2.2. Bilgilendirme Tasarımı
2.2.6. Bilgilendirme Tasarımının İlkeleri
TÍTULO IX INUMAÇÕES
TÍTULO X DISPOSIÇÕES GERAIS
A partir da observação dos itens eleitos na sua elaboração, consonantes com o quanto estatuído pelo artigo 66 da Lei de 1º de outubro de 1828, é extraído o espaço de ação detido pela Câmara de Santos (Imagem 6) para reger a vida na cidade. Além disso, não se pode perder de vista que Santos passava por mudanças significativas, haja vista sua franca expansão propiciada pelo comércio de café, seu porto e sua nova estrada de ferro, padecendo, ainda, com as precárias condições sanitárias.
Logo nos primeiros artigos, assentados junto ao Título I, depreende-se que à Câmara incumbia a fiscalização das obras e construções havidas na área do
Município, aliás, conforme as prescrições contidas no Plano de Edificação que ela própria elaborara e que seguia ao final do referido Código de Posturas.
Havia um número significativo de diretrizes, tais como alinhamento e nivelamento das construções, linha do arruamento, aterramento do terreno, calçamento, obrigação de murar terrenos, além da ocupação do espaço público. Era, ainda, exigida licença prévia, da lavra do Presidente da Câmara, para todas as construções ou reformas, revelando-se um inquestionável poder atinente à formação e desenvolvimento da própria cidade.
Junto ao Título II, havia a regulação relativa às atividades do matadouro, de açougues, mercados e curraes, direcionada, evidentemente, à salubridade do município.
Imperioso, à época, como estampado no artigo 19, a visita diária do médico da Câmara ao matadouro. Estabelecidos, também, os horários nos quais as carnes deveriam ser transportadas para os açougues, aos quais, ainda, impunha-se estabelecer em locais “[...] dos mais salubres e suficientemente arejado, fechadas as portas com grades de ferro, de fórma a ser perfeita a circulação de ar no interior” (art. 23), “[...] além de “[...] todo revestido de azulejos [...] ” (art. 25, caput), onde “ ...as carnes estarão nos açougues pendentes de ganchos de ferro e cobertos com panos brancos que serão conservados sempre limpos. O pessoal destes estabelecimentos será obrigado a trazer sempre, quando em serviço, aventaes brancos e limpos ...” (art. 24).
Conta Rosemberg que um comerciante da cidade, de nome Andreoti Ranzini, intentava comercializar carne oriunda de São Paulo, sem a devida licença municipal, sendo, por conseguinte, alvo da ação do procurador do município, José Rubim Cezar. Ao fim, ao cidadão renitente, foi imposta uma multa. De se notar, além da preocupação com a saúde pública, o grau de organização da cidade relevado pelo inconformismo do advogado, transcrito pelo autor em comento:
[...] A comarca de Santos não pretende impedir o commercio livre, mas entende que está nas linhas do seo dever impedir que um dos principais gêneros do commercio publico que está sujeito a sua fiscalização; tanto que dispões d’um edifício para abaterem-se as rezes e confeccionou um regulamento para o matadouro que está debaixo da inspeção do médico da comarca, ficasse a mercê da
exploração particular que poderia com o intuito de lucro sacrificar a saúde pública. (Rubim Cezar, apud ROSEMBERG, 2006, p. 81)
O comércio e a indústria também se submetiam à normativa da Câmara. Várias eram as condições estabelecidas para tais atividades.
Era imprescindível, como deduzido no artigo 30, a obtenção de Alvará de Licença, da lavra do Presidente da Câmara. Além do horário em que se permitia seu funcionamento42, no perímetro da cidade fora proibida a instalação de qualquer forma de estabelecimento que exalasse vapores nocivos e tornassem impuras as águas potáveis ou que causasse incômodo à vizinhança. Também fora objeto de regulação o uso de equipamentos que utilizassem fogo – “[...] estejam em lugares espaçosos e fora da contiguidade de outros prédios [...]” (§ 3º do art. 31), além da colocação dos tubos das chaminés “ [...] com altura superior ao mais alto andar das casas que lhe ficarem próximas [...]” (§ 4º do art. 31). Por sua vez, obrigatória a aferição de pesos e medidas uma vez por ano (art. 36). Necessária, ainda, a matrícula de cocheiros (e seus veículos), o registro dos documentos de médicos, dentistas e parteiras.
No entanto, há dois exemplos máximos do poder de controle social da Câmara. O primeiro era a obrigação de manutenção, em hotéis e hospedarias, de um livro que, numerado e rubricado pelo Presidente da Câmara, deveriam ser inscritos os nomes, a naturalidade, a procedência e idade provável dos hóspedes e que seria, diariamente, apresentado à autoridade policial, ao passo que o outro era a obrigação detida pelos proprietários de “[...] oficinas de imprimir, litografar e gravar [...]” de declararem à Câmara a rua e o número do prédio em que estivessem instalados seus estabelecimentos, além do “[...] título da folha e o nome do editor responsável pelas suas publicações.” (art. 40).
Há mais. Questões inerentes à vida citadina também se faziam presentes. O trânsito público, de pessoas, veículos e animais, se revelou uma preocupação, estampada pelo Título IV do vetusto Código de Posturas de Santos, mormente em uma cidade que possuía um grande número de carroças que
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“Artigo 44 – Os estabelecimentos comerciais ou industriais não poderão conservar-se abertos depois do toque de recolher e abrirão depois das 5 horas da manhã. Excetuam-se os hotéis, restaurantes, botequins, bilhares e cafés que poderão estar abertos até meia-noite e as boticas que quando mesmo fechadas são obrigadas a abrir quando nelas se bater...”
transportavam, também, mercadorias para o porto. Sobreleve-se que aos escravos foi direcionado o comando do artigo 6443, que previa a captura daquele que fosse
encontrado na rua após o toque de recolher, sem licença de seu senhor. Tal previsão guarda sintonia, apenas, com a ordem contida no artigo seguinte, de nº 65, elaborado com o fito de obstar o trânsito de animais soltos pela cidade44. No
particular, exemplo da atuação da Câmara, é o aviso estampado no jornal Diário de Santos do dia 3 de abril de 1886:
Fonte: Diário de Santos, 03/04/1886
É certo, porém, que a Câmara se submetia à interferência dos munícipes. Era, pois, uma via de mão dupla, tanto o ente exercia seus poderes por toda a
43“Artigo 64 – Todo o escravo que for encontrado na rua depois do toque de recolher, sem licença do respectivo senhor, será detido até que este o reclame.”
44 “Art. 65 – Todo animal que fôr encontrado a vagar nas ruas da cidade e seus arredores, será recolhido ao deposito publico e o seu dono multado em dez mil réis além da despeza que for feita. Se três dias aunnuniciada a apprehensão não fôr o animal reclamado será vendido em hasta publica effectuada pelo fiscal ou qualquer guarda urbano e o seu produto, deduzida a multa e despezas, será entregue a quem de direito. Ficam compreendidos nas disposições deste artigo os animais que forem entregues no deposito por aquelles que os prenderem em seus terrenos.”
cidade, como se sujeitava à sua população. Jocosa a nota do dia 13 de abril de 1886, estampada no Diário de Santos45:
Fonte: Diário de Santos, 13/04/1886
A regulamentação da higiene na cidade, alinhavada ao longo do Título V, se deu através da obrigação de os moradores se vacinarem, bem como com o impedimento da existência, dentro de seu perímetro, de enfermarias para o tratamento de doenças contagiosas e a determinação da escolha, pela Câmara, do lugar em que seriam estabelecidos hospitais, enfermarias e casas de saúde. Ademais, a condição dos gêneros alimentícios era fiscalizada, garantindo-se que fossem próprios para o consumo. Aos cortiços se impediu a lotação acima de sua capacidade, obrigando-se-os à caiação nos meses de julho ou dezembro. O escoamento das águas era norma imperativa, quer fossem aquelas próprias ou recebidas em servidão. Corpos sólidos que causassem incômodo ou prejudicassem a saúde não poderiam ser lançados nas ruas, praças, sarjetas, valas ou
encanamentos e o material fecal não poderia ser lançado em canos de drenagem. Também não era permitido ter porcos, matar corvos, manter cães em açougues enquanto ali houvesse carne, a venda de frutas verdes, o banho em fontes públicas, sendo obrigatória a limpeza de testadas, passeios e sarjetas e a caiação ou pintura de casas. Dava-se, ainda, o controle do leite vendido, fosse obstando sua extração de animais doentes, feridos ou magros, fosse estabelecendo a utilização de latas ou vasos de louça para seu acondicionamento ou fiscalizando-se sua pureza. Impedido o uso, pelas casas comerciais, de vasilhames de cobre e outros metais prejudiciais à saúde. O lastro dos navios, sua carga e descarga, deveriam ocorrer de modo e em locais determinados pela Câmara. Entretanto, tais previsões não lograram afastar a insalubridade da cidade.
A segurança física também foi alvo de determinações, junto ao Título VI. A manutenção de grandes quantidades de material inflamável não era permitida, assim como lançar-se busca-pé e tiros de armas de fogo46. A queima de
fogos de artifício e fogueiras dependiam de licença do Presidente da Câmara. A ação em incêndios foi deduzida, incumbindo-se aos responsáveis pelos sinos das igrejas seu toque para o alerta e responsabilizando-se a todos por sua extinção. Previu-se a possibilidade de concessão de licença para a exploração de pedreiras, impondo-se várias obrigações relativas à segurança aos seus concessionários.
Os espetáculos e divertimentos não foram esquecidos.
Logo à entrada do Título VII, no artigo 120, tornou-se imperiosa a obtenção de licença e o pagamento de imposto a todos os espetáculos que gerassem lucro. Proibiu-se a tourada, a exibição de “judas” em sábado (art. 122), o jogo de entrudo (art. 123), as mascaradas (art. 124) e a exposição de animais ferozes (art. 126).
Sabe-se, porém, que não obstante o caráter coercitivo das disposições, havia quem as infringisse. Relata Rosemberg, a partir de processos criminais que examinou, um episódio no qual um cidadão português, de nome Lino José de Mattos, queixou-se contra Bernardo dos Santos Porto, eis que em 7 de março de 1886, dia de entrudo, este lhe teria lançado várias injúrias, em face de sua negativa de ver-se por ele molhado (Cf. ROSEMBERG, 2006, p. 35). Curioso, no particular, é
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Pedro relata a aplicação de multa, pela Câmara, à importadora Wilson, Sons & C., no montante de 30$000, por infração ao artigo 105 do Código de Posturas, em face de irregular armazenamento de carvão de pedra, produto inflamável. (2010, p. 44).
notar que o queixoso possuía a mesma origem da brincadeira praticada durante as “folias do momo”, qual seja, portuguesa:
O jogo do entrudo, de origem portuguesa, era a forma tradicional de se brincar durante estes dias. A brincadeira consistia, basicamente, em deixar molhado o transeunte desavisado. A partir do XIX, faziam- se bolas de cera, recheadas com água-de-cheiro ou qualquer outro líquido, e as pessoas se divertiam jogando, pelas ruas e janelas das casas, estas bolas, chamadas de laranjinhas, que estouravam e deixavam a todos ensopados. (LANNA, 1996, p. 131)
Ocorre, porém, que a prática perdeu prestígio, dando lugar a bailes de carnaval, mais ordeiros e elitizados, a justificar a ação criminal. Lanna acrescenta que em 1880, segundo o jornal Diário de Santos, o entrudo foi “violento e grosseiro” (1996, p. 133).
O Título VIII traz em seu bojo diversas disposições sobre “Costumes, Segurança e Comodidades Públicas”.
Vedados os jogos de azar, permitindo-se casa de bilhar e jogos considerados lícitos, mediante licença e desde que o solicitante firmasse, junto à Polícia, um termo em que se obrigasse a não permitir jogos ilegais. Todos estavam obrigados a se trajar decentemente em locais públicos, inclusive nas praias, sendo proibidos “ [...] proferir palavras desonestas ou injuriosas [...]” e a “ [...] prática de atos ofensivos à moral e bons costumes [...]” (art. 132). Alaridos, gritos e cantos que perturbassem o sossego também não eram permitidos. As edificações também passavam pelo crivo do Código: nelas não se podia nada fixar, inclusive toldos, sem finalidade útil e mediante licença que lhe fosse precedente. Vasos e congêneres que representassem perigo eram obstados, animais bravos não poderiam estar soltos, os corredores de moradias deveriam permanecer iluminados enquanto o portão estivesse aberto, os andaimes deveriam ser iluminados durante a noite. Os mendigos só poderiam esmolar se autorizados pela Polícia e era proibido o ajuntamento ruidoso de pessoas – e escravos (art. 146). Por sua vez, não se poderia vender bebida alcóolica àquele que já estivesse embriagado e a ninguém se permitiu comprar mercadoria a preço ínfimo, que denunciasse sua condição de furtado. A cada jardim público se atribuiu um guarda para zelar por sua conservação.
As inumações mereceram três artigos os quais, alinhados no Título IX, tendiam à garantia de sua ocorrência apenas em lugares previamente estabelecidos e à proibição das dobras dos sinos.
Por fim, as disposições gerais, contidas no Título X, visavam à garantia da eficácia das disposições do Codex, as quais encerravam em si, quase que exclusivamente, penas pecuniárias em caso de infração.
O Código de Posturas é retrato da capacidade legislativa das Câmaras, que era, como já mencionado, ainda dependente do aval da Assembleia Legislativa da Província de São Paulo.
Aquele havido em Santos, em 1883, fruto das tensões, disputas e conflitos da cidade, contém normas relativas à formação da própria urbe, através das previsões destinadas às edificações. Outras questões intrinsicamente ligadas à vida citadina tais como o trânsito, higiene e salubridade de estabelecimentos, organização das atividades comerciais e industriais, além da saúde pública, moral e sossego, foram ali dedilhadas, tudo em conformidade com o estatuído pelos artigos 66 e 71 da Lei de 1º de outubro de 1828.
Reflexo da limitação imposta ao Município, apenas duas referências foram feitas a escravos no Código de Posturas de 1883: ambas articuladas no sentido de cercear seu comportamento e sua ação em sociedade (art. 64 e 146), distantes, pois, de sua almejada libertação. Mas assim não se pode encerrar a questão. Este, particularmente, é um silêncio bastante eloquente.
Barbosa, discorrendo sobre leis imperiais de desescravização, esclarece que as posturas municipais tiveram papel importante junto ao mercado de trabalho que germinava, posto que a elas também eram subsumidos os escravos. Exemplificativamente o autor relata que se exigia dos escravos a exibição de ordem escrita por seus senhores quando atuavam em atividades comerciais, facilitando, assim, a aferição dos fugitivos (Cf. BARBOSA, 2008, p. 131).
Tais modalidades de controle, no entanto, não se vislumbram no diploma santista. Resta claro, assim, que a Câmara local se absteve de exercê-las, certamente porque afinada com a libertação dos escravos e com a ação abolicionista que se desenrolava.
A Câmara47, em um período bastante sensível do movimento
antiescravagista, entre 1883 e 1889, tinha uma composição equilibrada entre liberais, conservadores e republicanos, circunstância que não é bastante à sua qualificação como uma casa vinculada à causa da abolição ou não, eis que a ação libertária também se dava de forma suprapartidária:
O fato da maior parte das associações abolicionistas ter se formado no curso da situação liberal não significava alinhamento entre o movimento e o partido. A relação com o Partido Liberal é fato estampado na proximidade de Patrocínio, Nabuco e Gama, líderes abolicionistas, com políticos liberais; os três entraram na vida pública puxados por essas mãos. Contudo, havia também membros do Partido Conservador no movimento, o caso de Antonio Pinto, de Gusmão Lobo e de Antonio Bento, líder em São Paulo. E porção bem considerável dos abolicionistas não ficava de um lado, nem do outro: eram republicanos. Muitas vezes, os abolicionistas se apresentavam como se compusessem partido autônomo ou movimento suprapartidário, o que era mais o caso. Essa atuação independente se praticou em situações decisivas, com apoio massivo do movimento tanto a governos Liberais – o de Manuel de Souza Dantas (1884-1885) –, quanto a Conservadores – o de João Alfredo (1888) – quando comprometidos com medidas abolicionistas. (Alonso, 2011, p. 15)
Integravam a Câmara santista:
1883 - 1886:
João Octávio Dos Santos Liberal Benedito Narciso do Amparo Sobrinho Conservador
José Antonio Pereira dos Santos Conservador José Proost de Souza Conservador Joaquim Manoel Alves de Lima Republicano Francisco Martins dos Santos Júnior Liberal
Francisco de Paula Ribeiro Republicano Dr. Manoel Maria Tourinho Liberal
Joaquim Xavier Pinheiro Liberal
Suplentes que tomaram assento na Câmara48:
João Nunes de Carvalho Dr. José Lobo Vianna João Xavier da Silveira
José Proost de Souza Joaquim Manoel Alves de Lima Francisco Martins dos Santos Júnior
Francisco de Paula Ribeiro Dr. Manoel Maria Tourinho Joaquim Xavier Pinheiro Balthazar Olynto de Carvalho e Silva
João Maria das Neves Belisário Soares Caiuby
1887-1889:
João da Silva Oliveira Pinto Liberal Félix Bento Vianna Conservador Guilherme José Alves Souto Republicano Américo Martins dos Santos Republicano João Manoel Alfaia Rodrigues Júnior Conservador Lucas Alves Fortunato Conservador Constâncio Vaz Guimarães Conservador
Tito de Souza Rodrigues Liberal Júlio Conceição – presidente em 1889 Conservador
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Suplentes que tomaram assento:
Padre Francisco Gonçalves Barros Republicano José Torres Rossmann n/c Antonio Carlos da Silva Teles Republicano
Constata-se, a partir da análise das escrituras coligidas ao Anexo I que alguns desses vereadores transacionaram escravos.
Benedito Narciso do Amparo Sobrinho, reputado conservador, foi vereador e bastante atuante, envolvido com os assuntos da cidade, como se denota dos extratos das Atas deduzidos no Apêndice, tendo adquirido um escravo (Anexo I).
Félix Bento Vianna, também integrante da Câmara santista e de linhagem conservadora, presidiu a casa no dia 20 de maio de 1886, no qual se celebrou o fim definitivo do trabalho servil, e vendeu 1 escravo e comprou outros 3.
Francisco Martins dos Santos Jr., também vereador, representou sua firma na venda de um escravo.
Não resta dúvida de que era legal a propriedade de escravos, bem como sua venda e compra, além de que não se afigura sequer razoável atestar que o movimento abolicionista foi assimilado de forma unânime. Porém, ainda que dentro desse espectro de possíveis descompassos, é certo que muitos cidadãos foram contrários à escravidão e não enfrentaram a ação direta de opositores.
Exemplo dessa conduta transversa, é o também vereador Joaquim Xavier Pinheiro em duas legislaturas, 1877/1880 e 1883/1886, reputado liberal, mentor da criação do Quilombo do Jabaquara49, fundador da Sociedade Emancipadora 27 de Fevereiro e, controvertidamente, detentor de escravos, tendo sido assim censurado:
49 Santos aponta que, além de Xavier Pinheiro, participaram da reunião em que se criou o Quilombo do Jabaquara: Guilherme Souto Geraldo Leite, Julio Backeuser, Santos Pereira (Garrafão), Ricardo Pinto de Oliveira, Júlio Maurício, Constantino de Mesquita, Joaquim Fernandes Pacheco, Theóphilo de Arruda Mendes, José Ignácio da Glória, Affonso Veridiano, Antonio Augusto Bastos, Luiz de Mattos, dentre outros não listados. (1937, p. 12)
Houve, porem, a lamentar na ultima phase do seu trabalho, o aproveitamento tirado por ele dos numerosos escravos confiados ao sei asylo, empregando-os nos rúdes trabalhos do sitio distante, apenas a troco do esconderijo e comida, nada lhes pagando contra as combinações feitas entre os chefes abolicionistas, naturalmente com o fito de ressarcir-se dos prejuízos verificados com a sua colaboração nas despesas da campanha, como viagens, alimentação dos refugiados de Jabaquára, compra de alforrias, custeio de acções judiciaes e outras de apparecimento constante. (SANTOS, 1937, p. 9)
Xavier Pinheiro era um próspero empresário. Fora dono de uma fábrica de cal, de um trapiche, além de ser acionista da Companhia de Carris de Ferro da cidade, detendo, certamente, muitos interesses relativos à mão-de-obra. Xavier Pinheiro foi, ainda, major, delegado de polícia e, como já mencionado, vereador.
Assim é que se perpassa a criação do Quilombo do Jabaquara, momento em que surge a figura de Quintino de Lacerda, negro liberto por Lacerda Franco. Foi a Quintino que se atribuiu a guarda e a manutenção do quilombo, destino dos fugitivos que chegavam a Santos.
Pereira debruçou-se sobre a vida de Quintino de Lacerda e trouxe à sua dissertação, Uma viagem possível: da escravidão à cidadania. Quintino de Lacerda e as possibilidades de integração dos ex-escravos no Brasil, vários termos de uma ação de interdito possessório proposta em 24 de fevereiro de 1886. Benjamin Fontana, autor da ação, dizia-se proprietário das terras do Jabaquara, onde se instalara o quilombo, e acusava Walter Wright de tê-las invadido, sendo viável a Pereira, a partir dessa documentação, atestar a dinâmica ali existente:
Esse início da contenda judicial entre Fontana e Wright nos dá indicativos valiosos a respeito da ocupação promovida nas terras do Jabaquara. Uma questão está vinculada à exploração dessas terras através da construção das benfeitorias e das plantações listadas. Afinal, quem cuidava das bananeiras, dos pés de cana e dos