• Sonuç bulunamadı

A partir da análise previamente realizada, foi possível perceber a criação de uma imagem negativa sobre as mulheres não virtuosas, a da mulher mundana. Além disso, verificamos possíveis emoções desencadeadas pela criação dessa imagem e por sua provável identificação pelas leitoras da obra, as quais estariam suscetíveis, pois, de sentir a culpa, o medo e a vergonha. Na presente seção, pretendemos analisar, por fim, quais seriam as imagens ligadas à mulher ideal, à Mulher Virtuosa. Além disso, ainda é nossa intenção verificar se a obra é de fato moderna, o que será feito tendo como base a problematização das imagens erigidas.

No capítulo intitulado “A mulher V”, a autora começa a explicar o porquê de as mulheres virtuosas serem valorizadas:

O rubi é uma das pedras preciosas mais bonitas, caras e raras do mundo. [...] De acordo com um centro de referência de joias, o rubi mais caro já leiloado pesava 15.97 quilates, e foi arrematado por US$ 3.630.000,00 em 1988! Como tudo neste

mundo, quanto mais rara for uma determinada coisa, maior será o seu valor e menos pessoas a possuirão. O valor de uma mulher virtuosa vai muito além do

valor físico; gosto de chamá-la de ‘a Mulher V’. Ela enfrenta as mesmas lutas que todas as outras mulheres do mundo [...], mas nenhuma dessas diminui o seu valor – ao contrário do que acontece com muitas mulheres por aí. Por isso ela é tão rara quanto o rubi. (CARDOSO, 2011, p. 19-20).

Em contraposição às imagens negativas das mulheres em geral construídas, que são consideradas comuns, corriqueiras, vulgares, a mulher “ideal” é rara. No sentido de Perelman e Tyteca (2005), neste excerto a autora recorre a um lugar a fim de estabelecer argumentativamente valores e hierarquias. Ao recorrer a premissas gerais já aceitas, o locutor tem mais chances de não ser contestado. Neste excerto, o que vemos é a contestação da virtude do número, o que seria enquadrado no lugar da qualidade, segundo o qual “o que é único não tem preço, e seu valor aumenta pelo próprio fato de não ser avaliável” (PERELMAN E TYTECA, 2005, p. 102). As mulheres comuns são depreciadas quando comparadas à Mulher Virtuosa, que é única, uma vez que o raro é melhor do que o corriqueiro. A utilização deste lugar serve como forma de adesão inicial, uma vez que o único tende a ser valorizado até mesmo pela multidão, no nosso caso seria até mesmo pelas mulheres “comuns”.

Para reforçar ainda mais a adesão inicial de que a mulher “ideal” é a Mulher Virtuosa, neste mesmo excerto ainda é perceptível aquilo que foi nomeado por Perelman e Tyteca (2005) de raciocínio por analogia. Antes de nos determos propriamente à análise do excerto, é válido retomar alguns aspectos relevantes sobre as figuras e sobre a analogia. Em primeiro lugar, as figuras têm caráter fortemente patêmico e, em segundo lugar, devido a isso, elas são fortemente argumentativas. Amossy (2010, p. 181) retoma o pensamento de Roland Barthes em sua obra Ancienne Rhétorique segundo o qual “[...] il fault savoir exciter les passionas pour persuader et que chaque type de figure contient des traits qui sont aptes à

produire des effets particulieurs [...]”142. Quanto à argumentatividade das figuras, retomamos

ainda Perelman e Tyteca (2005), que diferem as figuras argumentativas das figuras de estilo. As primeiras são capazes de provocar mudanças de perspectivas e a adesão do ouvinte, as outras, por sua vez, não provocariam a adesão e, portanto, seriam consideradas apenas ornamentos. Para estes teóricos, entretanto, a analogia teria um conceito mais amplo, uma vez que ela estaria presente em mais de uma figura, como na metáfora e na símile, sendo,

142

“é preciso saber excitar as paixões para persuadir e que cada tipo de figura contém os traços que são aptos a produzir efeitos particulares” (Tradução nossa).

portanto, nomeada de raciocínio por analogia, o que não excluiria, claro, seu caráter patêmico.

Voltando ao excerto em questão, a autora recorre à experiência real, ou possivelmente real, do valor do rubi e de sua raridade em nosso mundo para argumentar favoravelmente sobre a raridade da Mulher Virtuosa que, portanto, seria “tão rara quanto o rubi”. Levando em conta Perelman e Tyteca (2005), em nosso caso, os quatro termos da analogia seriam estruturados da seguinte maneira: c (“a raridade do rubi”) está para d (“valorização”) da mesma maneira que a (“a raridade da mulher”) está para b (“X”). Nesse sentido, o foro (c e d), é usado para esclarecer o tema (a e b). No excerto, a conclusão a que se quer chegar é aquela segundo a qual d = b, ou seja, se o rubi é valorizado porque é raro, a mulher rara também será valorizada. Esse tipo de argumento é persuasivo, pois faz uso de algo conhecido para esclarecer aquilo que não se conhece, possivelmente conseguindo a adesão a essa tese inicial. Por fim, em relação ao possível efeito patêmico, é válido pensarmos que as mulheres que se identificaram como pertencentes ao grupo das “mulheres comuns” poderiam experimentar, por exemplo, a vergonha por não serem consideradas mulheres valorizadas, o que parece não ser difícil, como mostra Cardoso (2011) ao afirmar que “acontece com muitas mulheres por aí”. Após a explicação do porquê de a Mulher Virtuosa ser uma mulher valorizada, a autora provavelmente conseguiu a adesão necessária para apresentar as características que tornariam essa mulher tão única e diferente das demais.

A primeira imagem valorativa da Mulher V que iremos investigar é a da “mulher doadora”, aquela que coloca em primeiro lugar as necessidades de sua família em detrimento de suas próprias necessidades, como pode ser percebido no seguinte excerto: “É por isso que a Mulher V não tem necessidade de coisa alguma, nem deixa que sua família tenha. [...] Seus planos, seus desejos, sua própria vida não são a sua prioridade” (CARDOSO, 2011, p. 36) (grifo nosso). Segundo o pensamento de Anscombre, Ducrot e Vogt corroborado e retomado por Koch (2002, p. 102), “o uso da linguagem é inerentemente argumentativo”. Levando em conta essa constatação, no excerto destacado da obra de autoajuda, o operador argumentativo “nem” parece conferir menos força ao período anterior a ele (“[...] a Mulher V não tem necessidade de coisa alguma”) e mais força ao período que o sucede (“deixa que sua família a tenha”). Dessa maneira, a utilização desse operador no contexto abordado confere mais valor àquela mulher que prefere cuidar de sua família antes mesmo de cuidar de si. Esta ideia é logo em seguida confirmada explicitamente quando a autora remete à mulher valorizada ao afirmar “Seus planos, seus desejos, sua própria vida não são a sua prioridade”. A repetição do possessivo “seus”/“sua” contribui para enfatizar ainda mais o ponto de vista defendido.

Em outros trechos da obra, a mesma ideia é retomada, a exemplo do que ocorre em: “A Mulher V faz bem porque se importa com os outros, não consigo mesma. Ela dá pelo simples prazer de dar, não pelo prazer de receber mais tarde” (CARDOSO, 2011, p. 54). No capítulo intitulado “ela é boa”, do qual este excerto foi retirado, além da imagem da “mulher doadora”, como vimos, ainda é possível perceber a construção indireta de outra imagem positiva aos olhos da autora vinculada à Mulher Virtuosa, a imagem da “esposa submissa”. Neste capítulo, a autoridade bíblica é retomada para defender a tese segundo a qual a Mulher Virtuosa é boa. Assim, ao apresentar como exemplo a história bíblica das irmãs Raquel e Lia, a atitude de Lia é valorizada e tomada como um modelo de Mulher V a ser seguido:

Lia casou-se com Jacó contra a vontade dele. E, após uma semana, ele se casou com o seu verdadeiro amor, Raquel, fazendo de Lia a esposa negligenciada. Bem, além do fato de sua irmã mais nova ser mais bonita, Raquel também tinha o coração do seu marido. Deve ter sido muito difícil para Lia suportar um casamento em que se sentia excluída e sem amor; um peso desnecessário. Mas, mesmo em meio a todo aquele sofrimento, Lia nunca deixou de amar Jacó [...] Lia era uma boa mulher, ela admirava seu marido mesmo sem ser amada por ele. [...] Lia era uma Mulher V [...] [Lia] continuou lhe agradando, independentemente do quão indesejada ele a fazia sentir. (CARDOSO, 2011, p. 57-59).

A construção patêmica do trecho se verifica no léxico, a exemplo de expressões como “negligenciada”, “suportar”, “excluída e sem amor”, “sofrimento” etc.. Além do mais, os imaginários que circulam em nossa sociedade sobre a situação de uma mulher “excluída” e “indesejada” pelo marido poderiam da mesma maneira suscitar emoções nas leitoras. Seja por identificação ou apenas por empatia, as leitoras estariam suscetíveis a experimentar, por exemplo, a piedade ou a compaixão. Sendo assim, é provável que essas leitoras argumentassem a favor da ideia segundo a qual a esposa nas condições descritas deveria abandonar o seu marido. Acreditamos, pois, que o operador “mesmo sem” segue a mesma estrutura (“mesmo” + negativa) de “mesmo assim não”, portanto, conforme Koch (2002, p. 173), ele seria um “operador concessivo”, que reconheceria a validade do argumento das leitoras, mas ao mesmo tempo o anularia “para tirar a conclusão contrária”: a de que Lia continuou agradando o seu marido. Além disso, o “mesmo” ainda seria uma marca de que a autora considera seu argumento mais forte que o das leitoras, mostrando que seria agindo somente daquela forma e não de outra que a mulher seria considerada virtuosa. Sendo assim, esses recursos argumentativos ajudam a construir a imagem da Mulher Virtuosa como “mulher submissa”, que tolera uma situação afetiva que não lhe favorece.

A próxima imagem da mulher “ideal” construída é a da “mãe dedicada”, a qual será retomada por meio de um excerto que já mencionamos e de sua continuação. Ao tratar da imagem da “mulher mundana”, resgatamos o seguinte trecho: “Uma mãe sacrifica momentos preciosos que ficam perdidos para sempre quando ela escolhe a sua carreira em detrimento de seus filhos” (CARDOSO, 2011, p. 110). Vejamos agora o raciocínio da autora que se sucede: “Mas a Mulher V sabe o que vem em primeiro lugar” (CARDOSO, 2011, p. 110). Entre os dois trechos citados, percebemos uma oposição de comportamentos, a qual é marcada pelo operador “mas”. Nesse sentido, enquanto a “mulher mundana” escolheria “a carreira em detrimento de seus filhos”, “a Mulher V sabe o que vem em primeiro lugar”. Assim, a autora deixa à leitora a possibilidade de subentender duas ideias. Primeiramente, a de que a “mulher mundana” não saberia o que deveria vir em primeiro lugar e, depois, o subentendido diz respeito à ideia segundo a qual “em primeiro lugar” deve vir a escolha pelos filhos. O subentendido, segundo Fiorin (2015, p. 39), “é uma informação cuja atualização depende da situação de comunicação”. Dessa maneira, com o apoio na doxa cristã seria possível levar as leitoras a fazerem tal inferência.

Outra imagem construída e ligada à Mulher V se trata da “mulher dona de casa”, a qual será retomada por nós a partir do capítulo da obra intitulado de “Ela é habilidosa”. Neste capítulo, a autora discorre sobre o que ela considera uma de suas “descobertas favoritas acerca da Mulher V: ela reconhece seu talento doméstico!” (CARDOSO, 2011, p. 152) (grifo nosso). A palavra “talento” já evoca uma certa naturalização do papel feminino como sendo o de uma dona de casa, transmitindo a ideia de que seria algo intrínseco ao feminino. Essa naturalização é frequentemente reforçada, ao mesmo tempo em que o homem é excluído dessa responsabilidade. Vejamos:

Esse [o talento doméstico] é um talento exclusivo da mulher; e no momento em que ela o reconhece como sendo seu, torna-se excelente. É como aprender a ler ou

somar. No começo parece impossível; quando criança, você se sentia como se

estivesse torcendo o seu cérebro só para ler uma única palavra, mas depois de lê-la algumas vezes, já não era mais tão difícil. (CARDOSO, 2011, p. 152).

No excerto destacado, a palavra “exclusivo” pressupõe que o “talento doméstico” não seria mais de ninguém além da mulher, ou seja, ele não seria do homem. A analogia entre a excelência da mulher para as tarefas de casa e a habilidade de “ler ou somar” aparece como um contra-argumento a uma possível ideia de algumas leitoras que poderiam pensar: “eu não levo o menor jeito para a coisa”. Assim, para aquelas que pensaram que o trabalho doméstico “parece impossível”, Cardoso (2011) se adianta e mostra que após um pouco de prática “já

não era [seria] mais tão difícil”. Ainda sobre o excerto, chamamos atenção à coloquialidade do trecho “torcendo o seu cérebro”, o qual serviria para gerar certo humor e para conferir proximidade entre a autora e as leitoras, de modo a trazer leveza ao enunciado e não parecer tão incisiva em seu posicionamento [machista].

A naturalização do papel feminino fica ainda mais evidente em outros trechos, como quando a autora menciona que não é preciso que a mulher faça muito esforço para desenvolver essa habilidade, que é considerada como “um talento nato”, uma vez que “nasceu com ela” e “está no seu sangue”. Além disso, indiretamente, nega-se a responsabilidade do homem quanto a essas tarefas: “Passe essa responsabilidade aos homens e você vai testemunhar uma verdadeira batalha masculina” (CARDOSO, 2011, p. 155). É importante lembrarmos, entretanto, que, como vimos em capítulo precedente, as mulheres foram colocadas [presas] no ambiente privado de forma arbitrária, invalidando essa tentativa de naturalização. Nesse sentido, vimos que o papel de cada gênero foi construído socialmente e legitimado institucionalmente, o que, como é possível perceber ainda continua a ser feito até os dias de hoje.

Para legitimar a ideia de que as tarefas domésticas devem ser realizadas por mulheres, a obra ainda retoma histórias bíblicas, como argumento de autoridade. São mencionadas, então, as mulheres que no tempo de Jesus “reconheciam as suas habilidades naturais como donas de casa e faziam uso delas para servirem o Senhor Jesus e Seus discípulos” (CARDOSO, 2011, p. 160). A Bíblia narra que algumas mulheres viajavam com Jesus e Seus discípulos para lhes auxiliarem com tarefas como a alimentação e o cuidado com a casa. A nosso ver, fazer com que a mulher fique em casa executando as tarefas que seriam natas a ela, aquelas que supostamente teriam sido um desígnio de Deus, foi/é uma forma encontrada pelas Igrejas de, em primeiro lugar, afastá-las do saber e, ainda, de justificar a dominação masculina. Sendo assim, as eternas filhas de Eva não poderiam adquirir conhecimento, caso contrário, provavelmente, cometeriam novos pecados, tão caros à humanidade quanto o “pecado original”.

Conforme explica Perrot (2007, p. 93), “Ao longo do século XIX [e podemos estender até os dias de hoje], reitera-se a afirmação de que a instrução é contrária tanto ao papel das mulheres quando a sua natureza: feminilidade e saber se excluem”. Se aplicarmos essa mesma linha de raciocínio a nosso corpus seria como dizer que, da mesma maneira, masculinidade e tarefas domésticas se excluem. Fato é que devido à disseminação desse tipo de pensamento, muitas vezes os homens não ajudam nas tarefas de casa com medo não só de terem sua masculinidade questionada, mas principalmente de ter seu status e seu valor

reduzidos aos das mulheres. Bourdieu (2011a, p. 66) fala de algumas formas de coragem que, na verdade, seriam uma manifestação do medo. Assim, o homem que trabalha na construção, por vezes, deixa de utilizar equipamentos de segurança para se mostrar corajoso, quando, na verdade, teme perder o valor frente aos companheiros e “ser (sic) ver remetido à categoria, tipicamente feminina, dos ‘fracos, dos ‘delicados, dos ‘mulherzinhas’, dos ‘veados’”. Acreditamos, ainda, que o medo do homem de ser comparado a uma mulher é mais amplo que a simples recategorização, o maior medo dele, provavelmente, é o de ser tratado como uma mulher.

A desvalorização do trabalho doméstico é mencionada em nosso corpus em uma tentativa de engrandecer esse serviço e as mulheres que o realizam:

Todo mundo precisa de um lugar para viver, todo mundo precisa vestir algo, todo mundo precisa comer algo, todo mundo precisa se sentir confortável em algum

lugar. Se você consegue criar uma atmosfera perfeita para as necessidades básicas de qualquer ser humano, por que você deixaria de enxergar a importância da dona

de casa? Por que alguém deveria considerar o seu papel degradante? (CARDOSO, 2011, p. 156).

Nesse excerto, a autora assevera a importância desse trabalho para “todo mundo”, mostrando que “todo mundo” seria de alguma maneira afetado se as mulheres não fizessem o que fazem, já que são elas que cuidam do lar, das vestimentas, da alimentação e do conforto de “todo mundo”. A repetição da expressão serve de reforço ao ponto de vista, que é ainda mais tonificado pelas perguntas retóricas deixadas: “por que você deixaria de enxergar a importância da dona de casa? Por que alguém deveria considerar o seu papel degradante?”. Nesse sentido, corroboramos a ideia da autora segundo a qual as tarefas domésticas são essenciais na vida de “todo mundo”, entretanto, a problemática que levantamos diz respeito justo ao que tange a naturalização dessas atividades, como sendo apenas tarefas femininas.

Apesar de tudo, não podemos deixar de mencionar que embora a construção argumentativa relacione as mulheres ao trabalho de casa, engendrando a imagem da “mulher dona de casa”, ela não as exclui totalmente da vida pública. O que percebemos é que em alguns momentos a autora de fato apresenta a mulher como figura pública, entretanto sem nunca desvinculá-la do ambiente doméstico, a exemplo do que ocorre nos seguintes trechos: “A Mulher V é trabalhadora. [...] Ela trabalha duro porque quer. Para ela, não é um fardo aprender uma nova língua, aprender a cozinhar ou aprender um novo trabalho” (CARDOSO, 2011, p. 69); “Esta dinâmica Mulher V planeja o seu dia e semana com antecedência. Tudo se encaixa perfeitamente: o seu tempo com Deus, família, casa, trabalho, o aprendizado de algo

novo, saúde e beleza” (CARDOSO, 2011, p. 104); “A beleza de tudo isso é que você pode ser uma excelente dona de casa e, ao mesmo tempo, uma excelente mãe, uma excelente esposa, uma excelente amiga e uma excelente profissional” (CARDOSO, 2011, p. 156). Fica evidente, portanto, a dificuldade em aceitar a mulher como uma figura pública sem vinculação com o universo privado, a casa, a família etc., como se para ser mulher fosse imprescindível a existência desse universo. Em nosso capítulo três, mencionamos as mulheres feministas que ao lutarem por empregos fora de casa acabaram por conseguir uma dupla jornada de trabalho, uma vez que a desvinculação do ambiente doméstico não aconteceu e, como percebemos, parece não ter acontecido ainda.

Por tudo, asseveramos que a obra analisada ainda valida e propaga o estereótipo mais tradicional da mulher: mãe, esposa, dona de casa, passional, doce e amável. Como vimos a partir do percurso realizado que relacionou mulher e religião ao longo da história, a naturalização do lugar [inferior] da mulher, suas ditas vocações para serem mães, esposas e donas de casa, não passam de uma construção criada e reforçada ao longo dos séculos pela Igreja. Todavia, observamos que o reforço a essas ideias é feito incessantemente até os dias de hoje. Bourdieu (2011a, p. 73) explica a dita “vocação” das mulheres:

[...] tem por efeito produzir tais encontros harmoniosos entre as disposições e as posições, encontros que fazem com que as vítimas da dominação simbólica possam cumprir com felicidade (no duplo sentido do termo) as tarefas subordinadas ou subalternas que lhes são atribuídas por suas virtudes de submissão, de gentileza, de docilidade, de devotamento e de abnegação. (grifo do autor).

A incapacidade do dominado de se ver como tal foi a justificativa encontrada por nós para compreender alguns trechos da obra, nos quais a autora apresenta explicitamente críticas ao movimento feminista, como em “Às vezes eu me pergunto o que aconteceu com as mulheres no decorrer dos anos que nos separou tanto de nossas raízes. Teria isso alguma coisa a ver com o movimento feminista que nos afastou de nossos valores originais?” (CARDOSO, 2011, p. 193). A falta de percepção do dominado ao compreender o arbitrário como natural e ainda a falta instrumentos que permitam ao dominado perceber a sua condição contribuem para a perpetuação de sua própria dominação/inferioridade.

A partir das análises erigidas a respeito da mulher “ideal”, a Mulher V, foi possível constatar que ainda cabe às mulheres, e somente a elas, a responsabilidade pela casa. Pelo que vimos, a figura materna seria mais importante que a paterna na criação dos filhos, de modo que o homem pudesse passar muitas horas fora de casa trabalhando enquanto era necessário que a mulher ficasse em casa dando atenção às crianças. Além disso, vimos a

história de Lia e Raquel como exemplos de submissão da mulher que deve servir e agradar o marido mesmo quando é ignorada por ele. Nesse sentido as imagens da “mãe dedicada” e da “esposa submissa” só reforçam a imagem da “mulher doadora”, aquela que abre mão de sua vida para cuidar de sua família. Unindo essas imagens valorizadas na obra com aquela desvalorizada apresentada anteriormente, a imagem da “mulher mundana”, é possível afirmar que ao contrário do que pretende sua obra, ela não apresenta traços de modernidade.

Talvez, alguns argumentem que o trabalho fora de casa mencionado seria um sinal de modernidade. Entretanto, pensemos: se à mulher cabe o cuidado da casa, dos filhos e o auxílio ao marido, é bem provável que a dedicação a um possível emprego seja inexistente, ou