Importante é estabelecer um conceito de cidade, embora essa não seja uma das tarefas mais fáceis, pois nem todo núcleo habitacional pode receber o título de urbano, segundo José Afonso da Silva.
E quais seriam os requisitos necessários para que um centro habitacio- nal possa ser conceituado como urbano?
Um centro somente poderá ser conceituado como urbano se preencher no mínimo os seguintes requisitos: “1) densidade demográfica específica; 2) profissões urbanas como comércio e manufaturas, com suficiente diversificação; 3) economia urbana permanente, com relações especiais como o meio rural; 4) existência de camada urbana com produção, consumo e direitos próprios”. Assim, não basta só um aglomerado de casas para se ter um centro urbano.144
No mesmo sentido, José Roberto Marques destaca os ensinamentos de Carstens, Fleith, Gonçalves e Sant’anna que “advertem que as cidades não se limi- tam a um aglomerado de pessoas e construções em um mesmo espaço. As imagens, se- gundo eles, que ocorrem quando se pensa na idéia de cidade, ‘revelam também outros as- pectos, como comportamento cultural, formas de ocupação do espaço, sistemas de produ- ção, conflitos sociais etc.’ “.145
As cidades refletem a cultura de seu povo e por isso passam por constantes transformações, destinando-se à satisfação das necessidades primordi- ais (biológicas e psicológicas) de seus habitantes. Um exemplo da influência cultural do povo na ocupação das cidades é “a imigração, que faz com que os povos que se diri- gem a uma nova região não se acomodem diante do que encontram. Nesse novo espaço simulam condições da terra de origem”.146
Por outro lado, os conceitos demográficos (quantitativo) e econômicos
(satisfação para a demanda diária e produção para colocá-la no mercado) não servem para definir as cidades brasileiras. São conceitos jurídico-políticos, “que se aproximam da concepção das cidades como conjunto de sistemas”. Assim, o centro urbano no Brasil só alcança o status de cidade quando o seu território se transforma em Município.147
É por isso que José Roberto Marques afirma que Cidade e Município não podem ser entendidos como termos sinônimos. “Município é a cidade à qual se
144 José Afonso da Silva, Direito Urbanístico Brasileiro, pp. 18/19. Vide ainda sobre o tema, outras considera-
ções do autor na mesma obra, pp. 19/20.
145 José Roberto Marques, Meio Ambiente Urbano, p. 88.
146 José Roberto Marques, Meio Ambiente Urbano, p. 89: “Exemplos são o Bairro da Liberdade, na cidade de
São Paulo, com características japonesas marcantes, e a região de Registro (SP), com grande concentração de orientais, que influenciaram os costumes locais, desde a alimentação até o sepultamento”.
reconheceu autonomia administrativa e legislativa e se deferiu governo próprio, com mem- bros do Executivo e Legislativo eleitos por seus habitantes, na forma da lei. A partir de en- tão, representará uma pessoa jurídica de direito público interno”.148
Após essas considerações, José Afonso da Silva apresenta um con- ceito de cidade: “Cidade, no Brasil, é um núcleo urbano qualificado por um conjunto de sistemas político-administrativo, econômico não agrícola, familiar e simbólico como sede do governo municipal, qualquer que seja sua população. A característica marcante da cidade, no Brasil, consiste no fato de ser um núcleo urbano, sede do governo municipal” (grifado no texto).149
E conclui:
“Do ponto de vista urbanístico, um centro populacional assume característica de ci- dade quando possui dois elementos essenciais: a) as unidades edilícias, ou seja, o conjunto de edificações em que os membros da coletividade moram ou desenvolvem suas atividades produtivas, comerciais, industriais ou intelectuais; b) os equipamen-
tos públicos, ou seja, os bens públicos e sociais criados para servir às unidades edilí-
cias e destinados à satisfação das necessidades de que os habitantes não podem prover-se diretamente e por sua própria conta (estradas, ruas, praças, parques, jar- dins, canalização subterrânea, escolas, igrejas, hospitais, mercados, praças de es- porte, etc.)” (grifado no texto).150
Porém, sob um outro aspecto:
“Socialmente falando, a cidade é um modo de vida (...) Agora surge a pergunta: até onde o modo de vida urbano é limitado à sua população?” (DAVIS, 1962, p. 41, v. II). As pesquisas para uma resposta a esta questão levaram os sociólogos a descobrir as características da relação íntima que existe entre a estrutura física e a social da cidade; trata-se, não de uma correspondência recíproca, mas de uma relação de causa e efeito. Segundo a maioria dos técnicos, dos políticos e do povo em geral, o aumento da população de uma cidade é um bem, pois desse aumento decorre o pro- gresso, a expansão, a concentração de capitais, o consumo cada vez maior. Que isto
147 José Afonso da Silva, Direito Urbanístico Brasileiro, p. 20. 148 José Roberto Marques, Meio Ambiente Urbano, p. 95. 149 José Afonso da Silva, Direito Urbanístico Brasileiro, p. 20.
seja uma realidade, ninguém ignora, mas que se transforma num bem social, os fatos da vida urbana atual têm provado o contrário, pois nas grandes cidades onde se en- contra a massa humana, a cidade de grande população, a vida humana é a mais precária”.151
A assertiva é verdadeira. Com o crescimento desmesurado da popula- ção, é impossível ofertar uma qualidade de vida aceitável, o que leva à deterioração da própria vida em todas as suas facetas.
A organização física e administrativa das cidades, via de regra, não se encontra preparada para receber esse aumento populacional, e por conseqüência, deparam-se com a ausência de melhorias e serviços públicos essenciais que pos- sam resultar em um razoável modo de vida com qualidade.
A situação se agrava ainda mais nas periferias, pois nelas é que se encontram os maiores problemas da cidade.
“A periferia, entendida como o subúrbio paupérrimo, é fruto de um crescimento de- sordenado, seja considerada a origem dele, sejam considerados o seu desenvolvi- mento e evolução. Observa-se que o crescimento desordenado das cidades tem sido mais rápido do que a capacidade das autoridades para contê-lo, o que se agrava di- ante da insuficiente iniciativa para contorná-lo, para resolver os problemas anteriores. (...) A especulação imobiliária, traço marcante no processo de ocupação do solo, tem contribuído para a depauperação dessas áreas, na medida em que dificulta o acesso dos menos favorecidos ao solo, que, diante da necessidade, constroem habitações em áreas proibidas e perigosas (encostas dos morros e margem dos rios)”.152
Os instrumentos destinados aos serviços públicos não atendem a essa capacidade de aumento não planejado, em especial na periferia. Param nas áreas centrais ou nobres, privando os também contribuintes do subúrbio de seus direitos aos serviços essenciais.
150 José Afonso da Silva, Direito Urbanístico Brasileiro, p. 20. 151 Hermes Ferraz, Cidade e Vida, pp. 36/37.
Não existe um sistema de desafogo. Não obstante esse fato vende-se a ilusão de um bom modo de vida na cidade, atraindo cada vez mais para os gran- des centros urbanos uma população maior.
Mas os problemas são graves e vistos a olho nu: falta de calçamento, pavimentação de ruas e saneamento básico, ausência de controle de enchentes ou medidas para se evitar os alagamentos, falta ou insuficiência de serviços de saúde
(acarretando demanda superior à capacidade, em regiões vizinhas que deles dispõem), educação, transporte, coleta de lixo, segurança, ligações clandestinas de energia elétrica e água, etc.
Com a ausência desses serviços essenciais, como se pode falar em qualidade de vida? O direito fundamental à vida e conseqüentemente à sua qualida- de é constantemente desrespeitado e ignorado. Uma cidade não pode ser planejada simplesmente com vista aos números e estatísticas, pois essa visão é meramente quantitativa. Necessário se faz utilizar-se conjuntamente uma lógica social humana;
“enquanto a população cresce em proporção aritmética, exigindo uma tecnologia mais pode- rosa para apoiar suas atividades, o que torna a estrutura física urbana cada vez mais gi- gantesca, a vida urbana se deteriora em proporção geométrica, lançando o homem no re- demoinho das paixões da competição, rompendo, assim, os laços sentimentais entre os se- res humanos”.153
Um crescimento sem um planejamento ordenado (quantitativo e qualitati- vo) resulta no crescimento dos problemas sociais com maior rapidez do que o cres- cimento da população. As pessoas que em seu êxodo buscam a cidade passam a ter necessidades maiores do que aquelas que existiam em suas localidades natu- rais. O crescimento desenfreado da cidade tende a torná-la cada vez mais caótica. Ante esse quadro, o direito a uma sadia qualidade de vida, que é fundamental, dis- tancia-se da realidade e aproxima-se da utopia. “Assim, a cidade criada para suprir ne- cessidades do homem e proporcionar-lhe bem-estar e segurança, acabou revelando-se um importante elemento que contra ele age, deteriorando sua qualidade de vida”.154
153 Hermes Ferraz, Cidade e Vida, p. 38.