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5. BULGULAR ve YORUMLAR

5.1. Birinci Alt Probleme Ait Bulgular ve Yorumlar

Enquanto a morte de Peregrino também suscita um quadro de juízos referidos pelos personagens do drama, sendo que há uma referência direta à última cena do Fédon, após a morte de Sócrates305

, a cena de sua prisão, em conseqüência de sua atuação como líder religioso cristão, descreve, por um lado, o tratamento cuidadoso a ele dedicado pelos cristãos e, por outro, a pouca consideração a ele prestada pelo governador romano encarregado de julgá-lo, avaliando a sua conduta como pautada por uma insana busca de glória. Dessa forma,

304 LUCIANO, Demônax, 11. A outra acusação, de não ser iniciado nos mistérios de Elêusis, parece ser uma

remissão a Diógenes, que também se recusara a ser iniciado; cf. DIÓGENES LAÉRCIO, VI, 39; JONES, 1986, p. 93.

são apresentadas, em relação a Peregrino, duas possibilidades de juízo, a parcialidade do narrador tingindo de forma negativa a atitude judicativa dos cristãos, uma vez que, aceitando os fatos da fé de maneira irrefletida, não seriam eles capazes de avaliar acuradamente as situações e as pessoas, podendo ser enganados facilmente por um artista da representação, tal qual Peregrino, um góes, um farsante306

. É, por conseguinte, segundo um tal estado de espírito e através de um tal juízo que “o excelente Peregrino (...) era nomeado por eles como um novo Sócrates”307.

Através de um Peregrino-Sócrates e de um Demônax-Sócrates, podemos perceber um jogo de claro-escuro no tratamento luciânico dado à figura do filósofo imbricado em questões religiosas. Mesmo que se possa dizer que Demônax constitua uma idealização elaborada segundo os valores delineados por Luciano em sua obra (isso, certamente, está vinculado à liberdade do pensador e à sua autonomia de ação em relação a qualquer credo), o fato é que Demônax é descrito, no final de sua vida, como um homem santo, que suscita nas pessoas, além da admiração, a crença num certo poder da ordem do divino308

. Tal como Peregrino, Demônax provoca a sua própria morte, mas não em busca de notoriedade pública; segundo Luciano, depois de ter vivido uma centena de anos, resolve, pela privação de alimentos, retirar-se da vida, uma vez que tinha compreendido que não podia mais bastar-se a si mesmo. Assim como os filósofos estavam presentes ao enterro de Demônax (tendo carregado o seu corpo até o sepulcro), assim também afluíram os cínicos para presenciarem a morte de seu herói, tratado por eles igualmente como homem santo.

A experimentação biográfica de Luciano (tendo assente que não consideramos o fenômeno biográfico na Antigüidade como o campo do historiador, nem de uma pretensa

306

LUCIANO, Sobre o fim de Peregrino, 13.

307

Idem, 12.

verdade histórica, embora faça uso de alguns procedimentos daquele e simule uma apropriação desta)309 apresenta-se como uma experimentação de espécies de filósofos, cuja

atuação na vida é contemplada como um drama e avaliada positiva ou negativamente, de acordo com a harmonia ou a discrepância entre o que é enunciado ou mostrado e o que é vivenciado ou dramaticamente representado. Concordamos certamente com Brandão que há uma tônica e uma constância no tratamento dado aos filósofos, que a crítica se faz menos ao filósofo em si do que àqueles que simulam uma aparência e os procedimentos referentes a determinada corrente (os filósofos pela metade, cuja conduta é marcada por mera exterioridade, sem um compromisso genuíno com os princípios éticos, espirituais e doutrinários); admitimos que nisso se descobre, de certa forma, a mesma intencionalidade dirigida a outros produtos culturais, como a história e a retórica, intencionalidade que ocasiona uma contraposição entre os discursos (caracterizados pelo compromisso com a verdade) dos filósofos, historiadores e oradores (e médicos) e a esfera de atuação dos poetas, dos pintores e dos sonhos, marcada pelo psêudos, pela “pura liberdade”310

. Concordamos, assim, que Luciano é um crítico da cultura e que sua crítica à religião (ou aos envolvidos em questões religiosas), de certo modo, possa se situar no nível geral da paidéia, concebida aquela, de forma semelhante, como produto cultural. No entanto, o fenômeno religioso parece gerar uma dificuldade para essa finalidade ou para a estratégia discursiva luciânica, pois, se há um próprio e um impróprio discurso, seja para o historiador, seja para o orador, seja para o filósofo, como se poderia definir um lógos, próprio ou impróprio, para a religião?

O que se observa é que a tática de Luciano consiste em puxar a discussão para o terreno moral, cujo parâmetro seria aquele já indicado: a coerência entre vida e doutrina. Em

309

Para o estatuto do historiador na obra luciânica, cf. BRANDÃO, 1992; para as várias concepções e apropriações do discurso histórico na Antigüidade, ver HARTOG, 2001.

vista disso é que podemos concluir que a escolha do gênero biográfico se torna, para Luciano, o meio por excelência de mostrar e pôr à prova figuras (com algum fundo histórico) cujas ações se inscrevem tanto no campo da filosofia, quanto no da religião. As figuras-modelo desse tipo de perfil são Alexandre e Peregrino, mas mesmo Demônax pode aí ser incluído; isso é possível pelo seu envolvimento pessoal em questões religiosas, quer pela sua recusa em participar de qualquer culto, quer pela atitude dos atenienses, que o tratam como um homem santo no final de sua vida e promovem sua heroização depois de sua morte. Não obstante, o seu perfil, nesse sentido, é pouco elaborado na narrativa, sendo enfatizada, mormente nas crias, a mesma opinião negativa e genérica em relação a magos e adivinhos311

que Luciano expressa em outras obras312

.

Certamente, Peregrino é a figura que concretiza melhor esse sincretismo entre filósofo e líder religioso. Com efeito, quando o narrador se refere à sua “conversão” ao cristianismo, diz que aprendeu a fundo a admirável sabedoria dos cristãos (tèn thaumastèn

sophían tôn khristianôn exémathen)313

, reportando-se ao fundador da doutrina como o sofista (sophistén) crucificado314

. Luciano, dessa maneira, parece querer classificar a doutrina cristã em termos de filosofia, o que vem a ser, a princípio, uma caracterização positiva. Tanto é assim que descreve as atividades de Peregrino, inicialmente, como voltadas para o estudo e uma formação livresca: ele interpretava e explicava obras da literatura cristã, chegando a escrever muitos livros315

. Mas não deixa também de desempenhar a função de chefe de

311 LUCIANO, Demônax, 23, 25, 34, 37; cf. BRANHAM, 1989, p. 62. 312

Cf. JONES, 1986, p. 33-45; CASTER, 1937, p. 175-178.

313

O mesmo verbo ( εξεµανθανοµεν) é empregado em relação ao aprendizado de Hermótimo da doutrina estóica, cf. LUCIANO, Hermótimo, 32.

314

LUCIANO, Sobre o fim de Peregrino, 11, 13.

315

Para a questão da pretensa autoria de Peregrino em relação às cartas de Ignácio de Antioquia, cf. JONES, 1986, p. 122; BOMPAIRE, 1958, p. 480 (n. 1).

confraria religiosa, qualificado com termos do vocabulário religioso pagão (prophétes kaì

thiasárkhes kaì xynagogeús)316.

As passagens no Peregrino acerca dos cristãos têm sido alvo de uma polêmica já antiga. Embora possa se dizer que Luciano seria relativamente favorável à conduta dos cristãos317

, a ênfase recai em sua atitude irrefletida, uma vez que se tornam facilmente vítimas de charlatães. Com efeito, o contexto narrativo que prefigura a adesão daquele ao cristianismo é o seguinte: depois de ter matado o pai, ele foge de sua cidade para escapar à punição; em seguida é que teria se dedicado ao aprendizado da sophía cristã. Assim, observa-se uma disposição narrativa que busca realçar o pouco discernimento dos cristãos ao admitir e mesmo elevar a uma posição de liderança alguém com tal caráter.

Por outro lado, Peregrino representaria menos um sincretismo do que uma justaposição de caracteres, pois, como quem troca simplesmente de figurino, passa de uma ambientação cristã (quando é preso) para um cenário de tonalidade cínica (quando volta à sua cidade e doa os seus bens, em vista de se livrar da acusação de assassinato). Luciano busca pôr em relevo essa capacidade de transformação, de ser um Proteu em vida e na morte, de atuar como um ator experiente, quer no papel de filósofo, quer no de líder religioso ou mártir. Caracterizando a vida de Peregrino como um teatro de ilusão, Luciano intenta desqualificá-lo em uma e outra função.

É necessário, de qualquer modo, considerarmos mais detidamente o contexto narrativo para avaliarmos a espécie de julgamento que está em jogo. Um dos princípios básicos que permeia todo o relato é o horizonte de morte: nesse sentido, o assassinato do pai se

316

Cf. SCHWARTZ, 1963, p. 93-94. No entanto, o que se deve deduzir daí é o tipo de público a que Luciano se dirige, no caso, um público pagão, e não necessariamente um desconhecimento absoluto por parte de Luciano, uma vez que também Celso faz essa analogia do cristianismo como uma seita de mistérios e oráculos (cf. ORÍGENES, Contra Celso, I, 7; VII, 3; OIKONÓMOU & KHRISTODOÚLOU, 2000, p. 24-25, 130-131).

317

Cf. LABRIOLE, 1948, p. 100-103; SHWARTZ, 1963, p. 61. [LABRIOLE, P. La réaction païenne: Étude sur la polemique antichrétienne du Ier au VIe siécle. Paris, 1948]

torna a ação distintiva do caráter de Peregrino, assim como, no Alexandre, a ação do sacerdote de Glícon que manda matar Luciano corrobora para o leitor sua perversidade. Tanto na prisão, enquanto cristão, como diante dos seus concidadãos de Párion, sob a aparência de um cínico, Peregrino se encontra numa situação de julgamento e na perspectiva de ser condenado à morte. Nos dois contextos, consegue evitá-lo, em um por causa do mau julgamento dos habitantes de Párion, enganados por um estratagema, em outro por causa do bom julgamento do magistrado romano, que consegue discernir a verdadeira intenção de Peregrino. O que se nota é a contraposição de duas possibilidades de morte: uma cuja causa seria justa (condenação à morte pelo assassinato do pai); a outra cujo motivo não seria relevante, pois, segundo a letra do texto, um juiz que se preza pelo seu comércio com a filosofia, julgaria uma tal morte vã e mesmo inútil outra forma de castigo. Assim, o fato é que Peregrino, representando como que o papel de um mártir cristão, não é condenado e Luciano, ao contrário de Celso318

, não dá o seu assentimento a uma atitude que simplesmente corrobora a ideologia imperial. De qualquer forma, mantém-se o argumento contrário aos cristãos, que não deixa de ser o mesmo aduzido por Celso: eles aceitam o que lhes é transmitido pelos líderes de sua doutrina sem comprovação, sem nenhuma prova exata ou justificada (áneu tinòs akriboû

písteos)319. A escolha, a adesão, a proaíresis tem de passar por um processo de julgamento,

mesmo que, no final, possa haver uma suspensão do juízo.

318 Celso, tal qual se apresenta a partir do relato de Orígenes, inicia e termina o seu discurso contra os cristãos

enfatizando que o credo cristão despreza e infringe as leis estabelecidas do Império, chegando mesmo a conclamar os cristãos a obedecerem ao Imperador e ajudá-lo na manutenção e defesa do Império Romano (ORÍGENES, Contra Celso, I, 1; VIII, 68-76; cf. OIKONÓMOU & KHRISTODOÚLOU, 2000, p. 22-23, 160- 165).

319

LUCIANO, Sobre o fim de Peregrino, 13; cf. ORÍGENES, Contra Celso, I, 9-23; OIKONÓMOU & KHRISTODOÚLOU, 2000, p. 24-29.

CAPÍTULO 3