A doutrina econômica da globalização é o neoliberalismo com seus cânones do livre-mercado sem limites a partir deste quadro “o mercado é bom e interferências do Estado são ruins87, de sorte que o capitalismo da globalização impõe a sua visão, a mesma receita a qualquer país, não se importando com suas diferenças. Neste aspecto lembramos as palavras de Florestan Fernandes:
87MARTIN, Hans-Peter e SCHUMANN, Harald. A Armadilha da Globalização. São Paulo:Globo,
A globalização, para o Brasil, tem um sentido ultranegativo. Extensa parte de nossas classes dominantes experimentarão as agruras das velhas burguesias compradoras. O ‘neoliberalismo’ difunde mitos inferiores aos do “um mundo só” e da “aliança para o progresso”. Pregam-se, por isso, fórmulas insensatas como o “Consenso de Washington”. 88
A lógica operacional deste sistema de leis de mercado tem a finalidade de instituir um poder paralelo ao poder Estatal de maneira a inverter perversamente o eixo gravitacional do poder do Estado para os grupos econômicos.
Não sendo possível controlar diretamente o Estado busca-se cooptá-lo de maneira distinta a do seu poder exercido diretamente.
A lei de mercado embute em si própria uma espécie de terrorismo social. Este terror é construído com base na idéia de que só há uma alternativa possível, o atual modelo econômico vigente e que este, por sua vez, é o único caminho possível para a prosperidade e paz geral de todos. Uma espécie de predestinação e suposta linearidade histórica pela qual o mundo irreversivelmente tem de passar, suportando a tudo.
E diante desta premissa, a fome, a miséria, o agravamento da pobreza e a crescente miserabilidade humana seriam “efeitos colaterais” ante a um suposto futuro que a globalização traria, mas que futuro seria este então para os sucumbiram?
Em verdade, a globalização poderia , sim, trazer um extraordinário panorama de integração humana em nível mundial, mas dentro de um espírito da solidariedade, jamais no da competitividade, razão pela qual o que se critica é a globalização atual e seus alicerces. Por isso a conclusão que outros caminhos são possíveis, em suma, que uma outra globalização é possível.
Fato que a política neoliberal faz parte dos mecanismos que envolvem a globalização e sua origem não é recente, tanto como a globalização também não é. Friedrich Von Hayek89 que estimula-se como força ao ataque contra qualquer
88 FERNANDES, Florestan in “Globalização e o neoliberalismo”. Folha de S. Paulo, 26/11/1994. 89 HAYEK, Friedrich August Von. O caminho da servidão. 2º ed. Porto Alegre: Globo, 1997, passim.
limitação dos mecanismos do mercado por parte do Estado e seu pensamento desembocou com força no neoliberalismo da década de 90.
Friedrich Hayek se opõe a economia planejada ordenada por um Estado de cunho regulador na circulação de capital e nesta linha neoliberal há ainda Milton Friedman, Karl Popper, este que de comunista tornou-se liberal.
O neoliberalismo trouxe gravíssimas consequências sociais como o sucateamento dos serviços públicos, desemprego em massa, aumento da concentração de renda e desigualdade social que atacam o seio do mínimo existencial na medida em que de desenvolve mecanismos de Estado que ao invés de servirem para a consecução dos objetivos da República, vão em sentido contrário. Uns sustentariam que se trata de uma postura política inconstitucional, outros de uma conduta verdadeiramente de lesa-pátria.
Celso Furtado90 dizia que os Estados Unidos assumem a função de banqueiro central, não se deixando de lado o exame que se faz nas teses neoliberais de que ajustes macroeconômicos nacionais e subordinando os países aos fluxos de capitais internacionais implicam no aprofundamento das mazelas sociais.
A questão da técnica cessível a poucos, o idioma inglês como principal na tecnologia o dólar como moeda comum e as dinâmicas geopolíticas dão conta de dar ritmo aos mecanismos de uma globalização que não converge o mundo em um território único sem fronteiras, mas o afasta cada vez mais disso.
Com a idéia de supressão do Estado tenta-se introjetar a idéia de que tudo iria melhorar, mas na verdade a realidade é cristalina em manifestar os devastadores efeitos deste desmonte do Estado pela globalização sob a batuta da política neoliberal: mais miséria e desigualdade:
Afirma-se, também, que a “morte do Estado” melhoraria a vida dos homens e a saúde das empresas, na medida em que permitiria a ampliação da liberdade de produzir, de consumir e de viver. Tal
90 FURTADO, Celso. O longo amanhecer: reflexões sobre a formação do Brasil. Rio de
neoliberalismo seria o fundamento da democracia. Observando o funcionamento concreto da sociedade econômica e da sociedade civil, não é difícil constatar que são cada vez em menor número as empresas que se beneficiam desse desmaio do Estado, enquanto a desigualdade entre os indivíduos aumenta.91
A partir daí, finca-se na mente de todos, idéia da via única, do caminho sem volta, onde qualquer um que ouse pensar diferente corre o risco de ser taxado de louco ou desajustado.
Este conjunto de “leis naturais” que legitimam este “caminho único” não passa por um processo legislativo, tão pouco representa a vontade soberana do povo. O processo de criação das leis deste modelo econômico-capitalista é feito exclusivamente por aqueles que são os beneficiários diretos das vantagens do atual sistema.
A lei de mercado é a representação máxima do ideário capitalista atual, materializados nesta globalização perversa.
O modelo atual prega a liberdade das operações econômicas, mas não uma liberdade em que todos possam participar livremente do processo, mas uma liberdade de dispor dos interesses econômicos sem interferência do Estado. Na verdade prega a liberdade de dizer o que fazer com a economia, algo contrário a soberania do povo e, por conseguinte, do próprio Estado.
Por exemplo, imagina-se que qualquer sistema econômico prescinde de pessoas, sem estas não há economia, podemos compreender a dimensão deste poder. Economia é sinônimo de relação entre pessoas, mas aqueles que pregam a liberdade de atuação querem dispor dos interesses das pessoas, no âmbito das suas relações econômicas, sem as interferências destas.
Pois, compreender o sistema econômico inteligentemente é observar o processo de hipossuficiência a qual está inserido tanto o trabalhador quanto o
91 SANTOS, Milton. Por uma outra Globalização: do pensamento único à consciência universal.
próprio consumidor dos bens produzidos economicamente. Se estes sozinhos são hipossuficientes, ainda que numericamente maior, no âmbito do Estado poderiam ser suficientes per si na defesa de seus interesses.
Parece haver uma crise, ou várias crises, de Estado, sobretudo.
Observa-se que o processo de escolha dos governantes passa ao largo da verdadeira representatividade dos interesses do povo, é mero simulacro eleitoral no qual qualquer postulante ao executivo do Estado deve fazer juramento prévio aos postulados das leis naturais de mercado que ,não raras vezes subjugam a própria Constituição, maior absurdo não há.
Este processo ocorre devido à sofisticados mecanismos ideológicos, que passam pela desassistência do Estado à pessoas e principalmente por uma escola que não liberta. Aquela “educação como forma de intervenção no mundo”92 parece distante Paulo Freire há muito tempo já advertia acerca da prática educativa critica como relevante nos exames dos reflexos decisivos da “nova ordem mundial”, apresentados como naturais e inevitáveis a qual todos do povo, do mais humilde até mesmo o mais intelectualizado, são submetidos. Vive-se uma ditadura econômica na qual quem se opões, de uma forma ou de outra, sofre os mais variados ataques de maneira virulenta.
Este mecanismos úteis à globalização e que transforma a noção de cidadania – pouco efetiva e sempre distante – em um conceito belo são propagadas, porém a sua prática é manca e quase inatingível. Não leva a lugar algum que não sejam os de interesse das classes dominantes e abastadas e obesas na manutenção de uma realidade que lhes interessa.
E o que implica esta dinâmica?
Tal sistemática corrompe o direito, pois viola de plano o seu maior garantidor: o Estado, e atacando seus elementos constituintes o intento é alcançado.
A soberania, o território e o povo estão a deriva no mundo do mercado global.
Assim, com advento das novas tecnologias, a partir da II Revolução Industrial, intensificou os processos econômico-sociais.
A partir daí, instauro-se um processo de mundialização93 de determinados processos e técnicas a serviço de interesses privados e de um grupo privilegiado de países.
A peça geratriz do processo, atualmente reconhecido como “globalização”, foi o incrível aumento da velocidade das transações econômicas, com raiz nas redes globais de comunicação.
Com acentuada visão das mudanças no espaço, Milton Santos apontava que:
Também já vimos que as redes são mistas, e as incluem materialidade e ação. A rede técnica mundializada atual é instrumento da produção, da circulação e da informação mundializadas. Nesse sentido, as redes são globais e, desse modo, transportam, o universal ao local. É assim que, mediante a telecomunicação, criam-se processos globais, unindo pontos distantes numa mesma lógica produtiva. É o funcionamento vertical do espaço geográfico contemporâneo.94
Nos dizeres de Celso Furtado95, devemos distinguir dois tipos de globalização: “a abrangente das atividades produtivas e a globalização dos fluxos financeiros e monetários”. A diferença entre elas é que a primeira é um processo antigo oriundo da evolução tecnológica, enquanto a segunda é ligada aos fluxos financeiros e monetários que giram em torno dos países pertencentes ao primeiro mundo, centros do poder, tendo como pólos “os Estados Unidos, a Eurolândia e o Japão”.
E qual seria ,então, o sentido da globalização atual?
93 A dita globalização.
94 SANTOS, Milton. A Natureza do Espaço: Técnica e Tempo, Razão e Emoção / Milton Santos.
4º ed. reimpr. São Paulo: Edusp, 2006. - (Coleção Milton Santos; 1) p. 227.
95
FURTADO, Celso. O longo amanhecer: reflexões sobre a formação do Brasil. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1999. p.36.