2.3. Depresyon
2.3.2. Depresyonu Açıklayan Kuramlar
2.3.2.1. Bilişsel Davranışçı Kuram
A categoria incompletude cultural é explicada pelo sociólogo português Boaventura de Sousa Santos (2008) quando, ao tratar da temática da globalização/globalizações, faz referência às dimensões desse processo, realçando a dimensão cultural, uma problemática recorrente na sociedade contemporânea. Chama-se a atenção que o teórico em tela realiza a crítica dos processos de globalização, a partir de uma abordagem que considera a condição de passado colonial dos países do Sul global, como é caso do Brasil.
Segundo Santos (2008), as globalizações hegemônicas são localismos globalizados, ou seja, quando um dado fenômeno ou entidade local consegue difundir-se globalmente e, ao fazê-lo, adquire a capacidade de designar um fenômeno ou entidade rival como local. Ocorrem, dessa forma, trocas desiguais. O globalismo hegemônico oprime grande parte das populações dos países subdesenvolvidos. Segundo Santos (2008), aqueles localizados no Sul global e que foram colônias da Europa. Em uma relação de oprimidos e opressores, atitudes de preconceito, discriminação, miséria, subempregos, desrespeito à vida são corriqueiras e passam a ser vistas como normais. A opressão desumanizadora faz com que os oprimidos, cedo ou tarde, passem a lutar contra essa opressão, constituindo uma globalização contra- hegemônica.
Aos oprimidos, cabe então a função de libertar a si próprios dos opressores. Para estes últimos, é importante se manterem no poder à custa da debilidade dos oprimidos. Mostram-se falsamente generosos, a fim de manterem um sistema de injustiça social.
A percepção da incompletude cultural é uma forma do oprimido libertar-se do opressor. Nesse sentido, para se opor aos localismos globalizados, analisados por Santos (2008) é necessária uma hermenêutica diatópica. Esta se baseia na ideia de que todas as culturas são incompletas, pois os topoi10 de uma dada cultura, por mais fortes que sejam, são
incompletos, tão incompletos quanto à cultura a que pertencem. “A incompletude de uma cultura só é avaliável a partir dos topoi de outra cultura” (SANTOS, 2008, p. 86). A incompletude de uma determinada cultura pode ser enriquecida pelo diálogo e confronto com outra cultura.
Nesse sentido, no diálogo, há trocas entre as culturas, onde tanto uma quanto a outra se pronunciam, se complementam e aumentam as possibilidades de termos um mundo melhor. Assim,
Admitir a relatividade das culturas não implica adoptar sem mais o relativismo como atitude filosófica. Implica, sim, conceber o universalismo como uma particularidade ocidental cuja supremacia como ideia não reside em si mesma, mas antes na supremacia dos interesses que a sustentam. A hermenêutica diatópica pressupõe, pelo contrário, o que designo por universalismo negativo, a ideia de incompletude cultural (SANTOS, 2008, p. 126).
10 Em relação aos topoi, Boaventura de Sousa Santos argumenta que os topoi ou loci são “lugares comuns”
pontos de vista amplamente aceites, de conteúdo muito aberto, inacabado ou flexível, e facilmente adaptável a diferentes contextos de argumentação (SANTOS, 2011, p. 99).
O objetivo da hermenêutica diatópica é maximizar a consciência da incompletude recíproca das culturas, estabelecendo relações de diálogo com um pé em uma cultura e outro pé noutra. Daí o seu caráter diatópico.
Nesse contexto, a ideia e a sensação de carência e da incompletude criam a motivação para o trabalho de tradução, o qual, para ter êxito, depende do cruzamento de motivações convergentes originadas em diferentes culturas. Segundo Santos (2008), a tradução é o procedimento que permite criar inteligibilidade recíproca entre as experiências do mundo, tanto as disponíveis como as possíveis, reveladas pela sociologia das ausências e a sociologia das emergências. Nesse contexto, o trabalho de tradução tanto pode ocorrer entre saberes hegemônicos e saberes não hegemônicos (cientista indiano e cientista europeu) como pode ocorrer entre diferentes saberes não hegemônicos (índios, negros, mulheres).
Desse modo, um fator que deve ser salientado é sobre a questão do que traduzir. Para definir, é necessário conhecer o conceito de zonas de contato. Compreendidas como campos sociais onde diferentes mundos; da vida normativos, práticas e conhecimentos se encontram, chocam, interagem. Nesse contexto, “as duas zonas de contato da modernidade ocidental são a zona epistemológica, onde se confrontam a ciência moderna e os saberes leigos e a zona colonial, onde se confrontam o colonizador e o colonizado” (SANTOS, 2008, p. 130). Esses conceitos são importantes, porque tanto a zona epistemológica, com o privilégio dado à ciência em detrimento a outros conhecimentos, quanto a zona colonial são imprescindíveis para a compreensão da constituição da sociedade atual.
Quando se pensa em preconceito racial na sociedade brasileira requer relacioná-lo à forma como o país foi colonizado e à forte presença desses indicadores no cotidiano e, principalmente, na educação. Nesse contexto, é importante destacar que as zonas de contato interculturais assentam na ideia de que cabe a cada prática cultural decidir quais aspectos devem ser selecionados para o confronto intercultural. Cada sociedade controla o que deve ou não ser objeto de tradução, logo não há uma liberdade de traduzir tudo o que quiser de determinada sociedade.
As versões mais inclusivas, aquelas que contêm um círculo mais amplo de reciprocidade, são as que geram as zonas de conctato mais promissoras, as mais adequadas para aprofundar o trabalho de tradução e a hermenêutica diatópica (SANTOS, 2008, p. 131).
O trabalho de tradução vem sempre das sensações de experiências de carência, de inconformismo e até necessidade. É o resultado de uma convergência e deve primar sempre pela horizontalidade entre diferentes saberes e práticas.
Os saberes e as práticas só existem na medida em que são usados ou exercidos por grupos sociais. Por isso, o trabalho de tradução é sempre realizado entre representantes desses grupos sociais. O trabalho de tradução, como trabalho argumentativo, exige capacidade intelectual (SANTOS, 2008, p. 133).
A sensação de incompletude vai gerar essa necessidade de querer saber mais, de buscar conhecer, de procurar respostas em outras culturas para aquilo que não conseguiu resposta na sua. Para Freire (1981), diferente dos outros animais que estão no mundo e o vivem por meio da associação de imagens sensoriais, os seres humanos são “seres históricos, inseridos no tempo e não imersos nele, os seres humanos se movem no mundo, capazes de optar, de decidir, de valorar” (FREIRE, 1981, p. 35). Por isso, para realizar o trabalho de tradução é preciso que os diferentes movimentos sociais lutem pela construção de uma globalização contra-hegemônica.
A importância do trabalho de tradução deve-se ao fato de que muitos problemas que a modernidade ocidental se propôs a resolver continuam presentes na sociedade. Eles demonstram, claramente, que a globalização ratifica questões presentes na sociedade como preconceito racial, diversas formas de discriminação, desvalorização da vida humana, consumo excessivo como forma de preenchimento do vazio deixado pela sociedade capitalista. Esse trabalho é uma tentativa, uma possibilidade de deixar o mundo melhor.
O trabalho de tradução feito com base na sociologia das ausências e na sociologia das emergências é um trabalho de imaginação epistemológica e de imaginação democrática com o objetivo de construir novas e plurais concepções de emancipação social sobre as ruínas da emancipação social automática do projeto moderno (SANTOS, 2008, p. 134).
O fortalecimento dos saberes e práticas criadas pelo trabalho de tradução os tornam alternativas credíveis à globalização neoliberal. As trocas, os conhecimentos, a diversificação de experiências levam à tensão, ao inconformismo. É preciso “assumir-se como ser social e histórico, como ser pensante, comunicante, transformador, criador, realizador de sonhos, capaz de ter raiva, porque capaz de amar” (FREIRE, 1996, p. 46). Um ser humano transformador, sonhador e realizador, que demonstra sua raiva por meio do inconformismo,
precisa ser motivador para uma luta contra todas as injustiças promovidas pela globalização neoliberal. Desse modo: “o novo inconformismo é o que resulta da verificação de que hoje e não amanhã seria possível viver em um mundo melhor” (SANTOS, 2008, p. 135). A ideia é viver o presente, criar um mundo melhor, a partir do prolongamento do presente e não como a lógica da globalização, faz suprimir o presente em prol do futuro. Um futuro tão distante que para muitos nem chega, ou ainda pior de tanto se preocupar com o futuro, não vivem nem o presente e nem o futuro.
Nesse contexto, é importante pensar na pluralidade de modos de conhecimentos, pois ela proporciona resultados mais profícuos, principalmente, nas áreas mais periféricas do sistema mundial moderno, onde os saberes hegemônicos e não hegemônicos, são mais desiguais.
Não por acaso, é nessas áreas que os saberes não hegemônicos e os seus titulares mais necessidades têm de fundar sua resistência em processos de auto-conhecimento que mobilizam o contexto social, cultural e histórico mais amplo que explica a desigualdade, ao mesmo tempo que gera energias de resistência contra ela (SANTOS, 2008, p. 152-153).
Assim procede ao interculturalismo emancipatório reconhecendo a presença da pluralidade de conhecimentos e de concepções distintas sobre a dignidade humana e sobre o mundo. Para Santos (2008), os vários conhecimentos se cruzam, é preciso construir um modo dialógico de engajamento permanente entre eles, pois o que há é uma constelação de conhecimentos. Como forma de se opor aos particularismos da ciência moderna, o autor em tela propõe a ecologia de saberes. “A ecologia de saberes é um conjunto de epistemologias que partem da possibilidade da diversidade e da globalização contra-hegemônicas e pretendem contribuir para as credibilizar e fortalecer” (SANTOS, 2008, p. 154). O conhecimento científico, na sociedade moderna, é distribuído de forma desigual, os grupos sociais que têm acesso a esse conhecimento possuem uma possibilidade maior de intervenção no real.
Nesse sentido, o trabalho de tradução que subjaz às ecologias de saberes constitui-se em um longo percurso a percorrer que envolve inter-conhecimento e autoconhecimento com o objetivo de aumentar o conhecimento recíproco entre os movimentos e organizações e tornar possíveis coligações entre eles e ações conjuntas. As ecologias de saberes não vão emergir sozinhas e pelo fato de se confrontarem com a monocultura do saber científico, “essas ecologias só poderão desenvolver-se através de uma sociologia das ausências que torne
presentes e credíveis os saberes suprimidos, marginalizados e desacreditados” (SANTOS, 2008, p. 167). Esses saberes, nessa lógica, poderão ser produzidos em Universidades e Centros de Pesquisas, pois a sociologia das ausências não é uma sociologia convencional e estes lugares, só muito excepcionalmente, promoverão diálogos permanentes entre diferentes tipos de saberes.
Nessa perspectiva, foi proposta, no terceiro Fórum Social Mundial, a criação de uma Universidade Popular dos Movimentos Sociais (UPMS), cujo objetivo é proporcionar a autoeducação dos ativistas e dirigentes dos movimentos sociais, assim como dos cientistas sociais, dos investigadores e artistas empenhados na transformação progressista.
O objetivo principal da UPMS é contribuir para aprofundar o inter- conhecimento no interior da globalização contra-hegemônica mediante a criação de uma rede de interacções orientadas para promover o conhecimento e a valorização crítica da enorme diversidade dos saberes e práticas protagonizados pelos diferentes movimentos e organizações (SANTOS, 2008, p. 169).
A proposta da UPMS não visa substituir os movimentos existentes com os mesmos objetivos. A inovação consiste no caráter inter-temático, promovendo articulações e reflexões entre movimentos feministas, operários, indígenas e outros coletivos populares. Assim, “trata- se de criar no mundo do activismo progressista uma consciência internacionalista de tipo novo: inter-temática, intercultural, radicalmente democrática” (SANTOS, 2008, p. 169). No contexto atual de construção de uma globalização contra-hegemônica, as teorias existentes não dão conta de uma transformação social emancipatória.
Nessa perspectiva, há um hiato entre teoria e prática, o que acarreta consequências negativas tanto para os movimentos sociais quanto para os centros de pesquisa. A proposta educativa da UPMS pretende contribuir para preencher esse hiato, principalmente, no que se refere à escassez de conhecimentos recíprocos entre movimentos que atuam na mesma área temática, nas mais diversas partes do mundo. Outro fator causador do hiato é a falta de saber partilhado entre movimentos ou organizações. Para preenchê-lo, o trabalho de tradução ajuda a aumentar a inteligibilidade recíproca entre os movimentos, auxiliando na promoção do diálogo entre diferentes culturas, a fim de perceber a incompletude de uma e da outra, para juntas, somarem forças na construção do autoconhecimento e de ações transformadoras.
Portanto, a percepção da incompletude cultural, diretamente relacionada ao trabalho educativo da UPMS, a qual se fundamenta no trabalho de tradução para conduzir a inteligibilidade entre os movimentos que buscam o autoconhecimento, demonstra a real
necessidade que a modernidade, pelo menos a representação dominante desta, nos traz, principalmente, nos países do Sul global, necessidade de somar forças para a construção de uma contra-hegemonia que lute também contra as injustiças sociais tão presentes na globalização neoliberal.