4.3. Veri Toplama Aracı ve GeliĢtirilmesi
4.3.3. Örgütsel Ġklim Ölçeği
É certo que, da perspectiva de estruturação e de definição da narrativa sob uma concepção dramática, temos traçado um paralelo entre o Nigrino e Sobre o fim de Peregrino; porém, da perspectiva do relato do bíos e da caracterização do biografado, é possível depreender maior número de correspondências entre Sobre o fim de Peregrino e Demônax, ou mesmo, entre Demônax e Alexandre. Ainda que influenciado por várias correntes filosóficas, admirador de Sócrates, Diógenes e Aristipo, sendo descrito, assim, como eclético, Demônax apresenta, no contexto geral do relato biográfico luciânico, um modo de proceder inegavelmente cínico293. Enquanto Peregrino é cognominado de Proteu, em vista da
artificialidade do seu engajamento, pela mudança de uma doutrina a outra (exemplificada por sua adesão ao cristianismo, seguida de sua saída para adotar o cinismo), Demônax, embora
291
BRANDÃO, 1992, p. 183-188; cf. CASTER, 1937, p. 68; ADRADOS, 1979, p. 688.
292
Cf. IPIRANGA JÚNIOR, 2000, p. 45-47; PAQUET, 1990, p. 9; DIÓGENES LAÉRCIO, VI, c.1, 11.
tenha tido mestres de várias facções e correntes, adota uma posição de autonomia em relação às doutrinas, mas segundo uma conduta coerente e moralmente insuspeita.
O traço marcante que assemelha a figura de Demônax àquela de Nigrino (e que distingue as personagens, como Menipo, nos Diálogos dos Mortos, encarregadas de enunciar a perspectiva, por assim dizer, valorizada por Luciano) é o rir, o zombar, o escarnecer, expresso pelo verbo geláo e seus compostos. Com efeito, é em função dessa ação desconstrutora do riso que Peregrino intervém como personagem também no Demônax, censurando o outro por não se comportar como cínico ao zombar sempre dos homens, ao que ele retruca que aquele não age nem se comporta como homem294
. O riso tem uma função de distanciamento, de contestação das convenções, das opiniões preconcebidas, das manifestações de vanglória, da hierarquia social, do arraigamento das posições sectárias, do poder ligado aos cargos e magistraturas romanas, da ostentação de riquezas. Ele causa, de todo modo, uma espécie de corte, de suspensão da crença, de retirada da adesão dos sujeitos do discurso.
Ao contrário do Nigrino e de Sobre o fim de Peregrino, não há no Demônax, do ponto de vista do narrador, uma explicitação do caráter dramático da composição, mas é possível considerar a passagem em que se expõe a efemeridade das alegrias e tristezas humanas, em sua dependência da sorte295, uma evocação do teatro do mundo indicado no
Nigrino. Ademais, concordamos com Branham296
que as várias anedotas narradas acerca de Demônax se afiguram como vários momentos dramáticos, espécies de flashs que poderíamos aproximar, nesse sentido, da estruturação em microdiálogos dos Diálogos dos Mortos. Essas anedotas, sob a forma de crias, são a principal marca formal da obra, abrangendo a maior parte
294 LUCIANO, Demônax, 21. Há um jogo de palavras: a expressão usada tanto signifia ‘não agir como cínico’
como ‘não agir como cão’, a que se contrapõe o ‘não agir como homem’.
295
Idem, 8.
do texto297
. A estruturação em crias ou apotegmas está associada à literatura cínica, podendo suas origens remontar a Xenofonte, com sua coleção de ditos memoráveis de Sócrates298. Isso
atesta que a experimentação luciânica no terreno do bíos ocorre de forma consciente e quase sistemática, de tal modo que ele faz uma apropriação do gênero de acordo com a espécie do relato biográfico que quer evidenciar e colocar em primeiro plano.
A influência dos exercícios retóricos, os progymnásmata (crias, prosopopéias, bem como, de certo modo, a carta), é bem atestada na obra de Luciano, mas seriam estes, segundo Bompaire, pouco ou mal praticados por ele299
. Não obstante, este não parece ser o caso do
Demônax, em que se verifica a forma mais completa do emprego de crias na literatura do
segundo século300
. Em relação às cartas, como temos argumentado, explicita-se, mormente nos relatos biográficos aqui analisados, sua função na dinâmica da teatralidade e na problematização da dýnamis do discurso.
Alguns comentadores são seduzidos pela forma amável e elogiosa segundo a qual se constrói a imagem de Demônax no texto luciânico. O seu perfil biográfico, quanto ao tratamento dos tópoi do bíos no relato cronológico das ações, é comparável apenas àquele do “falso profeta” no Alexandre. Jones aceita, com reservas, alguns dados biográficos do
Demônax, mas considera haver aí um sincero envolvimento pessoal da parte de Luciano, o que
tornaria a obra uma “espécie de autobiografia indireta”301
. Entretanto, não vejo por que não considerá-lo da mesma perspectiva dramatizada do Nigrino, tanto mais porque aí não há a chancela fornecida pela assinatura de Luciano. Dessa forma, Demônax não se enquadraria na
297
Esta estruturação de um relato biográfico baseado em crias (khréiai) é curiosamente o que caracteriza a segunda parte da Vita Antonii; no entanto, aí os pequenos trechos são um pouco mais desenvolvidos que uma cria tradicional, o que se tornaria o tipo padrão de composição para as coleções de apotegmas dos padres do deserto, sucessores de Antônio.
298
Cf. DIÓGENES LAÉRCIO, VI, 20-81; XENOFONTE, Memorabilia; cf. JONES, 1986, p. 91; BRANHAM, 1989, p. 58; BERGER, 1998, p. 80-88. 299 BOMPAIRE, 1958, p. 303. 300 JONES, 1986, p. 93. 301 Idem, p. 98.
espécie de relato biográfico que temos definido e especificado na obra luciânica, pois não seria “assinado”, nem apresentaria uma forma epistolar. De qualquer modo, sua análise é funcional para nos revelar uma série de contrapontos e analogias que apresenta em relação àqueles que têm a assinatura de Luciano (Nigrino, Sobre o fim de Peregrino, Alexandre ou o falso profeta), o que denotaria uma certa sistematicidade no uso do gênero.
Em relação a Alexandre, parece-nos patente o paralelo: enquanto aí se considera vergonhoso transmitir pela memória e pela escrita (ou fornecer à memória e à escrita/ mnémei
kaì grapêi) a figura e a vida do charlatão, no Demônax, ao contrário, a vida do filósofo é
julgada digna de discurso e de memória (lógou kaì mnémes). Neste, a finalidade é preservar sua memória para que sirva de modelo (kanóna), para a imitação e emulação dos homens; naquele, o objetivo é transformar a imagem do biografado em um paradigma negativo, cuja vida deve ser contemplada como num teatro alegórico, em que ele seja despedaçado por macacos e raposas. Em um e outro, o público visado concerne aos homens instruídos (pepaideuménon) e da melhor educação e cultura (arístous)302
. Além disso, há uma correspondência entre as figuras de bandidos, Sóstrato e Tiloboro, usadas em um e outro, este, aproximado de Alexandre, caracterizado negativamente, enquanto aquele, por ser um paradigma ao lado de Demônax, recebendo um tratamento e uma descrição positivos303.
A evocação da figura de Sócrates é tão explícita no Demônax como no Peregrino, especificamente o Sócrates da Apologia. Com efeito, em ambos há uma acusação referente à atitude religiosa de um e outro biografados. Assim, Demônax sofre uma acusação semelhante
302 LUCIANO, Alexandre ou o falso profeta, 2; Demônax, 1-2. 303
O paralelo entre Demônax e Sóstratos, qualificado este como um novo Héracles pelas façanhas de heroísmo e força física, corresponde curiosamente ao paralelo entre Alexandre e o bandido Tiloboro, cuja pretensa vida escrita por Arriano não seria verificável. Desse modo, o que parece aos comentadores um testemunho confiável de Luciano acerca de uma obra que ele próprio teria pretensamente escrito sobre a vida de Sóstratos pode vir a ser um comentário tão suspeito como aquele do final de Das narrativas verdadeiras, em que o narrador promete escrever a continuação do relato em um terceiro livro.
àquela imputada a Sócrates: a de não fazer sacrifícios aos deuses304
. Demônax é levado formalmente a julgamento, sendo acusado por alguns “Anitos” e “Meletos”; as suas respostas às acusações são dadas, espirituosamente, na forma de crias, tal como esta: nunca tinha feito sacrifícios a Atena por julgar que ela não necessitasse deles. Ao contrário de Sócrates, consegue reverter o quadro e os atenienses, que já estavam com pedras nas mãos, reconciliaram-se com ele, começando a honrá-lo, respeitá-lo e, finalmente, a admirá-lo.
Como se vê, a cena de julgamento é aqui dramatizada dentro da narrativa, o que não deixa de representar uma explicitação da efetivação do discurso biográfico como um drama em que se encena um julgamento de valor, que pode receber uma coloração positiva ou negativa, em função do que é manifestado pelas ações do protagonista no desdobramento do seu bíos.