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Ao definir quais escolas seriam investigadas, quais tempos e espaços considerados e os sujeitos a serem observados e entrevistados, foram consideradas algumas das indicações de Flick (2009) e de Vianna (2003), em termos de quais escolhas numa pesquisa qualitativa seriam mais adequadas: mais formais, com critérios previamente definidos, ou mais flexíveis, com foco nas necessidades que apareceriam durante a realização da pesquisa?

Os princípios e pressupostos indicados apontam para a segunda alternativa, em termos de uma noção de escolha, na qual, selecionadas as escolas (e os sujeitos que ali vivem) a serem pesquisadas, também leva em conta uma perspectiva de “corpus empírico de uma pesquisa” qualitativa, no “sentido amplo” de amostragem, como indica Pires (1997, p.154-157). O autor discute algumas das “questões teóricas e metodológicas gerais” sobre o tema nas pesquisas quantitativas e nas qualitativas, indicando que “é a relação entre o objeto de estudo e o corpus empírico que conta mais” nas qualitativas. Sendo o objeto deste estudo as atividades e as manifestações relacionadas ao lazer no contexto das escolas consideradas, isso se traduz nas relações sociais protagonizadas pelos sujeitos que ali vivem e constituem o corpus

empírico do estudo: a realidade das escolas e de seus sujeitos.

Outro aspecto, indicado por Poupart (1997, p.267-268), diz respeito à escolha do local onde pesquisar, sendo que isso “depende de considerações teóricas, sociais e práticas”. É o lugar e não um determinado caso que deverá ser escolhido e obter acesso a ele não é tão simples, nem garantia de se encontrar o que se quer pesquisar em termos de dados e informações que interessam ao pesquisador e se manifestam no contexto social a ser estudado. As dificuldades passam, por exemplo, pelas desconfianças e pela incompreensão dos sujeitos quanto ao que significa a pesquisa no contexto escolar. Pode ser que isso esteja relacionado às afirmações de Pfaff (2010, p.260) de que “a escola em geral e o professor em particular se encontram no foco da crítica pública por quase todos os problemas relacionados principalmente aos

jovens” e que essa crítica torna mais difícil o acesso para “a realização de pesquisas em Educação”.15

O que acontece em uma determinada realidade não é o que acontece em outra, dada a dinâmica das relações sociais existentes em cada uma delas. Em função disso, as distinções que se colocam podem ou não indicar determinantes que, se supõe, estariam regendo as relações sociais estudadas naquele contexto. Desse modo, resta saber como se dá essa dinâmica.

O estudo, como indicado anteriormente, foi realizado em escolas de EPT, as quais integram a RFEPT,16 em Belo Horizonte: o Colégio Técnico (COLTEC),

vinculado à Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e os Campi I e II do Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais (CEFET-MG),17 escolas distintas de uma mesma rede. Isso não significa que foram desconsideradas escolas do mesmo tipo, ou semelhantes, da iniciativa privada.

Duas escolas da iniciativa privada e que têm oferta de educação semelhante foram consultadas, também em Belo Horizonte, sobre a possibilidade de autorizar a pesquisa em suas instalações: a Fundação de Educação para o Trabalho de Minas Gerais (UTRAMIG) e a Escola Politécnica de Minas Gerais (POLIMIG). Foram feitos contatos com algumas das coordenações e diretorias dessas escolas durante os meses de março e abril de 2011, retomados novamente em janeiro e fevereiro de 2012, por

15 Pfaff (2010) vai tratar da “etnografia em contextos escolares” e, em uma das sessões, da “etnografia como método de coleta de dados”, este caráter, o que mais me interessa aqui. Considero que este estudo, em parte, aproxima-se de várias das características de um estudo etnográfico, de fato, mas não chega a ser um estudo, essencialmente, desse tipo.

16 Embora, na composição da Rede Federal, os Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia (IFs) – com seus diversos campi – sejam a maioria das instituições, ao se optar por pesquisar o COLTEC e o CEFET-MG, foram levadas em conta as condições possíveis para a realização da pesquisa e o fato de serem escolas cujas características não diferem, significativamente, das dos IFs, criados, de fato, em 2008, pela Lei 11.892, o que pode ser conferido em Brasil (2008b).

17 No que diz respeito ao CEFET-MG, o estudo seria realizado apenas no Campus I, sede administrativa e onde funciona a maioria dos cursos ofertados pela Instituição. Ocorre que, no contexto multicampi da escola, várias das aulas e outras atividades pedagógicas das turmas que acompanhei mais de perto eram cursadas também no seu Campus II, distante 3 km e onde está instalada a maioria dos laboratórios utilizados por aquelas turmas. Além desses dois campi, a instituição conta ainda com o Campus VI, os três em Belo Horizonte. Há outro em Contagem, sendo quatro os campi localizados na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH). Outros sete campi atendem às cidades mineiras de Curvelo, Nepomuceno, Varginha, Araxá, Divinópolis, Leopoldina, e Timóteo; nas quatro últimas, também com oferta de ensino de graduação em Engenharia de Automação Industrial, Mecatrônica e de Computação, respectivamente. Outro campus, localizado em Itabirito, a 58 km de Belo Horizonte, funciona em Termo de Cooperação Técnica com o Município, sendo do CEFET-MG a responsabilidade pela orientação dos aspectos didático-pedagógicos e pela certificação dos profissionais.

meio eletrônico e telefônico, no entanto, não foi possível realizar a pesquisa em suas instalações.

O CEFET-MG e o COLTEC foram, então, escolhidos, levando-se em conta as

questões colocadas até aqui em relação às inquietações com o tema da pesquisa, traduzidas nos questionamentos gerados pela sua problematização, uma vez que o pesquisador é professor em uma delas e é a partir da sua prática vivida que surgem essas inquietações. Outro aspecto levado em conta deu-se também em função de que essas questões, uma vez problematizadas, conduziriam ao estudo das respostas em escolas de EPT e, ainda que fosse possível um estudo de caso considerando apenas uma delas, a realidade investigada, provavelmente, não expressaria a riqueza encontrada, ao se ampliar o olhar e evidenciar o campo das relações sociais nas duas escolas. Esse cenário seria ainda mais instigante, caso o acesso a uma das escolas da iniciativa privada fosse possível. Isso pode ser percebido quando voltamos o olhar para o contexto da cidade de Belo Horizonte.

Oliveira, N. (2010, p.82) indica que a cidade tem 67 escolas com oferta de educação profissional, sendo 63 delas privadas e quatro públicas, dentre estas, o COLTEC e o CEFET-MG, além do Centro Estadual de Ensino Técnico (CET) e da Escola Estadual Técnico Industrial Professor Fontes (EETIPF).18 Esse universo de 63 escolas da iniciativa privada, destaca a autora, é formado, “significativamente por instituições de pequeno porte voltadas, principalmente, para cursos na área de saúde (enfermagem, prótese odontológica, radiologia e diagnóstico por imagem, segurança no trabalho)”. Nove dessas escolas pertencem a organizações do chamado “sistema s”,19 nas áreas de formação gerencial, comércio, transporte e indústria, sendo seis as

18 Na EETIPF, localizada no bairro Horto, região leste de Belo Horizonte, pelo que se pode inferir ao acessar a página eletrônica, são oferecidos cursos técnicos nas modalidades concomitante e subsequente na áreas de Eletrônica, Informática, Mecânica e Segurança do Trabalho. O CET está localizado no interior de um grande complexo pertencente à Polícia Militar de Minas Gerais, no bairro Prado, localizado na região oeste de Belo Horizonte, mesmo local onde estão também: uma unidade do Colégio Tiradentes, a sede social do Clube dos Oficiais e o Regimento de Cavalaria da Polícia Militar de Minas Gerais. Outras informações disponíveis em: <http://www.escolafontes.com.br/> e em <http://www.escol.as/cet-centro-estadual-de-ensino-tecnico-31334243#>. Acesso em jan.2013. 19 Integram o chamado “sistema s”, 11 entidades cujos recursos são encargos compulsórios de 2,5% sobre a folha salarial das empresas, que são repassados aos contribuintes. Mantêm-se, portanto, com dinheiro público. Além da Diretoria de Portos e Costas do Ministério da Marinha (DPC), do Fundo Aeroviário (vinculado ao Ministério da Aeronáutica) e do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), fazem parte do “sistema s” outras organizações criadas pelo setor produtivo e geridas pela iniciativa privada: o SENAI, que se dedica à educação para o trabalho e à prestação de serviços para as indústrias: e articula-se ao Serviço Social da Indústria (SESI), que cuida da educação regular, da saúde e do lazer do trabalhador da indústria; o Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (SENAC) [criado em 1946], que trata da educação profissional para trabalhadores do setor

escolas relacionadas a esta última e, juntamente com o Colégio Técnico de Eletrônica de Minas Gerais (COTEMIG), a POLIMIG, e a UTRAMIG, são as nove que mais se

aproximam das modalidades de ensino ofertadas no COLTEC e no CEFET-MG.

O COTEMIG foi fundado em 1971, com oferta de Curso Técnico de Eletrônica, e, de acordo com Oliveira, N. (2010, p.85), isso ocorreu a partir da iniciativa de professores e alunos da então Escola Técnica Federal de Minas Gerais (ETFMG), que tinham a intenção de criar uma escola especializada em tecnologia e sem o que julgavam como “gigantismo estatal” da ETFMG. De acordo com informações na página eletrônica da instituição,20 é denominado Grupo COTEMIG – Colégio e

Faculdade – e, desde 1986, passou a ter duas unidades e a oferecer o curso de Processamento de Dados, voltando o foco para o “ensino da tecnologia” com atuação na área de informática. Atualmente, oferece os cursos de Técnico em Informática com Ensino Médio e Técnico em Informática Pós-Médio e, com a criação da Faculdade COTEMIG, desde 1999, passou a oferecer, em nível de graduação, o

bacharelado em Sistema da Informação e o curso de Tecnólogo em Análise e Desenvolvimento de Sistemas.

A POLIMIG também foi criada na década de 1970 e já tinha uma trajetória de oferta de educação ensino fundamental como Escola Infantil Chapeuzinho Vermelho, depois, denominada Ginásio Comercial Jorge Abrão, em 1968. A denominação atual é de 1975, quando houve a “autorização de funcionamento de habilitações profissionais no ensino médio – nível técnico e auxiliares” –, sendo que, atualmente, oferece ensino fundamental (1ª à 9ª série), ensino médio profissionalizante (integrado ao Curso Técnico de Informática) e cursos técnicos concomitantes e/ou subsequentes de comércio e serviços e está articulado ao Serviço Social do Comércio (SESC), que cuida da promoção da qualidade de vida dos trabalhadores no mesmo setor; o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (SENAR) [criado em 1991], que atua na educação profissional para trabalhadores rurais; o Serviço Nacional de Aprendizagem em Transportes (SENAT) [criado em 1993], que tem atuação na educação profissional para trabalhadores do setor de transportes e está articulado ao Serviço Social de Transportes (SEST), que atua na promoção da qualidade de vida dos trabalhadores no mesmo setor; o Serviço Brasileiro de Apoio às Pequenas e Médias Empresas (SEBRAE) [criado em 1972], que implementa e promove programas de apoio ao desenvolvimento de pequenas e médias empresas; e o Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo (SESCOOP) [criado em 1998] que atua no aprimoramento e desenvolvimento das cooperativas e capacitação profissional dos cooperados para exercerem funções técnicas e administrativas. A maioria dessas entidades é de direito privado, apesar de serem mantidas com verba pública, e suas ações articulam-se a partir dos interesses das empresas que as controlam, ainda que prestem serviços a uma parcela significativa da população. Para outras informações, dentre essas, cf. Brasil (2000, p.8), além dos seguintes endereços eletrônicos: <http://www.brasil.gov.br/empreendedor/ capacitacao/sistema-s> e <http://www.senai.br/portal/br/ParaVoce/faq.aspx>. Acessos em jan./jun.2013.

nas áreas de Eletrônica, Eletrotécnica, Manutenção de Aeronaves, Mecânica, Informática, Mecatrônica e Química. Além desses cursos, oferece ainda cursos nas áreas de Mineração, Metalurgia, Segurança do Trabalho e Contabilidade e conta com quatro unidades, sendo uma delas exclusivamente destinada ao funcionamento de laboratórios e oficinas.21

A UTRAMIG, por sua vez, embora seja uma fundação “de direito público, sem fins lucrativos” e “vinculada ao Governo do Estado de Minas Gerais por meio da Secretaria do Estado de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior” (SECTES), é, contraditoriamente, uma instituição considerada da iniciativa privada, já que todos os seus cursos – técnicos de nível médio, de especialização, de licenciatura e mesmo os de qualificação – são cursos pagos. A contradição se esclarece ao se observar em o que consta do seu “objetivo operacional” e quais princípios são assumidos pela instituição, conforme indicado na sua página eletrônica e em UTRAMIG (2007), este,

um apanhado de excertos de documentos relatando o que parecem ter sido os princípios de gestão estratégica da instituição no período 2007-2013. Neles, e “em sintonia com as diretrizes do Governo do Estado”, registra-se que a atual equipe de liderança da Fundação implementou o Choque de Gestão [...] com o objetivo de aprimorar a qualidade do serviço público estadual”, numa “busca contínua da excelência” (UTRAMIG, 2007, p.107, grifos meus).22 Parece clara a perspectiva conservadora, neoliberal, implementada com as políticas propostas pelo Governo de Minas e a qual a UTRAMIG incorpora, institucionalmente. Há unidades também nas

cidades de Lagoa Santa, Nova Lima e Vespasiano, localizadas na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH). Em Belo Horizonte, o que nos interessa mapear aqui, são oferecidos cursos técnicos nas modalidades concomitante e/ou subsequente em: Análises Clínicas, Eletrônica, Informática, Enfermagem, Meio Ambiente, Segurança do Trabalho, Telecomunicação, além de um “pós-técnico” de Especialização em Instrumentação Cirúrgica para técnicos em Enfermagem. Além

21 Os quatro últimos cursos listados resultam da incorporação de duas outras instituições: a antiga Escola Técnica Vital Brasil, ocorrida em 1990, e o Colégio Renascença, ocorrida em 1992, transformadas em duas das unidades da escola, juntamente com o Centro Tecnológico POLIMIG (CTP), onde se localizam os laboratórios e oficinas. Todas as informações e outras disponíveis a partir de: <http://www.polimig. com.br/>. Acesso em jan.2013.

22 A paginação considerada aqui leva em conta o documento eletrônico, tal como se apresenta na página da instituição. As informações contidas no parágrafo podem ser encontradas neste documento e também disponíveis a partir dos links de navegação à direita, na página da instituição, em <http://www.utramig.mg.gov.br/index.php>, particularmente a partir de “Institucional” e de “Serviços”.

desses, são oferecidos, sempre aos sábados: cursos de especialização em nível de pós-graduação em Atividades de Inteligência, em Comunicação Digital e em Gestão Pública; de Licenciatura Plena em Matemática, Química, Física e Biologia; de qualificação num leque variado de 19 áreas, com predominância das áreas de serviços e administração e gestão.

É nesse contexto que estão inseridos o COLTEC e o CEFET-MG, e, embora se possa dizer que as escolas que oferecem formação profissional em Belo Horizonte são, na sua maioria, escolas particulares, é possível também afirmar que elas não caminham na direção da oferta de um ensino voltado para uma formação humana integral e integrada, numa perspectiva que envolva as várias facetas da existência humana. Considera-se isso, levando em conta, por exemplo, que a oferta de cursos nessas escolas se dá apenas nas modalidades concomitante e subsequente, as quais incluem apenas elementos da formação técnica mais específica. Além disso, pesa para elas o fato de que há um compromisso com o lucro e o trato da educação como um serviço a ser prestado, em vez de um processo a ser construído.

Caminhar nessa direção envolve as questões tratadas aqui e conduzem o

movimento recíproco de correlações em espiral, como ensina Kosik (2002), no

sentido de superar aquelas perspectivas mais conservadoras, que recusam a ideia de uma educação profissional e tecnológica tal, como indicado, anteriormente, e a ser discutido no capítulo seguinte. Ainda que seja colocada na perspectiva do devir, da materialidade de fato por se fazer, esse tipo de educação encontra essa condição exatamente por isso: por se concretizar apenas em processo, no qual se constrói em movimento dinâmico e, portanto, em constante mudança.

Definidas as escolas a serem investigadas, os métodos de apreensão e de coleta de dados e de informações utilizados de forma articulada e complementar para a apreensão da realidade que se apresentava, foram a observação direta, a entrevista, o registro de notas em diário de campo e o registro de imagens fotográficas colhidas no período, os quais serão abordados, de forma específica, mais adiante. Antes, importa tratar dos sujeitos da pesquisa.