. A rainha descreve o mito de Édipo desde a vinda de Cadmo para a Grécia e os atos passados de Laio, acontecimentos imprescindíveis para a compreensão dos
283Nessa peça, Ésquilo não emprega as palavras „Tebas‟ e „tebanos‟, nomes impopulares em Atenas desde as guerras médicas, e sim „a cidade‟ e „os cidadãos de Cadmo‟. Cf. Nota 01 do tradutor, MAZON, 1949, p. 114. 284 Cf. CLOTA, 1996, p. 99, nota 9. A referência à metáfora da nave do estado e do estadista como piloto da nave são constantes no texto.
285 Cf. a análise comparativa do tema do poder nas tragédias tebanas Os sete contra Tebas, Fenícias, Antígona, Rei Édipo, Édipo em Colono e As bacantes em ADRADOS, F. R. La estructura formal de las tragédias Tebanas. Humanitas, Coimbra, v. XLVII, 1995, p. 152-163.
eventos com que se depara o povo de Tebas no presente. A seguir a essa explanação, numa clara retomada do motivo épico da teichoscopía, Antígona, acompanhada do Pedagogo, observa o exército invasor acampado na planície que circunda a cidade. Através da visão que os dois personagens têm a partir da muralha, e do diálogo (pergunta-resposta-comentário)287 próprio da teichoscopía, a imagem de Tebas cercada pelo inimigo se concretiza. É oportuno dizer que Eurípides não só enfatiza a feição individual dos atacantes, como acentua a atuação coletiva.288 A primeira imagem que se tem do entorno de Tebas é da planície totalmente tomada por um “exército imenso de inimigos” (102); são tantos os soldados que a filha de Édipo se impressiona porque todo o campo brilha com os reflexos do bronze das armas (110).289 Assim, misturam-se na paisagem os homens com armas incontáveis e seus cavalos (112-113) e os batalhões que marcham em direção às portas da cidade (107-108). Para Sousa e Silva, essa inclinação do poeta para uma experiência visual provoca “um enfraquecimento dramático em relação a Ésquilo: da capacidade de ver colhem as personagens euripidianas um certo domínio da situação (…)”.290
Caracterizado o avanço inimigo na tragédia Sete contra Tebas, o Mensageiro, o único que teve uma visão próxima do inimigo, começa o relato de uma definição particularizada de cada chefe argivo, da posição que cada um ocupa no cerco à cidade e dos escudos que usa (cf. 375-680), como espelho da sua disposição de alma e dos valores e objetivos que o move. Assim, Ésquilo não prioriza a descrição do embate bélico, mas, sobretudo, a caracterização dos combatentes, na medida em que as disposições que determinam cada um, expressas em palavras ditas ou escritas, decidem o desfecho do combate. Ao mesmo tempo que é informado sobre a estratégia inimiga e o projeto de defesa, o espectador avalia as etapas sucessivas da luta. A cada nova informação dada pelo servo, Etéocles dá ordens para que os melhores defensores ocupem as sete portas da cidade. É esse diálogo que possibilita uma construção da imagem do inimigo, e também do combatente cadmeu, como forte, destemido e ameaçador (cf. 375-680), como também o esclarecimento de quais os motivos profundos que justificam as hostilidades. Da cena dos escudos em toda a sua simbologia, que tem sido amplamente
287 Cf. SOARES, 1996, p. 72.
288 Cf. SOARES, 1998, p. 66, nota 12.
289 Recorda SOARES, 1998, p. 80, nota 43, que não é o barulho ou a poeira provocada pelos movimentos dos homens e dos cavalos que caracterizam as descrições homéricas do campo de batalha, mas o brilho das armas e das armaduras.
comentada pelos estudiosos da peça,291 destacaremos apenas alguns elementos relevantes para o efeito sensorial da narrativa. Capaneu, por exemplo, em prontidão frente à porta Electra, é definido como um gigante que detém uma presunção mais que humana. Seu escudo apresenta um guerreiro sem armas e uma tocha, que maneja como se fosse uma arma. Em ouro está gravada a seguinte divisa: “A cidade incendiarei” (cf. 421-434). O que se ressalta da figura de Hipomedonte, tal como em Eurípides, é sua estatura gigantesca e assustadora (cf. 487-488). No escudo, sobressai a figura de Tífon, filho de Gaia e Tártaro, um dragão ameaçador que parece mais agitado que o próprio guerreiro (cf. 496). Polinices, filho de Édipo, usa um escudo que evoca a Justiça; a imagem é a de uma mulher serenamente conduzindo um homem armado: “Reintegrarei este homem a sua cidade, para que recupere sua pátria, e a sua casa regresse” (640-649), destaca a divisa.
Ainda de forma individualizada se dá a descrição dos guerreiros argivos na peça de Eurípides, embora o autor se detenha de forma mais minuciosa na ação do esquadrão em seu conjunto. O primeiro a receber a atenção de Antígona, ainda como observadora da muralha, é Hipomedonte, que, com sua impressionante postura e o porte de um escudo de bronze (119- 121), assemelha-se a um “terrígeno gigante”, que brilha como um astro celeste (128-129). Essa descrição comportaria, segundo Sousa e Silva, a referência a “sentimentos através da postura exterior e adianta a noção de que a pintura engrandece as figuras, em proporções e aparato, de modo a sobrelevá-las ao comum dos mortais”.292 Se antes era a jovem quem
perguntava sobre o que via, agora é o Pedagogo que chama sua atenção para outro combatente, Tideu. A descrição que iniciara com definições topográficas - Hipomedonte “habita as águas de Lerna” (125) - agora assenta na paternidade:293 Tideu é filho de Eneu
(134), Partenopeu, filho de Atalanta (150). Polinices, que combate contra o irmão, é chamado por Etéocles, de acordo com a etimologia do seu nome, de “o homem das querelas” (637), porque invade o país para conquistar o reino que o irmão ocupava: em forma de „catálogo‟, os sete chefes argivos (dispostos nas sete portas da cidade) são descritos pelo Mensageiro. Conforme afirma Soares, o modelo que “Eurípides tinha ao seu dispor para o „catálogo dos sete‟ era fornecido pelo drama esquiliano Sete contra Tebas”,294 ainda que inovasse ao não
291 Cf. CAMERON, H. D. Studies on the Seven against Thebes of Aeschylus. Mouton, 1971; e THALMANN, W. G. Dramatic art in Aeschylus’ Seven against Thebes. New Haven and London, 1978.
292 SOUSA E SILVA, 2005, p. 295.
293 Para uma análise mais pormenorizada, veja-se SOARES, 1996, p. 83. 294 Cf. SOARES, 1998, p. 21.
inserir um personagem que comentasse o efeito aterrador provocado pelas imagens dos escudos.295
Em ambas as peças, Etéocles assume atitudes defensivas ao dispor os homens que guardarão cada entrada da cidade. Todavia, esse personagem é profundamente diferente nas duas peças, inclusive como estrategista. Ao temor que toma a cidade e se presentifica aos olhos do espectador através dos lamentos do coro, o Etéocles de Ésquilo reage como um verdadeiro rei corajoso, obstinado e decidido, que se preocupa de fato com a salvação da cidade e não somente com seu trono (cf. 398 sqq). Assim, “dividido entre a personalidade austera, enérgica e responsável do general a quem incumbe a defesa de Tebas sitiada, e o estigma de uma terrível maldição, o Etéocles de Sete funciona como um elo de coesão intrínseca da estrutura dramática”.296 Já em Eurípides, Etéocles age como um egoísta, sem
pensar em seu estado. Esse rei difere tanto do Etéocles de Ésquilo, que até mesmo a função de estrategista muda de mão, porque é Creonte que lembra e organiza a defesa de Tebas, sete defensores contra sete atacantes. À reclamação de Polinices de que o irmão teria mais do que te fato lhe pertencia (602), Etéocles responde sem se abalar, expondo sua faceta egoísta e seus interesses pessoais: “Pois tenho. Portanto deixa o país” (603). Como estratega, o rei de
Fenícias também é diferente: perante a necessidade de defesa, Etéocles cede a Creonte a
estratégia e as diligências (cf. 690 sq.), que o herói esquiliano assumia em plenitude.
O choque efetivo entre os dois exércitos recebe maior atenção no texto euripidiano; ora a peça enfatiza o embate entre uma massa gigantesca de guerreiros (cf. 1141-1152), ora realça os seus feitos individuais (cf. 1153-1186).297 Redimensionam-se os motivos narrativos que sugerem a dinâmica, visual e auditiva, do exército ativo. Além dos aspectos já antes focados, o grito do guerreiro, à semelhança da Ilíada, torna-se um elemento importante, pois funciona como um tipo de incentivo à luta (cf. 1144) ou como expressão de uma disposição para o embate bélico. Se, por outro lado, em Ésquilo, a intervenção divina está patente nas preces com que o coro apela e transmite a sua angústia, Eurípides, como lhe é próprio, deixa o curso dos acontecimentos mais à conta dos motivos e das paixões humanos. Interesses individuais ganham terreno sobre os coletivos, e aos velhos valores de areté substitui-se a mesquinhez das ambições humanas. Assim se opera o prodígio de trazer o grande motivo
295 Ibidem, 1998, 24.
296 Cf. SOUSA E SILVA, 2005, p. 195. In: Etéocles de Fenícias: ecos de um sucesso.
297 Segundo SOARES, 1997, p. 42-43, a descrição das cenas típicas do embate bélico podem ser assim esquematizadas: a) preparativos; b) tentativa de evitar o confronto; c) sinal de início de confronto; d) confronto; e) comportamento pós-batalha; f) sentença final.
bélico, que animara os rasgos épicos do passado, ao convívio do cidadão comum da época clássica, experimentado, no entanto, por todas as componentes de um conflito prolongado e doloroso, o das guerras que assolaram todo o mundo grego durante o séc. V a. C. Pode-se dizer, pois, que os movimentos de um exército, as armas utilizadas, a descrição dos chefes ou o desenho de um guerreiro, presentes, mesmo que de forma diversa, tanto no texto épico quanto nos textos teatrais analisados, se conservaram como elementos representativos da temática da guerra, assumindo diversas formas ou funções ao longo dos séculos, de acordo com a experiência histórica e interferências inovadoras na dinâmica narrativa.
Parte II – Temas clássicos gregos em Mário de Carvalho