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1. OSMANLI SARAYLARI

1.2.1. Birinci Avlu (Alay Meydanı)

Estamos em pleno século XXI, e não é de hoje que constatamos profundas mudanças sociais que provocaram uma reformulação de velhas práticas, velhos conceitos, velhas idéias, velhas opiniões, outras interpretações e outros entendimentos de ordem política, econômica e cultural que perpassam a vida social dos sujeitos. Certamente o que vemos são novas formas de organização do trabalho e do modo de produção, com o surgimento de novos padrões de consumo, alterações nas configurações de conjugalidade e extensão da família, assim como novas demandas nas relações entre homens e mulheres. A cultura, por certo, tem um papel importante na incorporação destes novos desenhos de expressão, comportamento e pensamento social. Os processos culturais vão delineando na família um mimetismo social, onde esta se molda às novas provocações contemporâneas.

Neste contexto de mudanças, a família vem passando por significativas transformações, de modo que hoje se torna difícil definí-la dada a multiplicidade de configurações que pode assumir. Ela é uma porta para modificar a vida dos sujeitos e transformar o curso social. Singly (2007) sugere que a família contemporânea é caracterizada por uma forte dependência do Estado e uma grande independência dos grupos de parentesco. Dito de outra forma, tanto as mulheres como homens e crianças se organizam na vida privada sob dois aspectos: uma reivindicação de independência coletiva e individual e uma dependência enorme da esfera pública.

A família nem sempre teve essa configuração. Nos séculos XVI e XVII, período colonial brasileiro, a família se caracterizava pela descentralização administrativa, desempenhando funções políticas e econômicas e predominado neste modelo colonial uma relação patriarcal, ou seja, delegando plenos poderes à figura do homem (BRUSCHINI, 1990). A família patriarcal escravocrata do Brasil colonial se configurava como uma estrutura social extensa rigidamente diferenciada, estando a posição da mulher fortemente ligada à procriação (ALVES, 1980).

Com esta estrutura doméstica centrada num modelo de família extensa, o patriarca, Senhor de Engenho e Barão do Café, detinha poderes econômicos e políticos. Havia uma nítida hierarquia de papéis, e a família patriarcal tinha um forte

controle sobre a sexualidade feminina. A função da mulher tinha o único propósito de reproduzir herdeiros e sucessores. Este extenso modelo familiar comportava toda a parentela, afilhados, agregados e até escravos (BRUSCHINI, 1990).

Nesta perspectiva histórica, temos então no século XIX o surgimento da industrialização, urbanização, abolição dos escravos e as imigrações. Tais fatos incitaram uma mudança na família patriarcal extensa, passando esta para um modelo burguês de família moderna nuclear com funções afetivas, perdendo a sua aparente função política e econômica (BRUSCHINI, 1990).

No final do século XIX, portanto, mudanças significativas acontecem, sobretudo na vida das mulheres. Há uma maior valorização da intelectualidade e um certo afrouxamento das regras, libertando os filhos da rígida tutela patriarcal. A mulher se insere no mercado de trabalho e passa a ser remunerada, fato que contribui para uma diminuição de sua dependência. Apesar destas transformações, a família ainda possuía o ranço do predomínio da:

“Dupla moral sexual, que reprime a sexualidade feminina, mantendo o tabu da virgindade e a intolerância para com o adultério feminino, e reforça no homem a prática da sexualidade, trazendo em seu bojo a tolerância da sociedade para o adultério masculino e para a prostituição, seu complemento natural e necessário” (BRUSCHINI, 1990: 64).

Implica lembrar que os estudos do passado sobre a família brasileira eram centrados nas famílias aristocratas rurais, que se contrapunham às camadas sociais menos favorecidas, como escravos e pessoas da ‘periferia’. Já os estudos recentes têm se caracterizado por priorizar as famílias de camadas populares de baixa renda, como as camponesas, operárias, trabalhadoras (BRUSCHINI, 1990).

A família vai aos poucos se distanciando do modelo patriarcal e nuclear de família burguesa. Durham (1983) chama atenção para várias características, as novas configurações e arranjos variados de família existentes na atualidade, não mais se observando, como antes, apenas o modelo patriarcal ou nuclear burguês.

O que vemos hoje são várias configurações de conjugalidade. Casais sem filhos, casamentos homossexuais, casais homossexuais reivindicando heranças, mães

‘independentes’, pais que reivindicam a guarda dos filhos, divórcios nos quais os novos cônjuges assumem os seus filhos e os do(a) parceiro(a), transexuais morando com companheiros, enfim, temos na contemporaneidade uma pluralidade de conjugalidades. Durham (1983) acrescenta que esta variedade de arranjos possíveis determina a necessidade de redefinirmos o conceito de família. De qualquer modo, a família não tem nenhum aspecto natural, estando sujeita a diferentes configurações de modelos plurais.

Os estudos sobre família decorreram do pensamento sociológico que trouxe ao centro do debate teórico-metodológico as revoluções políticas e industriais ocorridas inicialmente no século XIX e no século XX, mais precisamente na década de 1960. A partir daí, os teóricos contemporâneos se debruçaram a estudar as relações familiares com mais interesse, e o que vamos constatar é uma considerável mudança nas concepções das questões familiares, o que dificulta a percepção da medida concreta desta mudança (HEILBORN, 2004).

Há uma discussão em torno da crise da família como conseqüência do declínio do casamento e de um maior lastro de aceitação social do divórcio. O que ocorre na realidade não é exatamente que a instituição familiar esteja perdendo suas forças, mas sim o surgimento de novas configurações familiares, provenientes de fatos sociais e, principalmente, das alterações nas relações de gênero. Tais alterações se expressam por meio de uma maior inserção da mulher no mercado de trabalho, do controle de natalidade, do maior número de divórcios e das mudanças no campo da sexualidade, entre outros fatores (HEILBORN, 2004).

Uma questão importante a ser considerada é que ao longo das últimas décadas, as transformações nas relações familiares trouxeram à baila as discussões sobre sexualidade, tornando a “conjugalidade um domínio relativamente autônomo da família”, tendo a sexualidade ocupado um lugar central. De fato, esta questão desatrelou o exercício da sexualidade da esfera do casamento (HEILBORN, 2004).

Seguramente estas discussões em torno da sexualidade com todas as mudanças na modernidade provocaram manifestações que alteraram os costumes sexuais. Tais costumes referem-se, sobretudo, às mulheres: a perda do valor da

virgindade feminina, as demonstrações de desejo, a dilatação da vida sexual ampliando práticas sexuais aceitáveis. Por certo, para Heilborn (2004), os homens não estão de fora deste contexto, tornando-se ainda evidente que “esses elementos entrelaçados configuram o papel central que a sexualidade ocupa na construção de si na contemporaneidade e que faz dela o motivo e o esteio das relações conjugais”. Ocorre que apesar destes novos desenhos de relações conjugais, as relações familiares ainda estão, em parte, ajustadas às velhas imposições de gênero (HEILBORN, 2004).

Como podemos observar, a família é um espaço onde os indivíduos se desenvolvem, criam laços e se tornam sujeitos de pertencimento a um grupo com uma história de vida comum cotidiana de características próprias. Cada membro experimenta sentimentos, vivencia emoções, aprende a dividir o espaço físico e o tempo, bem como a lidar com o trabalho doméstico, motivo, muitas vezes, de tensões familiares, pois sendo um trabalho essencial para a reprodução social, comporta oposições homem/mulher, trabalho/não-trabalho, adquirindo um status gerador de conflitos. A partir do marco analítico da divisão sexual do trabalho, o que constatamos é que historicamente os homens não se engajam na execução das tarefas domésticas, assim como não se definem como reprodutores deste trabalho. Possivelmente por não se sentirem qualificados para a execução das tarefas domésticas, atribuem “naturalidade” às donas de casa no seu exercício, não se sentindo pertencentes à reprodução de tais tarefas. De fato, o que fica evidente nos discursos sociais é que a mulher é “mais qualificada” para a reprodução social das lidas domésticas.

Certamente este trabalho tão socialmente menosprezado permite configurações extremamente complexas de ideologias e práticas sociais que mantém e reforçam marcas de gênero. Portanto, no próximo tópico abordaremos o trabalho doméstico com suas mutações e tensões que ele abarca.

Benzer Belgeler