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A “Intervenção em Desenvolvimento Humano com o Grupo Cinturão Verde em Ilha Solteira” é o nome da proposta de trabalho proposto pelo COMASIS e pela Associação dos Pequenos Agricultores do Projeto Cinturão Verde de Ilha Solteira. Coordenado pela psicóloga Maria Aparecida Junqueira Zampieri, conhecida como Tina, a intervenção foi popularizada como “o trabalho da Tina”. Para sua efetivação, a mediação do engenheiro agrônomo Francisco Sérgio de Lima47 foi de grande importância, assim como da assistente social Roseli Cubo48, nessa época (1998) atuando como coordenadora do COMASIS e responsável pelo Departamento de Promoção Social da Prefeitura Municipal de Ilha Solteira.

A situação das relações interpessoais entre os integrantes do Cinturão Verde e dos associados chegou a um estado tão crítico que pode ser captado em detalhes no diagnóstico inicial elaborado pela equipe da Escola Ciclo de Mutação49:

Constituído por 75 famílias, o perfil diagnóstico do grupo vem sendo elaborado conjuntamente com os participantes ao longo de uma série de sociodramas, na sede da Associação dos Pequenos Agricultores do Projeto Cinturão Verde de Ilha Solteira, à qual a maioria está vinculada. Este é um grupo que, em estágio inicial apresentou-se indiferenciado e desvinculado enquanto membros de sua Associação. Apresentou-se ainda com baixo nível de auto- percepção, quanto ao próprio nível de amadurecimento e

47 Contratado desde o inicio de 1993 como agrônomo do Setor Agropastoril da Prefeitura Municipal, Sérgio permaneceu neste setor até o final de 2004, quando ingressou, via concurso público no INCRA – Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária, em Campo Grande – MS.

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Roseli havia participado em Ilha Solteira, durante o ano de 1998, de um curso de Especialização em Psicodrama e, reconhecendo a importância que um trabalho dessa natureza, poderia trazer para a comunidade assentada, contribuiu para a viabilização da aprovação da proposta no âmbito do COMASIS, a quem cabia a liberação dos recursos necessários para sua realização, A partir de janeiro de 1999, a assistente social Rosei Carneiro passa a ser a diretora do Departamento de Promoção Social da Prefeitura de Ilha Solteira e, assim como sua colega, com formação em psicodrama, contribuiu para a continuidade deste trabalho.

49 Clínica-Escola Ciclo de Mutação: cibernética, psicodrama e psicoterapia, instituição dirigida por Cristina Zampieri e seu marido Roberto Zampieri, localizada em São José do Rio Preto – SP.

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autonomia. Apresentou-se também indiferenciado quanto ao propósito de subsistência ou meta de organização, seja individual ou grupal, quanto ao uso da terra e engajamento dos descendentes na mesma. Mostraram-se bastante desanimados com seu futuro, sem argumentos para vincular os filhos que, em boa parte já não moram com eles. Apresentaram descrédito quanto à possibilidade de êxito e quanto à subsistência pela terra própria e descrédito quanto à Associação a que pertencem, que só buscam quando necessitam utilizar o trator. Boa parte das famílias nem mesmo fazem os acertos mensais. Mostraram também descrédito, insatisfação e desinformação quanto aos critérios utilizados para os escalonamentos de serviços do referido trator. Ao longo do trabalho identificaram sua situação de longevidade, 15 anos de existência como membros do Cinturão Verde, cronologicamente adolescente, porém perceberam-se como defasada do nível de amadurecimento e autonomia esperado por eles próprios, comparando com o seu nível de amadurecimento individual nesta faixa etária. Verbalizaram perceber-se como um grupo infantilizado “filhos pequenos à espera da mãe Cesp”, seguida depois da mãe Prefeitura Municipal. Destas fontes proviam o suprimento de necessidades, por vezes básicas, as iniciativas, fossem elas para novos investimentos agrícolas fossem para orientação e cursos, que habitualmente receberam prontos e isentos. Nesta vinculação a Prefeitura Municipal complementava e fortalecia esta relação oferecendo “toda condição” àquela população, contribuindo para a auto-regulação homeostática e em conseqüência, para o rótulo de dependente.50

No mesmo momento em que o trabalho da psicóloga estava sendo desenvolvido, um outro era iniciado por docentes da área de sociologia e extensão rural da Unesp de Ilha Solteira, denominado Diagnóstico Rural Participativo ou DRP. Sua condução foi realizada através de uma parceira entre a Associação dos Pequenos Agricultores do Cinturão Verde de Ilha Solteira, através de sua diretoria, a

50 Documento entregue pela coordenadora do Trabalho “Intervenção em Desenvolvimento Humano” aos responsáveis pela condução do Diagnóstico Rural Participativo. Ver também Zampieri (2004).

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Equipe Técnica do Setor Agropastoril da Diretoria de Planejamento e Desenvolvimento da Prefeitura Municipal de Ilha Solteira e os docentes envolvidos.

Na reunião realizada na Sala 17 da Prefeitura Municipal, no dia 10 de dezembro de 1998, foram apontados como principais problemas da Associação, a falta de confiança entre as pessoas; a falta de Interesse, e falta de motivação dos associados para a transformação do estado em que a mesma se encontrava - ou seja, um quadro repleto de problemas de diversas

naturezas.

No momento da realização desta reunião, acabara de ser realizada no dia 15 de novembro, a eleição da nova diretoria da Associação dos Pequenos Agricultores do Cinturão Verde de Ilha Solteira, implicando na substituição de vários diretores e na necessidade de atualizá-los sobre o trabalho do DRP em desenvolvimento, desde o final de agosto de 1998.

Nesta mesma reunião, foram apresentadas diversas propostas como: a realização de Termo de Compromisso Escrito entre os envolvidos; realização de Mutirões, Trocas de Serviços, adaptando estas práticas à realidade atual; formação de Grupos menores através de critérios como o de afinidade entre os membros ou o interesse por assuntos, temas, problemas e necessidades comuns; demonstração de resultados concretos, palpáveis, visíveis; elaboração

de projetos com os grupos de interesse que se formarem; construção de parcerias que possibilitem sinergia de forças (como o caso do Trabalho da Tina e o DRP); elaboração de um diagnóstico da situação financeira lote a lote; intensificação do trabalho com os jovens;

priorização de trabalhos com os interessados e indecisos, isolando inicialmente os que são contra; intensificar as ações de extensão rural propriamente ditas, ampliar os relacionamentos

e intensificar a comunicação; abranger todos os aspectos da agricultura (“antes, dentro e depois da porteira51”), e associar as ações que já estão sendo feitas (pela Associação, pelos técnicos, por grupos de agricultores, etc.) com as novas ações a serem desenvolvidas. Como se pode perceber, um leque razoavelmente amplo de propostas, revelando tanto o estado em

que se encontrava o Cinturão Verde naquele momento, como também a disposição dos envolvidos em modificarem esta situação.

51 Expressão que denota os vários elos existentes na chamada cadeia de produção, envolvendo os aspectos prévios à produção (necessidade de aquisição de insumos, por exemplo) a produção propriamente dita, e todas as atividades após a colheita até chegar ao consumidor final.

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Para tanto foi definida uma estratégia de ação, que preconizava a promoção de maior envolvimento dos diretores da Associação; uma participação ativa dos diretores e dos assentados; e o estabelecimento de um planejamento mínimo apontando o que fazer, como fazer e quando fazer, além de um inventário junto à comunidade do Projeto sobre os erros e acertos ocorridos até então no Cinturão Verde, com a busca da compreensão de seus motivos ou causas e conseqüências.

Apesar do sucesso das etapas em evidenciar a situação dos lotes e os problemas enquanto diagnóstico propriamente dito de uma situação real, problemas de ordem pessoal, do relacionamento interpessoal, que remontam a toda uma história de vida, desde o início do projeto em 1984, ainda foram considerados os principais problemas nesta reunião, como apontado acima.

A síntese desta reunião representou o ponto de partida para os próximos passos a serem dados em 1999. Aos 21 de dezembro, na última reunião ocorrida no ano, deliberou-se pela realização de um curso de 16 horas, a ser ministrado em dois dias, pelo engenheiro agrônomo Tetsuo Nohara, da FETAESP – SP, sobre Desenvolvimento Local Sustentável e Diagnóstico Rural Participativo, dirigido ao grupo coordenador do DRP de Ilha Solteira e a um grupo de produtores rurais do próprio Cinturão Verde num total de 25 participantes52.

Na quinta-feira, dia 14 de janeiro de 1.999, também na sala 17 da Prefeitura Municipal ocorreu uma reunião com a participação da psicóloga Maria Aparecida Junqueira Zampieri (“Tina”), o engenheiro civil Roberto Zampieri - ambos do Ciclo de Mutação: cibernética, psicodrama e psicoterapia - do engenheiro agrônomo Francisco Sérgio de Lima, dos técnicos em agropecuária Antônio Eugênio Guidorissi e Fernando Martins, integrantes da equipe técnica do Setor Agropastoril da Prefeitura Municipal de Ilha Solteira, da assistente Social Roseli Carneiro, nova presidente do COMASIS e responsável pela Diretoria de Serviço Social da Prefeitura e deste docente para uma avaliação do Projeto Intervenção para Desenvolvimento Humano com o Grupo Cinturão Verde de Ilha Solteira.

O documento apresentado por Tina e Roberto na ocasião, fazia uma síntese do trabalho até então realizado, apontando as diretrizes para o próximo período,

52 Este curso foi realizado nos dais 20 e 21 de fevereiro de 1.999, das 08 às 18 horas nas dependências do Centro Odontológico da Prefeitura Municipal de Ilha Solteira

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além de fazer menção ao “Perfil Diagnóstico”, já descrito. Os rumos definidos para a continuidade do Projeto coordenado pela Tina apontaram para uma perspectiva convergente com os objetivos buscados pelo DRP, ou seja, de se trabalhar exatamente sobre aqueles principais problemas identificados na reunião de 10.12.98, além de se efetuar um trabalho de valorização das atribuições e responsabilidades dos membros da diretoria, contemplando a questão da comercialização, inclusive com a realização de pesquisa de mercado já iniciada pelo engenheiro agrônomo Valdivino Gomes, membro da diretoria da Associação, além de abranger os projetos também aprovados pelo COMASIS, a saber: lavoura comunitária; processamento de frutas e legumes, e oficina de costura.

A confluência de contribuições de distintos órgãos ou organizações em torno de uma problemática é também reveladora de uma proposta de intervenção numa perspectiva de totalidade, como a que se verificou em torno do Projeto Cinturão Verde de Ilha Solteira, em que a Prefeitura Municipal enquanto poder público se apresenta através do Setor de Agricultura e da Diretoria de Serviço Social, ao lado de organizações do hoje chamado terceiro setor, como o COMASIS, o Sindicato de Trabalhadores Rurais de Pereira Barreto, a própria Associação dos Pequenos Agricultores do Cinturão Verde e ainda o curso de agronomia da Faculdade de Engenharia da FEIS / UNESP, emergindo como parceiros na busca de um objetivo comum: o desenvolvimento social e econômico da população que ali vive e trabalha.

4.9 As Implicações do Diagnóstico Rural Participativo e do Projeto Intervenção