Desde os anos iniciais de seu desenvolvimento teórico, a interação esteve presente no quadro teórico da semiótica greimasiana, mas não com essa denominação64. A interação, no entanto, pode ser observada no nível narrativo, na relação entre destinador e destinatário. Também podemos observar a interação na relação mediada pelo objeto que é disputado pelo sujeito e pelo antissujeito. De certo modo, essas interações estão mais próximas de uma racionalidade que exclui a questão passional com a qual a semiótica vem trabalhando desde a década de 1990.
Parece-nos que Eric Landowski foi o responsável por colocar a interação65 como um dos pontos centrais das reflexões semióticas, a partir de um texto intitulado “Algumas condições semióticas da interação”, publicado em A sociedade refletida (1992). Nesse texto, para contrapor a noção de interação da semiótica com outras teorias, como a pragmática, o autor recorre ao conceito de imanência, tão cara à semiótica greimasiana. Assim, para a semiótica, o contexto (no qual ocorre a interação propriamente dita) não está aquém ou além da linguagem, mas está no cerne da própria. Em outras palavras, o autor (1992: 146-149) defende que o contexto é construído pela linguagem, ao contrário de outras teorias que defendem a existência de um contexto e de uma realidade previamente existentes.
Landowski propõe novos desenvolvimentos a respeito da interação em outro trabalho: Presenças do Outro (1997). Nesse livro, o autor (1997: 5 et seqs) elabora novas noções de interação a partir do conhecido conceito de junção66. Há, assim, quatro possibilidades de interação inicialmente contempladas: assimilação (conjunção), exclusão (disjunção), admissão (não disjunção) e segregação (não conjunção). Esses quatro conceitos, segundo o
64
Não há nenhum verbete referente a essa noção no primeiro Dicionário de Semiótica (2008). No segundo Dicionário de Semiótica (sem tradução para o português) (1986), há duas definições de interação escritas por Gracia Latella e por Peter Stockinger.
65 Essa interação, em um primeiro momento, será analisada entre os actantes, mas posteriormente
tentaremos também verificar a interação entre o enunciador e o enunciatário.
66 A junção é a relação lógico-narrativa que determina o modo de relacionamento de um sujeito com seu
objeto (conjunção/disjunção) (Barros, 1988: 30). No trabalho de Landowski, a relação não se faz, no entanto, entre um sujeito e um objeto, mas entre sujeitos em interação.
autor (1997: 37 et seqs), referem-se às possibilidades de interação de uma identidade em relação a uma alteridade. Mas a alteridade também possui, nesse modelo, suas estratégias de interação com a identidade, que estão igualmente baseadas na noção de junção67: a alteridade que deseja ser assimilada (conjunção), a que deseja ser excluída (disjunção), que quer ser admitida (não disjunção) e a que quer manter-se segregada (não conjunção). Um aspecto interessante desse modelo de interação está na possibilidade de combinação entre os modos de interação da identidade e as estratégias da alteridade. Com isso, abre-se uma gama relativamente ampla de combinações que podem estar em conformidade ou em confronto, como, por exemplo, uma identidade assimiladora (conjunção) que se confronta com uma alteridade que deseja manter-se segregada (não conjunção) ou uma identidade exclusivista que encara uma alteridade que deseja a assimilação, entre outras possibilidades. Essas combinações resultam em um total de 16 conformações ou confrontações possíveis de diferentes tipos de interação e, consequentemente, de surgimento de distintas significações (1997: 50-52)68.
Em outro livro, Passions sans nom (2004)69, Landowski propõe o conceito de união para abordar novas formas de interação que englobam a dimensão sensível da interação. É por meio da noção de união que o mesmo autor, em seu último trabalho, Les interactions risquées70 (Landowski, 2006), apresenta uma nova tipologia das interações baseada na união e na junção: ajustamento, acidente, programação e manipulação. Em Les interactions risquées (2006), Landowski investiga a noção de risco (entendida pelo autor como uma multiplicidade de pequenas incertezas) em cada um dos quatro novos regimes de interação que ele propõe. O autor postula uma espécie de gradação do risco, uma vez que ele estaria sempre presente nos regimes de interação de qualquer tipo.
67 Landowski utiliza os seguintes nomes para definir essas estratégias da alteridade: esnobe (conjunção),
dândi (disjunção), camaleão (não disjunção) e urso (não conjunção). Contudo, não os utilizamos como conceitos por causa da ambivalência ou motivação semântica gerada por esses nomes.
68 Em nossa dissertação de mestrado, examinamos a intolerância no modelo de interação proposto por
Landowski em Presenças do Outro (1997). Não descartamos o uso desse modelo em nossas análises, mas não o descrevemos neste capítulo para não nos repetirmos.
69 Parte do desenvolvimento dessa seção foi publicada na revista Estudos Semióticos (Bueno et al., 2010). 70 O livro Les interactions risquées (2006) pode ser entendido como um prolongamento e um refinamento
O ajustamento é definido pelo autor como uma construção recíproca entre sujeitos ou entre sujeitos e objetos, ou seja, como parceiros na interação, na qual as potencialidades da alteridade poderiam ser atualizadas por meio desse ajustamento (Landowski, 2004: 29). Nesse regime, seria possível postular certa autonomia dos actantes (um sujeito ou um objeto) em relação ao actante-principal, fonte de referência de um determinado programa narrativo. Dessa forma, os actantes se ajustariam entre si e desse ajustamento surgiriam novos sentidos, sentidos não esperados, mas fruídos por ambos os actantes em interação por meio da união.
Para Landowski (2004: 62), o conceito de união serviria, assim, para explicar os estados de alma e os estados somáticos dos sujeitos em interação, que não é mais respaldada por uma lógica juntiva, mediada por objetos, mas por uma interação face-a-face, corpo-a-corpo, ou seja, uma copresença mútua. Essa copresença, entre sujeitos ou entre sujeito e objeto, envolveria, então, não mais um conhecer, um julgar, um decidir ou um avaliar a distância, mas uma relação da ordem do sensível, ou seja, mais receptiva às qualidades sensíveis do objeto e dos sujeitos em interação.
O ajustamento pode ser entendido como a interação atravessada pelo sensível e pela estesia, independente do estado juntivo. Ao ajustar-se um ao outro, condição necessária para a construção de outro sentido, ambos constituiriam, por algum tempo, um objeto complexo novo, uma totalidade inédita. Resumindo, o ajustamento é um modo de interação e de construção do sentido condicionado pela copresença de actantes e pela possibilidade de relação sensível entre eles (Landowski, 2004: 63).
A alteridade pode ser entendida da seguinte forma no regime de ajustamento: apesar desse outro (sujeito ou objeto) não possuir o mesmo estatuto da identidade, ele não é também uma pura passividade, pois ele possui certa autonomia. Mas essa autonomia só adquire determinado valor por meio de um fazer em ato da identidade. O exemplo apresentado por Landowski para o regime de ajustamento é a dança. Na dança, ambos os actantes constroem um discurso único no momento em que o parceiro vai se ajustando ao movimento do outro, conforme ela evolui.
Em relação ao acidente, Landowski (2006: 62) o define como uma interação na qual se embaralham todos os valores do sujeito em interação. A
primeira definição de acidente está relacionada a um acontecimento extraordinário ou inesperado. Esse tipo de definição está próximo dos acidentes naturais, como enchentes, tornados, terremotos etc. Mas há uma segunda acepção de acidente, em que o embaralhamento modal é produzido pela figura de um destinador, que não propõe mais um contrato, nem exige nada em troca. Esse destinador estaria mais próximo do destinador-julgador, mas sem se comunicar com os sujeitos e restringindo-se a julgá-los de modo positivo ou negativo sem justificar suas decisões (Landowski, 2006: 69). O acidente ocorre, então, quando surge uma decisão não prevista que influencia o programa narrativo de certos sujeitos. Esse é o caso, por exemplo, de uma ditadura que elimina todas as liberdades civis e políticas da sociedade que “governa”. A organização modal desse sujeito-sociedade é abalada por essa decisão, e o sujeito perde a sua direcionalidade no programa narrativo em que estava localizado. Dessa forma, o acidente rompe com a continuidade para instaurar outra possibilidade de sentidos para esses sujeitos, que nada podem fazer.
Podemos compreender o regime de programação como uma operação regida pela regularidade. Essa regularidade, por conseguinte, pode ser entendida de duas maneiras: a primeira é a programação definida tradicionalmente pela semiótica. Essa é a programação do sujeito em sua relação com o objeto, tal como é visto nos “contos populares”: se uma personagem é um pescador, ela apenas pescará e nada mais; da mesma forma, se a personagem é um rei, ela irá apenas governar seu reino e assim por diante (Landowski, 2006: 17). A segunda forma de se entender a regularidade da programação está no sujeito em interação social. O sujeito, para Landowski, pode ser programado a partir do que ele chama de “constrangimento social”. Haveria, assim, a partir de normas sociais instituídas, toda uma programação quase tão rígida quanto à primeira. Essa rigidez produzida pelo constrangimento social pode ser, então, entendida como um /fazer-ser/ restrito que levaria o sujeito a um comportamento social padronizado (Landowski, 2006: 19). O exemplo dado por Landowski é o de uma festa de gala: o sujeito não poderia se vestir de outra maneira que não fosse com um smoking, a não ser que desejasse passar vergonha. Esse mesmo sujeito também não poderia se comportar da maneira que lhe aprouvesse, a não ser
que quisesse se destacar e chamar a atenção dos demais participantes da festa. O que há em comum nas duas formas de programação propostas é a noção de papel temático, ou seja, a presença de um único traço semântico que define e restringe o /fazer/ de um determinado actante.
Para definir o regime de manipulação, Landowski retoma o princípio de intencionalidade. De um lado, há as estratégias de tentação e de intimidação que tiram sua eficácia manipulatória do valor positivo ou negativo do objeto e, no limite, pode ser considerado como um acordo entre destinador e destinatário por meio do contrato (em que se prevê o prêmio ou a punição). Nessas duas estratégias de manipulação, a intencionalidade é de ordem objetiva. De outro lado, as estratégias da sedução e da provocação envolvem a valorização ou a desvalorização da imagem do destinatário. Nesse caso, a intencionalidade é subjetiva (Landowski, 2006: 20-23).
A manipulação envolve, ainda, a competência modal do sujeito do fazer, o que não é garantia de qualquer tipo de sucesso na interação entre actantes (até porque o destinatário pode recusar a manipulação). Há, então, certa imprevisibilidade na manipulação, porque ela envolve sistemas de valores, interpretação, preferências e gostos distintos entre o destinador e o destinatário (Landowski, 2006: 24).
Segundo o autor, há duas possibilidades de resolução dessa incerteza na manipulação: a primeira, a de transformar o destinatário em um não sujeito (o caso da tentação e da intimidação) que o conduziria a certa programação de seu fazer, despertando nesse destinatário um /querer-fazer/ para ser recompensado ou um /dever-fazer/ por medo. A outra solução é o de tentar entrar na “consciência” do destinatário. Nesse momento, o destinador começaria a se colocar no lugar do outro. Para tentar se colocar no lugar do outro (do destinatário), no regime de manipulação, o destinador precisa também localizar os “pontos sensíveis” do destinatário para poder de fato manipulá-lo, tanto por provocação quanto por sedução. Há, assim, também a necessidade de uma interpretação71 do destinador nesse processo de manipulação (Landowski, 2006: 26-28).
71 Entendemos que o deslocamento da interpretação, do destinador julgador para o destinador
Após essa rápida apresentação da proposta de Landowski, podemos nos debruçar mais detidamente na configuração da interação no discurso intolerante e tolerante. Entendemos que, tal como definida, é pouco provável que haja alguma intolerância no regime de ajustamento. No entanto, podemos pensar nas consequências desse regime de interação para, principalmente, a alteridade. Uma interação no regime do ajustamento implica uma troca igualitária de sentidos e de sensações. O problema pode existir depois dessa interação: uma das partes, no caso a alteridade, pode sentir-se prejudicada após essa interação se a relação igualitária não se mantiver depois. Se, por exemplo, houver um retorno para o regime de manipulação ou para o regime da programação, a relação entre identidade e alteridade pode voltar a ser hierarquizada e desigual.
Podemos associar a programação ao conceito de estereótipo, entendido como uma restrição da imagem de um determinado ator do discurso. A estereotipia pode ser entendida como um fazer negativo quando aplicado na construção da imagem de um determinado grupo social, principalmente quando essa imagem é contrária aos valores considerados positivos pela sociedade.
Em relação ao regime do acidente, ele ocorreria quando uma decisão é tomada por uma instância superior (no caso, o destinador) sem que se considere o percurso do sujeito em um determinado programa narrativo, fazendo-o sair desse programa por causa do embaralhamento de seus valores e de sua organização modal. Outra possibilidade do regime do acidente ocorre quando dois programas narrativos se “chocam” e o sujeito mais fraco vê também suas modalidades serem embaralhadas.
No caso da manipulação, não há necessidade de estabelecermos hipóteses, uma vez que Barros (2007a; 2008) apresenta não apenas o papel da manipulação no discurso intolerante, mas todo o percurso narrativo, com repercussões também na dimensão passional. No nível narrativo, o exame do discurso intolerante recai em duas etapas: a primeira, na sanção aplicada pelo destinador-julgador72 a um sujeito que não cumpriu de modo satisfatório
72 Baseados na definição de Paul Ricoeur, podemos dizer que a intolerância é uma dupla sanção:
cognitiva e pragmática. Cognitiva porque não se reconhece o outro como capaz de um determinado fazer, ser ou crer. Pragmática porque o destinador-julgador é dotado de um poder forte o suficiente para excluir, segregar ou ainda tentar assimilar o outro, mas sempre tendo em mente que o outro não cumpriu seu contrato e, por isso, não tem condições de se manter dentro do contrato fiduciário. Como ele não é
determinado contrato social estipulado anteriormente (como o de falar bem, o de se comportar de maneira apropriada, o de relegar seus valores de origem para ser integrado à sociedade). Em termos de narratividade, esses sujeitos não entram em conjunção com o objeto de valor proposto pelo contrato, porque eles não querem, ou não podem, ou não sabem como entrar em conjunção. Consequentemente, por se manterem em disjunção com o objeto de valor, esses sujeitos são reconhecidos como não cumpridores do contrato e, por isso, devem ser punidos. O outro momento está relacionado a essa punição: o discurso intolerante envolve paixões malevolentes (como o ódio, a raiva, o rancor, a inveja) o que leva a um querer fazer mal a outro sujeito por ele não querer, não poder ou não saber cumprir o contrato proposto. Esse fazer mal ao outro é a própria intolerância, enquanto a etapa em que surgem as paixões