1. GRAMSCİ VE FELSEFİ SERÜVENİ/GELİŞİMİ
1.1. Gramsci ve Hegemonya Kavramının Gelişimi
1.1.1. Bir Kavram Olarak Hegemonya
Com e a partir de Foucault pude compreender que é possível exercitar um olhar que pergunte, desconfie, suspeite, desalinhe, encontre [ou não] sentidos, efeitos, dissensos, perspectivas no campo das pesquisas educacionais. Olhar para “ver” o que de repente outrora deixamos de ver. Olhar que oportunize pensar sobre a escolarização de Hansenianos e os modos como ela pôde ter se constituído em uma experiência transgressora em Educação.
Por que trazer à luz vidas de ex-Hansenianos? Vidas esquecidas nos arquivos7, vidas prisioneiras de um discurso e de um dispositivo de vitimização?
[...] podemos imaginar em toda parte, antes de nós, longe de nós, depois de nós no futuro, mil variações humanas possíveis, mil “verdades” passadas, futuras ou exóticas, verdades de um tempo limitado e de um lugar dado. Nenhuma dessas “verdades” será mais verdadeira de que as nossas, mas o que acabei de escrever é verdadeiro. Destes homens de outrora, de outra parte ou de amanhã, talvez não saibamos nada, mas sabemos ao menos que são homens como nós, prisioneiros de um discurso e de um dispositivo, e livres pela metade; são nossos irmãos. Ser curioso em relação a outrem, não o julgar, isso não é um humanismo? Vocês prefeririam mais dogmatismo edificante? (VEYNE, 2011, p.128).
Para Foucault “vidas paralelas” são aquelas que marcadas por uma singularidade radical acabam conhecendo a condenação e a desqualificação como encarnação maligna do outro. Foi a partir desta nesta perspectiva, que ele realizou uma analítica de discursos autobiográficos contidos nos dossiês médico e jurídico, respectivamente, de Herculine Barbin e Pierre Rivière8 . Ele quis pensar aquelas e não outras vidas.
7 Para Silva (2000) “na nomenclatura de Michel Foucault, o ‘arquivo’ não é simplesmente um conjunto de
textos, discursos ou enunciados, mas o conjunto das regras e leis que definem os limites e formas daquilo que pode ser dito numa determinada época, bem como as regras e as leis que determinam enunciados e discursos que estão sujeitos a permanecer ou desaparecer, a serem lembrados ou esquecidos ou definitivamente abandonados.
8 Pierre Rivière, um jovem camponês que matou a golpes de foice a mãe grávida, a irmã adolescente e um irmão
de sete anos. Preso escreveu um longo depoimento sobre as razões de seu ato. Herculine Barbin, uma hermafrodita obrigada a assumir seu verdadeiro sexo, antes de se suicidar, deixou suas memórias relatadas em um diário. Essas duas estranhas e selvagens autobiografias, juntamente com os dossiês médicos e jurídicos que as acompanhavam, foram trazidas à luz por Foucault. (ANDRADE, 2007)
Os antigos gostavam de colocar em paralelo as vidas dos homens ilustres; escutavam-se falar através dos séculos destas figuras exemplares. As paralelas, bem sei, são feitas para se unirem no infinito. Imaginemos outras que, indefinidamente divergem. Sem ponto de encontro, nem lugar para as recolher. Frequentemente elas não tiveram outro eco senão o de sua condenação. Seria necessário apanha-las na força do movimento que as separa; seria necessário redescobrir o rastro instantâneo e fulgurante que as deixaram quando se precipitaram para uma obscuridade onde “isso já não conta” e onde todo o “renome” é perdido. Seria como o inverso de Plutarco: vidas a tal ponto paralelas que já ninguém as pode reunir (FOUCAULT, 2006, p. 499).
Com sua acepção de “vidas paralelas” Foucault se contrapôs a concepção de Plutarco ao realizar uma inversão e um deslocamento do termo. Para Plutarco as vidas são exemplares porque mesmo sendo de homens diferentes em algum ponto elas se assemelham, se encontram e passam a servir de exemplo. Ao contrário, Foucault pensou e colocou em cena outras vidas não por considerá-las exemplares, convergentes, mas porque para ele elas se apresentaram como alteridades extremas condenadas pela sua singularidade (ANDRADE, 2007).
As vidas colocadas em cena na analítica foucaultiana foram aquelas esquecidas, silenciadas. As vidas de homens não-exemplares, “desclassificados”, do Outro que foi construído como não-humanidade.
Foucault percebeu em suas análises que aquelas vidas silenciadas deixaram para trás um rastro antes da desclassificação e do silêncio a que foram condenadas. Ele buscou nas falas dos silenciados, falas de resistência que emergem como lutas e oposição ao movimento de silenciamento.
Trabalho com personagens e processos obscuros por duas razoes: os processos políticos e sociais que estruturaram as sociedades européias ocidentais não são demasiado claros, foram esquecidos ou se converteram em habituais. Formam parte de nossa paisagem mais familiar, e não os vemos. Porém em seu dia, a maioria deles escandalizaram as pessoas. Um de meus objetivos é mostrar que muitas das coisas que formam parte de sua paisagem – as pessoas pensam que são universais – não são senão o resultado de algumas transformações históricas muito precisas. Todas as minhas análises vão contra a idéia de necessidades universais na existência humana mostram a arbitrariedade das instituições e mostram qual é o espaço de liberdade de que ainda podemos desfrutar, e quais transformações podem ainda realizar-se (FOUCAULT, 2010, p. 295-6).
Encontro em Foucault uma ancoragem teórica no conceito de Vidas Paralelas que permitiu considerar que o “outro” Hanseniano também foi vitima de um processo de desclassificação e silenciamento sendo apontado como uma não-humanidade portadora de uma existência danificada, ineficiente, deteriorada, mutilada, anormal em um processo de institucionalização no qual a escola também se inseriu.
Esta proximidade teórica não permite tomar suas vidas e vivência de escolarização como exemplares - verdadeiros exemplos a serem seguidos hoje. Mas, sobretudo, possibilita pensá-las como singularidades, vivências genuínas de uma escolarização que irrompe para além da idéia normalizadora e universalizante pensada e proposta no absurdo daquele contexto histórico de segregação e controle e se constitui como transgressora.
Em A vida de homens infames (2006, p. 237) Foucault mostra a valorização das vidas não exemplares, dos acontecimentos quase nunca notados, mas que são reais mesmo que não se dê conta de suas existências. Vidas e histórias “minúsculas”, “vidas breves, reencontradas ao acaso, vidas singulares, estranhos poemas”.
Acreditei na possibilidade de que pela “experiência infame”, de “indivíduos infames” fosse possível pensar sobre experiências menores que muitas vezes passam despercebidas, mas que são reais, existem, estão lá na antiga colônia e aqui nas mais variadas experiências de escolarização vividas em escolas ribeirinhas, escolas do campo, da cidade e até mesmo onde a educação se faz em ambientes não escolares. Vislumbrei que a pesquisa também pudesse contribuir para problematizar modos singulares de existirmos como professores\educadores hoje e, de perguntar pelas experiências que estes dão para si mesmos na relação consigo mesmo e com os outros, no cuidar de si e do outro, permeadas por relação de amizade em torno de uma educação viva e estética e eticamente orientada.
Com isso não desejo afirmar que as experiências de escolarização de Hansenianos sejam exemplos a serem seguidos na contemporaneidade, pois isso soaria como contraditório para uma pesquisa que toma como inspiração a história crítica do pensamento desenvolvida por Foucault em seus procedimentos analíticos e, como a própria idéia de transgressão defendida nesta tese.