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A ausência de respeito ao direito fundamental da vida, que é o direito de se manter vivo e ter uma existência com qualidade, a violação ao principio da di- gnidade humana, em especial sob seu aspecto material, e as dificuldades da vida na cidade em face do seu crescimento desmesurado e desordenado, do fenômeno da massificação e da crescente onda de violência, são fatores que impedem o acesso do homem a uma sadia qualidade de vida, gerando medo (insegurança), insatisfação e desconforto.

A violência é derivada de fenômenos complexos, oriundos de várias causas, e surge como corolário dos fatores sociais, econômicos e culturais. “A esca- lada da violência é compreendida no contexto dos desajustes do modelo econômico e de urbanização desordenado(sic), que promovem profundas desigualdades sociais na socieda- de brasileira e incapacita o Estado para um maior aporte de recursos nas políticas públi- cas”.155

E como podemos entender o que vem a ser violência? Violência, do latim violentia, pode ser entendida como: “1. Intervenção física voluntária de um indiví- duo ou grupo contra outro, com o escopo de torturar, ofender ou destruir (Mario Stoppino). 2. Ato de constranger, física ou moralmente, uma pessoa para obrigá-la a efetuar algo contra sua vontade. 3. Força; emprego ilegal da força. 4. Opressão. 5. Qualidade de violento. 6. Tirania. 7. Ação violenta. 8. Alteração danosa do estado físico da pessoa ou do grupo. 9. Irascibilidade. 10. Coação física ou moral”.156

Em síntese, violência pode ser entendida como qualquer força empre- gada contra a vontade, liberdade ou resistência de pessoa ou coisa. A violência é um comportamento que causa dano à outra pessoa, ser vivo ou objeto. A violência nega a tutela da integridade física e psicológica, alcançando, na maioria das vezes, a negativa da própria vida.

155 IV Conferência das Cidades – As Diversas Formas de Superação da Violência. Relatório do Grupo Temático

“A Cidade e a Saúde Pública”. Relatores: Fernando Cartaxo e Tarsila Crusius. Publicações, Secretaria de Saúde do Governo.

Concluindo, a violência apresenta-se quando ocorre a ruptura de nor- mas legais, morais ou sociais estabelecidas a esse respeito.

A violência urbana é uma expressão que designa o fenômeno social de comportamento deliberadamente transgressor e agressivo ocorrido em função do convívio urbano. Assim, ela é determinada por valores sociais, culturais, econômi- cos, políticos e morais de uma sociedade.

Melhor explicando, a violência urbana tem maior incidência nos países onde funcionam mal os mecanismos de controle social, político e jurídico. Infeliz- mente, tal situação também ocorre no Brasil, onde as instituições são frágeis, e existe profunda desigualdade econômica e social. Assim, não se pode olvidar que a realidade do cotidiano das grandes cidades é marcada pela violência.

Para exemplificar podemos dizer que São Paulo já há algum tempo carrega o rótulo de “cidade desumana”, em face de suas contradições e desigualda- des. É por isso que esse rótulo já virou lugar comum nos discursos de vários especi- alistas, especialmente na atual conjuntura. “O discurso, variando em função da tônica de quem o pronuncia, fala da falta do verde, da poluição, das favelas ou casas de periferia, da delinqüência, da carência no campo da saúde, saneamento básico e transportes, das condi- ções de trabalho e remuneração, enfim, de um conjunto interligado de processos que de- termina a assim chamada ‘qualidade de vida da população’”.157

Na comunidade internacional de direitos humanos, a violência é com- preendida como todas as violações dos direitos civis (vida, propriedade, liberdade de ir e vir, de consciência e de culto); políticos (direito de votar e ser votado, ter participação política); sociais (habitação, saúde, educação, segurança); econômicos (emprego e salá- rio) e culturais (direito de manter e manifestar sua própria cultura).

Ora, não funcionando os mecanismos de controle social, político e jurí- dico, há uma ruptura constante das normas jurídicas e desrespeito à própria noção de cidadania.

Porém, a violência urbana não compreende apenas os crimes, mas tudo aquilo que provoca efeito sobre as pessoas e as regras de convívio na cidade. Assim não se pode ignorar, v.g., que acidentes de trabalho, trânsito, saúde, desnu- trição e a miséria vitimam um número muito grande de habitantes da cidade.

A violência urbana interfere no corpo social, prejudica a qualidade das relações sociais e corrói a qualidade de vida das pessoas. A pobreza, a desigualda- de social, o baixo acesso popular à justiça não são problemas exclusivos dos gran- des centros, atingindo também, comunidades menores.

Contudo, a violência urbana pode ser evitada através de políticas efici- entes de segurança pública e social que reduzam a vulnerabilidade dos moradores das periferias, em especial a infância e a juventude.

Essa tarefa pertence ao Poder Público principalmente, mas, com a total participação da sociedade civil organizada, a fim de que, o direito à qualidade de vida possa ser exercitado em sua plenitude.

A segurança dos cidadãos está entre as garantias vitais do homem na cidade. “La inseguridad no es mera intranquilidad, es una desgraciada realidad; de allí la prioridad de que el municipio sea protagonista en el cumplimiento de este deber cívico contra todo acto de amenaza o acción violenta, con repercusión en la vida ciudadana, en la tranquilidad pública, en el buen orden en la calle o en la vida diária”.158

A história é cíclica. Se no passado a ausência de segurança gerou a construção de muralhas ao redor das cidades, protegendo-a de ataques inimigos e criando uma sensação de segurança em seu interior, a realidade atual não é muito diferenciada.

157 Lúcio Kowarick e Clara Ant, Violência: Reflexões Sobre a Banalidade do Cotidiano em São Paulo, In Deba-

tes Urbanos 2 – Violência e Cidade, pp. 32/33.

158 Roberto Dromi, Ciudad y Municipio, p. 102. “Convengamos que la seguridad ciudadana no se reduce solo a

O aumento das cidades e por conseqüência de sua população, na mai- oria oriundas do êxodo rural, e a impossibilidade de se ofertar emprego, acesso aos serviços públicos essenciais e principalmente moradia, altera o panorama de vida na cidade, onde a violência e outras formas de degradação tornam-se expressivas.

Em decorrência desses fatores surgem os loteamentos fechados, onde as pessoas de maior poder aquisitivo buscam segurança.

Os loteamentos fechados obstaculizam o acesso aos espaços, o direito de locomoção garantido na Constituição (ir e vir livremente, parar e estacionar), sem contar que podem limitar outros direitos fundamentais individuais como o direito à intimidade (a lei não pode obrigar uma pessoa a se identificar para um particular, ou infor- mar o seu itinerário e destino), o direito à igualdade (onde todos são iguais perante a lei), o direito social ao lazer (utilização de áreas públicas como praças, áreas verdes e áreas de recreio), dentre outros.159

Porém, essa é uma outra questão, pois a maioria da população não tem acesso a essa forma de moradia mais privilegiada pela segurança e outras be- nesses.

A qualidade de vida como direito fundamental que é, derivado do direito à vida em uma terceira acepção, também possui como objetivo a busca da seguran- ça e que possui o status de direito individual.

José Afonso da Silva, ao cuidar do tema, assim se pronuncia: “E o caput do art. 5º fala em inviolabilidade do direito ... à segurança, o que, no entanto, não impede seja ele considerado um conjunto de garantias, natureza que, aliás, se acha ínsita no termo

segurança. Efetivamente esse conjunto de direitos aparelha situações, proibições, limitações

e procedimentos destinados a assegurar o exercício e o gozo de algum direito individual

macetas, las veredas, los animales, los postes de luz no se conviertan en una amenaza para su vida. De esto deben ocuparse los responsables del gobierno municipal”.

159 Liliana Allodi Rossit, Das Cidades Fortificadas aos Loteamentos Fechados, In A Cidade e seu Estatuto, p.

78, apud José Carlos de Freitas, O Estatuto da Cidade e o Equilíbrio no Espaço Urbano. In nota de rodapé n° 72.

fundamental (intimidade, liberdade pessoal ou a incolumidade física ou moral) (grifado no texto).160

Segundo Liliana Allodi Rossit, “a moradia, por exemplo, é um problema trazido pela expansão e pela rápida urbanização, o crescimento excessivo somado à condi- ção econômica levou ao surgimento de duas ‘espécies’ de cidade: a regular – com edifica- ções projetadas de acordo com os regulamentos e capazes de utilizar os equipamentos pú- blicos – e a irregular – que não está em condições de se servir dos planos urbanísticos e dos serviços públicos 161 – e se organiza por sua própria conta, por meio de ocupação de

terrenos sem título, com a edificação irregular de moradias, com critérios distintos dos que vigem para o restante da cidade”.162

Com um crescimento em escala maior da parte irregular da cidade, contrastando com as melhores condições ofertadas na parte regular, aumenta o quadro das desigualdades sociais e da discriminação. Tal gera sensação de insegu- rança, e a violência se reverbera na parte dos excluídos, e passa a dirigir seus alvos para os centros regulares.

A violência faz aflorar uma nova maneira de se avaliar a utilização dos espaços públicos, obrigando a Administração a tomar medidas de segurança e limi- tadores de acesso, bem como estipular horários de utilização pela população. Po- rém, a ausência de equipamentos públicos, em especial as áreas de lazer, esportes e aqueles que estimulam o convívio social, ou a sua limitação de uso pela comuni- dade, assumem especial relevância como um dos fatores que fomentam a violência, em especial nas regiões de periferia.

Maria Garcia, ao discorrer sobre o espaço público, afirma que eles são

“essenciais para a vida pública do indivíduo como cidadão – isto é, participante da cives, cidade são as praças, os parques, os logradouros de encontro pela identificação de co- partícipes de uma área de vida comum” (grifado no texto). E alerta a autora: “Esses locais, no entanto, vêm escasseando e se deteriorando, vedando-se à ação comunitária – e, so- bretudo, à manifestação pública dos representantes governamentais, na forma apropriada

160 José Afonso da Silva, Curso de Direito Constitucional Positivo, p. 382.

161 Um exemplo clássico que envolve a segurança e propicia a violência nas cidades, v.g. é a falta de colocação

de guias, sarjetas e iluminação que refletem diretamente na segurança dos pedestres.

162 Liliana Allodi Rossit, Das Cidades Fortificadas aos Loteamentos Fechados, In A Cidade e seu Estatuto, p.

da ágora, no que se exclui a possibilidade de ouvir e ser ouvido, de ambos os lados, povo e governo”.163

Ora, com a escassez dos espaços públicos, compromete-se o lazer, o convívio entre as pessoas e até o próprio exercício da cidadania, impedindo de certa forma, reivindicações em face do direito à qualidade de vida.

Outro fator que merece destaque diz respeito à criação de “espaço pú- blico morto”, cujo escopo é só para a passagem, impedindo a permanência e outras atividades.164 O declínio do espaço público empurra o homem para a privacidade e para o isolamento, sentencia a autora.

Essa imposição ao homem de empurrá-lo para o espaço e isolamento, trazem nefastos efeitos. Zenaide B. R. Soares apresenta interessante exposição so- bre individualismo e violência:

“Uma das características da vida em São Paulo é vivermos isolados; é comum a pessoa morar em um lugar e não conhecer seus vizinhos. O isolamento é estimulado por vários fatores como: a individualização do consumo pela sociedade, a competi- ção social, econômica e profissional entre as pessoas e até o tipo de espaço arqui- tetônico que é veiculado pela publicidade. O professor Navarro explica que esse indi- vidualismo é tão forte que se expressa de forma brutal dentro de nossas próprias ca- sas, sem que tenhamos consciência do que está acontecendo. Como se dá? For- mamos dentro das cápsulas em que vivemos outras miniclausuras, representadas pelos dormitórios ou suítes. A família se subdivide, cada pessoa em sua célula, sozi- nho, com sua televisão; às vezes, todos assistindo ao mesmo programa. (...) ‘Não se-

ria mais interessante que convivessem?’. Indaga o professor. ‘Será que uma Arqui- tetura menos compartimentada, que dê prioridade a amplos espaços de múltiplos usos, em que os espaços individuais sejam o mínimo possível, não ajudaria a huma- nizar as pessoas estimulando o convívio?’. ‘Falamos muito em violência e não nos damos conta de que ela está nas pessoas comuns’ – diz o professor Navarro. ‘Não adianta ficar procurando monstros. A hostilidade está em todos nós, que desapren- demos o convívio em grupo, vemos os outros como inimigos, não nos esforçamos em respeitar pontos de vista diferentes’. ‘A cidade oferece a possibilidade de convívio

163 Maria Garcia, A Cidade e o Estado. Políticas Públicas e o Espaço Urbano, In A Cidade e seu Estatuto, p. 49. 164 Maria Garcia, A Cidade e o Estado. Políticas Públicas e o Espaço Urbano, In A Cidade e seu Estatuto, pp.

entre as pessoas, é daí que vêm as idéias. A evolução cultural da humanidade é fruto da comparação entre vários modos de ver a realidade, é importante trocar experiên- cias de vida com as outras pessoas’. (...) E onde está a violência que oprime o ser

humano? Nas menores e quase imperceptíveis coisas. Por exemplo, na ausência de sol, de convívio nos parques, nas ruas e espaços livres” (grifado no texto).165

E o fato não ocorre somente nos espaços e praças públicas. Antiga- mente as ruas também eram locais de convivência, conforme já visto nas cidades antigas. Encontros, trocas, jogos, brincadeiras, festas e até política, tinham ali o seu lugar comum. Atualmente, as vias representam tão somente vias de passagem. E quem passa não é mais o simples pedestre, o amigo, o vizinho, o conhecido, mas sim o estranho, o inimigo, o intruso. As ruas refletem quadros de guerra, que esti- mulam as hostilidades.

A relação existente entre violência e falta de espaços e equipamentos públicos é uma realidade. E que não se alegue que a pobreza é o fato gerador da criminalidade e da violência. “Alexandre Sheinkman, professor de economia da Universi- dade de Chicago, analisando centenas de cidades estadunidenses, comparando vários indi- cadores sociais (renda, desemprego, etc.) com os índices de violência, concluiu que não havia qualquer relação entre renda e crime”.166

Se assim fosse, outras regiões do Brasil, massacradas pela pobreza como v.g., os Estados do Nordeste, apresentariam números de violência iguais ou superiores aos das grandes metrópoles. “Embora não se possa estabelecer uma neces- sária interdependência entre renda e crime, é certo que o segundo decorre, quase sempre, da baixa renda (pobreza)”.167

Já a violência urbana tem como uma de suas causas o próprio espaço urbano. A periferia, desprovida que é da maioria dos serviços e equipamentos públi- cos essenciais (onde o Poder Público é mais ausente), e também de espaços públicos em suas várias finalidades, é campo fértil para a violência.

165 Zenaide B.R. Soares, Arquitetura e Urbanismo: A busca de qualidade de vida nas cidades. Os Encapsulados

e sua identificação com a cidade. Publicado no Jornal da Universidade Ibirapuera – número 33 – São Paulo, julho/setembro de 1988, p. 3.

166 José Roberto Marques, Meio Ambiente Urbano, p. 175, apud Scarlato; Pontin. O ambiente urbano, p. 66. 167 José Roberto Marques, Meio Ambiente Urbano, p. 175.

Nessas regiões a população não tem acesso a serviços públicos bási- cos como o saneamento e fornecimento de água potável. “Na periferia não existem, em regra, áreas de lazer. Coincidência ou não, os cinco bairros da cidade de São Paulo que registram maior número de infratores internados na Febem têm carência de praças e áreas públicas de lazer”. E continua o autor: “Esses bairros têm como característica o alto nível de desemprego e a quase inexistência de áreas de lazer, destacando-se a atuação mais marcante da criminalidade em relação à do Poder Público”.168

O V. Acórdão do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, do qual foi relator o Des. Ênio Santarelli Zuliani, decretou: “É que todo o agrupamento depende de espaços livres para praças, empreendimentos de recreação, do lazer e dos esportes, uma necessidade para aproximar as pessoas, parte da política contra o ócio e a desespe- rança que revoltam e encaminham os deserdados da fortuna para a violência”.169

As áreas centrais das cidades sempre foram pontos atrativos para a população, oferecendo várias oportunidades. Eram também espaços de convivência. Pouco a pouco, a situação se inverte e a qualidade de vida passa a existir somente nos bairros afastados e protegidos e “com maior espaço”, bairros quase que exclusi- vamente residenciais.

Em 1991, surge na Capital de São Paulo, visando a valorização de sua área central, o Movimento “Viva o Centro”, que em síntese dispunha que “as pessoas vivendo em bairros afastados enfrentam problemas de trânsito, perdem muito tempo até chegarem aos seus locais de trabalho e o que ganharam em espaço, perderam em stress e cansaço”.170

Assim, é possível concluir que a ausência de espaços públicos, equi- pamentos de lazer, recreação, integração social, além dos serviços públicos essen- ciais, atuam como fatores geradores da violência urbana, que, se entendida en-

168 José Roberto Marques, Meio Ambiente Urbano, p. 176.

169 José Roberto Marques, Meio Ambiente Urbano, p. 176, In Apelação Cível nº 88.831.4/0, j. 28.1.2000. 170 Zenaide B.R. Soares, Arquitetura e Urbanismo: A busca de qualidade de vida nas cidades. Os Encapsulados

e sua identificação com a cidade. Publicado no Jornal da Universidade Ibirapuera – número 33 – São Paulo, julho/setembro de 1988, p. 3.

quanto processo que direta ou indiretamente causa sérios danos às pessoas, irá comprometer temporária ou definitivamente suas vidas.

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