ÇETİN SARIKARTAL STÜDYOSU
6- Ya da bireylerin sürece hiç giremediği de olur mu?
Antes de sugerirmos sugestões ou expormos questionamentos para futuras especulações, convém relembrarmos alguns pontos deste trabalho com maior realce e, deste modo, repensarmos suas explicações.
No que diz respeito ao riso suassuniano, vimos que ele nada mais é que um processo de recriação estética, pois a primeira coisa a ser percebida na encenação do teatro de Ariano é a forma como o cômico e o humor adotam diferentes sentidos, ou melhor, faces. Cada uma delas é fundamental no jogo cênico, amoldando com precisão o personagem-tipo em toda a ação que se desdobra, sem riscos de adulteração para o que a obra quer mostrar acerca do homem universal, representado, neste caso, pelo sertanejo sofredor. O riso em Suassuna só surte efeito quando produzido em conjunto com uma série de dados que vão desde a própria duplicidade da natureza humana, ora boa, ora má, até os aspectos situacionais ou históricos (o meio influindo na mecânica dos gestos do homem e as origens do ato de rir).
A estética da arte abraça todas essas ilações, porque preenche o seu campo de conhecimento com o que a Filosofia propõe. A verdade é que desde os primórdios, ela se chamava Filosofia da Arte. O grande desafio do artista, em qualquer gênero da arte, é a busca pelo ideal, e este só é conseguido com a noção de Beleza. No momento de se encarar o objeto artístico, repara-se no quanto de beleza ele pode ter, seja essa beleza construída com fins positivos para provocar o bem-estar, seja com o intuito de causar o desconforto no espectador (no caso da dramaturgia). Nisso, o risível encontra termo para também se consolidar como estilo frente ao trágico e a outros gêneros da obra de arte. A partir daí, acaba-se verificando a relação do riso com a Filosofia, já que um e outro exercitam o pensamento. Assim, o ato de rir exige perspicácia e habilidade cênica por parte de quem o faz. E mais do que tudo, a comicidade poderá ter um determinado significado em certa circunstância, lugar ou época, sofrendo variações de sentido permanentemente, como se a risada tivesse várias máscaras. Tal metáfora que deu título à parte inicial desta pesquisa justificou, talvez, o nosso propósito de provar uma das metas do riso, anunciada antes: a multiformidade.
O caráter metamórfico foi comprovado através de passagens dos textos escritos para teatro aqui destacados. Em muitos deles, o cômico, por exemplo, se
apresentou como uma deformidade das formas ou objetos em cena, aos quais alguns personagens faziam referência, como: a constituição física da pessoa comparada a de um objeto, demonstrando que, para o inconsciente humano, toda forma de vida precisa estar sempre em constante transformação, da mesma maneira que se comparava o ser humano aos animais irracionais, pelas semelhanças comportamentais que existiam entre ambos em certos casos. Nesse meio, chegamos também a um acordo quanto à verdadeira função da paródia, a de modificar o conceito que se possa ter referente a um determinado signo lingüístico ou semiótico, e a teoria da carnavalização de Bakhtin, que trabalhamos ao longo do estudo, melhor soube nos detalhar isso. Em outras palavras, o que essa teoria explana é que há a possibilidade de modificar a definição ou idéia de um objeto, subvertendo a sua forma original e, conseqüentemente, ter-se-á algo grotesco, lembrando que nosso objetivo aqui é lidar com o grotesco cômico, porque em algumas tentativas de deformidade o grotesco pode entrar no campo do trágico ou horrendo.
Além do Cômico como subcategoria do Risível enquanto tipo de Beleza que trata de enxergar o homem em suas imperfeições, rebaixando-o pelo seu lado mecânico de ser, com os seus gestos e atitudes físicas aparentemente repetitivas e imutáveis, existe outra que elucidamos: o Humor. Este já direciona a gargalhada para o campo do intelecto. Vimos que no teatro de Suassuna ele se manifesta, principalmente, pelo chiste. Uma expressão ou palavra usada em certo sentido é alterada para dar a entender outra coisa em sentido engraçado, muitas vezes, até ridicularizando o interlocutor. Para isso, as técnicas utilizadas só nos mostraram que nessa outra subcategoria estética do Risível o ato de rir no homem pode ser ainda mais complexo do que se possa imaginar. Freud foi um dos precursores a buscar qual a ligação do humor com o inconsciente, conforme fora exposto em nossa análise, mas tudo o que conseguiu foi deixar-nos ainda mais curiosos a investigar o porquê de em certas ocasiões uma pessoa ri sozinha. Cremos que aí cabe uma apuração ainda profunda, quiçá com material teórico especializado em psicanálise, caso futuras pesquisas tendam a trilhar por esses caminhos.
Os sonhos têm uma correlação com os chistes. Isso foi mais ou menos discutido no decorrer da obra, todavia, sem aprofundamentos por questões de tempo. Por outro lado, auxiliou-nos a levantar a seguinte pergunta: haveria algum mecanismo
psíquico que provocaria a risada, uma vez que o chiste está ligado à imaginação, a atividade inconsciente e onírica? No caso do otimismo cômico e da mentira de que os personagens da dramaturgia suassuniana se apropriam para não serem injustiçados nem padecerem diante do meio social aniquilador, um maior amadurecimento investigativo certificaria aos estudiosos do assunto a existência de uma tendência ao sobrenatural como justificativa à constituição da lídima natureza humana, aqui a toda hora posta em debate. Não podemos esquecer que Ariano sempre teve esses pontos bem enraizados em seu estilo desde a infância, quando vira o circo pela primeira em vez em Taperoá (PB). Nos textos de dramaturgia aqui lidos, é perfeitamente visível a simpatia que ele tem pela magia do circo, no qual tudo é permitido e reinventado. Logo, as técnicas retiradas da atividade circense povoam as ações dos personagens, conduzindo a trama, algumas vezes, a momentos engraçados que divertem o espectador. Os palhaços e saltimbancos são, se observarmos com cautela, as duplas bastante mencionadas no decorrer da leitura: Chicó-João Grilo, Cancão-Gaspar, Caroba-Pinhão, Simão-Nevinha, Benedito-Pedro. O público ri de suas artimanhas e sai do espetáculo rejuvenescido, pois, por certos instantes, esquece o grave sentimento trágico da vida que o acompanha no cotidiano.
Que o riso traz o homem à vida, depois que este se perde nas conturbações do mundo, está mais do que comprovado. A nossa curiosidade nos levou a esse ponto da investigação para que avaliássemos a sua representatividade para a cultura do Brasil, nos fazendo entender por que o brasileiro gosta de ri. Quando perguntado a respeito de ter abandonado temporariamente o gênero trágico, que marcou sua tarefa como teatrólogo desde o princípio, para dedicar-se ao gênero cômico, Suassuna, na entrevista intitulada Cabras e mamulengos versus Super-homem, cedida à Revista Continente Multicultural, não hesita em declarar:
É, porque o povo brasileiro gosta muito de rir. Então a diferença de popularidade, digamos assim, entre o autor de peças cômicas e o autor trágico, é grande, há uma diferença muito grande em favor do autor cômico, como também existe uma diferença muito grande entre o meu teatro e a minha poesia, que é praticamente desconhecida. (2002e, p. 11)
A descoberta de que o riso está enraizado na composição psicocultural do brasileiro nos subsidiou na procura por um ponto de vista sobre as suas origens como atitude no homem que o faz repensar a sua própria formação cidadã. No teatro de Ariano Suassuna, autenticamente moralista, pudemos observar que aqui o humor passou a integrar o caráter do povo em função de sua herança cultural. Tal relação deixou clara a resposta do texto suassuniano que se mostrou fiel a essas questões e, ademais, nos provou que o Nordeste, com seus costumes e sua língua, cheia de regionalismos, é a foz da fidedigna cultura brasileira. Cremos que o nosso exame nos recomenda a adentrar mais por essa vertente antropológica a fim de que esclareçamos sob uma perspectiva universal laços entre a nossa constituição enquanto cidadãos e a de outras nações, possivelmente, assim como Portugal, que tanto ajudaram a escrever a História deste país. Outro ensaio abrangente tal qual este, quiçá, sirva para encaminhar-nos com segurança por essa direção.